Crianças em férias: uma oportunidade para novas descobertas

Chegaram as férias,
Que bom que vai ser!
Eu vou passear,
Pular e correr!
Eu vou dormir tarde,
Vou brincar lá fora…
Ver televisão
Até fora de hora.
Vou ler o que eu quero,
De noite e de dia…
Brincar com o cachorro,

Ou fazer folia!
Com todos os amigos
Vou ficar de bem,
Só volto pra escola
No ano que vem!*

Férias é a possibilidade de se fazer o que não se faz no dia a dia; uma pausa necessária para o reabastecimento da energia física e mental.

Com a quebra de pelo menos uma parte da rotina (em geral a isenção da escola e das atividades extraescolares), até o que é habitual pode ganhar propósito e finalidades diferenciadas na vida da criança e da família. Sem compromisso acirrado com o tempo, as crianças têm a possibilidade de ficar “fora da frequência” vivenciada diariamente, podendo observar e perceber o mundo a sua volta de modo mais livre e tranquilo.  A pressa tende a ceder lugar à percepção dos detalhes e das sensações: uma oportunidade a ser experimentada como aprendizado para as crianças e pais.

Sem tantos compromissos, os tons dados a cada atividade ficam mais vivos, o sorriso mais leve, o corpo mais solto e o olhar mais vibrante. A diversão parece maior e melhor. Tudo fica mais aconchegante e gostoso, mesmo para as crianças que passam as férias em casa. Descoladas do habitual, a criança pode ir de encontro com novas possibilidades, potencializando sua espontaneidade e capacidades de explorar, descobrir (o mundo que a cerca e a si própria), criar e inventar.

Com ou sem a presença dos pais (que muitas vezes não conseguem conciliar suas próprias férias com as dos filhos), as férias das crianças não precisam de programas longos, caros ou sofisticados.  Eles podem ser simples, planejados, inusitados, conhecidos ou não. O importante é que as crianças possam se entreter com atividades que lhe promovam sensações confortáveis e prazerosas, e sem riscos à sua integridade. Muito bom é quando isto tudo vem acompanhado do uso de sua própria autonomia.

Nas férias a criança também precisa de outras crianças, bem como deve aproveitar para estar mais próxima daqueles com quem não tem a chance de conviver durante o período de aulas.  Estes momentos de interação são importantes e necessários para compartilhar e intensificar os vínculos afetivos e a socialização.

As férias possibilitam a criança e a família viverem na velocidade e tempo desenhados pela criança. Portanto, é hora, inclusive para os pais, de experimentarem um tempo menos contaminado do cotidiano, com mais disponibilidade para as pequenas coisinhas que vão acontecendo. Uma tremenda oportunidade para estar mais atento e, por que não, conhecer melhor a si mesmo e ao seu filho. Boas férias!

* Música Lá vem as férias, composta por Hélio Ziskind para o CD Na Casa da Ruth, um trabalho realizado pelo SESC SP sobre poemas da escritora Ruth Rocha. Voz de Fortuna e Coral Infantil do SESC Vila Mariana. Excelente material para a criançada se divertir cantando e dançando.

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“Orelhas de Mariposa”, livro de Luisa Aguilar

Com texto e ilustrações maravilhosos, Luisa Aguilar e André Neves mostram com leveza e profundidade como é possível construir saídas criativas contra ataques zombeteiros.

O livro conta a história de Mara, uma menina com orelhas de abano que aprende com a mãe que suas orelhas, de mariposa, “são orelhas que giram no ar e colorem as coisas feias”. Uma forma poética de ensinar a filha, que muito bem aprendeu, a lidar com o sarcasmo e a ironia dos colegas que a zoam.

Mara não se deixa abater, nem rebate no mesmo tom. Porque pode assumir sem amargura suas características físicas e condição de vida, mesmo que aos olhos dos outros sejam defeitos e motivo de chacota, responde com humor, sabedoria e criatividade, dando-nos uma verdadeira lição do quanto as diferenças podem ser vividas com descontração e alegria. Leitura obrigatória para ajudar crianças a pensar e exercitar alternativas de respostas frente a situações de ataques, insultos e desrespeito às diferenças, fragilidades e limitações.

Orelhas de mariposa / Luisa Aguilar; ilustrações de André Neves. São Paulo: Callis, 2008.

Faixa etária sugerida: 3-6 anos (leitura compartilhada) e dos 7-10 anos (leitura pela criança).

Post publicado em 04/12/2012 no blog “It’s Playtime!”

Hoje a Kathy Hodge Procopio, do blog It’s Playtime, nos citou como dica de leitura!Assinatura_20032011_C

Ninguém cresce sozinho

Queridos pais, tenho acompanhado um blog muito legal, idealizado pelas psicólogas Patricia Paione Grinfeld e Veronica Esteves de Carvalho (contribui também para o blog a minha querida amiga e educadora Renata Grinfeld), que fala sobre os desafios que surgem ao educar uma criança e resolvi compartilhá-lo com vocês: Ninguém cresce sozinho!

Os textos são ótimos!! Super indico a leitura!

Deixe sua criança “acreditar” em Papai Noel!

Dezembro é mês de “respirar” Papai Noel. Embora sua imagem esteja atrelada a mais importante celebração cristã e a data comemorativa de maior movimentação no mercado mundial de consumo, Papai Noel carrega uma universalidade encantadora: bondade, solidariedade, sentido de justiça, sabedoria dos mais velhos e a capacidade genuína de ouvir o desejo do outro.

Papai Noel escuta, mas também cobra. Com colo macio e barba de algodão doce, pergunta para cada criança que chega tímida ou totalmente à vontade, se estudou o ano todo, obedeceu à mamãe e ao papai, foi um menino ou menina legal. Suas perguntas não são um julgamento moral (como muitos adultos fazem), mas uma maneira de lembrar que o respeito está acima do desejo e que a recompensa deve acontecer por mérito. Papai Noel é pai, a voz da autoridade que sopra nos ouvidos lembrando que o sonho é ilimitado, mas a vida não.

Permitir a criança acreditar nesta figura não é incentivar o consumismo ou ser cúmplice de uma “mentira”, mas é autorizá-la a imaginar, sonhar e pensar. Através do mundo de fantasia a criança questiona “verdades” inerentes ao mito e à realidade – “Como o Papai Noel consegue carregar tantos presentes?” / “Como o Papai Noel entra em casa se não tem chaminé?” / “Existe mais de um Papai Noel?” / “Papai Noel usa aquela roupa todos os dias?” / “A barba do Papai Noel é dele?”. Indagações desta natureza acontecem quando a criança começa a desconfiar sobre a existência real do bom velhinho, podendo levar alguns Natais até que ela descubra sua “verdadeira história” (em geral entre os 6-7 anos).

Se até os 9-10 anos a criança ainda acreditar que Papai Noel é real, deve-se avaliar se ela está tendo a chance de entrar em contato com o mundo de faz de conta (livros, filmes, brincadeiras) ou com a realidade. Muitas vezes, Papai Noel e outras figuras continuam reais como alternativa de manter vivo um pedacinho do mundo da imaginação que não conseguiu ser preenchido com outros recursos criativos, ou como fruto da prioridade que se dá à fantasia em detrimento da realidade, pelas mais diversas razões (não querer que a criança cresça, querer que ela acredite naquilo que se acreditou ou não, entre outras). Por isto, o mais importante para a criança é poder transitar entre o mundo de fantasia e o real, sem priorizar um ao outro.

Quando irmãos, primos e amigos mais velhos tentam dizer aos menores que Papai Noel não existe, isto não deve ser motivo de preocupação. A criança só vai aceitar a realidade quando ela se questionar a este respeito. De qualquer modo, se a provocação inquieta todos, vale ter uma conversa em separado com quem a incita, lembrando-lhe como foi acreditar e depois descobrir a “verdade” sobre Papai Noel e outros personagens de faz de conta.

O mais importante no percurso indagatório da criança é não deixá-la sem resposta. Como quase todas suas perguntas são formuladas com base em hipóteses investigativas, não podemos desperdiçar este campo fértil respondendo-a prontamente. Ao invés de servi-la com uma resposta fechada, pergunte-lhe o que ela imagina que é, acontece, significa. Desta maneira, estimulamos sua capacidade de construir pensamento, facilitando, assim, a ponte entre o mundo imaginário e a realidade.

Se, mais cedo ou mais tarde, todos nós conhecemos “a verdadeira história de Papai Noel”, por que crianças de todas as idades não perdem o encanto pelo bom velhinho?

Voltemos ao início. A magia de Papai Noel está na possibilidade sem fim de sonhar, imaginar, criar; está no desejo de ser olhado, acolhido e escutado, não como mais um, mas como único. Papai Noel personifica nossos anseios sem deixar de traçar limites. Em cada um de nós, ele silenciosamente mobiliza o que temos e o que procuramos. É por isto que ele encanta e continua existindo de uma forma muito particular para cada criança e adulto.

Diante de tantas injustiças e desrespeitos, é essencial existir alguém que “não se esquece de ninguém” e nos faz lembrar que em cada um de nós reside traços de bondade, solidariedade e justiça, que, se adormecidos, costumam acordar na época do Natal.

Pena que Natal não é todo dia. Por isto mesmo, deixe sua criança “acreditar” em Papai Noel! Com seus gestos brandos e poucas palavras, ele nos ensina muito mais do que Jingle Bells, no Natal ou sempre que ele se faz presente em nossas vidas.

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