A conexão verdadeira com os filhos

Têm dois textos, esse e esse, escritos por Rachel Macy Stafford, professora de educação especial e autora do blog Hands Free Mama e do livro de mesmo nome, que chamam minha atenção pela quantidade de comentários de mulheres identificadas com trechos de seus escritos. Eu mesma já comentei sobre um deles aqui.

Parece-me que a identificação acontece porque encontramos em seus depoimentos os mesmos deslizes que cometemos com nossos filhos, como dizer “anda logo” ou gritar diante de uma situação banal.

Acredito que muitos desses comportamentos decorrem – em parte – do fato de estarmos conectados a muitas coisas ao mesmo tempo. Não me refiro apenas aos “excessos de distrações eletrônicas” por ela citado, mas também à necessidade de estarmos ligadas 24 horas a tantas outras, como a família, o trabalho, o conhecimento, a segurança, a saúde – só para citar alguns ou os principais.

O tempo todo convocamos e somos convocados a uma forma de conexão com o mundo bastante tarefeiro. Isso, sem dúvida, reflete na relação com os filhos, os quais acabam entrando “na lista” de deveres do dia: levar e buscar na escola, acompanhar lição de casa, alimentar, colocar para dormir, etc. É uma vida automática, rotineira, empobrecida em sua essência criativa. Vive-se ao lado, às vezes junto, mas raramente com os filhos (e outras pessoas). É uma conexão com tudo, mas não necessariamente uma conexão verdadeira.

Penso que é essa conexão verdadeira o que Rachel Macy Stafford e tantas outras mães tentam resgatar. Uma conexão que originalmente se estabelece na relação da mãe com seu bebê nos primeiros meses de vida, mas que acaba se perdendo conforme a criança vai ficando mais autônoma e independente.

Sabemos que a mãe precisa aos poucos retomar as outras coisas da sua vida, o que é bom e esperado, inclusive para que ela não se cole ao bebê. No entanto, se a conexão verdadeira não acontece de modo suficiente nos primeiros anos de vida (e não apenas nos primeiros meses), a criança muitas vezes acaba desenvolvendo uma falsa autonomia; ou seja, é uma criança que se vira na vida, é bem adaptada, mas no seu íntimo é insegura.

Se de um lado os “excessos de distrações” (eletrônicas ou não) contribuem para não nos conectarmos verdadeiramente a nossos filhos, de outro, a conexão pode não acontecer porque somos tomados pela criança que reside em nós. Também precisamos de colo, proteção, olhares atentos, escuta. Porém, tão parecido com os bebês e crianças, nem sempre conseguimos reconhecer nossas necessidades, nomeá-las e até mesmo pedir a quem está a nossa volta aquilo que precisamos (se é que entorno dá conta deste pedido!). Daí gritarmos, ficarmos descabeladas, mandarmos dos filhos andarem logo, deixarmos com que as crianças se ocupem de telas, etc. Nosso desamparo também impede a conexão com os filhos, seja em momentos pontuais ou contínuos. Se não cuidarmos dele, continuaremos conectadas às tantas tarefas rotineiras desenhadas por nossa cultura, distanciando-nos cada vez mais da verdadeira conexão, essencial para o desenvolvimento emocional das crianças e nosso.

Então, cada vez que mergulharmos em uma de nossas tarefas, sempre vale a pergunta: preciso mesmo cumpri-la ou ela entra no lugar de alguma outra coisa que não sei bem ao certo o que é – ou até sei, mas é difícil assumir?

A maternidade é uma oportunidade para o autoconhecimento. É pegar ou largar!

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É preciso de uma tribo inteira para educar uma criança*

Com as discussões sobre a regulamentação da publicidade infantil, apresento no blog do Infância Livre de Consumismo uma reflexão sobre a cultura do ter: o consumismo, a responsabilidade da sociedade na educação das crianças e a necessidade da regulamentação. Para ler o texto, clique aqui.

* O título é um provérbio africano.

Brinquedos e brincadeiras para bebês de 9 a 12 meses

O desenvolvimento motor deste trimestre é, sem sombra de dúvida, uma enorme conquista para os bebês e motivo de orgulho para quem está à sua volta. Num curto período de tempo os bebês adquirem competências que os permitem se deslocar para onde querem: engatinham (em alguns casos, “andam” sobre os joelhos ou rastejam com o bumbum), escalam, ficam em pé com apoio e andam, mesmo precisando ter suas duas mãos seguradas. Tais aquisições lhes confere maior autonomia e amplia sua sociabilidade. Todavia, em função da locomoção, e claro, da entrada na fase do mexe-em-tudo, a segurança do ambiente precisa ser revista.

Muitos especialistas recomendam a colocação de redes ou grades de proteção nas janelas, portas e outros vãos, cantoneiras nos cantos das mesas, traves de segurança em armários e vasos sanitários, “amarradores” nos fios elétricos (para impedir enforcamento), assim como a retirada de objetos de decoração e similares do alcance do bebê para evitar acidentes.

A prevenção de acidentes, indiscutivelmente, precisa fazer parte do cotidiano dos bebês, mas é importante que ela não inviabilize sua livre locomoção e exploração. É preciso garantir que dentro de casa, ambiente onde o bebê vive, possa ser por ele conhecido, inclusive para que ele aprenda e reconheça onde moram os perigos – isso facilitará sua análise dos perigos no mundo afora. Como os bebês são bastante diferentes em temperamento, é necessário avaliar o quanto toda essa parafernália serve para proteger ou impedir suas descobertas. Da mesma forma, a disponibilidade (de tempo e emocional) do adulto precisa ser considerada, mas sempre lembrando que nesta idade a criança precisa da supervisão do adulto, mesmo quando brinca bem sozinha. O segredo é encontrar a justa medida entre segurança e liberdade, que varia conforme as particularidades de cada caso.

Entrando na fase do mexe-em-tudo, inicia-se também a fase do não proferido pelo adulto. Como forma de proteger a criança dos perigos que a cerca, é bastante comum seu cuidador dizer “não mexa aí”, “aí não pode”, ao invés de acompanhá-la em suas explorações, explicando-lhe o que a impede de explorar aquilo que lhe desperta atenção. Estas pequenas intervenções, ao mesmo tempo em que ensinam a criança sobre as coisas da vida, autorizam-na ser a curiosa, o que é essencial para os processos de aprendizagem atuais e futuros.

Se de um lado sempre existem limitações àquilo que o bebê deseja experimentar, de outro é preciso garantir-lhe uma vasta oferta de possibilidades. O bebê precisa poder abrir uma porta de armário ou uma gaveta que tenham coisas que possam ser arremessadas para longe, [tentar] subir numa cadeira que não seja leve a ponto de tombar, ter acesso a objetos dispostos em seus cantos de circulação que sejam diferentes e interessantes, e por aí vai. O ambiente onde vive um bebê precisa permitir suas explorações e descobertas; precisa permiti-lo brincar. Para isso, não são necessários brinquedos sofisticados e caros. Aliás, alguns dos recomendados para esta faixa etária, como os andadores e as mesas de atividades, não são tão benéficos como muitos imaginam.

Os andadores têm venda proibida em alguns países e não são recomendados pela Sociedade Brasileira de Pediatria por apresentar riscos de traumatismos e atrasar o desenvolvimento psicomotor da criança. Já as mesas de atividades, embora cheia de cores, sons e formas, são pobres na oferta de texturas, movimentos e exploração livre pela criança. Quando a criança fica em pé sem apoio, qualquer móvel ou objeto baixo e firme cumpre com primazia a função das mesas de atividades; basta dispor sobre eles objetos com formas, tamanhos, texturas, sons, cor e materiais distintos (caixas, potes, tecidos, chocalhos, brinquedos de madeira) para garantir que o bebê se entretenha, investigue e aprenda. Enquanto o bebê só engatinha, esses objetos devem ser colocados no chão para que ele possa ter a possibilidade de exploração.

Quando os bebês experimentam a postura ereta por eles mesmos, muitos se recusam a ficar sentados; eles querem estar no chão seguindo em suas investigações. Para que o momento da alimentação não se transforme numa guerra, alguns cuidadores utilizam-se do recurso das telas para entreter os pequenos. Com esse gesto, impedimos que este momento seja prazeroso pela ingestão do alimento e vínculo estabelecido com quem o alimenta. Uma boa alternativa é disponibilizar um brinquedinho (relacionados ou não à alimentação – prato, copo, talheres) e/ou pedacinhos de alimentos para que a criança possa brincar e se alimentar sozinha (na presença do adulto!).

Entre os 9 e 12 meses não é apenas a capacidade de locomoção do bebê que amplifica sua sociabilidade. Os bebês começam a apontar para o que desejam, bater palma, esboçar o aceno do tchau, imitar expressões faciais, gestos e alguns sons que ouve, convocando seu cuidador a entrar na brincadeira. Aproveite essa gostosa e importante fase brincando com conversas, músicas e leituras. Nesses diálogos, inclua gestos e expressões faciais, variações rítmicas e sonoras (por exemplo, falar mais alto e bem baixinho), nomeações de partes do corpo e o nome do bebê e brincadeiras como seu mestre-mandou. Isso estreita o laço afetivo entre o bebê e seu cuidador, e favorece o desenvolvimento de sua percepção corporal e linguagem.

Durante as brincadeiras é comum o bebê desviar do foco proposto pelo adulto ou pelo brinquedo. O bebê costuma se interessar mais por explorar as partes de um brinquedo e observar seus efeitos do que pelo brinquedo todo ou aquilo que ele objetiva. É por isso que os brinquedos sofisticados nem sempre são os mais interessantes ao bebê, que pode se divertir muito mais com o fio amarrado em um carrinho do que com o carrinho em si, assim como desfrutar mais com a destruição de uma torre de caixas empilhadas do que com sua construção.

A repetição de uma mesma brincadeira, nessa etapa do desenvolvimento, é uma constante. Ela ajuda os bebês a aprimorar habilidades motoras e desenvolver aspectos cognitivos, como o aprendizado de relação entre uma ação e sua consequência (causa-efeito). Aqui, amar uma bola que rola de um canto a outro ainda não define nenhum jogador(a) de futebol!

Ingresse nessa aventura de exploração com seu bebê resgatando a criança que te habita! Brinque junto; o bebê precisa da presença humana para crescer saudável.

Do que as crianças gostam

Do que as crianças gostam

Quando o amigo imaginário aparece na vida de uma criança

Por Verônica Esteves de Carvalho e Claudia Y. Vargas Riveros*

Uma leitora nos pergunta: Gostaria de saber a respeito da normalidade ou não de uma criança de 6-7 anos de idade ter amigo imaginário. Qual é a idade em que isso acontece e que é considerada normal? E quando é necessário manter a atenção e pensar em uma investigação?”.

Em que contexto a criança pode criar e/ou ter um amigo imaginário? Esta é a primeira questão que pais ou adultos que convivem com a criança precisam observar e analisar antes de julgarem situações onde se faz presente alguém que imaginariamente compartilha eventos de todos os tipos durante um determinado período da vida da criança.

Diante deste amigo, é preciso olhar e entender o ambiente – familiar, escolar e social – que esse imaginário aparece e o “uso” que a criança faz dele. Esse amigo é visto e tido como extensão da criança? É alguém que oferece suporte, segurança ou proteção emocional a ela?  Ela o torna presente com qual finalidade?

Comumente, entre os 3 e 56 anos de idade, as crianças, através da imaginação, dão forma ao que sentem, percebem, experimentam e, também, ao que não entendem  afetiva e cognitivamente. É nesta fase que elas curtem e vibram com os contos de fadas e super-heróis, desempenham papeis, criam personagens, colocam-se na história, com direito a todas as emoções que surgem neste ato criativo. A fantasia e a imaginação se fazem parte de seu cotidiano, permitindo-as vivenciar situações e se fortalecer emocionalmente.

Nesse cenário pode surgir o amigo imaginário como forma da criança conversar, desabafar, brincar, brigar, dividir suas frustrações, dificuldades, tristezas, desejos, aspirações e conquistas. “Alguém” que interage com a criança e pode acalentá-la diante de seus sentimentos, relacionamentos e questões que ela vivencia. Um “amigo” que acompanha a criança, frente às mudanças sentidas por ela como algo temeroso e/ou ameaçador (como por exemplo, um irmãozinho que nasce; separação dos pais; casa ou escola nova; perda ou doença de uma pessoa próxima e afetivamente querida), situações estas, onde a criança apresenta dificuldade para compreender ou assimilar o que está acontecendo consigo e no ambiente que a cerca.

Da mesma maneira que usam a chupeta, o ursinho ou outro objeto (elegível pela criança), o amigo imaginário vem para oferecer segurança à criança. Por isso, em muitos momentos não está relacionado a algum problema emocional ou de comportamento.  Mas, pode sinalizar uma lacuna ou um espaço em aberto, que espera ser preenchido por uma realidade acolhedora e segura e/ou uma tentativa da criança integrar suas experiências e de tornar acessível ao seu mundo à realidade que não consegue entender e absorver.

Não menos, um amigo que a criança “usa” para defender-se, proteger-se e, até mesmo, desculpar-se de algo que ainda não dá conta de suportar porque lhe faltam recursos emocionais e cognitivos para processar determinadas vivências. Alguém em quem a criança projeta comportamentos, emoções e atitudes que ela própria não consegue incorporar ou compreender. Quem nunca viu uma criança colocando a responsabilidade de algo que fez e não foi legal em outra criança, seja ela imaginária, sem nome ou real? Com ajuda de um amigo imaginário, crianças podem elaborar experiências vivenciadas na realidade.

É válido ressaltar que, nenhum companheiro imaginário pode afastar a criança de suas atividades rotineiras, nem substituir a convivência com crianças reais. Desde que a fantasia não se sobreponha à realidade, todo amigo invisível é amigo acalentador e saudável para a construção psíquica e cognitiva infantil. Se o amigo imaginário cria distância da realidade, a ponto da criança negá-la ou isolar-se, é necessário avaliar sua presença na vida dela.

* Claudia Y. Vargas Riveros é psicóloga (CRP-06/42484-3). Atende crianças, adolescentes e adultos dentro da abordagem junguiana em seu consultório na cidade de São Paulo.

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