Será que existe o filho queridinho?

Quem é o queridinho da mamãe e/ou do papai? Aquele que dizem ser o mimado,  o mais parecido, o mais diferente, o mais esperado, o mais bonito, o mais tranquilo;  ou ainda, aquele que achamos ser o mais fraco ou o mais forte? E entre filhos gêmeos, de aparência semelhante ou diferente, existe o preferido? E filho único, é sempre o queridinho? Nem sempre! Alguns dão trabalho em dobro e, comparações existem mesmo assim, seja com o vizinho, o primo, o amigo da escola. Muitos, não são exemplos. Mas, exemplo de quê? De sucesso, de que deu certo? O que é isso: dar certo? Sob quais parâmetros estão sendo julgados, avaliados e comparados? Mesmo crescidos, com escolhas feitas, as comparações de “alho com bugalho” continuam acontecendo na família, na escola, no trabalho, na vida pessoal e social.

Comparações precisam ter o mesmo nível de valor, ter a mesma medida igualitária, como dois mais dois são quatro, senão está errado! Comparações mal feitas geram ciúme, competitividade e outros sentimentos, especialmente em se tratando de irmãos.

Mas então, como medimos estas questões tão subjetivas e desiguais? Pois é, não se mede. Filhos nascem e crescem em momentos diferentes da vida de uma pessoa e de um casal. A gravidez e a maneira como ela aconteceu e foi vivenciada, seus sonhos e fantasias em relação à criança, as brincadeiras em comum, os bate-papos a dois, registram e falam muito do relacionamento e do vínculo estabelecido entre pais e filhos. Cada filho tem suas potencialidades, suas conquistas, seu jeito de ser e agir, de demonstrar seus sentimentos e de se comunicar. Pais também. É na diferença entre pais e filhos que surge a possibilidade de relacionamentos, cada qual a sua maneira, um distinto do outro.

Nesta desigualdade tem aquele que é o queridinho do momento, o que topa algumas coisas, não briga, vira parceiro, é o mais fácil de lidar, exige e peita menos os pais, mexe com suas fraquezas,  impulsiona as fortalezas, e tudo bem, desde que não se esqueçam de que não se pode centrar apenas em um filho (queridinho, sempre, já é outra história!). Cada filho exige dos pais dedicação especial, em momentos e situações diferenciadas. Cada relação, com sua especialidade e concordância, explorando o que ela tem de melhor, criando possibilidades mil e cuidando das interferências e desavenças.

 

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Quem disse que criança não entende?

Um dia, em algum lugar, não tão distante daqui, alguém pensou e falou que “criança não entende” [nada, tudo, certas coisas]. Uma saída tática e curta para se livrar daquilo que ele (ou ela) próprio não “entendia”. Uma historinha que se repete e estampa nossas vidas, simplesmente porque é atravessada por questões que nem sempre são fáceis de encarar. Entender envolve compreensão, clareza, habilidade, julgamento, interpretação, atenção, percepção e possibilidades.

Criança não é tola. Criança entende o que é dito, o que é explicado e o que é mostrado. Criança sente, percebe e observa o que acontece ao seu redor. Se não tem clareza do que sucede e está numa via de mão única, cria um mundo cor de rosa ou nebuloso, que pode ser bem mais complicado de ser desemaranhado do que se o nó fosse desatado de início.

Dizer que criança “não entende” é o mesmo que negar seus sentimentos, percepções e constatações. É deixá-la desamparada com suas ideias, hipóteses e caraminholas.

Mas então, por que esta fala equivocada está tão enraizada na visão que o adulto tem da criança?

Primeiro, pela sua própria dificuldade ou desconforto em lidar com a questão em pauta. Segundo, porque nem sempre o adulto consegue se colocar sob a ótica da criança. Terceiro, pela ideia de que a criança precisa ser poupada de um sofrimento. Ora, não existe sofrimento maior do que a ignorância, as assombrações ruminantes de pensamento e o silêncio.

Um passo importante para banir a ideia de que criança não entende é discriminar os assuntos que devem ser compartilhados com ela daqueles que não devem. Existem assuntos, como a vida do casal, que são de gente grande, e por isto devem ficar apenas entre os adultos. Mesmo que a criança seja afetada pela questão, é importante diferenciar quais aspectos lhe diz respeito ou não. Quando um assunto está direta ou indiretamente ligado à criança, é fundamental que ela possa ser participada do que acontece, seja pelo seu direito em saber, seja para, em muitas situações, ser ajudada a processar o que está acontecendo.

Gravidez, nascimento, morte, mudanças, separações, doenças da criança ou de quem convive com ela (e mais uma infinidade de outras situações) não podem ser omitidas ou veladas. A criança precisa saber verdadeiramente o que acontece com ela ou com quem ama para que possa, inclusive, validar seus sentimentos (imagine quão horrível é para a criança imaginar que alguma coisa acontece, e de fato acontece, mas é negada por quem a cerca – é quase a mesma coisa de dizer que ela está delirando!).

Não dá para dizer que a avó que morre não vai acordar mais porque vai dormir para sempre, que nada está acontecendo com a mãe só porque a barriga da gravidez ainda não aparece, ou, que a vida da família continua como se nada tivesse saído do lugar depois de um diagnóstico de câncer do pai. Outra vez, criança não é tola. Seu escasso vocabulário (especialmente em se tratando das menores) não impede um diálogo franco. O que impede a franqueza e a confiança é a falta de diálogo sobre o que é observado e vivido. Sem espaço de conversa, a criança começa a revelar o mal estar decorrente das meias palavras, do não dito e das inverdades através de comportamentos regressivos e/ou agressivos, irritabilidade, choros, birras e até depressão. A única maneira de se evitar tais situações é permitindo que os assuntos que cruzam a vida da criança possam ser ditos, pelos pais e outros envolvidos, e por ela mesma. Criança sabe, criança entende. Se a vida da criança está em cena, não há como ignorar.  Somos nós, adultos, que precisamos aprender a dar conta disto.

Inspirando reflexão, no blog “Mãe é tudo igual”

Mãe é tudo igual

Inspirada pelo Deixe a criança entregar o presente em mãos!, postado em 19/07/2012 no Ninguém cresce sozinho, Vanessa Anacleto, do blog Mãe é tudo igual, fez sua reflexão sobre o tema com o texto Afeto vale mais que presente. As duas leituras valem à pena para quem quer pensar sobre receber e entregar presentes.

A nudez dos pais diante dos filhos

Alguns pais/mães encaram a questão da sua nudez diante da criança com muita naturalidade: se despem total ou parcialmente diante dos filhos, tomam banho com a prole ou andam sem roupa pela casa. Outros optam por preservar sua intimidade, não se colocando pelados na frente dos filhos, nunca ou salvo algumas exceções. A grande maioria, contudo, tem um percurso bastante parecido: enquanto a criança é bem pequena, estar vestido ou não na frente dela não faz a menor diferença. Porém, conforme ela cresce e começa a se interessar pelo corpo do adulto, lançando perguntas, olhares e mãos curiosas, o que era cotidiano, pode começar a causar certo incômodo e dúvidas nos pais. Na nossa cultura, onde o nu é da ordem do privado, é bom que cause.

Desde muito pequena, o corpo da criança é fonte de descoberta e prazer. Chupar o dedo, brincar com partes dele, dar risada na troca da fralda, são alguns exemplos clássicos de que a manipulação do corpo é prazerosa. É uma fase em que a criança está centrada nela mesma. Por volta dos dois anos, ela se dá conta, de fato, da existência do outro, passando a ter maior interesse por ele e interagindo mais com as pessoas a sua volta. Entre os três e quatro anos a criança começa a perceber as diferenças sexuais, interessando-se ainda mais pelo seu próprio corpo, pelo corpo de outra criança e pelo corpo do adulto. Guiada pela curiosidade, ela pergunta se homem usa brinco, se mulher pode ter barba; constata que há homens que têm cabelo grande e mulheres cabelo bem curtinho, e computa, em alto e bom tom, quantos “pipis” e “periquitas” têm no elevador, referindo-se ao número de homens/meninos e mulheres/meninas naquele minúsculo espaço. Não existe malícia ou vergonha. A sexualidade é um assunto como qualquer outro.

Diante dos pais nus, ela aponta para o que balança e toca (ou tenta tocar) no que não tem, pelo simples interesse em conhecer as diferenças. Neste momento, em geral, os pais se perguntam: Posso ficar nu diante dos meus filhos? Até que idade o pai pode ficar pelado na frente da filha e mãe na frente do filho? Tem algum problema a família toda tomar banho junto?

Antes de responder a estas e outras perguntas que seguem nesta direção, é importante que os pais percebam, individualmente, enquanto homem e enquanto mulher, como se sentem nus diante dos filhos. Como são indivíduos diferentes, nem sempre vão sentir a mesma coisa, o que não é nenhum problema para a criança.

Problema para a criança, e toda a família, surge quando o que se sente é diferente do que se vivencia diante da nudez. Existe uma inibição por parte dos pais em expor seu corpo e ainda assim, por qualquer razão (mesmo que seja a praticidade), a nudez acontece? Existe um prazer explícito ou velado, mesmo que não seja genital (o prazer sexual adulto), ao ficar nu diante dos filhos (prazer em ser bacana, em curtir um banho conjunto, em trocar a roupa do filho que já tem autonomia para se despir e vestir sozinho, etc.)?

Ainda que para os pais sua própria nudez se isente de qualquer inibição ou prazer, para a criança, estar diante do corpo adulto descoberto provoca sensações e sentimentos que ela não é capaz de nomear, como excitação ou identificação com o corpo do adulto. Isto lhe é bastante confuso. Por esta razão, a exposição gratuita ao nu adulto (incluindo publicidade, novelas, filmes e afins) deve ser evitada dos 3-4 anos até a adolescência, fase em que se adquire um corpo “igual” ao do pai ou da mãe.

No entanto, embora devam ser evitadas, há situações em que não há como se esquivar da nudez adulta diante da criança, como no vestiário de um clube. Estas são situações esporádicas e não rotineiras. No dia a dia deve-se priorizar espaços privativos para a intimidade de cada membro da família. O banho, evento mais comum da exposição do corpo, deve ser da criança ou do adulto. Quando a criança ainda precisa de cuidados para se banhar, se enxugar, despir-se ou se vestir, os pais devem exercê-los vestidos, mostrando que aquele é um momento da criança. Pais que usam sunga ou mães que colocam biquíni/maiô para dar banho dos filhos (e, pior ainda, para tomar banho com os filhos) transmitem uma mensagem ambígua, do mostrar sem poder mostrar, do natural-artificial. Filhos aprendem que aquelas partes do corpo são carregadas de contradição e pudor.

Não expor a criança à nudez adulta não a impedirá de continuar com suas investigações sobre as diferenças sexuais. Para isto existem seus pares, crianças da mesma idade, um pouco mais novas e um pouco mais velhas; existem livros, histórias e observações da vida real. Existe, principalmente, o momento certo de conviver com o corpo nu do adulto, que é a partir da adolescência, quando os corpos se equiparam.

Na exposição de corpos, muitas crianças incomodam-se diante da nudez, trilhando seu próprio caminho em busca de privacidade. Por si só, evitam estar diante do adulto nu, não aceitam ajuda na troca de roupas ou na hora do banho, trocam-se de costas, fecham portas em situações em que estão despidas. Os pais precisam acatar este desejo de privacidade, reforçando, inclusive sua importância. Mais do que a vergonha, o que está em jogo é a intimidade, a privacidade e o cuidado e respeito ao corpo. Da mesma maneira, os momentos de intimidade dos pais precisam ser demarcados e sinalizados para que tanto a criança quanto os pais saibam quais situações são coletivas e quais são individuais.

Quando os espaços privativos para intimidade são instalados e respeitados, a criança aprende que tem coisas que são só suas e outras que podem ser compartilhadas; aprende a reconhecer o que quer ou não, o que lhe causa prazer ou não, quem pode mexer no seu corpo ou não, para quem pode mostrar o corpo ou não. Sabendo dos seus limites, a criança aprende a respeitar o próprio corpo e, consequentemente, o corpo do outro, evitando a confusão de sentimentos, a erotização precoce e situações de vulnerabilidade.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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Cada pai é um pai

Pais nascem de diferentes formas: pelo desejo de criar um moleque ou uma linda menininha, através de planejamento, de um susto, do meio de um lance legal ou banal; do amor, da dor, da desavença, da reconciliação, das muitas tentativas, do curso da sua própria história…

Pais de sangue, de afeto, de criação; pais por escolha ou por falta dela. Pais de muitos, de poucos, de um ou nenhum. Pais em gestação, nascidos, criados e em criação. Pais que viram avôs; avôs que viram pais.

Pais, paizinhos e paizões: presentes-ausentes, ausentes-presentes, presentes pra valer. Ausentes da vida inteira, de parte da vida, de alguns dias, algumas horas. Pais de encontros, desencontros e reencontros. Pais que foram para nunca mais voltar ou que voltam para ficar.

Pais que levam o filho para todo lugar: no pensamento, no celular, na fotinho 3×4, de cavalinho, de cavalão, no colo, na coleira, de bicicleta ou avião. Pais que dão a mão, correm atrás, caem no chão, erguem do chão. Pais que veem a vida passar. Pais que não deixam a vida levar.

Pais que amam um rabo de saia, um peito peludo, a mãe ou o pai do seu filho. Pais que amaram muito, perderam o amor, ou o amor se perdeu com eles. Pais que nunca amaram. Pais que tentam amar. Pais que amam do seu jeito: turrão, carrancudo, cabeça-dura, briguento, carinhoso, companheiro, bem humorado, confuso, mão aberta, de muitos jeitos. Pais que odeiam e são odiados.

Pais que encaram nada, quase nada, um pouco, de tudo um pouco, quase tudo ou tudo… por ele, pelo filho ou pelos dois.

Pais que parecem mães. Mães que parecem pais. Pais que são mães também. Mães que também são pais.

Pais que só dizem não, muitos nãos, pode ser, nem pensar, nunca! Sim, muitos sins, alguns sins, nenhum sim! Pais que decidem pelo filho, com o filho, para o filho. Pais que nunca se decidem ou levam um tempão para sair de cima do muro…

Pais que trabalham, pais que dão trabalho. Pais que não têm trabalho. Pais que são arrimo da família e pais que a família é seu arrimo. Pais no meio termo. Pais do impossível e do como é possível.   

Pais que só conhecem a lei do mínimo esforço, pais que se esforçam e às vezes forçam, ou só reforçam. Pais, que mesmo desajeitados dão um jeito ou, mesmo com muito jeito, também rejeitam.

Pais que participam, tomando parte, pondo a mão na massa; pais que participam, só deixando recado.

Pais, pais, pais. Paz. Ou nem tanto.

Pai não é tudo igual, igual muita gente fala!

Cada pai é um pai, com um pouco disto tudo e muito mais. Pai é único, mesmo que se tenha mais de um.

cada pai é um pai

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