“Marilu”, livro de Eva Furnari

Às vezes tudo parece chato, bobo, cinza, sem graça. Marilu achava o mundo a sua volta assim, até ver uma menina com uma lanterna de papel de seda colorida como um arco-íris.

Encantada com o que vira, quis saber onde encontrar uma daquela. A menina lhe contou: “numa loja vermelha, desde o chão até a telha”. Marilu não teve dúvida, foi até a loja, mas encontrou-a fechada. Sentou e esperou.  Os Pimpolhos, donos da loja, chegaram cantando uma música cômica. Marilu não se ateve às palavras cantadas, mas percebeu que eles, mesmo desafinados, cantavam felizes e entusiasmados.

Dentro da loja, a garota que não via as cores da vida se encantou com tanta cor. Pediu a lanterna, que não tinha no momento. A ideia de ter que esperar até o dia seguinte não agradou Marilu, que aos gritos exclamou: “Chatildos, burraldos, bestônicos, cracolhos!”. Os Pimpolhos acharam divertidas aquelas palavras inventadas e responderam com outras palavras também engraçadas.

No dia seguinte Marilu comprou a lanterna e uma roupa vermelha. No caminho de volta, percebeu que suas novas aquisições haviam perdido as cores. Muito brava, voltou na loja para reclamar, sem muito sucesso. Um dos Pimpolhos foi mostrando-lhe um lado da vida que Marilu desconhecia: da diversão, do bom humor. Depois de muita risada, Marilu notou que as cores tinham voltado!

Se o enredo de Marilu nos faz pensar no quanto às vezes vivemos sem enxergar as cores da vida, as rimas (marca das obras de Eva Furnari) nos ensinam que palavras que parecem palavrões podem se transformar numa divertida brincadeira. Cor ou xingamento, só vê e ouve quem quer! Ou como quer.

Marilu / Eva Furnari. São Paulo: Moderna, 2012.

Faixa etária sugerida: 5-8 anos.

 Marilu

Por que alguns pais estão tirando os brinquedos-tela de seus filhos?

Até um tempo atrás, um brinquedo só saía de cena pelas mãos de um adulto, quando a criança aprontava alguma. O brinquedo era tirado como forma de castigo, punição ou resolução de conflito.

Atualmente, além destas conhecidas e comuns situações, alguns pais começam a tirar de seus filhos um brinquedo que eles mesmos ofertaram: as telinhas. Desta vez, não porque a criança causou, mas porque o uso do “brinquedo” começa a mostrar um lado que muitos não acreditavam existir:

1) As telas ditam o que deve ser feito. É ela que domina a criança, e não o contrário. O que a princípio parecia uma ferramenta interativa e educativa, começa a ser visto como uma dominação corpo-mente. A criança deixa de ser quem decide, respondendo a mecanismos solicitados/esperados pelo “brinquedo”. De ativa, a criança torna-se passiva, o que é extremamente empobrecedor para seu potencial criativo e, consequentemente, seu desenvolvimento global.

2) Os brinquedos-tela exigem, em muitas situações, uma maturidade que a criança ainda não tem. Esta imaturidade para operar a máquina só é percebida quando situações reais aparecem – passar longo período do dia diante de seu magnetismo (deixando de lado outras formas de brincar), comprar jogos ou acessar conteúdos sem autorização (mesmo sabendo que não é permitido), se ver instigado ou obrigado a vencer e vencer, ter e ter, entre outras. Como toda máquina, os brinquedos-tela, especialmente os conectados à rede, precisam de um operador que o domine; um operador que realmente seja capaz de saber o momento de parar e prosseguir em todas as ações, para que ele possa dominar a máquina e não ser dominado por ela.

3) Os eletrônicos distanciam cada vez mais pessoas de pessoas. Momentos que poderiam ser ricos para troca e interação tornam-se momentos de isolamento e desinteresse pelo que está ao redor. Se o relacionamento afetivo e a curiosidade que o mundo desperta são motores para o aprendizado, as crianças debruçadas na tela estão sendo privadas do modo mais genuíno da díade ensinar-aprender.

Isto faz pensar em algumas questões importantes e necessárias que não se esgotam numa resposta única:

1) Estes “brinquedos” são para criança?

2) Existe momento certo para oferecer um brinquedo-tela à criança?

3) Orientar, limitar acesso, conteúdo e tempo de uso é suficiente?

4) É possível um uso seguro – no sentido mais amplo da palavra – das telas pela criança?

Compartilhe conosco sua experiência e o que pensa sobre esta questão!

O que faz a criança precisar de alguém ao seu lado para adormecer?

Em outro texto escrevi sobre os principais motivos que levam a criança a dormir na cama parental, enfatizando que existe diferença entre procurar os pais no meio da noite e se instalar na cama deles. Como discorro lá, a permanência da criança na cama dos pais é por conveniência destes e não por necessidade da criança. Então qual é a necessidade dela? O que a leva a acordar no meio do sono e procurar os pais?

O despertar noturno decorre tanto das alterações corporais, como frio, calor, sede, fome ou dor, quanto das questões de natureza psíquica, como estresse ou pesadelo. Diante destas situações, muitas crianças buscam os pais porque sozinhas ainda não são capazes de lidar com – e até mesmo verbalizar sobre – estes incômodos.

Na tentativa de acolher o pequeno desperto, cada família vai experimentando meios de tranquilizá-lo: pega-o no colo em silêncio para que ele não desperte ainda mais, amamenta-o porque o leite “acalma” (a partir do 6° mês de vida, a alimentação noturna, com raras exceções, já não é necessária), fica junto – dormindo, assistindo TV ou mesmo brincando em plena madrugada – porque a criança “quer companhia”, entre tantos outros.

A criança que tem o sono interrompido e não consegue retomá-lo sem ajuda, assim como aquelas que precisam de alguém ao seu lado para adormecer no sono diurno ou noturno (ou necessitam de rituais que a façam “apagar”, como dormir no carro/carrinho dando volta de quarteirão), precisa do outro para sentir-se segura e protegida. Como dormir é um momento de extrema solidão – psiquicamente ficamos sós, nós com nós mesmos – ficar só pode ser deveras perturbador. É por isto que acolher fisicamente a criança costuma “funcionar”. No entanto, apenas acolhê-la corporalmente (dando colo ou a mão, dormindo junto, ficando no quarto, entre outros) nem sempre é o suficiente para fornecer os recursos necessários para a criança conseguir adormecer e/ou dormir sozinha.

Dormir implica na transição entre estar acompanhado-estar desacompanhado. Portanto, para que o adormecer e o despertar sejam vividos com tranquilidade (garantindo inclusive a saúde emocional de toda a família) é preciso ajudar a criança na transição do estado de vigília para o sono, de estar acompanhada para estar só.

Se, por alguma razão, há falha neste processo (lembrando que falhas acontecem, com maior ou menor frequência e intensidade, além do que cada bebê reage a elas de maneira diferente), o bebê pode sentir-se menos seguro, tendo por isto maior necessidade da presença concreta da mãe.

Em muitos momentos a presença física de alguém se faz necessária nesta passagem. Os bebezinhos, por exemplo, por estarem um tanto “fundidos” com a mãe, precisam da presença física dela (ou substituto) para ter a sensação de continuar existindo. É por isto que a dedicação e a prontidão das mães, traduzindo e atendendo às demandas do bebê, nos primeiros meses de vida é tão importante para que ele possa cada vez mais ir se sentindo seguro e, consequentemente,  suportando o prolongamento do tempo sem a presença materna.

Assim como alguns bebês e crianças nunca adormeceram sozinhos, há bebês e crianças que adormeciam com facilidade e tinham o sono ininterrupto, mas, de uma hora para outra passam a acordar no meio da noite ou recusam dormir sem alguém do seu lado. Em geral estas situações, temporárias ou não, surgem sempre que o bebê ou a criança vivencia a angústia de separação. Todos passam por isto e em diversas fases da vida!

Embora alguns autores chamem estas vivências de crises, denominando-as por crise do primeiro trimestre, crise dos 8 meses, e assim por diante, prefiro não classificá-las, já que as vivências de separação, com maior ou menor intensidade, são experimentadas a vida toda. Mesmo os pesadelos infantis, responsáveis por grande parte dos despertares noturnos, em sua maioria falam de algum temor de separação (ser engolido, sequestrado, perder os pais – por morte ou outra razão, se perder ou morrer, etc.).

Como acontece com os bebezinhos, nestes momentos de “crise” é preciso resgatar a devoção ao bebê ou criança. Mesmo que em alguns momentos seja preciso o contato físico, ele jamais deve substituir palavras de conforto que ajudem a criança a entender seu temor – “Sei que você não queria se separar da mamãe, mas enquanto você dorme, vou fazer tais e tais coisas. Assim você descansa e quando acordar vamos brincar juntos.” Este exemplo, que poderia ser qualquer outro, reconhece o sofrimento da criança, e pontua que a mãe continuará existindo e voltará a cuidar do filho quando ele acordar.

Esta tarefa de estar disponível e nomeando a situação nem sempre é rápida, simples e fácil. Em geral ela se dá no meio da noite, repetidas vezes, prejudicando o sono de toda a família. Exatamente por isto, condutas como levar a criança para a cama dos pais acabam sendo a “melhor” alternativa em muitos lares.  O grande problema é que se criam hábitos difíceis de serem eliminados posteriormente, mesmo que a criança já se sinta mais segura para dormir sozinha. Um exemplo clássico são crianças com 6-8 anos, ou até maiores, que só dormem na cama dos pais ou com a presença de um deles no quarto. Outro risco é reforçar a relação “grudadinha” entre mãe e criança (digo mãe, porque é menos frequente o “grudinho” acontecer com o pai).

Para não ficar colado no corpo, além das palavras, pode ser bem rico encontrar com cada bebê e criança algo que substitua a presença física da mãe – uma luzinha, um bichinho de pelúcia, um paninho, que podem ser fornecidos nos momentos de transição presença-ausência. No entanto, eles só terão validade enquanto substituto materno se, na presença da mãe, ele encontrar a segurança que precisa – ou, a liberdade para também estar só.

Separar pode ser muito doloroso, tanto para os filhos, como para os pais. Mas para crescer é preciso passar por isto!

Os segredos de família e o desenvolvimento da criança

  As crianças sempre sabem e entendem muito mais sobre a própria vida do que pensamos ser possível. Às vezes, nosso desejo de proteger as crianças da dura realidade causa a elas muito mais sofrimento do que saber a verdade e poder manifestar-se em explosões de raiva ou, mais passivamente em profunda depressão. Embora possam manter uma falsa aparência de ignorância, as crianças sempre revelam em suas brincadeiras a verdade sobre o que sabem ou não sabem a respeito dos segredos de família.

~ Susan Linn ~

In: Em defesa do faz de conta / Susan Linn. Rio de Janeiro: BestSeller, 2010, p. 203.

Os segredos de família comumente ficam guardados a sete chaves entre os adultos porque causam vergonha, angústia ou temor. Na maioria das vezes, eles não escapam aos temas sexualidade e morte: adoção, paternidade, incesto, abuso sexual, crime, fraude, trapaça, doenças de toda natureza e suicídio. 

Mesmo que os adultos tentem  esconder ou camuflar dos pequenos uma parte da história familiar, as crianças (incluindo os bebês) são radarezinhos que captam o que acontece à sua volta. Por isto, o silêncio das palavras não as impede de expressar o que sabem através do brincar, dos ataques de raiva, das birras, dos comportamentos e atitudes que parecem sem sentido, e até de algumas doenças.

Revelar segredos não é fácil, sabemos disto. No entanto, ir mal na escola, brigar sem motivo aparente, ter medos sem fundamento e tantos outros entraves no desenvolvimento de uma criança, podem ser decorrência do silenciamento da história familiar ou  parte dela. A verdade dói, mas porque pode ser falada – e por isso, digerida – vai doer ao longo da vida menos do que a dor do silêncio, das meias palavras e da dúvida.

Ensinamentos de pai

Na orelha do livro ou nas palavras escritas em Dez bons conselhos de meu pai, fica claro o quanto Manoel Ribeiro ensinou o filho João Ubaldo. A seu modo, este traduziu – e explicou – o que ele aprendeu com os dizeres do pai:

Não seja tutelado

Não seja colonizado

Não seja calado

Não seja ignorante

Não seja submisso

Não seja indiferente

Não seja amargo

Não seja intolerante

Não seja medroso

Não seja burro

Para entender cada um destes conselhos, é preciso ler o livro, que é belo. A cada leitura penso nos ensinamentos que ainda recebo do meu pai. A cada leitura penso o que é um pai.

Filho ou filha, só existe porque ao menos um espermatozoide fecundou um óvulo. Não tem jeito.  Pai ou “pai”, se não é real, é imaginado. Se não cria, é criado.

Pai ensina. Inspira. Com gestos, palavras e atitudes, ou mesmo com sua ausência.  Filho apre(e)nde: pelo caminho da imitação, da transformação ou da oposição.

Pai deixa marcas: pelo sim, pelo não, pelo talvez. Pelo sei, pelo não sei, pela dúvida.

Só por isto – que não é tão pouco assim – é impossível não pensar e não falar de pai, dos pais!

 Dez bons conselhos de meu pai

Dez bons conselhos de meu pai / João Ubaldo Ribeiro; ilustrações de Bruna Assis Brasil. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Faixa etária sugerida: a partir dos 5 anos (leitura pelo adulto) e a partir dos 7 anos (leitura pela criança).

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