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fim de ano

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Para um presente de Natal não ser descartável

A troca de presentes no Natal faz parte de nossa cultura. Mesmo que tenha se originado para repetir o gesto dos Reis Magos que presentearam o menino Jesus por seu nascimento, não é preciso lembrar que a data vem bombardeada por apelos para o consumo. Todos nós sabemos disso, e cada vez mais.

Se há alguns anos dezembro era mês de Natal, atualmente observamos suas vésperas bastante estendida: inicia-se na sequência do Dia das Crianças ou, no mais tardar, novembro. Crianças observadoras, por exemplo, expressam essa mudança temporal quando perguntam, quase um mês antes de encerrarem as aulas, se logo entrarão em férias. Afinal, em nosso país, Natal se dá no meio das férias escolares entre anos letivos.

Com essa observação simples e corriqueira, podemos ter uma ideia do trabalho que é, na cabeça de uma criança, desconstruir e reconstruir a compreensão temporal. Agora, imagine como ela fica quando é tomada por dizeres e imagens que se apresentam em quantidade e velocidade muito maiores do que o habitual, ofertando o brinquedo mais divertido do mundo – e, de um tempo para cá, o melhor lugar para passar férias em família; sim, qual criança que assiste TV que nunca pediu para ir a um ou outro parque de diversões ou resort?

Se a magia do Natal carregava o tempo da espera e do sonhar pelo desejo genuíno de ganhar aquele presente, a enxurrada da publicidade trouxe o desafio de, diante do pedido de uma criança por um presente de Natal, termos que tentar decifrar se o que é pedido é uma escolha ou uma imposição. Não é incomum a criança ir mudando de ideia sobre o que ela quer de presente de Natal a cada apelo comercial. Sua dúvida é, na verdade, uma falsa dúvida; é um fenômeno fruto da invasão de informações que ela não tem maturidade emocional para encontrar em si onde cada apelo ressoa. Ela quer tudo e, depois que ganha o presente, acaba revelando que não quer aquilo. Quantas pessoas gastam o que têm e não têm para poder comprar o tal do brinquedo que é deixado de lado dias depois, como mais um item descartável entre tantos outros.

Um presente duradouro é um presente que vai ao encontro do desejo genuíno da criança. Em geral esse desejo está relacionado ao momento mais íntimo que ela vive consigo mesma. Um menino de quatro anos, por exemplo, que tinha muito medo de nadar, uma vez que passeava numa loja de brinquedos viu uma piscininha com bonecos e disse aos pais que queria ganhá-la no Natal. Os pais estranharam (o brinquedo ficava na “seção de meninas”), mas a insistência foi tanta que eles decidiram presentear o filho com a tal piscina. Com a piscina e os bonecos que a acompanhavam, o garotinho provavelmente foi elaborando aquilo que o impedia entrar na piscina de verdade. Alguns meses depois, começou a nadar como um peixinho.

Outro exemplo: uma menina, com dois anos de idade, pediu ao Papai Noel um paninho e uma vassourinha. Os pais não se conformavam em uma data especial a filha querer um presente tão barato e singelo. Ora, aos dois anos, a criança adora ajudar! O valor do presente que estava em questão, para a criança, não era financeiro, mas emocional. Isso é o que deve conter num presente. O desejo deve ser o desejo da criança e não o desejo do mercado ou de quem presenteia. Se, contudo, o que a criança deseja – feito o trabalho nada fácil de discriminar a legitimidade do pedido da imposição externa – não cabe no bolso ou não é possível por qualquer razão, basta dizer à criança sobre os limites reais daquele presente não ser possível. A vida é feita de limitações; se os limites não existem, os sonhos e a possibilidade de esperar que eles se realizem, também não. Portanto, também não há espírito natalino.

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