Troca da fralda: um momento especial que vai muito além da higiene

Já parou para pensar quanto, do tempo em que o recém-nascido está acordado, ele passa no trocador tendo suas fraldas substituídas? Diferentemente das fraldas que são descartadas no lixo ou no cesto de roupas para lavar, o tempo no trocador não pode ser desprezado ou subestimado, pois trata-se de um tempo precioso no que diz respeito às experiências sensoriais e afetivas estabelecidas entre o bebê e seu cuidador.

No trocador o bebê é tocado, mordiscado, cheirado, beijado – carinhos que o ajudam a estabelecer uma relação prazerosa com o próprio corpo. O toque, acompanhado da troca de olhares entre o bebê e seu cuidador, provoca um mútuo encantamento. Ambos se olham fascinados, abrindo espaço para uma comunicação muitas vezes acompanhada de palavras, sorrisos, cantigas e brincadeiras por parte do adulto (a ausência da troca de olhares deve ser compartilhada com o profissional de saúde que os acompanha, pois um deles ou a dupla pode estar em sofrimento).

Quando o bebê cresce um pouquinho, por volta dos dois meses, ele começa a ecoar sonzinhos com a intenção de se comunicar. Mais ou menos aos quatro, passa a imitar o que seu cuidador faz com a boca e com as mãos. A partir do quinto ou sexto mês, o bebê interage mais, tentado pegar no rosto de quem cuida dele. Logo mais, entre o sétimo e oitavo mês, o bebê dispara a “conversar”, convocando mais e mais o adulto através de seus gestos e brincadeiras.

Um adulto dedicado certamente responde a estas e outras gostosas provocações repetindo os sons emitidos pelo bebê e introduzindo novos, imitando o bebê e deixando-o imitar, traduzindo essa língua singular e contando o que faz com o corpo do bebê – inclusive nomeando as partes do corpo que são tocadas.

Nessa comunicação, o adulto pressupõe o que o bebê pode estar sentindo. Quando atento, ele aguarda e observa a resposta do bebê para que possa oferecer-lhe o que o pequeno precisa, tanto material quanto emocionalmente (a partir do segundo semestre de vida, o bebê estará cada vez mais hábil em colaborar nos momentos das trocas de fraldas – basta dar-lhe a chance).

Essa riqueza das trocas afetivas faz com que o trocador não seja apenas lugar para deixar o bebê limpo, mas um lugar para também brincar, interagir, se relacionar, fortalecer o vínculo e entender quais as necessidades e os desejos do bebê. O bebê pode querer apenas ter suas fraldas trocadas para logo ir dormir, mas pode querer brincar, convocar o adulto para estar com ele, descobrir o que tem ao seu lado ou mesmo dentro da fralda – sim, os bebês geralmente descobrem seus genitais na troca das fraldas, o que deixa muitos adultos um tanto atordoados.

Com o corpo desnudo, o bebê se toca e descobre o prazer em se tocar. O menino, ao manusear o pênis, provoca a ereção. A menina, leva sua mão no local onde sente sua urina passar. Ela se toca podendo até mesmo introduzir o dedinho na vagina. Se essas situações tiram o adulto do eixo, corre-se o risco de as trocas de fralda se tornarem um momento de cuidados mecânicos e higienista, risco que também existe quando não se compreende a importância das trocas afetivas em outras situações corriqueiras de cuidados com o bebê, como o banho ou a alimentação.

Para o bebê, não é justo interromper a investigação em seu próprio corpo; a investigação sempre será o motor da aprendizagem. Também, quanto mais o adulto valoriza a manipulação através de suas intervenções, mais excitado o bebê fica. Respeitar a exploração do bebê neste momento que é dele, é uma forma de comunicar-lhe que a masturbação faz parte de seu universo privado. Mais tarde, quando ele crescer, entenderá que a masturbação só deverá acontecer em espaços privados e sem a participação de adultos.

As descobertas e explorações do bebê no trocador não param por aí. Entre dez e doze meses, e no período que sucede, o bebê não para quieto e tenta a todo custo ficar em pé. Se ele quer ficar em pé, por que não deixar? Por que não trocar sua fralda da maneira que mais atende ao pedido de seu corpo?

Na medida em que os sinais do bebê são compreendidos e suportados pelo adulto, estabelece-se um diálogo (mesmo com nenhuma ou poucas palavras por uma das partes) que contribui para a construção da tão necessária segurança que todos os humanos precisam para viver. Esse jogo que acontece entre o bebê e seu cuidador vai esboçando o modelo relacional da dupla, tanto nas trocas de fraldas como em outras circunstâncias cotidianas da vida do bebê (e vice-versa) – não é por acaso que alguns bebês se comportam de modo muito diferente nas trocas de fraldas (e em infinitas outras situações) conforme a pessoa que exerce o cuidado. Dessa forma, cada minutinho no trocador precisa ser valorizado e aproveitado, afinal, as trocas que nele ocorrem vão muito além das fraldas.

O que fazer quando a criança demora para falar?

Por Adriana Fontes Melo* e Ana Paula Dias Fernandes Pacheco**

O advento da fala de um bebê é tão esperado que não é de estranhar que muitas vezes a ansiedade dos pais diante das primeiras palavras faz com que peçam a seus filhos a repetição dessas para que amigos e familiares aproveitem deste momento especial. O bebê, por sua vez, entra no jogo, ora repetindo, ora se negando a reproduzir suas novas aquisições. Essa é uma cena clássica, atual, e se repete tantas vezes que só nos damos conta de um impasse quando as palavras adquiridas vão sumindo conforme a demanda de repetição. Contudo, se os pais se dão conta e cessam a demanda, a criança retoma o curso de aprendizado, sem que esse processo seja retardado.

Ainda nesse tempo das primeiras palavras, lembramos que o bilinguismo, aquisição de mais de uma língua, naturalmente se dará em um período mais extenso; crianças com irmãos mais velhos podem falar mais cedo do que um filho único, e gêmeos criam uma linguagem própria, o que pode resultar em um menor interesse, da parte desses pequenos, em desenvolver uma fala articulada para a comunicação com os adultos.

Nos casos acima descritos, percebemos que não há interrupção no processo de aquisição da linguagem e que as crianças dão conta de prosseguir com o aparecimento de novas palavras assim que se sentem confortáveis em retomar a palavra como meio de comunicação.

Aqui a pergunta se faz para casos em que a ausência da fala não é “autoexplicativa”, ou seja, os movimentos da família e da circulação social do bebê não se desdobram a favor dessa forma de comunicação, a saber, a fala. Nesses casos, geralmente recorre-se a Pediatras e Educadores, e em seguida os encaminhamentos mais específicos podem levar a criança a Fonoaudiólogos, Psicólogos ou Psicanalistas.  A posição a partir da qual falamos é a de Psicanalistas, que trabalham as questões da linguagem na prática clínica.

O ato do nascimento impele o choro, que é recebido com muita alegria porque esta manifestação representa vida.  Nos momentos seguintes, o choro irá representar tantas outras coisas que aqueles que cuidam do bebê serão convocados a descobrir o que esse som enuncia, excetuando-se apenas os bebês com problemas no aparelho fonador, já que mesmo em casos de deficiência auditiva ou de surdez, o som da voz está presente (na surdez somente o aparelho auditivo está comprometido). O fonador, responsável pela capacidade em emitir sons, estará preservada e a comunicação poderá ocorrer contando apenas com estes sons, com sons e com sinais, ou apenas com os sinais.

Nesse tempo é esperado que quem escuta o bebê possa dizer-lhe algo sobre o que supõe estar sendo comunicado por meio do choro, isto é, irá verbalizar suposições sobre: fralda suja, fome, calor, frio, sono. Exemplo: “Ah! Então quer dizer que você está me pedindo… está me contando…”. Esse diálogo dá ao choro lugar de apelo; ou seja, o choro não será mais uma mera reclamação, mas contará sobre o que o bebê sente. Não é incomum ouvirmos: “…xi, chorando desse jeito, já sei que é fome!”. Igualmente importante, é que o banho, a mamada, a troca de fralda e os outros cuidados cotidianos sejam acompanhados de uma conversa com o bebê – “eu sei que você ficou chateado por tirar a roupinha, mas agora a mamãe vai te colocar numa banheira com água quentinha” – e que ela dê um tempo para que ele responda com um sorriso ou mesmo com um olhar, e continue: “Você gostou? Percebo por esse sorriso que você gosta de tomar banho…”.

O ensaio e erro dessa fase, que permite saber sobre o choro e descobrir do que não se trata para supor uma assertiva, prepara a próxima etapa: o bebê pode apontar para o que quer. Esse caminho indica que muito antes de um bebê murmurar a primeira palavra, ele aprende as regras da linguagem e se utiliza desses códigos para se comunicar, até que as primeiras palavras surjam como resultado do que foi percebido e praticado.

O fato de que alguns bebês respondam mais rapidamente para aquilo a que foram mais estimulados, parece bem usual; que eles convoquem aquele que não está presente, parece bem natural; que eles só pronunciem o que querem se alguém não o fizer por ele, pode até parecer cruel, mas como subestimar seres tão atentos e dispostos a receber do outro os códigos da vida?

Essa pergunta tem a intenção de encorajar os pais e todos os que têm alguma forma de relação e cuidado com os bebês, a incentivar que esses pequenos peçam o que não têm à mão, ou mesmo o que querem além disso. Que desejem, demandem e que, no esforço para conseguir, sintam o prazer da conquista e possam continuar “dizendo sobre eles mesmos”.

A palavra falada é uma das possibilidades de comunicação. Entretanto, a fala não se restringe à articulação das palavras e, por ser um meio de comunicação muito expressivo, a ausência da produção de fala passou a ser um dos indicadores para uma melhor observação dos riscos no desenvolvimento infantil. As crianças têm características bem diferentes e o fato de serem mais quietas, ou agitadas, “é coisa de criança”. Porém, se percebemos um exagero e se esse nos levar a pensar em inibição ou hiperatividade, tanto um como outro podem representar dificuldades dessas crianças no meio social em que vivem (família, creche/escola, vizinhança).

A inibição é um recurso bastante usado nas fases iniciais do desenvolvimento de uma criança e pode ser lida como defesa contra a angústia de não conseguir se comunicar, por exemplo. A hiperatividade também pode ocorrer em decorrência da dificuldade na comunicação, já que implica em uma agitação motora, dificuldade na aceitação da lei e pode ainda se apresentar sob forma de condutas agressivas. Estes são exemplos que nos permitem pensar em sinais de alerta para que as etapas do desenvolvimento infantil sigam com mais possibilidades do que impasses.

As etapas do desenvolvimento infantil não são concluídas em idades exatas. Justamente por isso, a Pesquisa Multricêntrica de Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil (IRDIs) foi criada pelo Grupo Nacional de Pesquisa em parceria com o CNPq e a FAPESP para auxiliar profissionais da área de saúde na avaliação de riscos. Elegemos apenas os itens que se referem diretamente à linguagem: estima-se que com idade entre 0 a 4 meses, “quando a criança chora ou grita, a mãe sabe o que ela quer”; que entre 4 a 8 meses “a criança utiliza sinais diferentes para expressar suas diferentes necessidades” bem como, “reage (sorri, vocaliza) quando a mãe ou outra pessoa está se dirigindo a ela”; de 8 a 12 meses mãe/cuidadores “compartilham uma linguagem particular com a criança”; de 12 a 18 meses “a mãe começa a pedir à criança que nomeie o que deseja, não se contentando apenas com gestos”. A referida pesquisa se encerra nessa faixa etária, mas podemos seguir marcando o período seguinte, de 18 meses a 2 anos, como a fase em que as palavras começam a aparecer em uma velocidade surpreendente e algumas crianças já esboçam pequenas frases: “É meu!”, por exemplo. De 2 a 3 anos, ela usará frases com 3 palavras, e seguirá aumentando esse repertório para expressar de modo cada vez mais preciso o que quer, contando o que fez.

Contudo, devido à complexidade da linguagem que requer da criança bom desenvolvimento orgânico (seja motor, fonador ou auditivo) e psíquico (constituição subjetiva do sujeito), essas aquisições podem ultrapassar os 3 anos de idade, necessitando de um tempo maior de amadurecimento em alguma etapa do desenvolvimento.

A percepção de que algo não caminha bem no desenvolvimento da fala, seja por situações comparativas a outras crianças (irmãos mais velhos, filhos de amigos, entre outros) ou a partir de espaços como esse, que sugerem um modo de observar, é muito importante para que se dê um encaminhamento preciso. Por isso, pais e educadores devem ficar atentos e solicitar a avaliação de um especialista quando: de 0 a 6, se os bebês param de balbuciar; de 9 a 15 meses, se o bebê ainda não pronuncia palavras ou se, ao final dessa fase, não se consegue entender nem supor o que está sendo pronunciado e até mesmo o surgimento de eventos como a gagueira ou outros não sumirem rapidamente.

O relato de sinais como os acima descritos e a observação durante a consulta de um especialista responderão se é o caso de intervir ou se é precipitado tratar, e nova avaliação deverá se fazer mais adiante. Pediatras e Educadores são profissionais que estão em constante contato com bebês e crianças e por isso um olhar cuidadoso e atento por parte deles pode possibilitar o encaminhamento para especialistas que poderão avaliar, no caso de: alterações auditivas, fonoaudiológicas, visuais, neurológicas ou questões psíquicas.

Cuidar a tempo é a justa medida para que esse precioso momento de desenvolvimento não retarde outros tantos que estão por vir. Para a Psicanálise a intervenção é considerada a tempo quando é possível perceber sinais que indicam uma dificuldade, antes mesmo que entraves impeçam ou atrasem a entrada do bebê/criança na linguagem.

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*Adriana Fontes Melo é Psicóloga Clínica (CRP 06/57316-8), Mestre em Psicologia Escolar do Desenvolvimento Humano IP-USP, Especialista em Distúrbios Globais do Desenvolvimento IP-USP. Psicanalista na clínica com crianças, adolescentes e adultos. Fez parte da equipe clínica do Lugar de Vida, aonde os atendimentos se davam a crianças com distúrbios de linguagem, transtornos globais do desenvolvimento e clínica com bebês (Núcleo de Intervenção Precoce-NIP).

**Ana Paula Dias Fernandes Pacheco é Psicóloga Clínica (CRP 06/1068-09) e Psicanalista, atende em psicoterapia crianças e adultos e faz orientação a pais e casais. Fez Aprimoramento em Terapia Familiar (PUC-SP) e no Projeto Espaço Palavra (PUC-SP) – atendimento clínico ao autismo e à psicose, da primeira infância à idade adulta. Especialização em Psicoterapia de Crianças e Adolescentes no CPPL-PE (Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem), Pós-graduação em Psicoterapia Psicanalítica Orientada ao Trabalho na Rede Pública de Saúde Universidad de Barcelona. Em formação psicanalítica no Centro de Estudos Psicanalíticos e integra o Programa de Formação Prática em Educação Terapêutica do Lugar de Vida.

Escola e TV: uma dupla perigosa

Quando li no Estadão Raciocínio em frangalhos, de Lúcia Guimarães, recordei-me da minha experiência em procurar a primeira escola de meu filho. Visitei inúmeras, entre seus nove meses e um ano e meio de idade. Em quase todas havia em comum a presença de TVs nas diversas salas – de aula, de refeição, de descanso.  Eu não conseguia (e ainda não consigo) entender o sentido delas na educação infantil. Em quê elas contribuem para o desenvolvimento da criança?

A criança que vai para a creche ou a escola, em qualquer idade, vai, acima de tudo, para se relacionar com pessoas de fora de seu círculo familiar. Se ela é levada com o intuito de ser “cuidada” é porque alguma das pontas, família ou equipamento de educação infantil, desconsidera que o cuidado pelo cuidado é uma ação robotizada, pobre na tecedura de vínculos, essenciais para o desenvolvimento cerebral dos primeiros anos de vida e, consequentemente, para o desenvolvimento global do ser humano.

Criança precisa de gente para virar gente. Precisa de outras crianças de idade próximas a ela e de adultos que se interessem e se dediquem a ela. É através da interação com pessoas e da livre exploração do ambiente que a criança cria e amplia seus repertórios sensoriais, motores, verbais, cognitivos e sociais. É isso que a possibilita encontrar caminhos mais saudáveis para lidar com as adversidades que a vida irá lhe apresentar.

No exemplo de Lúcia Guimarães, e outros semelhantes que testemunhamos diariamente, a TV e as demais telas têm sido confundidas como dispositivos educativos porque vendem a ideia de que seus programas ensinam, estimulam e permitem a interação.

Por mais que a criança aprenda com o que ela vê e ouve através da tela, ela aprende por imitação passiva e não por investigação ativa. Sua interação acontece dentro de um modelo pré-estabelecido e não pela liberdade de criação. Da mesma forma, a criança se aquieta pela forma estruturada como as cores, sons e movimentos se apresentam nas telas e não pelo uso de seus próprios mecanismos internos de tranquilização ou de recursos que são oferecidos por seus adultos de referência.

Crianças diante das telas não compartilham experiências, nem estabelecem trocas afetivas. Como resultado, essas crianças dificilmente conseguem ser consoladas em suas aflições. Tornam-se irritadiças, agressivas, com baixo grau de tolerância, precisando sempre de um agente externo para se tranquilizar. Comumente, esses agentes acabam sendo objetos não humanos, como o próprio prolongamento do tempo diante das telas e a ingestão de alimentos ou mesmo de remédios.

Se não temos a dimensão do que as telas causam na vida de uma criança pequena, sem querer, distanciamo-la das relações humanas e caímos, junto com ela, na armadilha do consumo de coisas desnecessárias. A criança vai sendo entupida de entorpecedores. Mais tarde, o discurso que impera é que ela só faz determinada coisa com a TV ligada, é viciada na tela, mandona, não se interessa por novidades que lhe são apresentadas, entre outros.

Com as famílias cada vez menores e a vizinhança cada vez mais fechada atrás de suas portas, as creches e escolas acabam sendo lugares extremamente necessários para as crianças experimentarem diferentes formas de se relacionar. Ao colocarem TVs em suas salas, com o objetivo de entreter, compartilhar e ensinar, ela faz exatamente o contrário do que é seu propósito: educar. Mais tarde, não adianta dizer que o aluno é hiperativo, não colabora e não aprende. Criança só desenvolve recursos internos para se tranquilizar, estar junto e aprender quando está verdadeiramente conectada consigo mesma e com adultos que lhe transmitem segurança. Do contrário, ela vai optar pelas telas e outros objetos não humanos para dar conta de suportar a solidão e o vazio de uma vida emocional empobrecida.

* Este texto foi originariamente publicado no blog do  Movimento Infância Livre de Consumismo, em 30/09/2014.

Retirada das fraldas: entre piratas e princesas

A retirada das fraldas é um grande desafio para muitas famílias e crianças. Em geral, esses desafios começam com perguntas simples, mas de respostas bastante complexas. Qual o melhor momento para iniciar o desfraldamento? Existe um método eficiente? Quanto tempo leva todo o processo? Uma vez retiradas as fraldas, existe chance de a criança voltar atrás? Vale a pena tirar a fralda do dia e da noite concomitantemente? As respostas dependem de cada criança!

Embora existam sinalizadores que indicam que a criança está fisicamente “pronta” para o início dessa aprendizagem (falamos sobre eles, e outras coisitas mais, aqui), seu sucesso está intrinsicamente ligado ao interesse e desejo da criança em ser grande, fazer xixi e cocô como as crianças maiores, o papai e/ou a mamãe. Isto significa que não basta o adulto julgar que é hora de iniciar o treino esfincteriano; é preciso respeitar o tempo da criança, dando-lhe condições de autonomia para o desenvolvimento dessa competência.

O Pirata Pedro e seu penicoA Princesa Polly e seu penico, livros da Editora Salamandra, são bem interessantes para serem lidos antes e durante o processo de retirada das fraldas. Sua grande sacada é que seus personagens são incluídos no processo de desfraldamento de tal forma que a essa aprendizagem transforma-se uma divertida aventura – com direito a escolha, brincadeira, espera, compreensão e comemoração; ou seja, tudo o que é necessário na aquisição de uma nova habilidade.

Ao ofertar o livro do Pirata Pedro para os meninos e da Princesa Polly para as meninas, oferecemos às crianças a possibilidade de identificação sexual, tão importante nessa fase em que as crianças estão percebendo as diferenças sexuais e aprendendo sobre elas.

O Pirata Pedro e a Princesa Polly e seu penico

A Princesa Polly e seu penico / Andrea Pinnington; ilustrações de Melanie Williamson. São Paulo: Salamandra, 2014.

O Pirata Pedro e seu penico / Andrea Pinnington; ilustrações de Melanie Williamson. São Paulo: Salamandra, 2014.

Faixa etária sugerida: a partir dos 18 meses.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre a retirada das fraldas. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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Birra dos 2 anos: uma oportunidade de aprendizagem para pais e filhos

Uma mãe nos pergunta: “Gostaria de saber como intervir nas birras  e auxiliar a criança quando ela está com 2 anos de idade”.

Do ponto de vista psíquico, um bebê nasce fundido à sua mãe, como se ele e o ambiente fossem uma coisa só. Durante seu desenvolvimento, sua principal tarefa consiste em diferenciar-se deste ambiente (primeiramente a mãe; depois a família e seu meio social) para alcançar autonomia e independência.

Aos 2 anos, a criança, em geral, já se reconhece como um ser não mais fusionado e totalmente dependente de seu meio. Ela diz “eu” (ao invés de o nenê ou o João, para se referir a ela) e “é meu” (para defender o que deseja ou é sua propriedade). Em meio a esse reconhecimento de si mesma e do outro, a criança vai se posicionando no mundo, integrando suas experiências e construindo sua própria identidade. Consequentemente, ela se expressa de forma mais ativa para satisfazer-se e afirmar para si e para o mundo o que é importante para ela.

Nesse esforço de diferenciação e validação de seus próprios desejos e pensamentos, nem sempre a criança consegue comunicar com clareza o que ela está vivenciando. Ela chora, grita, faz escândalo, se joga no chão, esperneia, agride, entre outros comportamentos, como forma de explicitar o que quer, sente, pensa e vivencia com ela mesma e nas relações com as pessoas à sua volta.

Como as crianças aos 2 anos não conseguem transformar claramente em palavras o que querem, sentem, pensam e vivenciam (esse é um processo bastante complexo, que implica em articulações que vão além de um vasto vocabulário), as birras se tornam comum diante da dificuldade verbal e de compreensão do que está sendo solicitado, sentido, desejado e pensado. Muitas vezes, temos a sensação de que as birras surgem “do nada”, sem motivo aparente ou por um motivo que para muitos olhos não têm razão de existir. Outras vezes, elas são vistas como um querer fora de hora ou uma chatice desnecessária. Isso, porque elas podem decorrer de pensamentos e/ou sentimentos não verbalizados pela criança e/ou compreendidos, ou mesmo ouvidos, pelos adultos.

Com as birras, as crianças comunicam seu desconforto. Portanto, elas também são uma maneira encontrada pela criança de solicitar atenção e cuidado, de demonstrar que uma necessidade física não está sendo atendida (como sono, fome e dor), de expressar sentimentos como estresse (excesso de estímulo), tédio, angústia, insegurança, medo, entre outros.

As birras infantis, além de serem uma forma de comunicação, são um “teste de poder” por parte das crianças. Na medida em que seu “eu” vai se manifestando e as experimentações se ampliam, é natural que a criança experimente até onde ela e quem está ao seu redor pode ir. Ao mesmo tempo, crianças tentam compreender os limites (os delas e os que lhe são impostos) e, ainda, questionar aquilo que não vem delas. Com isso, um “não” diante de seus desejos, ou um pedido ou regra vinda de fora podem se tornar bem desagradáveis a elas. Vamos lembrar que nesta idade as crianças demonstram seus desejos na espera de conquistá-los, mas precisam aprender a lidar com a frustração quando o que almejam não é alcançado. Sendo assim, as birras são também uma oportunidade de ensinar a criança sobre os limites que a vida impõe.

Algumas crianças são mais insistentes e resistentes, fazendo birras constantes; outras manifestam tais comportamentos de forma mais amena. Por que será? O que as crianças querem nos dizer quando esperneiam, não escutam (ou fingem não ouvir) e batem de frente com o adulto?

Estas questões nos fazem pensar sobre as relações entre crianças e adultos, principalmente seus cuidadores. Relações mais permissivas, mais agressivas ou rígidas; relações sem afeto, sem limites claros e definidos (ou ambíguos); relações de manipulação, marcadas pela indisponibilidade de cuidado e atenção, ou ordens/regras rígidas e em excesso, são alvo de desentendimentos e birras infantis (e aqui incluo os adultos, que podem se comportar de maneira birrenta também). Crianças que não são atendidas em suas necessidades físicas e emocionais são mais propensas às birras.

Então fica a pergunta final: Será que algumas birras não são um pedido de ajuda da criança? Apesar de ser um momento que comumente nos afastamos dos pequenos, as birras são um convite ou uma convocação da criança para que os adultos possam ajudá-la a reconhecer e entender o que ela vivencia e experimenta em seu mundo complexo e com tantas descobertas. Crianças nesta idade precisam ser contidas pelo adulto, pois não conseguem ainda se acalmar sozinhas, principalmente quando estão diante de uma tempestade de emoções que ainda não entendem.

Cabe ao adulto tentar nomear o que se passa com a criança para que ela possa aprender a reconhecer o que sente, validar o que pensa, entender o que pode, e assim encontrar outras maneiras de se expressar.

A birra pode ser um momento de compreender o que a criança solicita e de ensiná-la sobre o que é possível ou não dentro do seu desejo. Que tal parar, ouvir e conversar para que estas birras não se estendam?!

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