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O post “A mulher que matou os peixes”, livro de Clarice Lispector, escrito por Renata Grinfeld, é um dos textos pesquisados para a resenha do livro no site InfoEscola.

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“O balde das chupetas”, livro de Bia Hetzel

Por Anamaria Salvador*

Com muita cor e linguagem simples, Bia Hetzel e Mariana Massarani abordam um dilema vivido pela maioria das crianças: a hora de deixar a chupeta. Encarado por muitos pais e pelos pequenos como sinônimo da transição de bebê para criança, o abandono de objetos acalentadores, como a chupeta, a mamadeira e o paninho, é vivido de modo muito diferente de uma criança para outra. Algumas os deixam de lado facilmente. Outras, no entanto, relutam, sofrem, fazendo deste momento quase um martírio.

Joca já é um “meninão”; por isto, sua mãe, pai, avó e irmã fazem de tudo para que ele abandone sua “pepeta”. Mas nada funciona. Um dia, sua tia apresenta-lhe o mágico “balde das chupetas”, que transforma as “pepetas” em um presente – de um “abraço de urso” a um brinquedo – a ser escolhido pela criança. Assim, Joca consegue deixar a amiga no balde na companhia de outras chupetas. Mas, avisa que não vai fazer o mesmo com seu “soninho”, o bonequinho, desenhado com características humanas (braços, pernas e sorriso), que ele usa para dormir.

Embora o livro sugira a troca como uma estratégia para o abandono da chupeta, nem sempre ela precisa ocorrer. Quando acontece, ela não deve ser uma grande troca, com brinquedos caros ou objetos difíceis de adquirir, mas sim uma troca simbólica que marque o crescimento da criança.

Um alerta importante que o livro traz é que o abandono dos objetos de apego devem ser feitos um por vez e com o consentimento da criança. Respeitando o ritmo dela, as chances de sucesso aumentam, especialmente porque, mais amadurecida, a criança começa a ser capaz de sentir-se segura e confortável mesmo sem estes objetos.

Ouvindo a história  de Joca com sua “pepeta” e “soninho”, as crianças podem sentir-se encorajadas a trilhar um caminho parecido com o deste “meninão”.

O balde das chupetas / Bia Hetzel, ilustrações de Mariana Massarani. Rio de Janeiro: Manati, 2011.

Faixa etária sugerida: 2 a 5 anos (leitura compartilhada).

o balde das chupetas

*  Psicóloga (CRP 06/103027) formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2009) e aprimoranda em psicoterapia infantil pela PUC/SP. Atua como psicóloga clínica e acompanhante terapêutico.

Um significado para “presentear”

Com a aproximação do primeiro aniversário do Ninguém cresce sozinho, trazemos uma breve reflexão sobre o que é presentear, inspirada na poesia “O menino que ganhou um rio”, de Manoel de Barros[1].

Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu irmão
Ela daria uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore do meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore deu flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!
 

O que parece falta de opção – afinal, os mascates não passavam naquele lugar esquecido – revela a incrível capacidade da mãe de presentear (e surpreender).

Um presente pode ser algo que faz parte do cotidiano e que ganha um colorido diferente em uma data especial. Ele não precisa ser manufaturado, caro ou vir de longe. Um presente precisa ter a plasticidade de alimentar, transformar, divertir, permitir brincar, imaginar e reinventar. Um presente precisa carregar consigo a união, o afago e a troca. Um presente precisa ser como um rio, ou uma árvore…


[1] In: Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros / Manoel de Barros, iluminuras de Martha Barros. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.

A partir de que idade deve-se começar a colocar limite nas crianças?

Muito se fala sobre colocar limite para as crianças, mas o que é isto? Qual o significado prático desta palavra tão pequena que tem poder e valor tão grandes?

Limite é aquilo que demarca, separa e finda territórios, sejam eles físicos ou psíquicos. Embora ambos sejam vitais para todos os seres humanos, a delimitação física é quase sempre percebida e posta em prática com mais clareza do que a delimitação psíquica. Isto porque os limites no campo físico são mais objetivos e evidentes do que aqueles que vão sendo desenhados em nível psíquico.

Não é difícil reconhecer o motivo do limite quando dizemos “não ponha o dedo na tomada, dá choque” ou “não atravesse a rua sem dar a mão para um adulto, um carro pode não te ver”. O limite está claro e preza, acima de tudo, a integridade física da criança. Portanto, é uma forma de cuidado, proteção e alerta diante dos perigos e riscos existentes. Quando justificados, vão ensinando às crianças sobre o funcionamento das coisas em geral, além de autorizar a exploração do ambiente com riscos nulos ou minimizados. Assim, sabendo o que pode ou não, os incessantes “nãos” perdem força ou sentido, dando à criança a possibilidade de escolhas e, portanto, de se tornar cada dia mais independente.

Ao contrário da ideia de impedimento, os limites físicos demarcam ordem, rotina, disciplina e, inclusive, possibilidades, o que ajuda a criança a se organizar física e emocionalmente. Por isto, desde bebês é importante começar a instalar horários regulares para dormir, tomar banho, alimentar, brincar, ir para a escola, assistir TV, fazer a lição de casa, entre tantas outras atividades.

O limite físico vai muito além de um organizador espaço-temporal, uma vez que ele é a base para a constituição do mundo psíquico, direcionando o comportamento e as emoções manifestadas pelas crianças.  Através das delimitações físicas as crianças vão aprendendo a se conhecer e a se relacionar. A partir das trocas com o ambiente e das experiências vividas nele, elas vão explorando, questionando, experimentando e percebendo que há algo além de si mesma, assinalando, assim, as fronteiras entre si e o outro (mundo e pessoas).

De forma prática, isso é demonstrado quando o adulto delimita o espaço egocêntrico infantil, ou seja, a fase onde a criança está centrada em si mesma, tendo o outro como sua extensão, pronto a responder às suas demandas. Os limites demonstram à criança a realidade – marcada por leis, regras e valores – e a existência de subjetividades, definida por necessidades, vontades e identidades diferenciadas. Isto é percebido pela criança quando, por exemplo: ela solicita colo e o adulto não a pega; ir para a cama dos pais e estes a levam novamente para seu quarto; quando os adultos não compram ou dão à criança tudo que ela quer e solicita, mesmo que ela faça birra ou chore, delimitando estes e outros comportamentos manifestados pela criança. A grande questão envolvida aqui, não está na negativa, mas em atitudes do adulto, que demarcam para a criança o território a ser explorado, seja ele físico ou emocional, de maneira firme e afetuosa; atitudes que representam uma permissão ou autorização dada a ela diante das possibilidades existentes em uma determinada circunstância.

Estes continentes físicos, emocionais e sociais começam a serem traçados desde muito cedo na vida de um ser humano e se entrelaçam constantemente, sendo estabelecidos mesmo que ele não tenha total percepção do que está sendo circunscrito. As crianças passam a respeitar os limites impostos porque entendem sua importância, quando o ambiente lhe proporciona suporte para que ela possa compreender aquilo que está sendo demarcado.  Porém, muitas vezes, as crianças obedecem aos limites por temor à autoridade ou pelo medo da “não aceitação” do adulto. Mas, invariavelmente, ultrapassam e questionam o limite imposto, testando a si (suas capacidades e autonomia) e ao outro. Frente a um limite, as crianças podem se tornar agressivas, autoritárias e/ou birrentas, negando, contestando ou recusando as delimitações, as regras e os riscos existentes. Deve-se entender que a atitude contestadora da criança indica que ela está experimentando se posicionar de forma singular no mundo; porém, demarcá-las é fundamental para que ela não perca a noção da realidade que a cerca.  Diante disso, o adulto, de maneira firme, acolhe a criança, repetindo a atitude modeladora que autoriza ou não determinada ação ou comportamento, até que elas assimilem e passem a respeitá-la.

Estabelecer a forma de intervenção junto à criança é tarefa relacional (entre o adulto e a criança) e varia de acordo com a situação, a capacidade de entendimento da criança e a maneira como o adulto demonstra a presença de um limite.  Rigidez por um lado ou permissividade por outro, onde está o equilíbrio entre o “sim” e o “não”, entre as possibilidades e os limites, quando adultos delimitam o território físico e psíquico da criança?

Adultos que inserem limites com rigidez, de forma negativista ou impositiva, repreendendo e até mesmo sendo punitivos, podem inibir o processo exploratório da criança e baixar sua estima e valor próprio. Por outro lado, adultos permissivos demais, frente à demanda da criança, a deixa mal acostumada e cheia de vontades nada pertinentes, abrindo precedentes e perdendo credibilidade.  Muitas vezes, crianças parecem indisciplinadas, mas o que estão demonstrando é esta falta de continência física e emocional tão necessária para que se organize e se oriente diante das possibilidades oferecidas a ela.

Neste sentido, mais que falar “sim” e “não”, ou “pode” e “não pode”, a atitude coerente e consciente do adulto é relevante para que a criança possa entender e aprender a respeitar os limites estabelecidos, tão essenciais ao seu crescimento e formação de sua identidade.

“Como nasceu a alegria”, livro de Rubem Alves

“O que muda não é a diferença. São os olhos…”.

Encantadoramente e de forma poética, mas sem deixar a realidade de fora, Rubem Alves aborda a dor “do ser diferente” e o olhar do outro sobre estas diferenças.

Em meio a um jardim, cheio de flores vaidosas e perfeitas, nasce uma flor com uma de suas pétalas cortada por um espinho. Todos a olham com espanto, o que a faz perceber sua diferença, sentindo-se envergonhada e muito triste com tantos olhares questionadores. O que dói não é a diferença, mas sim, o olhar do outro. Cansada de tantas explicações sobre sua diferença – “eu nasci assim” – que a fazem sofrer, a flor chora. Nunca nenhuma outra flor vaidosa e infeliz havia chorado na terra.

Comovida com o choro triste daquela flor, toda terra (árvores, pássaros, anjos e nuvens) chora também, causando um reboliço por todos os lados. A transformação começa a acontecer: da lágrima à chuva, rios e peixes; da tristeza da flor à sua alegria por se sentir querida por todos. Sorridente, como nenhuma outra flor, seu perfume exala. Esta é a sua diferença: todas as outras flores igualmente infelizes e sem sorrir nunca haviam exalado perfume. De um cheiro contagiante, que atrai os bichos e as crianças, nasce, a partir da tristeza, o sorriso e a alegria.

Em meio à igualdade, a “diferença” revela a maneira singular e bela de cada um ser no mundo.

Com esta história, o autor nos fala sobre o medo do olhar dos outros – um sentimento universal. Uma lição de como superar o sofrimento e transformá-lo em alegria, posicionando-se no mundo cada qual com seu diferencial.

Este livro é ótima ferramenta para trabalhar a singularidade e a diversidade através de conversa sobre os sentimentos de tristeza, rejeição e preconceito. É também recomendado inclusive para pais que sentem a dor da diferença vivida pelos seus filhos.

Como nasceu a alegria / Rubem Alves; ilustrações de Roberto Caldas. São Paulo: Paulus, 1999.

Faixa etária sugerida: a partir dos 4 anos (leitura pelo adulto) e a partir dos 8 anos (leitura pela criança).

como nasceu a alegria

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