Existem diversas formas de dizer “não” para as crianças

Sim é sim; não é não. Em qualquer resposta dada as crianças, o importante é que os limites, assim como as possibilidades, sejam apresentados, assimilados e acomodados por elas. Adultos, precisam assegurar seu posicionamento para que as crianças possam nortear suas atitudes.

Sabemos da importância dos limites a serem oferecidos às crianças na infância. Como diz o pediatra Mário Cordeiro: “Pais permissivos geram crianças que não conhecem os limites e que cultivam o egocentrismo, o narcisismo e a omnipotência (…) Se uma criança se habitua a crescer sem limites não vai saber lidar com a frustração, vai fazer birras, vai sofrer e… “faz sofrer muita gente”.

Inserir limites não é apenas dizer “não” às crianças; é também ofertar possibilidades para que elas possam experimentar e fazer escolhas cada vez mais livres, de forma consciente e responsável. Um ato de aprendizado conjunto entre pais e filhos.

Como ainda estão em formação, crianças testam e questionam as mais diversas situações como forma de validar as regras/limites impostos, assim como o respeito a si e ao outro. Quando o que lhe é colocado revela certa contradição vinda por parte do adulto, as indagações aumentam ainda mais. Dizer “não” quando se quer dizer “sim” ou vice-versa faz com que as crianças sintam-se confusas, inseguras, com dúvidas sobre que caminho seguir e, até mesmo, agressivas, birrentas, podendo transgredir regras e limites inseridos.

Em todo diálogo está embutido sentimentos, valores e lógicas que devem estar alinhados para que as mensagens que estão por detrás do discurso não atrapalhem a comunicação junto à criança. A clareza na informação é essencial para que ela possa compreender e lidar com cada situação que vivencia.

Ao invés de dizer “não faça” ou “não pode” é válido os adultos substituírem essas expressões por outras que dão explicações e justifiquem as restrições e cerceamento. Por exemplo: “Você pode chutar a bola no chão, mas arremessar a bola só pode lá fora.” ; “Você pode chupar sorvete hoje, mas somente após o almoço.”.

 Se a criança quer algo ou se ela está fazendo coisas que são inadequadas ou proibitivas, podemos dizer um “não” com um “sim”, quando oferecemos a ela novas possibilidades. Desta forma, o efeito da comunicação gera empatia; a mensagem e o diálogo são promovidos; o entendimento é maior e menos restritivo, sempre demarcando os contornos necessários.

Quando o “não” for explícito, objetivo e claro ele será bem ouvido. Ao perceber outras oportunidades e possibilidades, assim como, entender os argumentos bem embasados e tiver confiança na relação com o adulto os “nãos” serão incorporados pela criança sem tantos entraves.  Isso só é possível quando o adulto é coerente (inclusive em situações semelhantes na sua própria vida) e cumpre com o que é dito e acordado com a criança.

Toda comunicação é um ato relacional. Através dela transmitimos intenções, sentimentos, necessidades, pensamentos, conceitos próprios e valores, conscientes e também inconscientes.  Ao estabelecermos um diálogo, muitas mensagens são transmitidas e a partir delas a relação vai se construindo, de forma positiva ou negativa para ambas as partes.  No caso das crianças, o que lhes é dito pode transformar e interferir no seu desenvolvimento. Um pai ou uma mãe que diz ao filho: “Você é ruim em matemática, olha sua nota! Não vai mais brincar à tarde! Vai estudar!” ou “Você é desorganizado, seu quarto está sempre uma bagunça”, estão enviando à criança uma mensagem negativa, cheia de rótulos e julgamentos. Ou, quando dizem: “Nós não vamos ao passeio porque não comeu tudo”, estão transmitindo conceitos que podem fazer uma criança se sentir ruim, culpada, e não amada.  Nos exemplos citados acima, o diálogo poderia ser: “É preciso estudar e dedicar-se mais à matemática”; “Precisa aprender a cuidar melhor do seu quarto e das suas coisas”; “Vamos comer bem para que possamos sair para o passeio; ele só acontecerá após a refeição de todos”.

Difícil é filtrar os discursos, principalmente quando estamos envolvidos e carregados de emoção. Os conflitos podem vir facilmente e pais, diante deles, podem acabar cedendo com mais facilidade aos pedidos e imposições das crianças. Os “nãos” vêm cada vez mais fortes e potencializados como forma de defesa para fazer valer o que queremos. Saí surgem as guerras infindáveis entre pais e filhos.  Perde-se o diálogo e se ganha monólogos.

Sem nos darmos conta, uma simples comunicação pode se tornar violenta, reverberando em ambos os lados sentimentos dos mais variados tipos e gerando sensações desconfortáveis que de algum modo interferirão na relação como um todo. Crianças sentem-se punidas sem saber por que e, por outro lado, pais podem ser rígidos demais, ao gritar e se impor de forma dura, sem a situação exigir, quando se sentem confrontados, ameaçados e impotentes.

As mensagens enviadas, principalmente as embutidas “desnecessariamente”, são muitas e cuidar da repercussão delas junto à criança se faz necessário.  Para isso, é fundamental podermos observar, identificar e nomear os sentimentos que são transformados em “nãos” ou em restrições descabidas. Devemos ensinar as crianças a expor e explicitar suas necessidades, desejos e emoções, fazendo perguntas sobre elas antes de encerrarmos um diálogo com “nãos” sem sentido.  E ainda, traduzir junto com a criança seus pedidos. O ganho disso: empatia, confiança e troca afetiva entre pais e filhos!

“O Bico”, livro de Ilan Brenman

Leonor, uma garota conhecida na família como a senhorita bicuda, vivia com bico no rosto desde que acordava, até a hora que ia dormir, não importasse o que estivesse fazendo.

Certo dia, o pai da menina comunicou à família que iriam para a fazenda da avó. Leonor, como sempre, de bico. Lá, ao decidirem fazer um passeio no meio de uma pequena floresta, a menina se afastou da família e acabou se perdendo.

Sentada embaixo de uma árvore, percebeu que algo caíra em sua cabeça. Era um tucano. Ao olhar para ele, e admirada com a beleza daquela ave, Leonor sentiu que ele tinha algo que lhe era familiar. Frente a frente, hipnotizados um pelo outro, a menina bicuda emocionou-se quando o tucano encostou seu bico no dela. Naquele momento, descobriu o que havia em comum entre eles – O BICO. Neste instante, seus pais gritam pelo seu nome, o tucano abriu asas e voou e Leonor correu em direção a eles. A família se abraçou e a menina, ao olhar para a copa da árvore, recordou o encontro dos bicos e abriu um delicioso sorriso.

A partir deste dia, Leonor substituiu seu bico por um sorriso. Em uma bela manhã de domingo, no zoológico, a menina sem BICO encontrou-se com uma hiena e percebeu que tinha algo familiar com aquele animal: o sorriso.

Com esta história, o autor nos convida a refletir sobre alguns comportamentos automatizados e perceber que, podendo escolher mudá-los, ou não.

Quando somos “tachados” pelos outros como bicudos, briguentos, “marrentos”, ou recebemos qualquer outro rótulo, acabamos por incorporar estes comportamentos, impedindo-nos (e aos outros também) de ver outras características que temos ou podemos desenvolver.  Como resultado, restringimos nossa possibilidade de vivenciar algo diferente do habitual.

Este livro, leve, porém de conteúdo profundo, é uma ótima oportunidade para adultos e crianças poderem pensar sobre seu próprio jeito de ser, abrindo oportunidades de escolhas e transformação.

O Bico / Ilan Brenman; ilustrações de Noemí Villamuza. São Paulo: Editora Moderna, 2014.

O Bico - Ilan B.

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