Alguns cuidados necessários para a instalação da rotina de dormir dos bebês

Este post foi originariamente publicado em 23/02/2013 no blog Big Mãe com o título Dicas para o bebê adquirir horários regulares para dormir.

A qualidade e quantidade do sono dos bebês são fundamentais e imprescindíveis para o seu desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social. Sua regularidade varia de acordo com a maturidade (principalmente fisiológica) e as necessidades individuais de cada um, que refletirão, inclusive, no tempo de sono que cada bebê precisa para se desenvolver de forma saudável.

O sono, e por consequência a necessidade de dormir, se manifesta através de bocejos, do esfregar os olhos, choro, irritabilidade, entre outros comportamentos, que precisam ser reconhecidos e nomeados ao bebê. Na medida em que tais comportamentos são também respeitados, imprime-se na vida do pequeno ser um ritmo essencial para a moldagem de sua rotina, a qual deve estar vinculada às suas demandas e não aos horários e atividades dos pais ou outros membros da família.

Alguns fatores são muito importantes para que a rotina do dormir seja instalada no bebê:

• Reconhecer que o bebê está com sono – o principal sinal de que o bebê está com sono é o bocejo. Por isto, o melhor momento para colocá-lo na cama é quando ele emana os primeiros bocejos. Ao contrário do que muitos pensam, a exaustão excita mais do que cansa, tornando mais difícil o adormecer. Demorando mais para dormir, corre-se o risco do sono ficar mais curto ou mais estendido, interferindo, assim, na sua disposição e rotina.

 • Permitir ao bebê distinguir o dia da noite, para que possa, aos poucos, esticar seu tempo de sono durante a noite e encurtar o sono do dia (futuramente, as sonecas). Este aprendizado se dá presenciando barulhos e movimentos rotineiros de seu ambiente de dia e a ausência deles à noite.

 • Evitar estímulos nos momentos em que a criança sinaliza estar com sono, bem como em suas interrupções, especialmente a noturna. É muito frequente, em momentos de irritabilidade pelo sono, ou mesmo quando ele é interrompido, a criança, na tentativa de acalmá-la, ser mais estimulada, com brincadeiras, banho, música, passeios (este é o momento em que normalmente se instala o hábito de “dar uma volta de quarteirão” para a criança dormir). Na hora do sono ou numa eventual interrupção, os estímulos precisam ser os mínimos possíveis (luz fraca, voz baixa, sem brincadeiras).

 • Criar um ambiente confortável e seguro para o sono. Bebê alimentado, limpo, com roupas e ambiente adequados tem muito mais chance de dormir melhor e por mais tempo.

• Os horários predeterminados demonstram à criança quando é hora de dormir. Ao ter uma previsão do que vai acontecer, a criança sente-se segura. Na hora do sono, esta previsibilidade torna-se primordial para o descanso e a manutenção da rotina. Por isto, a criação de algum ritual que anteceda o dormir ajuda o bebê a reconhecer que este tão importante momento está chegando. Entre eles, destaca-se o banho, uma musiquinha, a entrega de um paninho e/ou chupeta, elementos que facilitam a passagem do despertar para o adormecer.

 • Estes rituais, contudo, não podem ser confundidos com hábitos que criam a necessidade da presença de alguém no adormecimento do bebê – ficar de mãos dadas, ninar, fazer cafuné e tantos outros hábitos que começam como uma troca gostosa e se transformam num rito que impossibilita o bebê dormir sozinho, especialmente quando acorda no meio da noite.

Devemos lembrar que é mais trabalhoso retirar um mau hábito do que instalar comportamentos que visam, desde cedo, a autonomia do bebê e a liberdade e descanso dos pais (diante destes rituais os pais tornam-se escravos das necessidades dos filhos, além de sofrem com a privação de sono que, mais tarde terá consequência direta na capacidade de reconhecer as demandas vindas de seu bebê).

Assim, os limites impostos nos horários de dormir, e todas as outras rotinas estabelecidas junto aos bebês, favorecem tanto os bebês quanto os pais.

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O uso da roupa de banho pelo adulto no banho com a criança

Em A nudez dos pais diante dos filhos, uma mãe nos escreve: “minha filha tem 4 anos e quero saber se tem problemas ou o que o pai deve falar quando toma banho com ela porque ele usa sunga. E ela sempre pergunta porque ele está usando; ela já viu que ele tem um p… O que fazemos!!! Não gostaria que tanto ela quanto ele tivesse vergonha um do outro. Queria que fosse uma coisa normal para ela…”

Pelo breve relato da mãe, podemos pensar que este pai usa sunga pelo desconforto que sente em estar nu na frente da filha, ao menos no banho. Diferentemente de outras situações de nudez, como na troca de roupa, o momento do banho é o que costuma causar maior constrangimento, visto que a exposição do corpo ao outro é total e por um tempo e proximidade física maiores.

Para quem já sentiu e sente vergonha em qualquer que seja a circunstância, não é difícil compreender a atitude deste pai. Diante do que constrange, a vontade é sumir, “cavar um buraco e entrar nele”, ou fazer com que o agente do desconforto suma. Por isto, a sunga aparece como uma solução fácil e imediata, aparentemente eficaz.

Para a criança, contudo, a história é outra. Aos 4 anos ela dificilmente experimentou sentimentos de incômodo e vergonha por  estar com o corpo despido diante de outra pessoa (em geral esta vivência tem início entre os 6 anos e a entrada na puberdade). Ela também aprendeu que roupa de banho é para ser usada no banho de mar, rio, piscina, cachoeira, e que banho de chuveiro e banheira pedem corpo nu. Por estas razões, ela não vê sentido no uso que o pai faz da sunga durante o banho.

Ao perguntar-lhe por que ele toma banho de sunga, a filha, mais do que buscar uma explicação para este gesto um tanto estranho, coloca em pauta a ambiguidade do mostrar-esconder, do permitido-proibido, bem como a transgressão paterna “eu ensino, mas não sigo” (a regra cultural do uso da roupa de banho – sunga, biquíni e maiô).

Embora a sunga esconda o genital, ela não consegue encobrir os sentimentos despertados pela nudez, nem a curiosidade infantil sobre as diferenças de gênero e diferenças entre o corpo adulto e o da criança. De “tapa sexo”, mais cedo ou mais tarde, a sunga se transforma num recurso contraditório e ineficiente, criando novos incômodos e inquietações para todos os envolvidos na situação.

Se o pai não se sente à vontade em estar nu diante da filha, isto precisa ser respeitado. Uma criança que não vê o pai nu, não gosta menos dele ou tem mais dúvidas sobre a sexualidade humana. O que nos faz gostar mais ou menos de alguém é a espontaneidade, a confiança e o respeito, que só são vividos integralmente quando sabemos até onde podemos ir. Estes são os mesmos ingredientes que permitem o diálogo franco com a criança, mesmo que franqueza seja dizer que não sabe ou não se sente bem em conversar sobre determinado assunto (neste caso, é necessário encontrar alternativas para que as questões dos pequenos não fiquem sem resposta).

Então, como desinstalar a prática do banho com sunga?

Obviamente, não é ficando sem sunga. Aos 4 anos a criança já tem condições de começar a se banhar sozinha ou com pouca ajuda. Portanto, a transição deve focar no seu crescimento e autonomia. O pai pode continuar responsável pelo banho da filha enquanto for necessário, orientando-a e ajudando-a do lado de fora do chuveiro ou banheira, vestido como em qualquer outra situação de cuidado para com a filha.

É muito importante que esta orientação não se restrinja apenas aos cuidados de higiene, mas abranja também as questões ligadas à curiosidade e manifestações sexuais, incluindo os conceitos de privacidade e intimidade. Com regras e limites claros, eliminamos as mensagens contraditórias, como tentar disfarçar o indisfarçável, instalando o respeito ao outro e, por consequência, a confiança mútua.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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“Vó Nana”, livro de Margaret Wild

Quando começamos a leitura de Vó Nana acreditamos estar lendo apenas a estória de uma avó que vive com sua neta. Porém, conforme vamos virando as páginas, compreendemos porque o livro não é apenas a estória de uma avó e uma neta que compartilham a mesma casa e as tarefas domésticas. Vó Nana e Neta, as duas personagens, compartilham (entre elas e conosco) a experiência do que é uma relação cheia de afeto, amor, carinho, respeito ao outro, confiança e responsabilidade.

“Um dia, Vó Nana não se levantou como de costume para tomar o café da manhã”, gerando mudança na rotina daquele dia e dos dias subsequentes. Com poucas palavras, Vó mostra em gestos o que estava prestes a acontecer. Ao dizer “Tenho que estar preparada” ela também prepara Neta para os dias sem sua presença. Ao “olhar as árvores, as flores, o céu, tudo!”, Vó Nana não apenas se farta de olhar, apreciar, escutar, cheirar e saborear, mas também deixa sua lição de sabedoria, a apreciação do que é belo e a autorização para Neta também fazer/sentir. Uma maneira de ensinar que vai além das palavras.

Se em toda despedida tem quem vai e quem fica, Neta pode fazer seu último pedido: deitar-se na cama com a avó para abraçá-la bem forte, como Vó fazia com ela quando era pequena e tinha pesadelos.

Para falar da morte, Margaret Wild não precisou escrever a palavra morte ou suas variações. De uma forma muito bonita e profunda ela fala da importância de se preparar para ela, dos rituais de passagem em vida, da despedida, fenômenos tão importantes e nem sempre permitidos quando a morte é esperada e inevitável. Um excelente material para ler com crianças que estão na iminência de perder alguém muito querido, mas também uma leitura muito gostosa para refletir sobre os vínculos afetivos e as relações avó-netos.

Vó Nana / Margaret Wild; ilustrações de Ron Brooks. São Paulo: Brinque-Book, 2000.

Faixa etária sugerida: 3-6 anos (leitura compartilhada) e 6-10 anos (leitura).

Por que as crianças brigam?

Estava indo tudo bem, crianças brincando juntas, até que uma delas começa a encrencar com a outra. A brincadeira transforma-se em gritos, xingamentos, empurrões, puxões de cabelo, tapas, mordidas e arranhões.

“Mamãe, o fulaninho me bateu!”, “Papai, a fulaninha pegou meu brinquedo e não quer devolver!”, “Pára, você é muito chato!”, “Sai daqui!”, “Te odeio!”.

O que está acontecendo? O que as crianças estão querendo dizer quando brigam? Em meio a um turbilhão de emoções incompreendidas pela criança, o que fazer? Deixar brigar? Interceder?

Aproximadamente até os 6 anos de idade, a criança ainda está aprendendo a controlar seus impulsos; é imatura psíquica e neurologicamente. É egocêntrica e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outro.  Possessiva e enciumada diz constantemente: “É meu! Me dá!” , “Não dou!”,” Não empresto!” Apesar de já ter um vasto vocabulário, sua capacidade de comunicação ainda é restrita, principalmente quando as emoções e pensamentos ambivalentes tomam conta de si.

Quando duas ou mais crianças de idades próximas estão juntas e não conseguem se entender, as brigas acontecem mesmo. Sem colocar em palavras aquilo que sentem e querem, as crianças, intensas em suas ações, podem acabar impondo, fisicamente, um limite rígido diante de situações em que se sentem ameaçadas, invadidas e contrariadas.  Ao se sentirem atacadas, mesmo que esta não seja a intenção do outro, contra-atacam. Sem falar nas variações de humor (reflexo de cansaço, sono e fome) que geram brigas “bobas” e momentâneas.

As crianças estão conhecendo suas emoções e reações, bem como aprendendo a se relacionar e a conviver socialmente. Com as discórdias, elas dizem o que não gostam, o que as incomoda e o que querem ou não. Testam limites a todo instante – os seus e dos outros – buscando entender até onde podem ir. Brigar é uma forma de colocar seu desejo, opinião, ponto de vista. Por isto, não dá para dizer que os brigões são sempre os vilões; muitas vezes, são os que têm mais claro o que querem.

A maioria das brigas entre crianças de idade semelhante ocorrem pela disputa de poder. Já que com os pais é mais difícil competir em função da autoridade que exercem, dão ordens e ditam regras ao irmão, primos ou colegas. Rivalizam como forma de autoafirmação: estão construindo sua subjetividade; querem saber o quanto sua palavra e vontade valem – algo que, em grande maioria, se estende até a adolescência e, para alguns, a vida toda.

As desavenças ocorrem, também, porque as crianças estão aprendendo a dividir: a atenção das pessoas queridas – pais, amigos, avós, professora –  os brinquedos, o espaço em comum. Quando se desentendem, cada qual a sua maneira, estão pedindo respeito e, gradativamente, vão aprendendo a respeitar o próximo e a resolver conflitos. São nestes momentos de desacordos, que as crianças aprendem (se alguém ensina) sobre as diferenças entre as pessoas.  Aprendem que o outro pensa, sente e tem desejos e vontades que, muitas vezes, não condizem com as suas.

Ensinar as crianças a resolverem as divergências de forma civilizada não é tarefa nada fácil. Adultos intervêm e repetem milhares de vezes:  “Não faça isso com seu irmão”, “Não precisa brigar, converse com sua amiguinha”, “Empresta seu brinquedo.”, “Vão brincar juntos.”, “Você não está usando, deixe seu primo brincar”, “O que você fez”, “Peça desculpas.”, “Agora é a vez do seu irmão, depois mamãe te pega no colo.” Para pais, um exercício de paciência; para crianças, um treino constante.

De alguma forma, para o aprendizado da criança, a intervenção, direta ou indireta (após o episódio ou quando não se presencia a cena), se faz necessária. Precisamos lembrar que as crianças (até aproximadamente 7-8 anos de idade), até pela sua imaturidade, falam com o corpo e, neste sentido, as brigas físicas, e mesmo as brincadeiras de mão, são uma forma de expressão e comunicação. Além disso, muitas vezes, utilizam o corpo para testar sua força/poder e, por não terem noção dela, não se dão conta de que o outro pode se machucar e sentir dor – algo que precisa ser ensinado desde que as primeiras brigas começam a acontecer.

Em algumas situações, onde a criança vive apanhando das outras, às vezes é preciso deixá-la brigar para ela aprender a se defender e a colocar limite para si e para o outro. Porém, em casos onde há agressões mais fortes, é importante separar as crianças fisicamente, deixando passar o estresse emocional para, quando mais calmo, sem tantas reações impulsivas e exacerbadas, conversar com as crianças juntas.

Ao falarmos em intervenção, devemos entender que intermediar não é tomar partido de uma das crianças ou brigar com quem brigou.  Intermediar uma briga é ouvir e tentar estabelecer um diálogo (olho no olho, falando baixo e com respeito) que imponha limites e rompa com as situações de rixas e disputas, até que a criança, quando mais velha possa fazer isso por si só, sem ter que partir para o ataque físico.

Diante das brigas entre crianças, o adulto deve manter-se imparcial o máximo possível (quando não se fere regras sociais, de convívio e de segurança física), principalmente onde as desavenças são causadas por questões subjetivas, sem que haja certo e errado, vítima ou culpado. A intervenção vem para mostrar às crianças que serão ouvidas em suas necessidades e razões, sem que necessitem se alterar. Nestes casos, o que vemos frequentemente, é que, passado o atrito, as crianças logo voltam a se entender e continuam brincando e se gostando, querendo estar juntas. Pois como dizem, amor e ódio caminham juntos, e relacionamentos apresentam conflitos e desacordos.

Pais não são juízes que defendem ou acusam as partes. Eles devem avaliar a situação de forma que ambos os lados possam assumir sua responsabilidade pelo ocorrido e, se necessário, fazer um pedido de desculpas (sem humilhações, mas permitindo a criança tomar consciência de suas atitudes).

Diante disso, vale ressaltar que, a infância é alicerce para a vida adulta; os aprendizados adquiridos nesta época moldam as pessoas e as ensinam a se relacionar socialmente, fazendo valer a si e ao outro, sem que precisem sair na pancadaria, gritar e desrespeitar o próximo. Isto, devemos aprender desde muito cedo.

“O reizinho mandão”, livro de Ruth Rocha

Cala boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu!

Em um reino muito distante, toma posse um reizinho, criado por uma mãe que fazia todas as suas vontades,  mimado, cheio de si, mandão e birrento. O reizinho, era muito chato, criava leis próprias e, diante de qualquer objeção, mandava todos calarem a boca. Com medo de levar bronca do déspota, as pessoas ficavam cada vez mais quietas até que, um dia, todos no reino perderam a voz.

Não demorou muito, o reizinho passou a falar e a ficar sozinho, algo que o entristeceu muito.  Em busca de uma solução, ele procura um velho sábio, que lhe diz o que é preciso fazer para que as pessoas voltassem a falar e se tornarem felizes novamente.  Quando isso acontece, o reizinho vira sapo e, há quem diga que ele anda perambulando sozinho por aí a espera de uma princesa que o transforme em príncipe.

O livro é uma ótima oportunidade para as crianças pensarem sobre atitudes egoístas, prepotentes e arrogantes, bem como sobre comportamentos birrentos e autoritários.  Uma ferramenta para se trabalhar junto à criança valores de atitude (respeito mútuo, limites, igualdade e liberdade de expressão) e sociais (democracia). Para aqueles pais que também já se viram como um reizinho mandão, este livro serve como uma ótima reflexão.

O reizinho mandão / Ruth Rocha; ilustrações Walter Ono. São Paulo: Salamandra, 2013.

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Faixa etária sugerida: 3-6 anos (leitura compartilhada) e dos 7-10 anos (leitura pela criança).

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