Quando as mãos fazem o que o coração não consegue dizer: pequenos furtos cometidos por crianças

O relato de pais sobre o aparecimento e o desaparecimento “misterioso” de objetos no entorno da criança é bastante comum. Na mochila escolar do filho surgem canetinhas que não são dele; no bolso da calça, uma moeda de origem desconhecida; na caixa de brinquedos, um aviãozinho que ninguém sabe como pousou lá. Da mesma forma, não se acha na bolsa da mãe o tubo de balas, nem o troco da padaria. Do armário da cozinha as bolachinhas parecem ter criado asas e voado para bem longe…

Como é que isso veio parar aqui, ou, onde é que aquilo foi parar, são perguntas nem sempre seguidas de respostas convincentes. Por quê? Porque as crianças tentam explicar algo que elas não compreendem do ponto de vista da razão. É por isso que, mesmo sendo atitudes corriqueiras, e a princípio sem gravidade, é importante que o adulto intervenha.

Aos 23 anos, a criança vive a intensidade do se fazer ser. Mesmo não sendo dela, ela pode tomar um objeto como sendo seu. “É meu!” é uma tentativa de dizer: gostei dele, quero brincar com ele, tê-lo comigo. A intermediação do adulto é fundamental para ajudá-la a reconhecer o que é seu e o que é do outro.

Por volta dos 45 anos, a diferença entre “eu” e “outro” já está clara para a criança, permitindo com que ela compreenda o conceito de propriedade. Então, se apossar do que não lhe pertence pode ser um teste para ver quais são as regras, quem está de olho nela, o que acontece quando ela pega o que não é seu. A ideia de que achado não é roubado pode começar a encantar os pequenos.

A partir dos 6-7 anos a criança já tem boa noção das leis sociais. Furtar ganha significados como sentir-se valorizado, importante, potente, ao mesmo tempo em que pode ser um pedido de limite, contenção. É nesta faixa etária que algumas crianças experimentam furtar nos supermercados, padarias, farmácias e afins. Mesmo que pareçam insignificantes, os furtos ou apropriações merecem atenção redobrada, não importando o valor real do objeto apossado.

Intervir diante de um furto ou apropriação da coisa achada não é fazer alarde chamando a criança de ladra, humilhando-a, ameaçando-a ou punindo-a. Se a criança pega um objeto que não lhe pertence, é preciso relembrá-la (brevemente) de algumas regras sociais e ajudá-la a encarar as consequências de seus atos, entre eles, o outro ficar sem seu objeto e, por isso, a necessidade de devolver ao dono (ou lugar) o que não é seu.

Por mais que possamos, sob a ótica do desenvolvimento infantil, pincelar minimamente os significados do furto ou da apropriação de um objeto que não pertence à criança, estas atitudes podem ser entendidas como um pedido da criança de “ei, olhe para mim”. Tanto que elas fazem de tudo para que seu cuidador – em geral os pais – perceba que ela pegou algo que não era dela, de um chiclete que mastiga ao brinquedo de um amigo ou cartela de adesivos da papelaria.

Ao se apropriar de um objeto que não lhe pertence – ainda que encontrado no meio do caminho – a criança está, de alguma maneira, dizendo “estou pegando o que não me foi dado”. Não se trata, aqui, do objeto material em si, mas de algo que ela foi emocionalmente privada.

Isso explica porque uma criança embora tenha tudo, precise pegar o que não é seu. Também, explica porque repreender só “ajuda” a criança se sentir culpada e/ou envergonhada. Ignorar o ato é outra atitude que não leva à origem da questão. Ao contrário, serve de empurrãozinho para recorrência dos furtos e até a instalação futura de comportamento delinquente, uma vez que a criança vai repetir o ato na tentativa de comunicar o que está lhe faltando.

Quando uma criança se apropria do que não é seu – sempre existe um dono que perdeu ou esqueceu o objeto encontrado – ou comete pequenos furtos, mesmo que uma única vez, devemos estar dispostos para fornecer o que de mais genuíno a criança precisa: cuidado, atenção, afeto e amor, ingredientes essenciais para qualquer vida saudável.

Anúncios

Sobre Patrícia L. Paione Grinfeld
Patrícia L. Paione Grinfeld é psicóloga (CRP 06/50829) formada pela PUC/SP em 1996. Nos primeiros anos de sua carreira trabalhou com a clínica das psicoses. Em 2012 idealizou o blog Ninguém cresce sozinho e recentemente o site para atendimento psicológico online Rodas de Conversa Ninguém cresce sozinho. Foi auxiliar voluntária do Aprimoramento Clínico Institucional em Terapia de Casal e Família da Clínica da PUC/SP (2014) e técnica do programa Palavra de Bebê do Instituto Fazendo História (2013-2015). É colaboradora do Movimento Infância Livre de Consumismo, cursa especialização em Psicologia Perinatal e Parental pelo Instituto Brasileiro de Psicologia Perinatal e atende em seu consultório, no bairro de Perdizes (São Paulo), crianças, adultos, gestantes, casais e famílias.

O que você achou deste post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: