Quando a criança diz que tem uma idade diferente da sua idade cronológica

Um pai, cuja filha está com 4 anos e meio, diz que a filha, quando indagada sobre sua idade, responde ter 6 anos. E acrescenta: (…) “isto está sendo uma constante. Faz parte da fantasia da criança? Como agir? Corrijo na hora e na frente das pessoas ou só corrijo no particular?” (…).

A idade dos 4 anos é um marco para muitas crianças, já que representa uma transição entre ser uma “criança pequena” e uma “criança média”. Em geral, as crianças adoram estas denominações porque sabem que não são nem tão pequeninas, nem tão grandes – o que, de fato, é uma sábia percepção de si mesma.

Uma criança com 4 anos e meio que diz ter 6, pode estar dizendo que já é capaz de fazer coisas que meninas com 6 anos (e portanto, com 4 anos e meio também) fazem; por exemplo, tomar banho ou se limpar sozinha depois do uso do vaso sanitário, escolher suas roupas, servir-se nas refeições, ou qualquer outra atividade que ela já se sinta capaz de desempenhar por si só ou com mais autonomia.  Mas ela também pode estar dizendo que gostaria de fazer coisas que imagina que somente as crianças com 6 anos (ou mais) fazem. Neste caso, esta situação pode ser apenas uma brincadeira de faz de conta ou uma maneira de lidar com a frustração daquilo que ela ainda não é capaz de realizar.

Em qualquer destas situações, corrigir a criança em sua idade é uma intervenção ineficiente. Se existe algo que ela sabe e não precisa ser lembrada é a idade que tem (ela sabe muito bem!). O mais importante é observar em quais momentos ela diz ter idade diferente da cronológica para verificar se há relação a alguma situação em especial, bem como perguntar-lhe o que uma criança com 6 anos faz. De acordo com a resposta será possível inferir se ela está fantasiando “ser maior” do que é, ou se está pedindo para ser tratada pela idade que tem (casos em que a dinâmica familiar a coloca no lugar de “ser pequena”).

Assim como algumas crianças nesta faixa etária dizem que são mais velhas, há as que dizem que são mais novas ou que querem voltar a ser bebê. São crianças que podem estar sendo forçadas a realizar algo que ainda não estão preparadas física e emocionalmente, ou que temem perder situações ou objetos que lhe são importantes, como chupeta, mamadeira, fralda, paninho, atenção dos pais, etc. Embora tais comportamentos sejam frequentes diante de mudanças (nascimento de irmão, retorno da mãe ao trabalho, entrada na escola, entre outras), eles fazem parte do processo de amadurecimento. Por isto, costumam aparecer concomitantemente ao discurso de ser mais velha e não por malandragem, como quando a criança joga com o que lhe é mais conveniente.

Crescer é andar na espiral, para cima e para baixo, com dois passos para frente e um para trás. Quando a criança é compreendida neste movimento de vai e volta e é acolhida em seus temores e frustrações, ela pode, no seu ritmo, assumir a idade que tem, sem que isto seja motivo de preocupação.

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Alguns cuidados importantes no primeiro processo de adaptação da criança na escola

O processo de adaptação na escola é um período de múltiplas integrações: criança-família, criança-escola, família-escola, não se restringindo apenas às crianças que ingressam na vida escolar. As mudanças de escola, de ciclo, de turma, de professores e até mesmo do período de férias para o período de aulas também implicam numa adaptação ou, ao menos, numa readaptação à rotina, espaço e pessoas.

Por mais que haja mudanças para as crianças e famílias que já frequentam o ambiente escolar, a grande transformação ocorre quando a criança vai pela primeira vez para a escola. Pais e filhos saem do conhecido meio familiar para um ambiente com caras e coisas às vezes bastante desconhecidas. De um lado, ganham novas possibilidades de relacionamento e aprendizagem; de outro, se deparam com certa dose de ansiedade, insegurança, incertezas e medos decorrentes da situação inédita.

Algumas crianças lidam muito bem com o que lhes é apresentado, nos primeiros dias ou em todos eles. Outras observam ao seu redor antes de experimentar o que lhes é oferecido, sozinhas ou com o apoio de alguém. Há aquelas que choram, gritam, esperneiam, emudecem, emburram, no meio de todos ou longe do buchicho. Existem crianças que adoecem, tamanho o estresse emocional. Tem as que grudam na mãe ou no pai e parecem que nunca, mas nunca mais, vão se desgrudar.

Do lado dos pais, as vivências também variam muito. Há os que se culpam em deixar o filho na escola para trabalhar; os que sentem alívio porque terão mais tempo para si mesmo ou para outras tarefas; os que experimentam um vazio enorme sem o filho do lado; os que mesmo sabendo que a escola tem uma equipe preparadíssima para cuidar de seu pequeno, morre de medo de não darem conta dele; os que dizem: “larga do meu pé!”; os que choram mais do que criança na hora da despedida, e muitos mais.

Cada pessoa é única e lida de modo muito particular com as mudanças, separações e novidades, de acordo com sua personalidade, maturidade emocional e momento de vida. Por isto, para garantir que a transição do ambiente familiar para o escolar transcorra da melhor maneira possível, é necessário:

1)      Estabelecer uma relação de confiança entre a escola e a família – mesmo que esta relação se estreite ao longo da convivência entre ambas, é fundamental que os pais sintam-se seguros com a escolha da escola, que deve ir de encontro ao que eles esperam do ponto de vista pedagógico, ético e financeiro. Pais inseguros com sua escolha transmitem insegurança para o filho.

2)      Participar a criança sobre seu ingresso na escola. Quando possível, levá-la para conhecer o ambiente escolar antes do início das aulas e deixá-la se envolver com a aquisição dos materiais e uniforme, se houver. Explicar o que vai acontecer é fundamental para que a criança não seja pega de surpresa. No entanto, é importante tomar cuidado com os exageros e expectativas de como se imagina que a adaptação transcorrerá com a criança. Nem sempre ela acontece da forma imaginada.

3)       Cumprir com os combinados e pedidos feitos pela a escola (muitas escolas fazem reuniões de pais antes do início das aulas para explicarem sobre o período de adaptação) – horários, o que a criança pode ou não levar consigo, participação, local e tempo de permanência dos pais. Ao cumprir com os combinados, a criança sente-se segura e começa a entender o funcionamento do ambiente, podendo, com isto, sentir-se pertencendo ao novo meio.

4)      Pai ou mãe acompanhar a criança no processo de adaptação. Salvo situações muito particulares, que devem ser discutidas e acertadas com a escola, a adaptação na escola é tarefa dos pais (de um deles ou ambos, de acordo com o que foi acertado com a escola). Por mais que os pais tenham seus compromissos e a criança seja cuidada por terceiros, o processo de adaptação é um momento em que os responsáveis pelos filhos devem fazer a passagem do ambiente familiar para o escolar.

5)      Reservar na agenda um tempo mais longo do que o estipulado pela escola para o período de adaptação. Nunca sabemos como a criança reagirá. Mesmo iniciando o período de adaptação com desprendimento, a criança pode ter, ao longo do processo, comportamentos mais retraídos, precisando da presença de um dos pais por mais tempo. Isto em geral acontece depois que ela percebe que a escola não é mais um lugar de passeio, mas um lugar onde passará parte do dia longe das pessoas/lugares que está acostumada a conviver.

6)      Evitar mudanças concomitantes com a fase de adaptação na escola: retirada de chupeta, fralda, mamadeira, paninho, troca de babá, residência, pequenas cirurgias, dietas, bem como manter rotina da criança em casa, evitando sobrecarregá-la com outras atividades. A escola, por si só, já é intensa o bastante.

7)      Só faltar às aulas se a criança estiver doente ou por motivos de força maior. Qualquer ruptura pode atrapalhar o processo de adaptação.

8)      Evitar fotos e filmagens, que tiram todos do seu foco – crianças porque são convidadas a olhar para os pais, e pais, que não se desligam das crianças. A adaptação não é momento de festa, mas sim um momento de aprender como será a nova rotina.

9)      Não tecer comparações entre um filho e outro, entre um colega e outro. Cada criança é uma e por isto reage de maneira diferente diante de uma mesma situação.

10)   Se a criança tem irmão mais velho na escola, não lhe dar a responsabilidade de cuidar do mais novo. É importante que cada um tenha seu espaço assegurado, sem um peso que não lhe cabe.  Por isto é importante orientar o irmão mais velho a pedir ajuda para um adulto, caso o mais novo venha lhe solicitar.

11)   Diante de qualquer pedido da criança, fazer a ponte entre ela e o professor ou responsável. Desta forma a criança se vê autorizada pelos pais a fazer o mesmo na sua ausência.

12)   Nunca sair da escola sem se despedir da criança. Diga-lhe para onde vai (sala de pais, trabalho, casa) e em que momento vão se reencontrar (na saída da escola, em casa).

13)   Ao deixar a criança na escola, despedir-se dela, dizendo quando irão se reencontrar (na saída da escola, em casa – neste caso reafirme quem irá busca-la). Se é uma criança de colo, ela deve ser entregue ao professor ou responsável, sem esperar que ele faça o movimento de “tirá-la” do colo em que ela está. Com isto evita-se que a criança sinta que está sendo “tirada” do pai/mãe. Se a criança já anda, ela deve chegar na escola andando e não no colo.

14)   Durante o período de adaptação, se possível, evitar rodízio de carona ou transporte escolar. A saída da escola é um importante momento para observar como a criança está e conversar com o professor. Se isto não for possível, deixar claro para a criança como será feito o transporte e apresentá-la ao responsável pelo transporte antes do início das aulas.

15)   Conversar com a criança como foi o dia na escola, deixando-a falar livremente. Caso não queira falar, não insistir, mas observar se há alguma mudança significativa de comportamento em casa.

O tempo que cada criança leva para se adaptar à escola e à nova rotina varia muito de criança para criança. Por isto, nesta fase cheia de surpresas, além do que foi exposto acima, é muito importante que os pais possam reconhecer seus próprios sentimentos diante da situação que está sendo vivida. Assim, terão muito mais condições de reconhecer e dar suporte aos sentimentos, demandas e dificuldades do filho. Uma adaptação bem feita evita readaptações e é uma porta aberta para o bom desempenho escolar. Boas aulas!

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre adaptação na escola. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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Palavrinhas e palavrões

Em algumas famílias os palavrões fazem parte do vocabulário cotidiano, o que não surpreende em nada seu uso pelas crianças. Em outras, eles assustam porque soam como o estrondo de um trovão, uma ameaça à sobrevivência das palavras da boa educação – por favor, com licença, desculpa e obrigado.

Os palavrões, assim como estas palavrinhas, fazem parte do mundo mágico das palavras, o que torna impossível tentar evitar ou impedir qualquer ser humano de pronunciá-los em algum momento da vida.

Por volta dos 23 anos, a criança aprende as palavras relacionadas ao controle esfincteriano e repetem-nas com certa frequência. Aos 4 anos, com a percepção das diferenças sexuais, ela tem prazer em repetir palavras ligadas não apenas à excreção, mas também aos genitais. Esta repetição encanta pela sonoridade e pelo mergulho nas novas descobertas. No entanto, o grande fascínio pelas palavras com conotação sexual (ou existe palavrão com outra conotação?!) chega ao ápice na infância entre os 56 anos, quando a criança começa a perceber o efeito que elas causam entre amigos, na família e em si própria.

Da mesma maneira que ocorre para os adultos, o palavrão (ou mesmo a gíria) funciona como ingresso a um grupo, como contestação/provocação e como forma de comunicação ou manifestação de sentimentos que muitas vezes não encontram outra via de expressão. A diferença entre o palavrão sair da boca de uma criança ou de um adulto é que a criança ainda não sabe o significado original da palavra. À família cabe ensinar o que cada palavra, dita com tanto gosto, significa.

Muitas crianças, ao perceberem a desconexão entre o emprego da palavra e seu significado ficam desapontadas com a falta de sentido e logo ignoram aquele vocabulário. Outras, porém, continuam se “divertindo” com elas. Neste caso, é importante reconhecer a serviço de quem ou do quê elas estão sendo utilizadas.

1) O palavrão é apenas experimentação de sons divertidos? Se for momento de brincadeira, por que não deixar a criança brincar?

2) Falar palavrão é passaporte para o mundo dos grandes, fortes e corajosos? Em caso afirmativo, proponha à criança construir uma lista com todos os palavrões que ela conhece. Ao legitimar seu saber, ela fica mais tranquila e, portanto, menos interessada no assunto (ela aprende que os outros já sabem o quanto ela sabe!).

3) O palavrão funciona como descarga de raiva, agressividade? Se assim for, a criança pode se “descarregar”, falar tudo o que tem vontade, desde que ela não esteja com pessoas que não desejam gratuitamente ouvir o que não estão interessadas (uma alternativa é a criança se isolar num canto onde possa ficar temporariamente sozinha falando o que quiser). Aliás, é muito importante que a criança aprenda desde cedo que nem todas as pessoas gostam de ouvir tais palavras, e que isto deve ser respeitado.

4) O palavrão é reforçado em seu ambiente? Ora, não adianta querer que o filho não fale determinadas palavras se os pais as pronunciam com frequência e/ou indiscriminadamente. Para valer para os filhos, tem-se que valer primeiramente para os pais.

5)  Você se surpreende que, na presença de determinada criança, seu filho ri ou repete o que ouve do colega: “bunda” “peido”, “cocô mole”, “bosta” e “xoxota”? Se isto incomoda, não é preciso uma lição de moral nas crianças; apenas não se acanhe em fazer valer suas regras, nem conclua que este é um “mau amigo” para seu filho. Às vezes a criança só está brincando ou testando sua permissividade, seu limite. Delimitar ou impedir o uso do palavrão no meio familiar é mais uma das tarefas da família.

6) Alguém contou-lhe que na roda de amigos seu filho adora um palavrão? Ótimo. Entre iguais o palavrão é permitido como forma de contestação e experimentação. O que não pode é seu uso enquanto ofensa e desrespeito ao outro.

Como qualquer palavra, os palavrões são uma forma de expressão. Por isto, antes de repreender uma criança porque fala palavrão, tente entender o sentido que seu uso tem naquele momento. Quando possível, ajude a criança a encontrar outras palavras, gestos ou ações capazes de expressar o que deseja, sente, deixando as palavras, às vezes pequenas, mas de força enorme, para os momentos de dor, susto, espanto e, por que não, extrema alegria (se é que elas não encontram substitutos!).

“Por favor, Eleonor!”, livro de Frieda Wishinsky

Será que esta obra é mesmo ficção? Eleonor e João são dois irmãos que brigam por um motivo comum em muitas famílias: o mais velho quer ficar quieto no seu canto, enquanto o menor faz de tudo para ter sua atenção.

“Cai fora”, diz João, tentando despachar a irmã que o aporrinha sem parar. Mas a baixinha não se acanha com a força das palavras do irmão, rebatendo com sábias respostas fraternas; uma verdadeira convocação e instalação de um duelo que só chega ao fim quando João sai de casa em busca de um canto só seu.

Eleonor, claro, vai atrás, mas desta vez ele consegue dizer o que não dissera no início: “POR FAVOR, Eleonor. Eu quero ficar sozinho, de verdade, pra ler.” Se ele implora para ficar só, ela implora para ficar ao seu lado, quietinha.

João fecha os olhos, e em pensamento diz que gostaria que a irmã fosse um cachorro, já que o bicho não faria várias coisas que ela faz. O silêncio ao seu redor, contudo, causa-lhe estranhamento, o que o leva a abrir os olhos. E qual não foi sua surpresa? Eleonor já não estava mais lá… Desesperado, João sai à procura da irmã. É o amor entrando no lugar do ódio, uma das características mais marcantes das relações entre irmãos.

Um cachorro aparece na frente de João, e logo ele imagina que seu desejo se transformou em realidade.  Agora, ele suplica para que ela volte à forma original. Eleonor reaparece, feliz da vida, brincando com o novo vizinho, da sua idade, dizendo: “Então, João, ‘CAI FORA!’.”  João, desta vez, não tem por quê entrar em discórdia!

Com esta estória somos lembrados de que: 1) caçula aprende com o mais velho; 2) criança precisa brincar com criança da sua idade; 3) os grandinhos precisam de um pouco de sossego e não devem ser responsáveis pelos menores e; 4) irmãos brigam porque se amam e se odeiam, tudo ao mesmo tempo.

Por favor, Eleonor! /Frieda Wishinsky; ilustrações de Marie-Louise Gay. São Paulo: Brinque-Book, 2009.

Faixa etária sugerida: 4-6 anos (leitura compartilhada) e 7-10 anos (leitura pela criança).

Balanço, desejo e promessa de ano novo

Fim de ano sempre é época de balanço. Desejo de um ano melhor, de que o que foi bom se mantenha ou repita e o que foi ruim seja enterrado e não volte para assombrar. Há quem faça faxina, na esperança de um ano mais leve, limpo e sem enrosco. Banho de mar, de sal grosso, porres para lavar a alma e simpatias de toda sorte acompanham o fechamento de um ciclo.  Por alguns instantes, a sensação de deixar para trás o que não se deseja mais se sobrepõe a quase tudo, tão magicamente quanto os fogos de artifícios lançados na noite escura.

O novo ano começa. Mesmo havendo novas histórias, ele se inicia com aquelas que se repetem e/ou continuam a rolar. Entre elas, as histórias em que protagonizamos ser mãe e pai. Histórias que nem sempre entram no tal balanço.

Não é incomum que mãe e pai levem suas vidas enquanto tais no embalo do simplesmente levar, sem se dar conta do que estão vivendo, fazendo (ou não)… Entre muitos, só um grande susto, uma “puxada de orelha” ou um acontecimento descomunal faz sair do automático para parar, pensar, refletir, questionar, se responsabilizar. Entre outros, o clique da percepção demora a chegar, se é que chega.

Ignorância? Falta de vontade? Onipotência? Impotência? Nada disto, tudo isto e muito mais.

Ser mãe e pai é mais do que um laço familiar e social. Ser mãe e pai implica num emaranhado de afetos que se pouco, ou nunca, olhados transforma o fio das relações em nós difíceis de serem desatados.

Não dá para confiar apenas no instinto materno ou paterno. A vida se faz para muito além da sabedoria nata ou intuição. Mãe e pai são constituídos a partir das relações estabelecidas entre si, com o filho, com seus pais e com o mundo. É como uma colcha de retalhos; emenda daqui e dali e vai dando a forma que é possível, com o que se tem disponível. Tecido grosso com fino, claro com escuro, grande com pequeno. Um trapo de trapos ou uma bela colcha, harmônica, singular.

Acontece, contudo, que na colcha da vida, nossos papéis têm se assemelhado à colcha de retalhos da loja de departamentos, aquela que alguém criou e só temos o trabalho de escolher entre alguns modelos. Mas será que aquela é verdadeiramente a nossa colcha?

Quais são os modelos que estão dispostos nas vitrines do cotidiano? Quais os modelos que temos comprado? Do bom pai, que não deixa faltar nada? Da boa mãe que sabe o que é melhor para o filho? Do qualquer “coisa”, já que tudo é igual?

Não há dúvida de que é mais fácil, rápido e tranquilo depositar nos incontroláveis tempo e velocidade contemporâneos o que cabe a cada um de nós, isentando-nos de responsabilidades que devem ser construídas conjuntamente.

Diante do aparente “vai tudo bem” – e por isto a desnecessidade de um balanço – temos, pelo menos num primeiro instante, a “colcha”: o pai, a mãe, o filho. Mas quando olhamos para ela vemos a desarmonia, o esgarçamento. Dá vontade de jogá-la longe, substituir por outra. Ou deixar como está só para não ter trabalho… O fato é que não estamos diante de uma “coisa”; pelo menos não deveríamos estar.

Costurar, construir uma colcha dá trabalho, ainda mais para quem nunca pegou numa agulha!  A harmonia de um produto artesanal, único, é conseguida apenas quando conseguimos parar, pensar, estudar, experimentar, errar, refazer da melhor maneira possível, pedir ajuda. E não é no automático que conseguimos isto.

Fazer-se mãe e pai é um eterno exercício de composição de retalhos, tecidos novos, usados, experimentações, escolhas, abdicações, costuras e descosturas. É um olhar para si mesmo e para o outro de maneira comprometida e responsável.

Não incluir o papel de mãe e pai no balanço anual (semestral, mensal, diário!) é, de certa forma, negar a necessidade deste trabalho minucioso, fundamental. Ao mesmo tempo, desejar ou prometer ser “melhor” mãe e pai só é possível num mergulho de cabeça no seu próprio mundo e no mundo do filho. Caso contrário, o desejo e a promessa não passam de mais um desejo e promessa que não conseguem ser agarrados e transformados em novas atitudes e comportamentos. Independente de o ano estar começando, sempre é tempo de reflexão e mudança!

colcha de fuxico NCS

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