“Papai Mamãe e Eu: O desenvolvimento sexual da criança de zero a dez anos”, livro de Marta Suplicy

Este é um clássico e bom livro sobre o desenvolvimento e manifestações da sexualidade do nascimento à puberdade. Sua relevância está em informar e orientar pais e educadores que vivem, além das angústias, situações embaraçosas e inquietantes frente às experiências sexuais vividas pelas crianças.

A autora convoca pais e educadores a refletirem sobre conceitos, vergonhas, tabus e sentimentos que guiam suas condutas pessoais e podem interferir na ação direta com a criança. A todo instante, reforça a importância do diálogo franco, norteado pela veracidade da informação e acolhimento, sempre de acordo com o interesse manifestado pela criança.

Marta Suplicy inclui neste livro o cuidado que devemos tomar em relação às experiências de vulnerabilidade vividas pelas crianças dentro e fora de casa (como a nudez, dormir na cama dos pais e exposição a cenas erotizadas), lembrando-nos sobre a importância de proteger as crianças de situações de riscos físicos e emocionais.

No final do livro, há uma sessão especial dedicada à orientação sexual na escola, bem como um ótimo material didático, na forma de pranchas destacáveis, para ser usado durante as conversas e indagações cotidianas sobre a sexualidade humana.

Papai, Mamãe e Eu: O desenvolvimento sexual da criança de zero a dez anos / Marta Suplicy. São Paulo: Editora FTD, 1999.

Faixa etária sugerida: de 3 a 6 anos (leitura compartilhada) e de 7 a 10 anos (leitura pelas crianças). Recomendado leitura para pais e educadores em geral.

 8532242456Gr

__________________________________________________________________________________________

O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

__________________________________________________________________________________________

Anúncios

Castigo pode não ser um tapinha, mas dói e não constrói

Desde que a “Lei da Palmada” (lei 7.672/2010) foi aprovada em 2011, ficou proibido o uso de castigo corporal ou de tratamento cruel ou degradante à criança ou adolescente como meios de educar ou cuidar. No entanto, gostaria de apontar o quanto o castigo não corporal, embora tenha intenção reparadora, é também uma repreensão violenta, na medida em que aprisiona os envolvidos num modelo imperativo, isento de reflexão, diálogo e aprendizado.

Observando qualquer cena doméstica que desencadeia o castigo, podemos perceber o quanto ele é uma reação escancarada dos pais frente à frustração, impotência, humilhação ou outras vivências experimentadas em decorrência da “desobediência” dos filhos. Diante da privação de terem “bons filhos”, os pais respondem com a mesma moeda, fazendo com que meninos e meninas sintam, assim como eles, que estão perdendo aquilo que prezam, desejam ou gostam muito. Daí a conotação punitiva-corretiva do castigo: privar para corrigir.

Quando pais e filhos agem da mesma maneira, o autoritarismo vem vestido de autoridade, confundindo imposição unilateral com ordem e respeito. Silenciados com seus sentimentos, ideias, questões e, em muitos casos, vivenciando uma culpa que não lhes pertence, temos assistido a crianças e adolescentes sendo colocados de castigo sem compreenderem seu real motivo, ou em dúvida se seu “erro” merecia uma intervenção tão drástica. Com a mesma frequência, vemos pais desfazerem sua própria fala por não sustentarem sua imposição ou por perceberem que fizeram “muito barulho por pouco”.

A resposta dos pais frente a uma atitude/comportamento do filho depende diretamente da sua capacidade de tolerá-la naquele momento (tolerar no sentido de aguentar, num tempo em que se avalia o que acontece antes de agir, e não no sentido de permissividade). Não raro, os mesmos pais, diante de situação idêntica ou semelhante, reagiriam de outra maneira, o que acaba confundindo a criança/adolescente com a ambiguidade da mensagem transmitida. São os famosos “uma hora pode, outra não” e “por tão pouco, um castigo, por muito, não se faz nada!”.

O resultado da atitude impensada desses pais tem sido respostas semelhantes por parte de seus filhos: disputa e comportamentos autoritários isentos de consequências. Sem considerar que as atitudes têm efeitos – positivos ou não – pais e filhos entram num círculo vicioso, que, ilusoriamente, tenta ser rompido com a aplicação de castigos cada vez mais severos (quando não, a palmada ou outras formas de agressão física).

Se de um lado a violência silenciosa da imposição ensina a criança e o adolescente a também se imporem de forma violenta e autoritária, dentro e fora de casa, de outro, ela abole a oportunidade de uma reparação efetiva. Ao invés de “aprender com o erro”, aprende-se, quando muito, a tolerar ficar sem, ou, o que é pior, busca-se incessantemente substitutos para aquilo que lhe foi tirado –  não me refiro aqui às coisas materiais, mas à atenção, carinho, respeito, afeto, individualidade e tantos outros atributos de ordem emocional.

Cortar o mal pela raiz não é castigar, mas é criar oportunidades para o diálogo, a reflexão e o aprendizado de que as atitudes e comportamentos trazem consequências para si e para o outro. Ao se sentirem minimamente violentados, a criança e o adolescente são autorizados e reforçados, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, a agir da mesma maneira. Por isto, a palavra sempre é a melhor forma de correção. Se um castigo funcionou pela via da privação, não foi pela ação em si, mas pelo que o permeou. Provavelmente, aquela conversa que veio depois, ou aquela, mais aquela e aquela outra…

“Temores à beça”, livro de Tatiana Belinky

Entre bruxo, assombração, fantasma, cataplasma, esqueleto, caveira, inferno, pirata da perna de pau, cão louco, baleia e valente, Tatiana Belinky utiliza-se dos limeriques (poemas com cinco versos) para falar sobre o que assusta, apavora, causa furor, espanto, dor, morte, fuga e perigo de vida através de divertidas situações:

• as que não nos assustam, mas a assustamos;

• as que assustam, mas só por brincadeira (mesmo que seja brincadeira de apavorar!);

• as que, mesmo banais, causam dor;

• as que assustam, mas não nos afligem;

• as que de tanto temermos, viram conselho;

• as que nos colocam num beco sem saída, até que uma “voz” nos traz para a realidade;

• as que moram dentro da gente feito assombração;

• as que são grandes, mesmo parecendo pequenas;

• as que assustam até gente valente!

As rimas brincam com os medos, medinhos e medões, possibilitando de maneira bem descontraída um diálogo a partir dos temores de cada criança.

Embora o livro abranja “temores” e não de um temor específico, ele pode ser desencadeador de um bom bate papo com crianças que fazem xixi na cama, já que uma das rimas aborda o tema. Também, é um ótimo recurso quando o assunto é “como se proteger de algo que se tem medo”.

Terrores à beça / Tatiana Belinky; ilustrações de Jefferson Galdino. São Paulo: Noovha América, 2009.

Faixa etária sugerida: 3-6 anos (leitura compartilhada) e 7-10 anos (leitura pela criança).

Sentimentos ambivalentes vividos na gravidez

Durante a gestação, a mulher vivencia sensações e sentimentos dos mais variados tipos. Alguns, comuns e conhecidos, são geralmente compartilhados; outros, no entanto, por serem íntimos, estranhos e até mesmo assustadores, acabam sendo silenciados e/ou escondidos.

A gravidez é marcada pela ambivalência de sentimentos e pensamentos que vêm e vão, independente dela ter sido ou não planejada e/ou desejada: aceitação/rejeição, desejo/não desejo, segurança/insegurança, eu/outro, dependência/independência, potência/impotência, ganhos/perdas e por aí vai.

Invariavelmente, as mulheres são rodeadas por sentimentos que as deixam sensibilizadas e, algumas vezes, ensimesmadas, com uma ponta de preocupação misturada com alegria e/ou euforia e tormentas de medos, ansiedades e angústias. Há mulheres que não sentem nada disso, mas, em maior ou menor grau, vivenciam sensações físicas e emocionais intensas. Muitas gestantes sentem enjoos, aumento de peso e de apetite durante o primeiro trimestre e, estrias, dores nas costas, inchaço, cansaço, azia, sono ou dificuldade para dormir, no final da gestação. A avalanche de hormônios, presentes no processo gestacional, mexe não apenas com seu físico, mas também com seu estado de ânimo, deixando algumas mulheres incomodadas e, muitas vezes, irritadas.

Mas, não são somente os hormônios os responsáveis pela “desordem” emocional vivida pela mulher durante a gestação. Fatores psicológicos interferem no processo gestacional e na maneira como cada uma vai lidar com este momento de profundas transformações. Todas estas mudanças provocam sensações de estranhamento, seja pelo natural e belo, seja pelo sentimento de perda, que balança a autoimagem e a identidade da gestante como filha, mulher, irmã, amiga, esposa e profissional.

Sempre há tropeços, dúvidas e conflitos, mais ou menos intensos, dependendo dos fatores intervenientes e particulares de cada uma – a história de vida passada, presente e as preocupações com o futuro.

As inseguranças surgem e podem estar relacionadas a sentimentos pessoais como perdas e  fantasias de morte e abandono. As lembranças e o passado retornam com força. As gestantes revivem e resgatam os aspectos positivos e negativos de sua infância, avaliam o papel exercido (ou não) pela sua mãe e seu pai e, como filhas, buscam modelos de referência para se tornarem mães.

Muitos medos e angústias vividas na gestação são comuns e recorrentes, como por exemplo, aborto, dor ou morte no parto, problemas com a saúde da mãe e má formação do bebê, machucar o feto no ato sexual, entre outros. As futuras mamães se perguntam: Será que vou dar conta do recado e ser boa mãe, saber cuidar do(s) meu filho(s)? E o trabalho, minha carreira, como ficará? Meu corpo voltará a ser o mesmo? Minha sexualidade e libido continuarão existindo? Meu marido ou companheiro compreenderá e aceitará todas estas modificações e continuará sentindo tesão por mim?

Muitos destes sentimentos inquietantes podem se tornar incompatíveis neste momento tão “especial” de uma gestante, que, muitas vezes, se vê obrigada a demonstrar felicidade a todo o momento, mesmo diante dos desconfortos, do desconhecido e da ambivalência. Algumas emudecem, sentem vergonha e vivem “sozinhas” este momento de impasses, sentindo-se incompreendidas e vulneráveis, aumentando ainda mais seus conflitos. Outras explodem, mas não conseguem nomear o que estão vivendo. Na solidão destas experiências se questionam: Deveria estar sentindo tudo isso?  Verdades e mentiras são constantemente questionadas .

Se as gestantes têm um bom médico, um cônjuge ou uma família estruturada que as acompanham e acolhem, as angústias, dúvidas e inquietações amenizam-se momentaneamente. Mas, logo podem surgir as opiniões parciais, julgamentos, comparações, palpites, cobranças e expectativas sobre a grávida, que podem deixá-la ainda mais vulnerável. Os discursos muitas vezes não estão em sintonia. Entre as amigas, irmãs, tias, avós, mães, sogra e cunhadas, que já tiveram ou não a experiência da gestação, muitos dos sentimentos ambivalentes e fantasias vividos por elas podem ser ocultados ou até mesmo rechaçados, acreditando que esta é a melhor forma de proteger a gestante contra estas sensações e sentimentos dúbios e ambivalentes.

Mas, do que estão querendo preservar a gestante? Quanto mais consciência e informação ela tiver, mais fácil será para ela gerir seus sentimentos e sensações, adaptando-se a esse momento tão singular, sem negar as vivências tidas durante a gravidez, sejam elas gratificante ou desconfortáveis e desarmônicas. Sensações e emoções manifestas ou latentes não devem ser relegadas a segundo plano, pois podem gerar estresse e desgaste emocional, que influenciarão na gestação do bebê.

Quanto antes a futura mãe se deparar com a ambivalência, mais preparada ela estará para cuidar de si e do bebê, sendo capaz de reconhecer seus sentimentos sem se sentir ameaçada, tendo, assim, mais condições de enfrentar as adversidades. Vale ressaltar que estar em “êxtase” constante com a gravidez e só vivenciar sentimentos positivos em relação a ela, não garante uma boa gestação e maternagem. Aliás, muitos destes sentimentos gratificantes são reforçados para encobrir os medos e angústias vividos pela grávida.

Em nossa cultura, é comum reforçar a inexistência do desconforto emocional vivido na gravidez, com conceitos e valores pré-existentes e alguns tabus, inclusive religiosos, enfatizando os aspectos positivos que, independente de qualquer dor, é visto como uma benção. Se há algum aspecto negativo, certamente este não é atribuído a esta mulher, sendo colocado para fora dela. Porém, o que estas mães mais querem é alguém que as ouçam e as compreendam, sem julgamentos e preconceitos, sem cobranças e comparações. Afinal, cada gravidez é uma, o momento é único (mesmo que a mulher já tenha vivenciado outra gestação) e, em muitos aspectos, não pode ser julgada de forma genérica.  O apoio familiar e do companheiro, quando presentes, são essenciais diante das necessidades, não somente física, mas emocionais da gestante. Ao homem e à família – que também são impactados com a gravidez – quando participativos, cabe o acolhimento pela nova condição da mulher.

Em alguns casos, recorrer à ajuda psicológica se faz necessário para que esta grávida possa entender melhor o que está acontecendo e elaborar conteúdos emocionais vividos por ela: alguém que a escute e ajude a perceber, nomear e tomar consciência daquilo que está obscuro e impedindo de viver este momento tão singular e especial. Afinal, cada mulher é única em suas experiências na gestação e ao longo da maternidade.

O NCS completa hoje seu primeiro aniversário!

??????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????

Um ano já passou
passou depressa voou! (…)

Com este comecinho da música “Eu, um ano de sucessos”, de Hélio Ziskind, álbum Cantigas de Roda (MCD World Music, 2004) comemoramos o primeiro aniversário do Ninguém cresce sozinho. Um projeto pequeno, nascido de um sonho grande: acreditar que o mundo pode ser melhor, desde que tenhamos pessoas melhores. Isto significa, entre tantas coisas, ter pais e mães cada vez mais implicados na educação de seus filhos.

Aos nossos leitores, seguidores e colaboradores, nosso muito obrigada  pelo carinho e confiança. Seguimos juntos em mais um ano cheio de questionamentos, novidades e aprendizado.

Um abraço,

Patrícia e Veronica

%d blogueiros gostam disto: