A “descoberta” de que os pais podem um dia não existir

Reúno aqui dois depoimentos de mães que ilustram com muita clareza o temor de morte dos pais, vivido pelas crianças entre os 6-7 anos:

1. (…) “Tenho dois meninos, um com 5 anos e outro com 6 e meio. Eles estavam assistindo tranquilamente ao começo do filme do Nemo, quando o mais velho começou a chorar desesperadamente. Ele veio até onde eu estava com lágrimas escorrendo pelo rosto. Fiquei assustada e perguntei o que era; parecia que algo horrível tinha lhe acontecido. Soluçando, ele disse que não gostava daquele filme porque a mãe do Nemo morre e que ele pensa que eu e o pai podemos morrer. Enquanto ele chorava disse também que às vezes tem pesadelo com a gente [pais] morrendo e ele ficando abandonado (…).

Fiquei pensando se isto é normal nesta idade porque quando eu era pequena eu lembro que eu ficava imaginando quem iria cuidar de mim se os meus pais sofressem algum acidente. Acho que carreguei este medo por bastante tempo, nem sei quanto.

Essa história de ter pesadelo eu não sabia que ele tinha, mas eu vinha desconfiando que isto acontecia porque tem noites que ele acorda e vem todo sonolento procurando por mim ou pelo pai na casa. Sempre pergunto se está tudo bem e ele diz que sim. Ele nunca tinha falado que tinha pesadelos, mas eu achava estranho isto de acordar meio dormindo só pra procurar a gente. Depois que ele nos encontra, volta a dormir numa boa. Ele sempre dormiu bem, a noite inteira, mas de umas semanas pra cá começou a acordar assim.

Também lembrei que outro dia ele saiu correndo, gritando desesperado porque achou que um guardador de carro que corria na mesma direção dele ia pegá-lo. Eu nunca tinha visto uma criança tão desesperada gritando ‘mamãeeeeeeee!’ Será que isto tudo é uma coisa só?” (…)

2. (…) “Minha filha, 7 anos, chora de tempos em tempos dizendo que não quer crescer porque quer ficar na nossa casa para sempre, ficar no quarto dela, com as coisas dela; não quer que nada mude. Acho que isso é um sinal de que ela gosta da vida que ela tem, associado ao monte de mudanças que tivemos nos últimos tempos [mudança de cidade, casa e escola]. Não sei se faço mal, mas eu asseguro-a que, não importa o tamanho que ela tenha ou onde ela esteja, a gente [pais] vai amá-la do jeito que ela for, do tamanho que ela tiver, criança ou adulta, aqui ou na China! Eu cuido muito para não dizer que vamos estar ‘do lado dela fisicamente’ porque ela está na fase que tem sonhos onde eu morro. Fase de medo que as pessoas morram. Eu digo para ela que também tinha muito esse medo e que minha mãe não morreu. Aí ela citou ‘é, mas a mamãe do papai morreu, minha vovó’.”(…)

Todos nós já tivemos a experiência de sonhar com alguma coisa que vivemos durante o dia. Os sonhos, assim como os pesadelos, nos permitem reviver conteúdos diurnos, mas também são uma grande oportunidade de conhecer o que se passa em nosso inconsciente.

Com o início da troca da dentição de leite pela permanente, a criança percebe que, assim como “perde” seus dentes, também pode “perder” seus pais. Esta percepção se dá em nível inconsciente e se revela através dos pesadelos de morte dos pais. Junto dos pesadelos, podemos observar outras situações em que este temor se expressa, como no desejo de não querer crescer, na possibilidade de um sequestro imaginário ou mesmo em situações que se sente abandonada pelos pais (ser esquecida na escola, ser deixada para trás em um passeio).

A vivência simbólica da perda, permitida pelo pesadelo ou por situações que se apresentam no cotidiano da criança, coloca-a diante da falta e da necessidade de ter que se virar sozinha. Se de um lado “perder” é um passaporte para o crescimento, de outro, aparece a angústia frente ao desconhecido, que só é amenizada mediante a segurança de que crescer não é sinônimo apenas de perdas.

Que bom que estas crianças dos exemplos acima puderam falar sobre este temor necessário para seu desenvolvimento emocional, não importa se relatando pesadelos, através de um filme ou de um grito desesperado para que a mãe não desaparecesse. Melhor ainda que estas mães conseguiram dar suporte à angústia dos filhos, escutando o que eles tinham para dizer, validando com suas próprias experiências que toda criança nesta idade teme a morte dos pais.

Ao poder falar sem ser julgada, a criança é acolhida em sua angústia, o temor vai ganhando forma através das palavras e o vínculo de confiança pais-filho é fortificado. Desta maneira, constrói-se a tão necessária segurança que todos nós precisamos para enfrentar a vida sem a presença dos pais. É como se na conversa sobre o temor de morte dos pais, estes estivessem dizendo: “em você estão nascendo novos dentes, fortes, bonitos, capazes de mastigar o que vier pela frente”.  Se os pais ajudam a criança a se sentir confiante e segura, certamente ela terá mais recursos para se virar na ausência, mesmo que em vida, dos pais. A morte, como da mamãe do papai da menina do segundo exemplo, é inevitável; não dá para dizer “Não vou morrer”.

“Sonhar” com a morte dos pais permite a criança reconhecer seu temor ligado ao seu próprio crescimento, independência e diferenciação em relação aos pais e ao mundo. Perceber que é possível “perder” os pais é se perceber como alguém diferente deles, o que é um belo indício que a criança está crescendo bem. Por isto, os terrores noturnos não devem ser motivo para assustar ninguém. Eles são sinal de boa saúde mental.

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Explicar é fundamental, mas explicação tem limite

Entre o mundo adulto e o mundo da criança existe uma linha tênue que separa o que deve e o que não deve sair da boca do adulto e chegar aos ouvidos da criança. Esqueça a mania de explicação.  Criança quer resposta apenas para aquilo que pergunta. Se ela pergunta para confirmar algo que já sabe ou foi informada, devolva-lhe a pergunta. Isto a ajuda na elaboração do pensamento. Se ela quer saber alguma coisa nova, responda de maneira simples e objetiva, não introduzindo nada além daquilo que ela perguntou. Quando a resposta é insatisfatória ou provoca novas questões, a própria criança interrogará com outras perguntas. É a criança quem deve dirigir o conteúdo da resposta, não o adulto.

Antes de responder a uma pergunta, investigue com a criança o que ela já sabe (entende) sobre o assunto em questão, evitando, assim, falar sobre o que ela não perguntou. Uma criança que pergunta aos pais o que é transar, porque um amigo na escola falou sobre isto, pode apenas querer saber o significado da palavra. E, a primeira resposta não é a explicação do ato sexual, mas uma explicação que aborde o namoro adulto, o ficar junto. Se a resposta é dada pelo referencial do adulto ela certamente não atenderá a expectativa da criança.

Adultos que explicam demais fazem isto por uma questão sua – consciente ou não. Falam, falam e falam, a partir do seu olhar e discurso, não levando em conta as hipóteses investigativas da criança. Não é incomum encontrar pais explicando para uma criança de 5 anos, por exemplo, o que é fertilização in vitro, aborto, tipos de parto, quando ela ainda se pergunta onde ela estava quando não estava na barriga da mãe. A pergunta “como eu fui parar na barriga da mamãe” ainda não foi posta pela criança e só será quando ela tiver alguma hipótese sobre a origem da vida, que tentará confirmar com uma pergunta (na verdade, com muitas perguntas!). Então, por que introduzir o assunto? Não falar tudo não é omitir ou mentir. É falar a verdade possível de ser compreendida pela criança em cada etapa do seu desenvolvimento intelectual e emocional.

Tudo, diz respeito à falta de limite, aos conteúdos intelectualizados e às necessidades dos pais. Entre tudo e nada residem os afetos, que valem mais do que o conteúdo em si. A maneira como os pais respondem as perguntas da criança é fundamental para criar um clima de confiança e, portanto, de novas possibilidades de perguntas. Por isto é importante cuidar para que a resposta não vá além do que a criança quer saber. Quando isto acontece, em geral ela trilha dois caminhos, o do desinteresse (ela deixa o adulto falando sozinho) ou da incompreensão (“O que isto tudo tem a ver com o que perguntei?”). O que era para ter algum nexo, tornar-se estranho.

O mundo tem que ser explicado à criança a partir do que ele lhe desperta. E o Mundo da Criança, como bem disse Toquinho,

É sempre colorido, muitas vezes de papel
Com arcos, flechas, índios e soldados
Cheinho de presentes feitos por Papai Noel
O mundo da criança é iluminado.

Baleias gigantescas, violentos tubarões
Mistérios de um espaço submerso
Espaçonaves passam por dez mil constelações
O mundo da criança é um universo
O mundo da criança é um universo.

Pipas, peões, bolas, balões, skates e patins
Vovó, vovô, mamãe, papai, família
É fácil imaginar uma aventura
Dentro de uma selva escura
Com perigos e armadilhas
Viagens para encontrar minas de ouro
Piratas e um tesouro enterrado numa ilha.

Imagens, games, bate-papos no computador
O tempo é cada vez mais apressado
E mesmo com todo esse imenso interativo amor
O mundo da criança é abençoado
O mundo da criança é abençoado.

 Para explicar o mundo para a criança é preciso conhecer seu mundo, um universo de hipóteses que ela mesma cria. O adulto deve acolher, confirmar, ponderar e reconstruir cada uma das hipóteses, mesmo com o tempo cada vez mais apressado, para que criança possa ir conhecendo e entendendo o mundo como ele é. Criança precisa ser criança. Adulto precisa se lembrar disto, inclusive nos momentos de explicação.

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