“O segredo é não ter medo”, livro de Tatiana Belinky

Uma das coisas mais gostosas em Tatiana Belinky é sua maneira poética e natural de falar sobre temas muitas vezes evitados ou disfarçados. Com ela, pau é pau, pedra é pedra. Se acabou, acabou, como é na vida. Em O segredo é não ter medo, não poderia ser diferente. A morte existe e não há como fugir das verdades inerentes a ela.

Nas catorze quadrinhas ilustradas por Guto Lacaz, a autora sai do foco da morte como sinônimo de fim do ciclo da vida e aborda outros significados atribuídos à mesma palavra – cabular, transformar, demasiar – sem deixar de mencionar sentimentos que a morte provoca, o tempo e lugar que ela acontece e ocupa, sempre fazendo contraponto com a vida.

Morte não significa apenas fim. Este livro pode ser um ponto de partida para “descobrir” e brincar com os significados que a morte tem em cada situação da vida.

O segredo é não ter medo / Tatiana Belinky; ilustrações de Guto Lacaz. São Paulo: Editora 34, 2008.

Faixa etária sugerida: a partir dos 6 anos.

 

Pano é brinquedo!

Entre os brinquedos de seu filho, existe um que não pode faltar: um pedaço de pano macio, molinho. O pano tem a plasticidade de poder assumir qualquer uso e  forma.

Quando bebês, o pano não precisa ser muito grande (uma medida boa é mais ou menos 30×30 cm). Ele serve de acalento – daí serem arrastados por todos os cantos por onde o bebê circula – e permite a brincadeira do “Cadê? Achou!”. Através do “desaparece-aparece” a brincadeira simula os momentos de separação entre o bebê e seu cuidador, ajudando-o a suportar tais situações.

Quando maiorzinhas, os panos ganham tantos usos quanto os permitidos pela imaginação: cabana, coberta, capa se super-herói, vestido de princesa, lenço de pirata, sling de boneca, tipoia de braço, balanço e por aí vai. Quanto mais pano, mais encantamento e diversão!

Xixi no trono, cocô na fralda

Tenho escutado relatos de pais bastante angustiados porque seus filhos, na época do desfraldamento, aprendem com êxito a usar a privada ou penico para fazer xixi, mas pedem a fralda para fazer cocô. Algumas destas crianças, inclusive, já não usam mais a fralda noturna.

Não me refiro aqui a situações em que existe algum fator fisiológico intervindo no treino esficnteriano, nem a situações em que a fralda foi retirada precocemente ou que houve mudanças significativas na vida da criança, como o nascimento de irmão ou entrada na escola. Minha atenção recai às crianças que tudo corre bem, com exceção da recusa em usar o vaso sanitário ou troninho para fazer cocô.

Embora cada criança apresente um ritmo próprio de desenvolvimento e aprendizagem, que deve ser respeitado, existem algumas estratégias que podem facilitar a transição do uso da fralda para o uso da privada ou penico. A primeira delas, sem sombra de dúvida, é a paciência!

Algumas crianças se assustam com o barulho da descarga ou relatam medo de cair na privada, com base na fantasia de que qualquer coisa pode passar pelo buraco que leva ao esgoto, como seus bens estimados (por exemplo, seu cocô) ou ela mesma. Absurdo? Não para uma criança que está descobrindo como ela e tudo a sua volta funciona. Por isto, é bom que a criança possa falar de seus medos e se certificar que eles não têm fundamento, a partir de sua própria constatação e não por um discurso pronto do adulto. Se o medo é do barulho da descarga, vale mostrar e falar sobre descargas e barulhos diferentes, longe dos momentos de defecação, até que se possa chegar nele. Na mesma linha da investigação, o vaso sanitário pode se transformar num grande laboratório em que imaginação se transforma em realidade. Colocar redutor de assento e/ou lançar objetos pequenos (que diluam na água), médios (do tamanho do cocô – preferencialmente o cocô da criança) e grandes (que não passam pelo vão que leva ao esgoto), pode ajudar a criança a compreender que nem tudo que cai na privada vai embora.

Mesmo que a criança tope sentar na privada ou no penico, nem sempre ela consegue fazer cocô, embora consiga fazer xixi. Como a urina se mistura com a água da privada (nem que seja no momento do seu descarte), a criança não vivencia seu xixi como uma “perda” e, por isto, não enfrenta a mesma dificuldade – já pensou que terrível é um “pedaço seu” ir esgoto afora?

Sem conseguir defecar na privada ou penico, essas crianças solicitam uma fralda para que nela possam fazer cocô. Quando a oferta da fralda é vetada pelo cuidador, restam-lhe algumas alternativas: evacuar na fralda noturna (hábito antes inexistente), na cueca/calcinha, no chão ou, a pior de todas, reter as fezes a ponto de, em casos extremos, a criança necessitar de lavagem intestinal.

Enquanto a recusa para usar o “trono” é temporária, muitos pais suportam-na. Mas, aos poucos, conforme as alternativas de negociação se esgotam, a situação vai se tornando insustentável, especialmente para os pais, que se sentem cansados, fracassados e impotentes diante de uma situação que parece não ter saída diferente de aguardar o amadurecimento da criança. O estresse toma conta de todos. A pressão diante da criança aumenta e o objetivo não é atingido. Cabe-nos, então, a pergunta: quem deseja que o cocô seja feito “trono”? Certamente, o adulto, responsável por transmitir à criança a norma social. É aqui que reside o grande enrosco.

Embora a recusa em fazer cocô na privada ou no penico tenha significados singulares para cada criança, não podemos esquecer que o controle dos músculos esfincterianos é uma experiência de controle (físico, mas também emocional) vivida intensamente por todas as crianças. Precisamos lembrar que xixi e cocô são nossas únicas produções que ninguém “tira” da gente. Por isto, por mais que o uso do troninho possa ser ensinado, aceitar ou recusar fazer cocô no local determinado pela cultura é de livre arbítrio para a criança – somente ela é capaz de decidir quando e onde quer fazer xixi e cocô.

Se de um lado tentamos ensinar uma regra sem desrespeitar o tempo da criança, de outro, corremos o risco de deixar que o tempo se encarregue de uma situação que, em geral, aponta para uma dinâmica em que a criança teme perder o controle que descobriu ter. Como este é o ponto central do cocô na fralda, cuidado: quanto maior a pressão, maior será a resistência da criança em deixar a fralda, já que esta é uma maneira de lutar pelo exercício de seu próprio controle. Em outras palavras, se a criança vive o controle como vindo de fora, se oporá a isto, na tentativa de afirmar que quem quer e pode controlar é somente ela.

Diferentemente do uso do vaso sanitário ou penico, a fralda não apresenta à criança nenhuma ameaça. Ela é conhecida. Dá a segurança necessária para relaxar e evacuar. Ao pedi-la, a criança tem uma atenção diferenciada no momento do pedido, atenção esta que ela pode temer perder. Ao mesmo tempo, na fralda, o cocô continua junto ao seu corpo, mesmo que por um tempo mínimo, não ficando escancarado ao olhar da criança e do outro, ativando a possível fantasia de que uma “parte sua” se desprende de seu corpo. Também, estando o cocô na fralda, a criança não perde a chance de presentear quem ama com sua “obra” – e, por consequência, em sua fantasia, perder o amor de quem ama.

Seja qual for o motivo subjacente ao uso da fralda para fazer cocô, mesmo com a criança conseguindo controlar os esfíncteres, sabemos que há temores que não estão sendo nomeados, bem como alguma forma de controle da criança perante o ambiente. Então, é preciso devolver isto à criança, falando dos supostos temores e ajudando-a a assumir seu controle com mais propriedade. Mesmo que não se saiba exatamente o que a impede de evacuar na privada ou vaso sanitário, é importante brincar com estas dificuldades através de desenhos, histórias, brincadeiras com bonecos. Quando o foco sai da pessoa da criança a conversa fica mais fácil para todos.

Uma técnica que costuma ajudar a criança se apropriar de seu controle é implicá-la na colocação e retirada da sua fralda (que deve ser colocada com a criança em pé e nunca deitada, remetendo à posição do bebê no trocador). Com 2 anos e meio ou mais a criança tem coordenação motora para colocar e tirar a própria fralda. Assim, na medida em que o controle do cocô passa a ser de fato seu, a criança pode se autorizar a exercê-lo sem meandros. Mesmo que nas primeiras vezes ela tenha que ter ajuda de um adulto, é ela quem deve colocar a fralda, retirá-la e depois jogar o cocô na privada (melecas fazem parte do processo de aprendizagem e crescimento!). É a criança quem deve estar no controle, e não o adulto.

Ao perceber que ela é responsável pelo seu cocô (e não quem põe e tira a fralda), que não perderá o amor de quem ama se não lhe presentear com uma fralda com cocô, a criança, em geral, consegue com êxito usar o “trono” também para fazer cocô.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre a retirada das fraldas. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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Para pensar # 02

Pais escrevem o seu próprio manual para educar seus filhos. A compreensão que eles têm em relação ao seu papel é, em certa medida, única. Criam, ao longo de sua trajetória enquanto pais, seus próprios conceitos e identidade. Exploram as experiências que vão surgindo, experimentam o que não se aprendeu no berço e certificam-se daquilo que já conhecem. Devem ainda, valorizar e abrir espaço para o novo/desconhecido.

Ser pai e mãe é poder moldar-se a partir de estruturas flexíveis, para avançar e crescer, aceitando os “erros” e incorporando os “acertos” como marcos construtivos.

Por que algumas crianças apresentam recusas alimentares? Como agir quando isto acontece?

Quando falamos em alimentação não podemos restringi-la apenas a seu aspecto físico-nutricional. O ato de alimentar diz respeito à satisfação/saciedade e também à comunhão. Está vinculado ao prazer, à energia de vida, que nutre física, emocional e socialmente. Através do alimento falamos sobre nós e sobre nosso relacionamento com o mundo.

Quando as recusas alimentares acontecem, devemos investigar:

  1. Causas orgânicas – problemas no aparelho digestivo e respiratório, incluindo as intolerâncias alimentares e todas questões ligadas à boca.
  2. Hábitos alimentares – a rotina, o local, os horários regulares e o que é consumido dentro ou fora de casa, revelam a maneira como nos alimentamos. As recusas e aceitações alimentares estão relacionadas aos costumes e às possibilidades que nos são dadas desde crianças. Por isso, o modelo familiar exerce tamanha influência nos hábitos alimentares.
  3. Alimento como compensador afetivo e acalentador emocional – muitas pessoas comem ou perdem o apetite porque estão ansiosas, tristes, frustradas; outras porque estão alegres e eufóricas, de forma consciente ou não. Em algumas situações, o alimento, incluindo as guloseimas, tampona um vazio emocional, servindo de “companhia” para crianças ou adultos.
  4. Rejeição, imposição ou negação – conflitos emocionais pessoais ou intrafamiliares podem interferir diretamente na alimentação, especialmente nas situações de mudanças, brigas, perdas e separações.
  5. Moeda de troca – o alimento pode servir como forma de oposição e chantagens para se obter algo em troca. O uso do alimento como troca pode vir do adulto ou da criança. Muitos pais dizem: Se você se comportar eu te dou um chiclete! E muitas crianças retrucam: Se eu comer tudo eu posso ir na piscina?
  6. Falta de limite – diante da dificuldade na alimentação, muitos adultos acabam cedendo e autorizando as restrições feitas pelas crianças. Da mesma forma, o alimento oferecido fora de hora atrapalha a disciplina alimentar, não favorecendo o apetite durante as refeições.

Isto nos mostra que, as escolhas feitas pela criança, na maioria das vezes, ocorrem com consentimento do adulto, seja porque o adulto comprou ou fez o alimento e disponibilizou a ela, seja porque não estimulou a possibilidade dela experimentar outros alimentos ou formas de se alimentar.

Então, o que fazer diante das recusas alimentares que não apresentam causas orgânicas?

  1. Buscar entender o “por que” e não se contentar com um simples “não gosto” ou “não quero”, dando à criança aquilo que ela quer, como forma de mantê-la alimentada. A ansiedade do adulto diante das recusas feitas pela criança interfere consideravelmente no processo alimentar. Pais aflitos e impacientes cedem rapidamente ou abrem muitas exceções.
  2. Estabelecer rotina e hábito alimentar regular e saudável, com horário e tempo demarcado – inclusive de duração das refeições – evitando assim, a grande oferta de alimentos fora de hora.
  3. Propiciar as refeições compartilhadas e em um ambiente afetivo, confortável e sem muitos ruídos, de forma que a criança não tire sua atenção do alimento. Esta conduta propicia à criança maior aceitação e novas experimentações, além de ter a oportunidade de provar os alimentos repetidamente, encorajando-a, também, a comer aquilo que ela não conhece.
  4. Não permitir que a criança faça muitas escolhas. As negociações existem dentro de uma gama de variedade que lhe é oferecida, respeitando o direito da criança ter preferências (por exemplo, ela pode escolher entre banana ou maçã, mas uma fruta deve ser ingerida) e aversões (há crianças que recusam um alimento por intolerância, mesmo não “diagnosticada”). Vale ainda, não forçar demais, ameaçar, punir ou obrigar a criança comer.
  5. Não oferecer recompensas e agrados, inclusive quando a criança apresenta resistência, pois estas atitudes reforçam a recusa alimentar, além de provocar estresse e desgaste em toda a família.
  6. Evitar quaisquer subterfúgios como os famosos “aviãozinhos”, ou só comer em frente à TV, uma vez que desprendem a atenção da criança dos alimentos e impõem rituais e condições desnecessárias para que ela se alimente.

Assim, entendemos que a alimentação envolve aprendizado e afeto. Como o ato de alimentar-se diz respeito à dinâmica de cada criança e desta com seu ambiente, as recusas alimentares podem envolver aspectos muito particulares. Mas, vale dizer que, alguns transtornos alimentares, principalmente aqueles que acarretam prejuízos ou doenças de ordem física e emocional, merecem uma atenção especial.  Nestes casos, é importante uma avaliação médica e psicológica para identificação das dificuldades apresentadas pela criança e/ou família.

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