“Quando nasce um monstro”, livro de Sean Taylor

Quando nasce um monstro existem duas possibilidades – ou é um monstro das-florestas-distantes, ou é um monstro debaixo-da-sua-cama.

Se ele é um monstro das-florestas-distantes, acabou-se a história. Mas se ele é um monstro debaixo-da-sua-cama, existem duas possibilidades – ou ele come você, ou vocês ficam amigos e você o leva para a escola.

Se ele come você, acabou-se a história. Mas se você o leva para a escola, existem duas possibilidades – ou… ou…

Lição n° 1: Não dá para enfrentar o medo se não damos a mão para o monstro que vive embaixo da nossa própria cama. Os medos estão aí, e por isto não é possível fazer de conta que eles habitam florestas distantes. Encará-los é a melhor opção.

Lição n° 2: Todas as possibilidades são passíveis de escolha, e toda escolha implica em “matar” uma possibilidade para que a outra se concretize. Se, lá na frente, nos deparamos com uma possibilidade desprezada no passado, ela pode, nesse outro momento, ser a melhor opção. A vida é cheia de voltas!

Lição n° 3: Monstrinhos podem viver felizes para sempre, ter bebê monstro, recomeçando o ciclo da vida. Mas para isto é preciso um monstro e uma monstra, um macho e uma fêmea da mesma espécie, como no caso dos seres humanos – um espermatozoide e um óvulo, sempre!

A vida é feita de ou… ou… – possibilidades que podemos apostar; escolhas que precisamos bancar.

Quando nasce um monstro / Sean Taylor; ilustrações de Nick Sharratt. São Paulo: Moderna (Salamandra), 2009.

Faixa etária sugerida: 5-6 anos (leitura compartilhada) e 7-10 anos (leitura pela criança).

quando nasce um monstro

Quando as mãos fazem o que o coração não consegue dizer: pequenos furtos cometidos por crianças

O relato de pais sobre o aparecimento e o desaparecimento “misterioso” de objetos no entorno da criança é bastante comum. Na mochila escolar do filho surgem canetinhas que não são dele; no bolso da calça, uma moeda de origem desconhecida; na caixa de brinquedos, um aviãozinho que ninguém sabe como pousou lá. Da mesma forma, não se acha na bolsa da mãe o tubo de balas, nem o troco da padaria. Do armário da cozinha as bolachinhas parecem ter criado asas e voado para bem longe…

Como é que isso veio parar aqui, ou, onde é que aquilo foi parar, são perguntas nem sempre seguidas de respostas convincentes. Por quê? Porque as crianças tentam explicar algo que elas não compreendem do ponto de vista da razão. É por isso que, mesmo sendo atitudes corriqueiras, e a princípio sem gravidade, é importante que o adulto intervenha.

Aos 23 anos, a criança vive a intensidade do se fazer ser. Mesmo não sendo dela, ela pode tomar um objeto como sendo seu. “É meu!” é uma tentativa de dizer: gostei dele, quero brincar com ele, tê-lo comigo. A intermediação do adulto é fundamental para ajudá-la a reconhecer o que é seu e o que é do outro.

Por volta dos 45 anos, a diferença entre “eu” e “outro” já está clara para a criança, permitindo com que ela compreenda o conceito de propriedade. Então, se apossar do que não lhe pertence pode ser um teste para ver quais são as regras, quem está de olho nela, o que acontece quando ela pega o que não é seu. A ideia de que achado não é roubado pode começar a encantar os pequenos.

A partir dos 6-7 anos a criança já tem boa noção das leis sociais. Furtar ganha significados como sentir-se valorizado, importante, potente, ao mesmo tempo em que pode ser um pedido de limite, contenção. É nesta faixa etária que algumas crianças experimentam furtar nos supermercados, padarias, farmácias e afins. Mesmo que pareçam insignificantes, os furtos ou apropriações merecem atenção redobrada, não importando o valor real do objeto apossado.

Intervir diante de um furto ou apropriação da coisa achada não é fazer alarde chamando a criança de ladra, humilhando-a, ameaçando-a ou punindo-a. Se a criança pega um objeto que não lhe pertence, é preciso relembrá-la (brevemente) de algumas regras sociais e ajudá-la a encarar as consequências de seus atos, entre eles, o outro ficar sem seu objeto e, por isso, a necessidade de devolver ao dono (ou lugar) o que não é seu.

Por mais que possamos, sob a ótica do desenvolvimento infantil, pincelar minimamente os significados do furto ou da apropriação de um objeto que não pertence à criança, estas atitudes podem ser entendidas como um pedido da criança de “ei, olhe para mim”. Tanto que elas fazem de tudo para que seu cuidador – em geral os pais – perceba que ela pegou algo que não era dela, de um chiclete que mastiga ao brinquedo de um amigo ou cartela de adesivos da papelaria.

Ao se apropriar de um objeto que não lhe pertence – ainda que encontrado no meio do caminho – a criança está, de alguma maneira, dizendo “estou pegando o que não me foi dado”. Não se trata, aqui, do objeto material em si, mas de algo que ela foi emocionalmente privada.

Isso explica porque uma criança embora tenha tudo, precise pegar o que não é seu. Também, explica porque repreender só “ajuda” a criança se sentir culpada e/ou envergonhada. Ignorar o ato é outra atitude que não leva à origem da questão. Ao contrário, serve de empurrãozinho para recorrência dos furtos e até a instalação futura de comportamento delinquente, uma vez que a criança vai repetir o ato na tentativa de comunicar o que está lhe faltando.

Quando uma criança se apropria do que não é seu – sempre existe um dono que perdeu ou esqueceu o objeto encontrado – ou comete pequenos furtos, mesmo que uma única vez, devemos estar dispostos para fornecer o que de mais genuíno a criança precisa: cuidado, atenção, afeto e amor, ingredientes essenciais para qualquer vida saudável.

Criando a rotina dos bebês

Rotina é regularidade, previsibilidade. Ela é essencial na construção do senso de segurança e autoconfiança, tão necessários na vida de todos nós.

Quer saber como instalá-la nos bebês? Confira nosso post publicado no blog Saúde Infantil, o blog do Hospital Infantil Sabará.

Aqui você encontra o que já escrevemos sobre rotina.

Relação pais e filhos: um vínculo moldado por expectativas e ideais

Todos nós – alguns mais, outros menos – sempre estamos em busca de nossos ideais. Desde pequenos sonhamos, criamos expectativas e construímos planos. Alguns são reavaliados; outros podem se perder ao longo do tempo.  Sempre que um sonho é alcançado, já estamos na espera daquele que ainda não foi realizado. Não sonhar, projetar um futuro, pode ser sinal de que a vida psíquica não vai muito bem.

Porém, ao longo de nossa trajetória, o que é esperado muitas vezes não se concretiza. Entre ideal e real podem surgir frustrações, decepções, imprevistos e até situações indesejáveis que precisamos, aos poucos, aceitar e aprender a lidar.

Assim é com a maternidade e a paternidade. Independente de como ela aconteça, vamos desde muito cedo construindo a ideia e um modelo  do que é ser pai e ser mãe a partir de nossas próprias experiências com o que tivemos e não tivemos enquanto filhos. Quem nunca se imaginou como pai e mãe ou sonhou (mesmo acordado) com a imagem de seus filhos? Desde os traços físicos até a personalidade, os projetamos conforme nossos sonhos e expectativas.

Mais perto ou mais distante destes anseios, aquilo que almejamos pode ser tornar, em alguns casos, irreal e desleal.  Quantos pais se sentem frustrados ou até mesmo impotentes diante de comportamentos não esperados por parte de seus filhos – mentiras, birras, agressões, envolvimento com pessoas ou situações que julgam “erradas”, etc.  Quando se cria os ideais, não se mensura ou cogita aquilo que não cabe dentro de nosso desejo. Eis a questão.

Muitos pais podem apresentar dificuldade em enxergar seus filhos como realmente são, criando uma imagem de perfeição colada apenas em seus desejos, desconectados de uma realidade e de uma identidade que se forma. Pais que gostariam que seus filhos tocassem algum instrumento musical ou jogassem futebol como craques e se deparam com filhos “pernas de pau” e sem interesse musical.  Mas, filhos também têm ideais e, muitas vezes,  esperam dos pais algo que estes não podem lhe dar. Filhos que desejam que seus pais fossem mais companheiros, participativos e que os ouvissem mais.

Este conflito entre realidade e desejo pode levar a alguns desencontros e desgastes que interferem no relacionamento entre pais e filhos.  Os projetos ansiosamente esperados podem se tornar pesados para os pais (ou apenas um deles) que fazem de tudo para que o filho cumpra com o que desejam e, por outro lado, para os filhos que deixam de ser e fazer o que precisam ou querem para realizar o sonho dos pais, abrindo, em algumas situações, mão de seus próprios sonhos e até mesmo de sua identidade. Um risco para sua saúde psíquica, uma vez que seus projetos de vida não foram traçados por si próprios.

Quando pais almejam e projetam a maternidade e a paternidade, seus sonhos os movem a realizar aquilo que acreditam que é ser pai e ser mãe (além do conceito do que é uma família e os valores que a envolve). Ao mesmo tempo, quando nascem os filhos, estes  vão construindo seus sonhos conforme suas motivações individuais, podendo ou não refletir a expectativa dos pais. Nessa dança, é importante que haja respeito mútuo às singularidades sem perder o espaço e os sonhos  em comum que unem pais e filhos.

Filho mal criado ou mau criado?

O que está em jogo na pergunta título deste texto não é a gramática, mas o sentido do substantivo (mal) e do adjetivo (mau) na vida da criança. Não é difícil ouvir ou falar que fulaninho é indelicado, maroto e grosseiro a tal ponto que nem Madame Poças Leitão[1] seria capaz de dar-lhe um jeito.

Será que mostrar a língua, não cumprimentar quem entra no elevador, xingar a troco de nada, sentar-se de qualquer modo, levantar-se após a refeição sem pedir licença e tantos outros comportamentos nada polidos é falta de educação?

Penso que sim, mas não exclusivamente no sentido da falta de etiqueta. Françoise Dolto, psicanalista francesa (1908-1988), ajuda-me nesta afirmação: “Educar é despertar a inteligência, as forças criativas de uma criança, dando-lhe, ao mesmo tempo, seus próprios limites para que ela se sinta livre para pensar, sentir e julgar de modo diferente que o nosso, amando-nos ao mesmo tempo”[2].

Uma criança bem educada é uma criança criativa, livre. Isto não significa poder fazer o que quer, na hora em que quer. Ao contrário, como bem sabemos, a liberdade de um começa onde termina a do outro.

Ser livre é ter consciência de seus próprios limites, respeitando os limites do outro. No entanto, para que os limites do outro sejam considerados, é necessário não ser o outro; é preciso estar discriminado nas relações que se estabelece. Traduzindo: é preciso que cada um saiba o seu lugar e até onde pode ir.

Tenho observado na clínica que crianças tidas como filhos malcriados são crianças coladas ao desejo de seus pais, sem liberdade de serem elas mesmas. São filhos-criados, serviçais dos desejos parentais. Respondem ao seu “senhor”, sem que haja brecha para responder a outros “senhores”: o mundo, o outro, a diferença e a si mesmo. Neste sentido, são bons criados, mas mal criados.

Malcriado é um mau criado; é aquele que internamente luta para conquistar sua alforria, mas não sabe como. Ora ignora quem está a sua volta, ora o ataca. Não existe convivência pacífica (polida) porque o outro é vivido como uma ameaça.

O malcriado é prisioneiro do desejo de outrem. Ele vive a pseudoliberdade de fazer o que quer, na hora que quer, cuspindo na cara do amigo, dando de ombros para qualquer situação. Por trás desta aparente condição livre existe um sofrimento enorme de não poder ser ele mesmo. Mal criar um filho é não permiti-lo pensar, sentir, agir e julgar de modo diferente do nosso. Para termos filhos bem criados, precisamos de maus criados!


[1] Madame Poças Leitão (1884-1974) foi, entre as décadas de 20 e 60, a mais famosa professora de boas maneiras para a aristocracia paulistana.

[2] In: As etapas decisivas da infância. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. VIII.

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