A comunicação empática que transforma relações entre adultos e crianças

Rubem Alves, na crônica “Tênis e Frescobol”, apresenta dois tipos de relações. Uma delas diz respeito jogo de tênis ou ping pong, cujo objetivo é derrotar o adversário visando o poder e a competição, gerando desavenças, brigas e desacordos. O outro tipo de relação é aquela baseada no jogo de frescobol, em que há o olhar para o outro, a sintonia, o entendimento, a troca afetiva, a diversão e o prazer.  Diz Rubem Alves: “Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…”.

No vídeo “Empatia e Simpatia” (abaixo) fica claro o que Rubem Alves diz sobre o jogo de frescobol. Neste tipo de relação, a empatia permite a conexão a partir do entendimento de perspectivas, reconhecendo o ponto de vista do outro como verdade, sem julgar, identificando a emoção que vem e comunicando-a com respeito e afeto.

Mas, nem sempre vivemos em um mar de rosas onde nos conectamos empaticamente com as pessoas. Há diversos fatores (emocionais, físicos, sociais e ambientais) que interferem nesta conexão com o outro.  Disputas, conflitos e descontroles emocionais trazem entraves na comunicação e, consequentemente, na conexão entre as pessoas. Quando isto ocorre, não há diálogo, nem escuta. Um diálogo é uma troca entre duas ou mais pessoas, desenvolvida a partir de pontos de vista diferentes num clima de boa vontade e compreensão recíproca. Sem ele, a sintonia se perde e começamos a ver uma dança descompassada entre as pessoas. As mensagens ficam truncadas e muitas vezes nosso foco passa a ser a defesa ou o ataque.

Toda relação que não permite diálogo precisa ser modificada. A questão aqui não é se livrar dos conflitos, mas aproveitá-los como oportunidade de criar relacionamentos mais harmoniosos.

Na Comunicação Não Violenta (CNV), conceito criado por Marshall Rosenberg, encontramos uma forma de lidar com os conflitos. Sven Fröhlich-Archangeloem entrevista para o site Questão de Coaching, diz que: “A tendência na hora do conflito é querer mostrar que o outro tem a culpa, ou às vezes o contrário, achamos que nós temos a culpa. De qualquer forma o padrão é que alguém tem que ter culpa, alguém está errado. E por causa disso cada um usa toda sua energia para convencer o outro de que ele está errado. Na CNV queremos sair deste padrão destrutivo que cria somente um muro entre as pessoas. Na CNV vemos cada conflito como uma expressão de necessidades não atendidas, porque no final tudo que fazemos é para atender alguma necessidade. Às vezes é uma expressão muito trágica porque usamos comportamentos agressivos ou nosso poder para conseguir atender nossas necessidades. E o resultado na maioria das vezes não é muito satisfatório e sustentável, especialmente quando atendemos nossas necessidades à custa das necessidades do outro. Então a essência da CNV está na mudança de foco: de nossos erros e dos erros do outro, para as necessidades de todos, com o objetivo de estabelecer uma conexão que nos permite procurar um caminho que atende as suas e as minhas necessidades.”.

Se pensarmos na relação entre adultos (pais e outros responsáveis pela educação das crianças) e crianças, podemos refletir sobre: Qual a necessidade de uma criança que está por trás de um comportamento birrento, por exemplo? De uma fala agressiva? De um enfrentamento com um adulto ou outras crianças? Ser ouvida, querer atenção, receber compreensão, ou conquistar mais autonomia? Dizer que está com sono, cansada ou que não quer mais fazer o que está fazendo? Quais as necessidades da criança que não estão sendo atendidas? E por outro lado, qual a necessidade dos adultos diante de uma criança que faz birra, fala palavrão e não obedece? Seria a mesma? Ser ouvido, respeitado ou simplesmente uma necessidade de relaxamento?

Crianças em determinadas fases da vida solicitam muito aos adultos que dela cuidam; querem sempre a ajuda deles ou que façam por eles algo que já têm condições de realizar: tomar banho e comer sozinha, fazer a lição de casa, arrumar seus brinquedos e cama, por exemplo. Vemos, muitas vezes, nesses pedidos a necessidade de receber atenção, carinho e sentir-se amado. Por outro lado, os adultos querem que a criança comece a cuidar de si própria com mais autonomia, podendo assim, sentir-se mais seguros de que estão cuidando bem das crianças. Podem ainda, por exemplo, estar em busca de uma leitura, um trabalho pendente ou simplesmente de ter um pouco mais de tempo para si. É aqui que os conflitos podem se instalar caso não identifiquemos as necessidades de ambas as partes. A criança fica brava, triste quando solicitam que ela vá tomar banho e se trocar sozinha. E os adultos também ficam chateados e incomodados quando a criança não obedece ou faz “birra” nesses momentos. Quando identificada a necessidade de ambos os lados, o diálogo pode existir de maneira mais harmoniosa. Crianças pedem carinho dos pais e seus educadores (sem precisar da ajuda deles em seus afazeres) e estes, por sua vez, podem expressar a sua necessidade e dar em algum momento, atenção para a criança.

Como educador, é fundamental que os adultos ajudem as crianças a identificar e expressar suas necessidades de forma a alcança-las. No caso citado acima, vale dizer à criança que a vemos inquieta, gritando e agitada, ao invés de julgá-la como agressiva ou birrenta. Pergunte o que ela quer e o que ela está sentindo. Mostre a ela a estratégia que ela está usando (birra e agressividade) para conseguir o que quer. Pergunte se há outras formas de ter suas necessidades atingidas. É necessário usar uma linguagem simples para a compreensão da criança.

Para que este diálogo aconteça os adultos precisam olhar com novas perspectivas, principalmente em momentos de estresse, violência (verbal ou não) e conflito. Não procure culpados, não julgue, não queira encontrar quem tem razão. Não se sinta confrontado pela criança. Use a energia para impedir que uma barreira se crie entre você e ela.  Identifique os fatores que em você, adulto, podem impedir essa conexão com a criança (preocupação no trabalho, cansaço, frustração, brigas conjugais ou familiares, falta de tempo, etc.). Pais e educadores devem estar também conectados com suas próprias necessidades internas para que estas não interfiram diretamente na comunicação e na relação com as crianças. Uma das maiores fontes de conflito é esperar que os outros identifiquem e atendam nossas necessidades.

Se olharmos a criança como um ser único, com necessidades próprias e em constante transformação, ficará mais fácil não julgá-la em seus comportamentos. Use o diálogo para criar, conjuntamente, formas de lidar com cada situação. O comportamento da criança, e automaticamente dos adultos, sofrerá alterações positivas pelo simples fato de estabelecer com ela uma conexão, com olhar e escuta frente às necessidades dela.

Não que todas devam ser atendidas pelos pais. O caminho para atender às nossas necessidades é transformá-las em pedidos que o outro pode ou não atender. Mas aqui, estamos focando na necessidade e não nos comportamentos e estratégias usadas para buscá-las. Assim podemos ajudar a criança a construir seus passos para que atinja o que almeja.

Eu brinco, ele brinca, nós brincamos

Eu brinco, eles brincam.

Sozinho e juntos. Nós brincamos.

“Também quero brincar!”

“Vem, vem brincar com a gente!”

Brincar só, com os amigos, irmãos, pais, tios, professores, avós… Com bonecos, brinquedos, amigos imaginários, a própria sombra… Enfim… Tem brincadeira? Tem diversão!

No parque, no quintal, no playground, na praça, na praia… Em casa, no carro, na escola, no corredor, no chuveiro, não importa o lugar. Todo lugar é lugar para brincar.

Qualquer objeto pode ser transformado em brinquedo. Qualquer pessoa pode ser outra pessoa durante a brincadeira. O importante é brincar.

Queremos é brincar!

“Vamos brincar de…”  E tudo se torna mágico!

Brincar é sinônimo de criar, imaginar e inventar; aprender sobre o mundo e as pessoas. No brincar, a experiência se revela e fica no registro da criança.

Brincadeiras conduzidas ou não, todas são importantes para a construção do conhecimento. O brincar proporciona experiência cognitiva, emocional e social. Está associado ao encorajamento e à energia.

Momento de se relacionar, de criar vínculos, de se constituir a partir de aprendizados,  que desenvolvem e permitem o crescimento contínuo da criança.

Brincar para mim, para ti e para nós! Um direito de todos!

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A importância das escolhas conscientes

Sempre dentro de propósito, consciente ou não, aquele que cuida de uma criança possui, para si, conceitos que regem sua conduta diante da educação de uma criança. No entanto, por mais diversas que sejam as realidades, existe uma intenção muito parecida entre todos que educam: criar para favorecer que a criança se torne “alguém na vida”.

Sabemos que muitos dos movimentos e escolhas feitos pelos adultos estão vinculados às suas experiências de vida, crenças, valores pessoais, além de outros fatores que exercem certa interferência na família e pessoas nela inseridas.

Todas as decisões, incluindo a rotina da criança, a escola e metodologia aplicada, as atividades que realizarão e o que irão consumir, dentre outras, acabam, ao longo do tempo, por direcionar mais tarde as condutas das crianças diante de sua própria vida. Valores são construídos, pensamentos são criados; sentimentos são vividos e sedimentados, até que as decisões e escolhas possam ser feitas por si só.

Em uma cultura onde há muitas demandas e “necessidades” de ter e fazer muitas coisas para educar, nem sempre é fácil discernir o que realmente é importante e qual a melhor maneira de cuidar de uma criança para que ela se desenvolva integralmente. As dimensões físicas, emocionais, morais e sociais caminham juntas e se entrelaçam. Qualquer que seja nossa conduta junto à criança, estaremos, com ela, trabalhando todos estes aspectos concomitantemente.

Em nossa sociedade existe um leque de opções que podemos optar e inserir no mundo infantil: atividades extracurriculares, babás; brinquedos, eletrônicos e afins; festas de aniversário em casa ou buffet; presentes entregues em mãos ou deixados em uma caixa; encontros e brincadeiras em lugares menos cinzentos e de maior contato com a natureza; passeios em shoppings e playlands; brinquedos caros ou feito a quatro mãos. Uma infância onde se está livre para brincar, com segurança, desacelerada, com menos telas e livre de consumismo.

Tudo isto está a serviço de quê? Para quem? Para quê? E, entre todas estas escolhas, qual a melhor ou mais adequada para cada criança e cada família?

O que é novidade atrai, queremos experimentar e, muitas vezes, repetir.  As informações e acessos a tudo que é diferente e inovador estão acessíveis. Diante deste mar de opções, devemos sempre nos questionar e, a partir daí, fazer escolhas mais conscientes. Basta estarmos dispostos e abertos a pensar sobre tudo que nos é apresentado. Ter senso crítico é essencial e sinal de saúde mental – um exercício que acompanha a maternidade e paternidade para todo o sempre. Olhar sob todos os ângulos possíveis, sem resistência e pré-julgamento para que nossas escolhas sejam cada vez mais concisas e congruentes à infância e tudo que ela nos solicita como educadores.

Dentro de cada realidade vivida, as escolhas precisam ir ao encontro daquilo que têm sentido para a educação das crianças. Mas, para isso, é preciso olhar a infância como ela é em sua naturalidade. Do que as crianças realmente precisam? Do que elas gostam?

Sem pensarmos no verdadeiro significado e valores presentes em cada situação e, por consequência, decisões tomadas, as escolhas frente ao desenvolvimento infantil podem perder sua real intenção. O que pode nos parecer “bom” e vantajoso nem sempre o é e vice-versa. Sem pensarmos no verdadeiro significado e valores embutidos que cada ação tem o novo e o diferente (inclusive bom) pode nos alienar e nos tornar permissivos demais face às demandas das crianças.

Uma hora ou outra teremos que (re)ver nossos propósitos  – individual e familiar – e teremos que (re)avaliar como vai nossa relação com as crianças e sua formação.

Ajudando as crianças a falar e lidar com seus medos

Quem, quando criança, nunca teve medo de fantasma, de escuro, de morrer, de perder alguém querido, de ser abandonado? Quem não sentiu medo de médico, de dentista, de injeção ou de fazer coisas ainda não conhecidas? E medo de palhaço, de animais e outros tantos de uma lista infindável?

Se você não se lembra, certamente alguém do seu convívio na infância deve recordar de algum medo que você teve quando pequeno. Os medos fazem parte do mundo infantil, podendo tornar-se insignificantes e sem sentido com o passar do tempo, ou persistir ao longo da vida adulta. Os medos falam de conflitos e da dificuldade em lidar com questões reais ou imaginárias que nos ameaçam física e emocionalmente, e é isso que os faz ganhar tamanha dimensão.

Desde muito cedo as crianças são desafiadas frente aos medos. No entanto, por não terem maturidade para lidar com eles, elas precisam da ajuda dos adultos para sentirem-se seguras e confiantes para encararem e superarem aquilo que temem.

Quando o medo que a criança sente não nos faz sentido, é comum dizermos que tal medo é “bobo” (como o medo de bichão papão) ou desnecessário (quando o medo é de um cãozinho). Se não embarcamos nas fantasias da criança para ajudá-la a reconhecer o que a assusta, podemos cair num discurso vago e ainda corremos o risco de reagir com ira ou desdém, ignorando que por trás do medo há angústia e sofrimento.

Então, como sair dessa situação de impasse?

O uso de histórias sobre medos são um recurso sempre interessante para ajudar driblá-los. Algumas histórias são abordadas de forma direta e outras de uma forma mais sutil, deixando sua mensagem nas entrelinhas. Ambas são ricas, e não temos como saber de antemão qual pode ser mais atrativa para a criança.

Entre tantas histórias, há uma série escrita por Ruth Rocha e Dora Lorch que pode ajudar a criança a falar, encarar e até mesmo superar seu temor. São livros que abordam medos que representam conteúdos íntimos de uma criança como o abandono (Ninguém gosta de mim?); medos criados em relação a procedimentos nunca experimentados, como ir ao dentista ou já vivenciados com certa ansiedade, como o retorno ao médico (Será que vai doer?); medos que temos e não sabemos –  de fantasmas e bichos que não existem, mas que estão dentro de nós e podemos combatê-los (Fantasma Existe?); e, medos que representam perigos reais da vida e são importantes para nossa proteção, como por exemplo, cair na piscina e se afogar por não saber nadar, atravessar a rua e ser atropelado (Tenho medo mas dou um jeito).

Através das histórias, as crianças percebem que não são as únicas a sentir determinado medo. Elas podem brincar com ele, rir dele, contar e criar outras histórias que o coloque num lugar diferente daquilo que ela vive, e ainda incrementar a “conversa” com outras formas de expressão, como o desenho, a pintura e o teatro.

Logo, precisamos ouvir as crianças em suas “argumentações” – muitas vezes ilógicas – e permitir-lhes que expressem física e verbalmente o que estão vivenciando. Os medos falam de sentimentos que as crianças estão experimentando e devemos conversar a respeito para que possam desmistificar conceitos e fantasias, pontuar, nomear e entender seu significado. Assim, ajudamos as crianças a elaborarem estes medos, que irão paulatinamente – cada qual em seu ritmo – diminuindo sua intensidade e até mesmo desaparecendo.

Expressar os medos é de extrema importância; dizer sobre seus sentimentos é fator de proteção física, emocional e social para que as crianças possam se desenvolver e criar relações seguras que servirão como base para estar no mundo de forma ativa e autoconfiante.

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Tenho medo que meu filh@ seja gay

Temos recebido nos comentários dos posts que abordam a sexualidade infantil muitos relatos de cenas com criança beijando um amiguinho, ou esfregando, cheirando e/ou manipulando o genital ou ânus de outra criança de mesmo sexo e idade. Estas cenas causam espanto e dúvida a muitos pais, que se perguntam e nos questionam: “Tal situação pode dizer algo sobre a orientação sexual de meu filh@?”; “Meu filh@ pode ser/tornar-se gay?”.

Curiosas por natureza, e em contato com a diversidade, as crianças, por volta dos três anos, começam a querer saber a origem de tudo e os porquês, incluindo as questões de cunho sexual. Além da auto-exploração corporal, que se intensifica nesta fase da vida, é comum as crianças repetirem nas brincadeiras comportamentos adultos e experimentarem a troca de papeis. Como na brincadeira, a fantasia não encontra limites, a representação dos universos masculino e feminino aparece sem obstáculos: dois meninos ou duas meninas podem se beijar e se acariciar; querem ser a mulher/homem na relação, independentemente de seu sexo, e, muitas vezes, desejam se vestir e “ser” como o sexo oposto.

Desde que não estejam vulneráveis e expostas a fatores agressivos, como a coação, as brincadeiras e manifestações sexuais infantis têm caráter exploratório e não revelam a orientação sexual da criança. O que está em jogo para as crianças é a curiosidade e a busca pelo entendimento sobre as diferenças que as pessoas e o mundo lhes apresentam.

No entanto, sabemos que muitas crianças estão apresentando brincadeiras e comportamentos que fogem do aspecto puramente exploratório esperado em cada faixa etária. É preciso ficar atento à exposição precoce a conteúdos sexuais adultos e também à vulnerabilidade sexual infantil, que colocam as crianças diante de experiências que desrespeitam sua imaturidade biológica e psíquica.

Se a curiosidade e a exploração fazem parte do desenvolvimento saudável das crianças, por que alguns pais se incomodam quando se deparam com tais vivências de seus filhos e com a possibilidade de escolha sexual destes? Consideremos alguns aspectos relevantes.

Em uma sociedade que por muitos anos definiu os papeis de homem e mulher, masculino e feminino, de um modo muito rigoroso, a diversidade sexual, ainda é um tabu para muitos, o que leva adultos a negá-la e rejeitá-la.

A diversidade – e portanto as diferenças – aciona nossos pré-conceitos pessoais e sociais, acendendo nosso olhar pejorativo e discriminatório. Em busca de um dito padrão de “normalidade”, e quase sempre incomodados com os julgamentos e retaliações que eles próprios e seus filhos possam vir a sofrer, pais se angustiam com o fato de seus filhos poderem ser “diferentes” daquilo que imaginaram ou do que seu ambiente espera.

É comum pais, na ânsia de formar seus filhos de acordo com seus princípios e valores, esquecerem de colocar seus ideais e expectativas em uma posição que permitam seus filhos construírem sua própria identidade, descoladas das deles. Revela-se, assim, fortemente o desejo dos pais em relação à orientação sexual e aos papéis sociais que serão desempenhados pelos seus filhos no futuro. Diante da possibilidade de algo “dar errado” ou “sair fora daquilo que esperavam e desejavam”, instala-se no adulto o medo e culpa, além de frustração e, em alguns casos, rejeição e sentimento de fracasso. Neste sentido, é preciso que os desejos dos pais em relação aos desejos dos filhos sejam separados e entendidos individualmente para que a criança não seja sufocada em suas possibilidades e escolhas, seja ela qual for.

Pai, mãe e outros adultos de referência são modelos importantes para as crianças, positiva ou negativamente. Meninos se identificam com pai e gostam de outros homens desejando ser igual a eles, mas também se identificam com a mãe e as têm como referência.  Um paradigma existente em toda formação de identidade. A partir de um espelho – feminino e masculino – e das vivências tidas na infância, vão construindo a identidade sexual.

Frente às experiências vividas pelas crianças, muitos adultos têm dificuldade em olhar para a curiosidade e a manifestação sexual infantil sob o ponto de vista da criança. Atravessados pelos estereótipos sociais e carregados pela própria história e educação que receberam, muitos pais se enroscam no discurso e/ou em atitudes que confundem a si próprios e, por consequência, a criança.

Falta de informação, vergonha, culpa e outros sentimentos impedem muitos adultos de tratarem a sexualidade das crianças como algo natural. Na tentativa de querer “corrigir” comportamentos infantis (ao invés de compreendê-los) criam conceitos e regras que impedem a criança de experimentar e descobrir coisas e conceitos sobre a vida e tudo que ela lhe mostra de diferente. Ou ainda, criam rótulos com os quais a criança às vezes tem que carregar por toda vida, sem compreender qual o seu sentido.

Uma coisa sabemos e podemos compartilhar: a definição sexual de um indivíduo se dá pela interação entre fatores biológicos e ambientais bastante diversos e complexos. Por isso, podemos dar como certo que as brincadeiras – sozinhas – não definem a orientação de sexual de um indivíduo. Antes de induzir qualquer significado em determinados comportamentos infantis é preciso entender que através do livre brincar, crianças experimentam, aprendem e matam a curiosidade sobre vários aspectos existentes no mundo que a cerca.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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