“Lilás, uma menina diferente”, livro de Mary E. Whitcomb

Aos olhos de uma turminha de escola acostumada a ver o mundo apenas sob sua própria lente, Lilás, a nova aluna do grupo, era um tanto esquisita. Enquanto todos presenteavam a professora com presentes comprados, Lilás a presenteou com um presente feito com suas próprias mãos. Seu lanche, além de saudável, era levado em saco de papel e não em lancheira. No dia de levar brinquedo na escola, ao invés levar uma boneca que faz coisas, levou uma planta estranha. Mas não era só isto. Lilás tinha sardas, só usava roupas que tinham sido da irmã mais velha e, embora seu estojo tivesse pouco lápis, conseguiu fazer o desenho mais bonito do campeonato de desenho da escola, surpreendendo a todos, especialmente à dona do estojo mais completo!

Diferente das outras crianças, Lilás não tinha apelido, mas um nome com significado único e belo, como tudo em sua vida. Os colegas da escola não a convidavam para brincar e os olhares atravessados que recebia não a impediam de continuar sendo ela mesma.

Quando chegou seu aniversário, toda turma foi convidada para uma festa em sua casa. “Não havia mágicos nem palhaços. Não havia nada!”

Nada, quando comparado à festas em que o entretenimento vem pronto ou parte de alguém que não as próprias crianças. A festa, ao contrário do que os colegas imaginavam, tinha muita coisa legal, feita pela própria família de Lilás, com as coisas da família.

Com tamanha diversão, as crianças perceberam que Lilás não era tão esquisita assim…

Mais do que uma leitura gostosa, este primeiro livro infantil de Mary E. Whitcomb traz importantes reflexões sobre o quanto somos incitados a adequar nosso comportamento a padrões preestabelecidos, quais valores têm prevalecido em nossa sociedade de consumo e, em meio a isto tudo, o quanto conviver com as diferenças pode ser uma experiência interessante e rica.

Lilás, uma menina diferente / Mary E. Whitcomb; ilustrações de Tara Calahan King. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

Faixa etária sugerida: dos 5-8 anos.

Lilás, uma menina diferente

Uma reflexão sobre a vida com e sem babá

É o meio que nos faz ou somos nós que fazemos o meio? Embora difícil de responder, é nesta dialética que me ponho a pensar um pouquinho sobre a vida com e sem babás, especialmente depois de 03 de abril de 2013, data em que foi promulgada a Emenda Constitucional 72/2013, mais conhecida como a nova Lei das Domésticas – que mexeu nas carteiras e contratos de trabalho, nos bolsos e dinâmicas familiares, e escancarou a já conhecida fragilidade da rede de cuidados às nossas crianças.

Acredito que pouca gente discorda que vivemos em um país que pouco assume sua geração futura – faltam creches, escolas, centros de convivência, praças, áreas de lazer e tantos outros equipamentos que favorecem o desenvolvimento humano, bem como políticas públicas (incluindo legislação) que reconheçam a importância da infância e da família na formação do sujeito. Na falta deles, e com os adultos da família absorvidos pelo mercado de trabalho, as babás – aqui definidas por qualquer pessoa que seja remunerada para cuidar do bebê e da criança em ambiente doméstico – acabam sendo, em muitos casos, a melhor, senão a única opção no exercício dos cuidados de uma criança.

Em minha concepção, a babá é a figura responsável por aquilo que o bebê ou criança ainda não dá conta de fazer/decidir por si só; uma espécie de “atendente” das necessidades da criança, ou da família, no momento de sua ausência.

Não é por acaso que nas famílias em que ela ocupa este lugar, foi possível, do ponto de vista emocional, fazer os ajustes requeridos com a nova lei. Mesmo que alguns sacrifícios de ordem material tenham sido necessários, o resultado final parece estar sendo positivo; temos ouvido pais relatando a surpresa gostosa da vida em família sem a presença da babá na quantidade de tempo que ela dispunha anteriormente prestando seus serviços. É como se descobrissem – ou redescobrissem – a possibilidade de serem eles mesmos os cuidadores de seus filhos.

Em contrapartida, há pais que relatam a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade, de reorganização da rotina familiar. Se olharmos para estes casos com atenção, observamos que estão muito mais relacionados à indisponibilidade interna, emocional, do que à externa, de ordem prática.

Herança do período escravagista ou não, vivemos a cultura do ser servido onde dispomos de manobristas para estacionar nossos carros (símbolo, entre outros, de autonomia) até gente para empurrar o carrinho e trocar as fraldas de nossos bebês.  Aqui, questiono justificativas como tempo escasso, inflexibilidade nas leis trabalhistas e tarefas de menor valia.

Em todas as classes sociais vemos pais lutando por mais tempo com os filhos e questionando o porquê de se trabalhar tanto, ao mesmo tempo em que, nos mesmos grupos, assistimos outros tantos colocando no trabalho todas as justificativas que os mantém afastados de sua prole. Independente da questão financeira (que é importante, mas não é a única), é necessário indagar como fica a qualidade de vida e das relações estabelecidas com os filhos e, por consequência, quem serão estas crianças num futuro não tão distante. Da mesma forma, é importante questionar quais tarefas dirigidas ou feitas para/com um filho é desimportante ou tem sua importância reduzida: Escovar os dentes? Assistir TV? Andar de velotrol? Empurrar o carrinho? Trocar a fralda? Cortar as unhas? Alimentar? Qualquer forma de cuidado implica (ou deveria implicar) numa relação afetiva, não existindo, por isto, tarefa de menor valor.

Se de um lado existe a crença de que há coisas mais e menos importantes nos cuidados a um bebê e criança, por outro, penso que parte da terceirização dos cuidados dos filhos reflete a cultura da necessidade de termos sempre alguém fazendo por nós (justificada pelo baixo custo ou oferta de mão de obra? – não creio). Ora, quem precisa ser servido, porque ainda não é capaz de servir-se sozinho, é o bebê, a criança.

Nesta história toda, parece-me que quem é o bebê ou a criança são aqueles que não dão conta de assumir suas funções enquanto responsáveis pelas vidas postas no mundo. Numa sociedade com ranço colonialista, paternalista, “não assumista” (perdoem-me pela expressão, mas foi a melhor que encontrei para definir aquele que não assume suas responsabilidades e ações) e emergente (que quer aparecer a qualquer custo), não é surpresa que ela não seja capaz de dar condições concretas de desenvolvimento, em todos os sentidos.

Como na roda da vida não sabemos se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, precisamos nos perguntar o quanto este modelo cultural reflete na criação dos filhos e na formação de sujeitos, com pais que são servidos e não servem, são cuidados e não cuidam, delegam e não assumem. Admira-me, cada vez mais, ver babás na presença dos pais e não na sua ausência. Crianças sendo cuidadas por terceiros em momentos que poderiam ser de troca entre pais e filhos. Quem precisa de babá? Quem precisa ser servido, cuidado?

As babás deste retrato não são aquelas que cuidam de crianças na ausência física dos pais, nos momentos em que eles assumem seus outros papeis sociais, necessários inclusive para saúde mental de todos. São babás que, independente da presença ou ausência física dos pais, são responsáveis pela maternagem, pela imposição de limites, pela inserção social e, muitas vezes, pela mediação das relações familiares; ou seja, são pessoas que assumem uma função que caberia aos pais.

A nova Lei das Domésticas não levou em conta que a babá, em muitas situações, vai além de um empregado, na medida em que tem papel primordial na vida emocional da criança que fica sob seus cuidados. E se esta criança, por conta de rearranjo trabalhista não pode ter a babá – em tempo integral ou parcial – como fica seu desenvolvimento?

Sei que esta não é uma resposta simples e fácil, mas precisamos começar a pensar nos efeitos que um modelo que prioriza o ser servido ao colaborar, o ser cuidado ao cuidar, o delegar ao assumir, interfere na vida de nossas crianças, que amanhã repetirão o mesmo modelo que aprenderam e têm como referência. Um modelo de pseudo-autonomia e muita dependência, de uma fragilidade tamponada por um fazer e ter incessantes.

A morte sob os olhos da criança

Numa diferença de alguns minutos, duas crianças com 5 anos protagonizam as seguintes cenas:

Cena 1: Uma delas diz para outra “Está vendo o Chico, ele tem uma irmãzinha que morreu quando saiu da barriga da mãe”. A outra responde: “Ah, é?!” e mudam de assunto.

Cena 2: A mesma criança que falou sobre a irmãzinha do Chico pergunta à senhora que entra no elevador: “Você tem cachorro?”. A senhora se enrosca na resposta: “É [pausa], eu tinha um…”. Pairava uma dúvida, talvez de como ou se devia falar sobre a morte do cãozinho com as crianças.

As crianças falam de morte como falam de vida. Querem entender este fenômeno tão enigmático. Porém, pela complexidade e emoções que o tema mobiliza, nem sempre o assunto é tratado com a mesma naturalidade como o interesse é colocado pela criança.

Quando falar sobre morte fica muito difícil, que tal brincar de morto-vivo ou estátua? Que tal ouvir músicas e ler livros que falem sobre o tema? Aqui, seguem algumas sugestões:

A mulher que matou os peixes / Clarice Lispector; ilustrações de Flor Opazo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1999.

A velhinha que dava nome às coisas / Cynthia Rylant; ilustrações de Kathryn Brown. São Paulo: Brinque-Book, 1997.

Contos de enganar a morte / Ricardo Azevedo. São Paulo: Editora Ática, 2003 – a morte como fenômeno da vida.

Menina Nina – duas razões para não chorar / Ziraldo Alves Pinto. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2002.

O pato, a morte e a tulipa / Wolf Erlbruch. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

O segredo é não ter medo / Tatiana Belinky; ilustrações de Guto Lacaz. São Paulo: Editora 34, 2008.

Vó Nana / Margaret Wild; ilustrações de Ron Brooks. São Paulo: Brinque-Book, 2000.

Eu era assim / Música de domínio popular. Pode ser encontrada em Bia Beldran, CD Brinquedos Cantados e em Tiquequê.

Fui ao cemitério /  Música de domínio popular. Pode ser encontrada em Hélio Ziskind, CD Trem Maluco e outras Cantigas de Roda.

Vem Dançar com a Gente / Música da Palavra Cantada, CD e DVD Palavra Cantada: Vem dançar com a gente.

Atirei o pau no gato. Pode ou não pode?

Atirei o pau no gato tô tô 
Mas o gato tô tô
Não morreu reu reu
Dona Chica cá cá
Admirou-se se
Do berro, do berro que o gato deu
Miau!

Esta cantiga popular de roda faz parte do repertório musical de crianças de todas as idades e de diferentes partes do Brasil desde o início do século XX. Por ter rimas fáceis de serem memorizadas, é cantada – ou ao menos balbuciada – por crianças que se encantam por sua sonoridade e ritmo independente da letra da canção.

No entanto, embora referência no universo infantil, esta música ganhou sua versão politicamente correta, numa “campanha” de combate à violência contra os animais, negando seu conteúdo de agressão contra o gato.

Não atire o pau no gato tô tô
Porque isso so so
Não se faz faz faz
O gatinho nho
É nosso amigo go
Não devemos maltratar os animais
Miau!

Diante dessas duas versões, faço o seguinte questionamento: Será que é possível, e recomendável, ocultar ou distanciar as crianças de qualquer meio hostil e ofensivo? Não seria a omissão ou a negação uma forma de agressão?

As histórias de violência, crueldade e agressão são muitas, seja em casa, na escola ou na rua, perto ou mais distante de todos nós. São vistas cotidianamente entre os adultos, entre as crianças, dos adultos para com elas, e até mesmo com os animais.  O tema, e suas vertentes, estão presentes nas brincadeiras, cantigas, contos de fada, desenhos infantis, telejornais e novelas (vistas por muitas crianças), com o “bem” e o “mal” caminhando lado a lado. A intencionalidade destas brincadeiras, músicas, contos e outros recursos está em mostrar às crianças os dois lados da vida, sem deixá-las com uma visão cindida dos fatos.

Saber e entender que o “mau” também existe, permite às crianças se posicionarem diante dele. Além disso, falar sobre comportamentos hostis e agressivos auxiliam-nas a elaborar sentimentos e pensamentos desta natureza, impedindo-as, muitas vezes, de agir impulsivamente, sem medir as consequências de seus atos.

Falar sobre a agressividade – comportamento inerente ao ser humano – certamente não nos torna mais agressivo; apenas mostra a realidade e ensina a pensar e lidar com ela. É por isto que ainda permanecem atuais a cantiga do Cravo que brigou com a Rosa (brigas de casal), do Samba Lelê (doença e palmadas), os desenhos como Tom e Jerry (os rivais gato e rato) e Piu Piu (pássaro perseguido pelo gato Frajoa), bem como as brincadeiras de morto-vivo e polícia e ladrão. As agressões físicas, verbais e emocionais continuam presentes no nosso dia a dia; hoje, como outra denominação: bullying.

A meu ver, a cantiga do gato tô tô, não vem para expor a criança à agressividade, ou permiti-la ser agressiva; esta música apenas não destitui a natureza dos impulsos agressivos. A parte à questão da defesa dos animais (que pode e deve continuar existindo), a canção “Atirei o pau no gato” (assim como outras cantigas que abordam temas que fazem parte da natureza humana e permitem as crianças gerenciar os conflitos do dia a dia) pode ser um meio para pais e educadores ajudarem as crianças a nomear, explicar e integrar sentimentos de caráter agressivo e violento. Neste sentido, é instrumento que auxilia a conversa junto às crianças sobre o que fazer quando ficamos bravos e temos vontade de bater, chutar, socar, etc, bem como orienta sobre conceitos, valores, limites e consequências de nossas ações. Podemos bater nos animais ou nas pessoas? Se fizermos isso, o que pode acontecer? Quando alguém for cruel com os animais, o que devemos fazer? Como nos sentimos quando alguém nos agride?

Assim, crianças aprendem a (re)conhecer e a lidar com o “bem” e o “mal”, o “certo” e o “errado”, o “permitido” e o “proibido” dentre outras questões inerentes à vida.

Atirei o pau no gato” em sua nova versão pode ser apresentada à criança, desde que não se exclua a versão original, omitindo a realidade e os impulsos agressivos existentes em todos nós.

Para pensar # 03

 A tarefa mais importante e também mais difícil na criação de uma criança é ajudá-la a encontrar significado na vida. Muitas experiências de crescimento são necessárias para se chegar a isto. A criança, à medida que se desenvolve, deve aprender passo a passo a se entender melhor; com isso, torna-se mais capaz de entender os outros e, eventualmente, pode se relacionar com eles de forma mutuamente satisfatória e significativa.

~ Bruno Bettelheim ~

In:  A Psicanálise dos Contos de Fada. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2012, p. 10.

 Aos pais e educadores ficam as perguntas: Como ajudar as crianças a encontrar este significado? Quais atitudes auxiliam-na a entender melhor a si mesma e os outros?

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