Para além da diversão dos álbuns de figurinhas

Dia desses deparei-me com este texto enquanto eu juntava minhas próprias ideias sobre álbuns de figurinhas. Nele, encontrei inquietações muito próximas às minhas.

Colecionar um álbum de figurinhas pode ser muito divertido; pode aproximar pessoas, ser uma forma interessante de aprender/ensinar e se relacionar. Para as crianças em processo de alfabetização, por exemplo, os álbuns de figurinhas podem se transformar em aprendizado ou treino matemático, na medida em que possibilitam reconhecer e escrever os números, contar, agrupar e calcular.

Ao descolar e colar o adesivo, ajustar cada figurinha dentro da área demarcada, bater bafo, enrolar elástico no monte, a criança exercita sua motricidade fina. Ao se apropriar do álbum, ela se responsabiliza e cuida do que é seu. Através das trocas, a criança adquire um bem fora da relação de consumo e media situações de conflito em busca de soluções.

Em se tratando do álbum da Copa do Mundo, a criança pode, ainda, conhecer um pouco de História e sentir-se pertencendo à História.

Embora os álbuns de figurinhas tenham um caráter lúdico e até mesmo educativo, não dá para esquecermos que ele faz parte de um grande jogo publicitário; por isso mesmo, não dá para sermos ingênuos e crer na “bondade” da editora do álbum da Copa que distribui gratuitamente seu produto até em escola de educação infantil (veja o relato no texto acima linkado).

Ora, o negócio da empresa não é vender álbum, mas sim figurinha. O negócio da empresa é vender a possibilidade da completude – o sonho de todos os mortais, seres incompletos por natureza, que o tempo todo está em busca de preencher suas lacunas.

Se de um lado a busca pela completude é o que nos move para a vida, de outro, é também o que nos leva a muitas atitudes impensadas e desenfreadas, que buscam a satisfação imediata independente das consequências que um ato possa ter.

Quando nos deparamos com um álbum de figurinhas em branco, entramos, mesmo que em nível inconsciente, em contato com nossas faltas. Assim, sem perceber, ao colecionar um álbum, revelamos nossa relação com o mundo. Em se tratando de um colecionador-criança, este revela tanto sua relação com seu entorno quanto a de seus pais para com ele. Daí encontrarmos tantas maneiras diferentes de se colecionar um álbum.

Há quem sinta a necessidade urgente em completar o álbum, pois o vazio dos campos não adesivados é insuportável – o mesmo insuportável gerado pelo tempo de espera e pela frustração em não ter o que se deseja no momento em que se deseja. Há quem não se contente com apenas um álbum; diante do preenchimento de um primeiro, o sujeito busca completar o segundo, o terceiro, e assim por diante, porque “ter” concretamente é o que o faz sentir-se existindo, potente, capaz. Mas há também – ainda bem! – quem consegue colocar algum limite frente à paixão de colecionar, controlando o impulso da satisfação um pouco a serviço da razão. Há quem foque as trocas, um valor tão importante e ao mesmo tempo tão esquecido quando as relações de consumo entram em cena. Há quem aproveita a experiência para aprender/ensinar; para estar mais junto, conhecer, descobrir.

O álbum de figurinhas pode ser um rico instrumento de relação e aprendizagem quando não é destinado às crianças como mais um produto a ser consumido. Para isso, não basta que os pais apenas comprem/deem dinheiro para a aquisição de figurinhas ou as troque pelos filhos. É preciso estar perto, observar como a criança suporta a espera, se coloca nas relações de trocas e sente-se no meio de outros colecionadores. É preciso, acima de tudo, descolar essa vivência de uma experiência puramente de consumo, o que certamente implicará em alguns nãos, mas principalmente na capacidade de cada um em lidar com seus vazios e com a condição de incompletude inerente ao ser humano.

* Este texto foi originariamente publicado no MILC (Movimento Infância Livre de Consumismo), em 20/05/2014.

Dinheiro: um valor que não é apenas monetário

Dinheiro tem valor monetário, de igual valia dentro de uma sociedade, povo e cultura. É moeda de troca usada na compra de bens e serviços; uma unidade de medida e denominador comum em um determinado mercado. Mas, cada um de nós lida com ele de maneira diferente. Isso porque o dinheiro tem um valor que vai além de uma ou muitas moedas.

O dinheiro fala da relação que estabelecemos com o mundo, da importância que atribuímos às coisas que nos rodeiam. Ele está vinculado a valores éticos, morais, pessoais, estéticos, familiares e sociais; um valor que não é o mesmo que regula os bens e serviços.

Dinheiro nos remete, antes de qualquer coisa, à sobrevivência e às necessidades, mas também aos sonhos e desejos, aos impulsos e anseios. Fala de disciplina, controle e planejamento; e ainda, das vontades e possibilidades momentâneas ou futuras. Está ligado a uma ordem psíquica/emocional inerente ao ser humano: a busca pelo sustento e pela satisfação.  Integrado aos princípios e valores de vida, a relação estabelecida com o dinheiro nos mostra não apenas como ele é utilizado, mas também sua importância para cada indivíduo, família ou sociedade.

Nas sociedades pautadas pela lógica do mercado e capital, onde as relações de troca são mais do que mediadas, mas determinadas pelo dinheiro, há de se pensar em como o dinheiro atravessa as relações afetivas. “Ter”, sinônimo de poder, tem cada vez mais se transformado em sinônimo de “ser”: quanto mais temos, mais “completos” nos sentimos.  Da mesma forma, mecanismos de aquisições de bens e serviços têm feito parte desse sistema de relações que tenta preencher lacunas emocionais. Quantas vezes um pedido de “eu quero” de um filho representa um pedido de atenção e não de um brinquedo. Ou, a necessidade dos pais em dar tudo para o filho representa suas dificuldades em adiar, esperar e se frustrar.

Frustrações, insatisfações, diferenças de ordem social e afetiva, marcadas pelo limite, não são substituídas  por bens materiais. Apesar de promover sensações imediatas e momentâneas de realização e plenitude, o consumismo desenfreado e alienado pode revelar a dificuldade que adultos e crianças têm em adiar satisfações ou tolerar a falta de algo, levando-os, muitas vezes, a entrar em um círculo vicioso de um consumismo totalmente impensado, inconsciente, inconsistente e não sustentável, seja ambiental ou emocionalmente.

Como é importante poder pensar – a sós e, muitas vezes, junto com as crianças – o real motivo de um pedido e/ou desejo para tal aquisição. Ele pode ser um simples “querer por querer”, mas pode também ser uma tentativa de comunicar sua dificuldade em estar inserida num grupo, sua necessidade de ter mais atenção, companhia, etc. O desejo de uma criança precisa ser validado, mas não necessariamente acatado; precisa ser nomeado para que ganhe sentido e valor para a criança e sua família.

Temos visto os altos sacrifícios, substituições financeiras em situações que envolvem o afetivo e não o monetário, mudança de valores e convicções pessoais facilmente corrompidas no meio de consumo vivido nos dias de hoje.  E ainda, relações afetivas sendo compensadas e/ou preenchidas por algo que compramos ou ganhamos. O custo financeiro, e o custo pessoal e emocional que envolve a educação das crianças são distintos, não podendo ser medidos com a mesma “moeda”. Disponibilidade afetiva e financeira não é a mesma coisa, o que não nos permite misturá-las ou compensá-las uma na outra.

Quando falamos em necessidades e desejos, adultos, para que possam nortear as crianças, precisam ter claro quais são os anseios da criança e o que a ela é fundamental, apontando a elas esta diferença e ajudando-as a diferenciar aquilo que a ela é imprescindível ou não. Ao mesmo tempo, adultos devem ter claro para si suas obrigações e desejos consigo próprio e para com a criança, sendo coerentes quanto aos valores e critérios que direcionam as aquisições feitas, para que não haja deslocamento quanto à origem e relevância das necessidades e desejos de ambos.

A verdadeira educação financeira é um trabalho contínuo e diário, vinculado a uma boa conversa onde se transmitem valores que vão além do monetário. Ensinar à criança o quanto custa sem deixar de considerar o seu valor, seja ele afetivo ou material, é educá-las financeiramente, mas também para a vida!

Maio, um mês dedicado ao livre brincar

Brincar é uma das expressões mais genuínas da criança e essencial para seu desenvolvimento, na medida em que promove o conhecimento e compreensão de si e do mundo, auxilia na busca de soluções de problemas e resolução de conflitos, e permite a experimentação de novos papeis e situações. No entanto, apesar de sua importância na formação dos indivíduos, a verticalização das cidades, a visão de que a criança precisa desenvolver competências muito próximas às de um adulto, a disseminação e uso abusivo das telas, entre outros, têm colocado grande parte de nossas crianças distantes do livre brincar.

Na tentativa de reverter essa realidade, a organização americana Campaign for a Commercial-Free Childhood realiza entre os dias 5 e 11 de maio, em parceria com outras instituições e comunidade, a Semana Sem Tela (Screen Free Week). Convidando a todos a desligar as telas usadas para entretenimento (TV, vídeo game, computadores, celulares, tablets, etc.), a Semana Sem Tela tem por objetivo encorajar outras formas de entretenimento, como a leitura, o contato com a natureza, o tempo ocioso e mais tempo com a família e amigos.

semana sem tela

No Brasil, a Aliança pela Infância promove de 25 a 31 de maio a Semana Mundial do Brincar. Com uma programação recheada de brincadeiras por todo o Brasil, a Aliança pela Infância pretende ressaltar a importância do brincar na sociedade através do resgate de diversas brincadeiras.

Semana Mundial do Brincar 2014

Considerando a importância do brincar e dessas ações em nível nacional e internacional, nos inspiramos neste texto da Green Child Magazine para sugerir maneiras de estar e se relacionar consigo e com o mundo sem nenhuma tela e com muito afeto. Inspire-se também!

1)      Leia livros e estimule a criança a também ler, mesmo que ela ainda não tenha o domínio da leitura.

2)      Amplie o repertório de leitura, incluindo gibis, revistas e jornais.

3)      Sugira que a criança desenhe, pinte ou reconte a história. Elas adoram fazer seus próprios livros, seja com um reconto ou com uma história por elas criada.

4)      Dê a possibilidade para criança expressar-se através de diferentes materiais: lápis, gizes, tinta, cola, papeis, folhas de árvore, sementes, terra, areia, argila, água, massa de modelar, lixas, algodão, tecidos e sucatas. Quanto mais variados, mais aguçado fica seu tato e potencial de criação.

5)      Vai brincar na areia? Não esqueça potes, pás, baldes, pedaços de cano de PVC, carrinhos e, claro, água e pés descalços.

6)      Na grama, é deitar e rolar. Correr, virar cambalhota.

7)      Parques e praças são essenciais. Leve bicicleta, patins, skate, patinete, corda, elástico e muita disposição. Desenhe e pule amarelinha. Permita que a criança brinque com outras crianças. Brinque junto, mas também deixe-a explorar o ambiente sozinha.

8)      Mostre as árvores, plantas e pássaros. Convide a criança a sentir os cheiros e a ouvir os sons que estão ao redor. Ajude a criança a subir em árvore.

9)      Se há terra, plante alguma coisa que pode ser colhida e até comida! Senão, um copinho plástico para ver o pé de feijão crescer também é mágico!

10)  Veja o nascer e o por do sol. Observe a lua e as estrelas. Olhe para o céu e descubra as formas das nuvens.

11)  Sinta o vento bater no rosto. Tome chuva. Pule poça e pise nela!

12)  Vá a zoológicos, aquários, parques e feiras que têm animais.

13)  Inclua os próprios animais de estimação em passeios que eles nunca fizeram.

14)  Quem tem por perto, aproveite o mar, os rios, as cachoeiras e lagoas. Mas é possível se contentar com uma piscina ou bacia com água.

15)  Solte pipa – se puder construí-la, melhor ainda.

16)  Troque o carro por caminhadas a pé. Explore o que tem no seu bairro.

17)  Se não é costume, locomova-se na cidade com transporte coletivo. Conheça lugares novos. Vá a museus, exposições de arte, centros de convivência, teatros. Visite amigos e familiares.

18)  Explore o que há na biblioteca mais próxima.

19)  Programe uma viagem curta. Vá para a praia, campo ou montanha.

20)  Convide amigos para ir à sua casa.

21)  Conte a história da sua família, cidade, viagem predileta. Vejam fotografias. Estimule a criança a contar suas próprias histórias e a falar de seus sonhos.

22)  Devaneie.

23)  Façam juntos uma refeição gostosa, quem sabe um piquenique ou um almoço só com comidinhas de pegar com a mão.

24)  Desenvolvam em conjunto um projeto: um boneco de pano, um quadro para pendurar na parede, um bolo, a mudança de móveis do quarto.

25)  Resgate as brincadeiras de sua infância. Brinque junto, experimente as desconhecidas e ensine novas. Abra a caixa de brinquedo, mas lembre-se de brincar com o que também está fora da caixa!

26)  Cante, dance, dê risada. Faça teatro, show, apresentações circenses. Crie o cenário e o figurino com papeis, tecidos, roupas velhas e sucatas.

27)  Permita que a criança transforme sua cozinha num grande laboratório. Deixe-a misturar ingredientes, fritar bolo e assar pipoca!

28)  Jogue cartas e jogos de tabuleiro. Monte quebra-cabeças.

29)  Acampe fora ou dentro de casa. Cobertores entre móveis fazem a festa!

30)  Faça o que você sempre adorou fazer na sua infância sem tela.

Invente, recrie, tente, experimente. Deixe a criança ser criança e resgate a criança que adormeceu em você!

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