Como fazer combinados?

Os combinados regulam desde simples tarefas e rotinas até aspectos mais gerais da boa convivência e educação. Para que se efetivem e funcionem, é importante:

1) Levar em conta a idade e a maturidade da criança. Numa família com mais de uma criança os combinados podem variar conforme a capacidade de cada uma delas. Por exemplo, não dá para querer que o filho de um ano tire o prato da mesa, mas dá para fazer este combinado com o filho que tem cinco anos. Conforme a criança cresce, alguns acordos precisam ser revistos para que não percam o sentido e para que a criança possa, cada vez mais, aumentar sua autonomia e independência.

2) Construir o combinado junto com a criança – a construção conjunta assegura a compreensão e favorece a implicação de todos os envolvidos ao que foi acordado. A criança precisa sentir o peso dos acordos feitos com os pais, aprender a ceder e a cumprir o que foi dito. Além disso, os acordos, para serem consistentes, devem ter o mesmo peso e medida para todos os envolvidos.

3) Explicar com clareza o que pode acontecer caso o combinado não seja cumprido. Em caso de não cumprimento, a criança precisa poder arcar com as consequências.

Todo combinado envolve o entendimento e o aprendizado do que é respeito, bem como a aquisição de responsabilidade, elementos fundamentais para a conquista da autonomia e independência da criança. Diferentemente da regra, que é inflexível, os combinados têm maior maleabilidade, podendo atender à necessidade do momento. Neste sentido, os combinados valem para a aquisição de valor, conquista e merecimento. Servem como reforço. Logo, não existe acordo para criança ir escovar os dentes, tomar banho e outras atividades semelhantes. Isto é regra. O combinado, nestes casos, gira em torno de esperar a criança terminar a brincadeira para, em seguida, dormir; ou, primeiro tomar banho primeiro e depois jantar. Estes exemplos simples elucidam a diferença entre regra e acordo.

Para que os combinados possam realmente valer, alguns cuidados precisam ser tomados:

1) Manter a coerência de atitudes – os acordos devem valer para pais e filhos. Em momento algum os pais podem desrespeitar ou mudar os parâmetros acordados para sua conveniência. Lembre-se: a criança aprende pelos exemplos que têm em casa!

2) Garantir satisfação entre todos os envolvidos – o combinado tem ideia de ganha-ganha e não pode, em hipótese alguma, ser usado para medir força ou chantagear.

3) Ser coerente com os valores, crenças e normas de toda a família – vemos muito pai quebrando acordo feito entre mãe e filhos e vice-versa; pai que dá doce antes da refeição sendo que a mãe tinha combinado com a criança que doce seria somente após a refeição ou a mãe que libera o vídeo game quando o pai disse que o filho já jogou demais naquele dia. Se os acordos não forem violados perderão o sentido e cairão no descrédito da criança, tornando mais difícil os próximos acordos; a criança passará a jogar com os pais, usando um ou outro para romper ou burlar os acordos anteriormente estabelecidos.

4) Na presença de um terceiro (amigos, irmãos, avós, tios, cuidadores) é importante fazer valer os acordos estabelecidos sem a presença dele. No caso de acordos estabelecidos entre seu filho e outra pessoa, mesmo que não concorde com o combinado, não o anule na frente da criança. Deixe para rever o acordo depois, sem a presença do terceiro. 

5) Dar novas chances para a criança cumprir um acordo – se um combinado não funcionou na primeira vez, ele precisa ser revisto. Nestes casos, converse com a criança, avalie juntos o que não deu certo e refaçam o acordo.

 

 

Construindo vínculos afetivos para o futuro

O vínculo entre pais e filhos é a base de todas as relações estabelecidas assim como norteador de todas as atitudes da criança e do adolescente diante do mundo e dos relacionamentos sociais criados por eles.

É nos primeiros meses de vida, a partir da interação entre mãe-bebê, que se constrói o vínculo fundamental para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo da criança.

Cabe ao adulto estimular o sentimento de confiança na criança. Como? No início, quando o bebê sente fome e é alimentado, quando sente desconforto e é acalmado, quando sente frio e é aquecido e aconchegado. Nestes momentos o bebê, aos poucos, vai aprendendo a suportar a frustração ao esperar a mãe satisfazer suas necessidades. Ao ser saciado e acalentado, a criança aprende a esperar e acreditar no outro; vai entrando em contato com a realidade e aprendendo a viver e se defender. Além disso, experimenta a possibilidade de amar e ser amado – rico motor da vida. Aqui, a atitude emocional da mãe orienta o bebê e organiza sua vida psíquica.

É dentro das relações familiares que se estabelece a confiança que irá guiar e cuidar das vivências futuras da criança e do adolescente e que ajudará na superação de todas as adversidades ao longo da vida. Aqui, filhos podem contar com os pais, e sentirem seguros do amor e respeito para com eles, e vice-versa.

Assim, oferecer trocas afetivas autênticas, propicia uma base segura a partir da qual a criança ou o adolescente consegue explorar o mundo de forma a se sentirem física e emocionalmente amparados, confortados diante de uma dificuldade, sofrimento ou ameaça e, encorajados para a superação e absorção de novas possibilidades.

Tudo isso acontece na medida em que pais estão disponíveis para poder acompanhar o filho no dia a dia, em suas necessidades, as quais oscilam e evoluem no percurso para a maturidade e a autonomia.

Oferecer um ambiente seguro para o desenvolvimento das potencialidades inatas da criança, permitindo a ela crescer de forma autêntica e única.

Afinal, ninguém cresce sozinho. Tudo acontece no compartilhar. E os vínculos familiares norteiam todo o desenvolvimento bio, psíquico e social da criança. Pense nisso!

Atividade extraescolar, seu filho precisa?

As atividades extraescolares têm aproveitado, cada vez mais, a brecha deixada pela sobrecarga de tarefa dos pais, escassez de ajuda doméstica e falta de espaço público e segurança (só para citar alguns exemplos) e se transformado num grande negócio. Um negócio que vende a ideia de que a criança precisa descobrir potencialidades, aprimorar habilidades e adquirir conhecimentos para estar mais preparada para enfrentar o mundo competitivo. De fato, a criança precisa de todos estes recursos, e é por isto que estas atividades são tão atraentes. Elas vão ao encontro da demanda de muitos pais que buscam freneticamente suprir as necessidades do filho para que ele seja completo e não fique em desvantagem. Um modelo perfeito nos mundo dos negócios, mas delicado sob o ponto de vista emocional, especialmente no que tange às crianças pequenas, que ainda estão no ensino infantil.

Para não cair nas armadilhas do consumismo, precisamos, em primeiro lugar, lembrar que uma atividade extraescolar não pode, em hipótese alguma, ocupar o lugar da brincadeira e do descanso da criança. Através do brincar a criança expressa sua criatividade, elabora conflitos e aprende a lidar com a realidade (interna e externa). Através do brincar a criança descobre potencialidades, aprimora habilidades e adquire conhecimentos, o que nem sempre é conseguido através das atividades extraescolares, mesmo que elas tenham caráter lúdico ou recreativo. Isto porque nem sempre a atividade consegue ir ao encontro da necessidade que a criança tem naquele momento.

Quando o tempo para brincar e descansar estão garantidos, pode-se pensar em uma (ou mais) atividade extraescolar. Contudo, antes de agendá-la, é fundamental avaliar de quem é a necessidade daquela atividade, dos pais ou da criança? Não é incomum os pais quererem propiciar ao filho a oportunidade de fazer uma atividade que não puderam fazer na infância, ou uma que gostavam tanto (e às vezes ainda gostam), que imaginam que seu filho irá gostar também. Há situações em que um determinado hobby é “tradição de família” e os pais sentem-se na obrigação ou têm o desejo de perpetuá-lo (como a prática de algum esporte ou instrumento musical). Também, é frequente ver pais que preferem que seus filhos se ocupem com atividades dirigidas e/ou com pessoas que julgam ser mais capacitadas para estar com a criança do que cuidadores domésticos. Muitas vezes, atividades regradas demais, especialmente para crianças menores de seis anos, são difíceis de serem seguidas e professores podem ser menos habilidosos e carinhosos com a criança do que uma pessoa sem formação, mas que cuida e brinca bem. Cuidado: o interesse dos filhos nem sempre é o mesmo interesse dos pais e a necessidade de uma pessoa pode não ser a necessidade de outra. Por isto, para que a atividade escolhida seja uma rica experiência para a criança, é importante:

1)  Questionar quais os benefícios que a atividade poderá trazer à criança, levando em conta sua idade e personalidade. Algumas atividades não são indicadas para crianças muito pequenas (mesmo estando à venda no mercado infantil) porque exigem mais do seu desenvolvimento físico e/ou emocional é capaz de responder. Por esta razão, é interessante avaliar alternativas que tragam benefícios idênticos ou similares para a criança (se o objetivo é uma atividade física para gastar energia, talvez uma quadra com outras crianças supra a necessidade de uma aula formal de esporte; se o objetivo é estar com outras crianças, uma opção é brincar com colegas da escola fora do período escolar).

2)  Averiguar o interesse da criança pela atividade. Ela viu/experimentou a atividade em algum lugar e que conhecer melhor? Ela tem demonstrado interesse por algum assunto em especial, como pintura, que poderia justificar sua inscrição em aula de arte?

3)  Não fazer comparações – as crianças são diferentes umas das outras, têm ritmos, necessidades e interesses distintos. Não é porque os amigos da escola fazem determinada atividade que seu filho também tem que fazer. Uma criança que brinca em seu tempo livre e que não faz nenhuma atividade fora da escola não é uma criança pouco investida, desinteressada ou atrasada; ao contrário, é uma criança que consegue, através da brincadeira, suprir suas necessidades físicas e afetivas (em alguns casos até mais do que uma criança que tem a agenda lotada sem tempo para brincar e descansar, o que não é incomum entre as crianças cujas famílias têm maior poder aquisitivo e menos tempo disponível para estar com os filhos).

4)  Avaliar a disponibilidade financeira e logística da família para a viabilização da atividade.

5)  Pesquisar pelo menos duas opções de atividade com o mesmo propósito e pelo menos dois locais que oferecem tais atividades. É interessante que os pais façam uma pré-avaliação (buscando indicações, conversando com os profissionais, visitando o local) antes de apresentar as possibilidades ao filho. Feita a pré-seleção, a criança deve poder experimentar algumas aulas antes de sua matrícula ser efetivada. Nos momentos de experimentação é interessante a presença do pai ou mãe (a escolha de atividades, com raríssimas exceções, é tarefa dos pais) para que eles possam avaliar o ambiente, a habilidade do professor com seu filho e as outras crianças, o grau de interesse e envolvimento do filho (muitas vezes a criança não quer participar da aula, mas quer assistir e voltar a assistir – esta avaliação deve ser feita com o professor e também com a criança sobre o quanto participar, num primeiro momento, pode ser apenas olhar).

 As atividades extraescolares podem trazer muitos benefícios para a criança e a família, mas pode ser um perigo quando ela acontece num momento e de uma maneira que não são os melhores para a criança. Por isto, não basta escolher uma atividade extraescolar para o filho; é necessário acompanhar seu interesse e desempenho, sempre. Fazer por fazer não melhora competência. O ganho só é obtido quando a experiência propiciada pela atividade vai ao encontro das demandas da própria criança, quando o olho dela brilha antes, durante e depois da aula, de satisfação. Fique atento.

É mentira?

É natural a criança, até aproximadamente 5 anos de idade, fantasiar e contar histórias criadas pela sua própria imaginação. Quem nunca se questionou sobre as histórias que as crianças contam, buscando sua veracidade e se certificando dos fatos?

As crianças comumente inventam histórias, misturando real e imaginário. Mas, nestes casos, elas estão mentindo? Não. Porque não têm a intenção consciente de esconder ou ocultar dados da realidade. Porém, quando fatos são negados de forma consciente pela criança, a mentira se estabelece.

Diante disso, pais ficam abalados e decepcionados com os filhos quando descobrem uma mentira. Na maioria das vezes, contudo, não se questionam sobre as prováveis razões que levaram a criança a mentir. É válido dizer que, em grande parte, as crianças mentem não para os pais, mas para si mesmas, porque não estão conseguindo lidar com questões da vida e assim, tentam disfarçar, burlar ou até mesmo negar a realidade. Dentre outras razões, mentem, ainda, para chamar atenção ou até mesmo para fugir de suas responsabilidades.

Já parou para pensar que boa parte das omissões ou mentiras das crianças mais velhas vem do medo do enfrentamento com os pais, da culpa que elas sentem ao fazerem algo que sabem que será reprovado e/ou receberão punição? Diante da falta de entendimento do adulto, criam-se situações embaraçosas para pais e filhos, que podem vir a ameaçar o vínculo de confiança pré-existente. Se pais e educadores tivessem uma postura menos repressora diante das primeiras mentiras vindas das crianças, certamente poupariam uma série de dificuldades posteriores.

Portanto, não reprove de imediato a mentira ou uma atitude “errônea” da criança; tente entender o contexto da situação, o momento  que ela está vivendo e  por que ela precisou omitir ou mentir. Questione, mas sem intenção de repreender, assim dará a ela a possibilidade de pensar sobre seu ato e não simplesmente condenar e culpar.

A criança tem que sentir que pode confiar nos pais e conversar sobre situações embaraçosas sem medo! Não estou dizendo que não devemos repreender as crianças quando elas mentem. Os limites são necessários e a verdade sempre tem que ser dita e esclarecida.

Quando o estranho se aproxima da criança

Algumas gerações cresceram ouvindo de seus pais a recomendação de não falar com estranho. A pessoa estranha representava (e é inegável que ainda representa) uma possível fonte de perigo; portanto, a melhor maneira de minimizar riscos era mantendo-se distante do desconhecido.  A proibição era uma forma de proteção, que colocava os bons e os maus no mesmo patamar. Acontece, porém, que bons e maus continuam existindo; sempre existirão. Então, como proteger uma criança sem privá-la de experiências e descobertas com pessoas e situações desconhecidas?

Proteger não pode ser sinônimo de enclausurar, especialmente como vem acontecendo nas grandes cidades por conta da violência urbana. Proteger é estar com a criança apresentando-lhe o mundo em todas as suas facetas. Esconder o estranho ou dizer que ele pode trazer perigo sem dizer que perigos são estes não ajuda a criança a conhecer e decifrar os códigos da vida. Ao invés de se afastar é necessário mostrar-lhe o mundo e ensinar-lhe como interagir com aquilo que a cerca. O excesso de proteção fragiliza suas defesas contra os perigos da vida.

Isto não significa que os vidros dos carros devam estar abertos diante de cruzamentos sabidamente perigosos, nem que a criança deva dar trela a qualquer pessoa que puxe uma conversa. Proteger, nestes exemplos, significa dizer para a criança porque o vidro do carro precisa estar fechado em determinados pontos da cidade (para cada idade as explicações vão se incrementando) e que ela só deve conversar com pessoas desconhecidas na presença de um adulto responsável (a presença pode – e até deve – ter certo distanciamento, desde que seja possível observar o tom da conversa e depois saber da criança o que foi conversado).

Quando a criança recebe suporte para enfrentar as diferenças e diversidades que extrapolam seu meio, ela, gradualmente, vai aprendendo a reconhecer e avaliar as situações (e mesmo pessoas) que podem representar-lhe algum perigo. Portanto, quanto mais ela tiver oportunidade de conhecer as adversidades da vida, mais protegida ela estará dos riscos que a vida certamente lhe apresentará.

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