Temos que falar sobre isso

Neste texto escrevi um pouquinho sobre o quanto os blogs maternos – e outras redes sociais – têm cumprido com um importante papel no apoio e, consequentemente, na construção da identidade de muitas mães.

As vivências da maternidade, incluindo a gestação e o parto, são intensas e muitas vezes bastante solitárias. Viver cada uma destas experiências em silêncio geralmente é muito perturbador. Falar sobre elas é um caminho para elaborar o que foi vivido, e assim, encontrar novos significados para a experiência. Por isso, mães contam e recontam inúmeras vezes sobre sua gravidez, parto, pós-parto, amamentação, relação com a família, com o bebê, com o trabalho e sobre tudo que muda com a maternidade.

Temos que falar sobre isso é uma dessas redes de apoio virtual. Idealizada por Thais Cimino, o Temos que falar sobre isso é uma plataforma de relatos anônimos de mães que tiveram depressão pós-parto, transtornos ligados à saúde mental na maternidade, transtornos no período perinatal (desde a concepção até o primeiro ano do bebê), dificuldades durante a gravidez, problemas com amamentação, perda gestacional, partos traumáticos e violência obstétrica. A plataforma também reúne uma série de textos sobre estes temas, incluindo os publicados pelo Ninguém cresce sozinho.

Clique aqui para conhecer esta rede! Ou junte-se a ela pelo Facebook.

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O tênue limite entre conectar-se ao bebê e colar-se nele

A criação dos filhos é influenciada por histórias pessoais, mas também pelo contexto sociocultural no qual estamos inseridos.  Isso explica, ao menos parcialmente, algumas tendências “atuais” de criação dos filhos, consideradas por alguns como modismo. Entre elas, destaco o parto natural, o aleitamento materno, a cama compartilhada, o uso de slings e o método de higiene natural/EC (elimination communication).

Nenhuma dessas práticas é nova na humanidade. Nas comunidades não afetadas pelo ritmo industrial e urbano, elas continuam tão presentes hoje como foram nas tantas gerações passadas. Os documentários Babies (de Thomas Balmès) e Bébés du Monde (de Emmanuelle Nobécourt, Claire d’Harcourt e Béatrice Fontanel), por exemplo, mostram de maneira sensível e delicada a pluralidade da relação de alguns bebês do mundo com suas mães e ambiente.

Uma grande diferença entre a vida nessas comunidades e a vida nas cidades, contudo, reside na possibilidade da mãe (com a rede de apoio que ela dispõe – em geral outras mulheres da comunidade) estar conectada ao seu bebê ao menos no primeiro ano de vida. Essa conexão acontece em função de seu cuidadoso e observador olhar e não simplesmente pelo fato de o bebê permanecer bastante tempo junto ao corpo dela. A mãe, mesmo com seus afazeres, devota-se ao seu bebê, podendo mais facilmente reconhecer a demanda do filho através dos sinais corporais que ele emite. Como resultado, afirmam muitos autores, as condições para o desenvolvimento do bebê são favorecidas. E é este o aspecto que os tais modelos “atuais” tentam preservar ou mesmo resgatar.

Concordo com quem diz que parto natural, aleitamento materno, cama compartilhada, uso de slings e método de higiene natural não são moda. No meu entender, essas práticas estão retornando porque a própria sociedade percebeu que é necessário recuperar a conexão mãe-bebê que ficou, em muitos casos, prejudicada com a entrada e a permanência integral das mulheres no mercado de trabalho ao longo do último meio século. Conectada a tantas tarefas e funções, muitas mães não conseguiram/conseguem se conectar o suficiente aos seus filhos (sem falar nas parafernálias que entraram nessa relação também contribuindo para esse distanciamento). Como consequência, que se somam a outros modos contemporâneos de vida, temos tido o aumento da patologização, da terceirização e o encurtamento da infância.

A questão que se coloca diante dessas práticas é o quanto elas conectam mãe e bebê ou colam a mãe ao seu bebê, mais pelas necessidades maternas do que pelas necessidades do filho.

Considerando que somos movidos por desejos conscientes e inconscientes, o que impulsiona uma mãe ou casal a optar ou não por alguma dessas práticas nunca é motivado apenas por aquilo que são capazes de acessar pela via da razão. Assim, esses métodos de conexão podem ser muito bons para algumas duplas ou famílias, mas nada benéficos para outras.

O que leva uma mulher a não abrir mão do parto natural ou nem o cogitar, se não questões com seu próprio feminino? Apesar de todos os benefícios do aleitamento materno, por que para algumas mulheres essa prática é tão difícil ou impossível e outras a estendem por tanto tempo? Por que algumas mulheres mal conseguem ninar seus filhos e outras não os permitem, por exemplo, brincar no chão a partir dos três meses? Quais fantasias cada mãe e casal têm em relação ao bebê que tem seu próprio cantinho ou que precisa dormir com ela/ele? É possível uma devoção ao bebê tão intensa e exaustiva, ou é melhor optar por pessoas ou ferramentas que cumprem com essa função?

Essas e tantas outras perguntas estão longe de ser facilmente respondidas. Outra vez, o que nos mobiliza a uma ou outra atitude nunca nos toca apenas em nível consciente. Por isso mesmo que as respostas sinceras a essas perguntas, e as que dela derivam, são fundamentais antes e durante a adoção de qualquer atitude com nossos filhos.

Compreendo a militância de grupos e profissionais em prol de práticas que priorizam o vínculo materno – às vezes é preciso de muito “barulho” para que algumas pessoas reconheçam minimamente o que eles priorizam (aqui, incluo especialmente os responsáveis por políticas públicas, as quais deixam em muito a desejar no que tange à gestação e à primeira infância). No entanto, sempre teremos o efeito negativo de qualquer prática que é adotada como modelo sem que se leve em consideração cada um dos envolvidos nela.

É consenso de diversas áreas de estudo que o vínculo entre o bebê e seu adulto cuidador (em geral a mãe, mas é preciso lembrar há casos em que ela não está presente ou disponível) é essencial para seu desenvolvimento emocional, físico, cognitivo e social. Porém, um vínculo só é construído quando há presença física e disponibilidade emocional do cuidador para com o seu bebê. Não basta dar o peito, carregar no colo ou colocar o bebê para dormir na cama do casal se essas atitudes estiverem a serviço do adulto e não do bebê. Nesses casos, o risco que corremos é que o adulto se cole ao bebê como um objeto de apego. Aí, o que deveria promover o vínculo, promove algo parecido com aquele apego das coisas que não abrimos mão por nada no mundo! A relação fica invertida e o que deveria facilitar a construção da segurança afetiva transforma-se na impossibilidade de se separar do cuidador.

Educar uma criança implica no exercício contínuo de nos perguntarmos sobre o porquê de nossas escolhas. As respostas mais preciosas são aquelas que às vezes não temos coragem de responder nem a nós mesmos. No entanto, esse é o caminho para que possamos reconhecer quais necessidades são nossas e quais são da criança. Uma tarefa que começa quando ainda sonhamos em ser pai e mãe.

Grupo de casais grávidos

A gravidez é um momento na vida da mulher – e do homem também – no qual ambos experimentam uma variedade de sentimentos ambivalentes, indo dos mais agradáveis e surpreendentemente prazerosos até os mais bizarros e angustiantes.

Dúvidas, incertezas e desafios surgem dia após dia. Será que o que é vivo é normal? O que fazer com tanta mudança? Se agora está assim, como será depois? E se… Ouvi dizer que…

A cabeça dos grávidos não vem com botão off para desligar! E ainda parece uma esponjinha que capta tudo que acontece a sua volta. Então, o que fazer com isto tudo + todas as outras coisas que envolvem este momento da vida: família, trabalho, casa, corpo, enxoval, maternidade, parto, puerpério, amamentação, cuidados com o bebê, cachorro, finanças, gente para ajudar?

Falar, rir, chorar, perguntar, se questionar, planejar, encarar o previsto e o imprevisto!

O Grupo de Casais Grávidos do Núcleo Cuidar é um grupo aberto, em que os participantes vão chegando e saindo conforme a “boa hora” se aproxima.  Mais do que um espaço de informação, reflexão e troca de experiência, o grupo é uma oportunidade para que as vivências da gravidez e do que está por vir ganhem significado que vão além do reducionista “isso é coisa de grávida(o)!” ou “é assim mesmo”.

Vivenciar a gravidez de forma não aprisionada é essencial para que os futuros pais sintam-se mais seguros e confiantes para cuidar de si e de seu(s) bebê(s).

Venha fazer parte desse grupo! Vagas limitadas.

Consulte aqui os temas de cada encontro.

Coordenação: Beatriz Kesselring (enfermeira obstetra) e Patrícia L. Paione Grinfeld (psicóloga).

Quando? Todas as quartas-feiras, das 13:15 às 14:45 horas.

Onde? No Núcleo Cuidar Beatriz Kesselring.

Núcleo Cuidar

Chupeta, mocinha ou vilã?

O uso da chupeta divide opinião entre pais e especialistas, não apenas no que se refere às questões mecânicas e funcionais, mas também em relação aos aspectos emocionais envolvidos.

Alguns alegam que seu uso é prejudicial, especialmente nos primeiros meses de vida, por atrapalhar o aleitamento materno tanto na pega do bico, quanto na produção de leite – tal pressuposto justifica o protocolo de muitas maternidades de não permitirem seu uso enquanto o recém-nascido está sob seus cuidados. Aos opositores da chupeta, podemos acrescentar aqueles que entendem que a necessidade de sucção é plenamente atendida com as mamadas (o que leva muitos a advogarem pela amamentação por livre demanda), ou, que se esta necessidade não for suprida com a amamentação, poderá ser obtida chupando o próprio punho ou dedo. Vale ressaltar que a sucção é um reflexo natural do recém-nascido, podendo ser observado já na vida intrauterina com os bebês que chupam dedo.

Em contrapartida, temos aqueles que defendem seu uso por: 1) temerem a instalação de um hábito que utiliza parte do corpo, mais difícil de ser erradicado posteriormente; 2) entenderem que o seio materno ou bico da mamadeira não deva ser fonte de prazer desvinculada da alimentação; e, 3) acreditarem que a chupeta assegura certa “tranquilidade” ao bebê e a quem cuida dele.

Seja qual for o ponto de vista que norteia o uso ou não da chupeta, é importante considerar que cada bebê é um ser único, com necessidades específicas e nem sempre congruentes com as necessidades ou possibilidades do adulto cuidador. Assim sendo, alguns bebês podem ter maior ou menor necessidade de seu uso, podendo, inclusive, recusá-la sem buscar um substituto.

Já nas primeiras mamadas, o bebê descobre que a sucção, além de fonte de alimento, é também fonte de prazer e, por consequência, de relaxamento e bem estar. Conforme vai explorando o mundo que o cerca, incluindo seu próprio corpo, percebe que pode obter sensação semelhante à obtida durante a amamentação; por isso ele leva à boca, o dedo, o punho, um pedaço de pano e, mais tarde, outros objetos e brinquedos, de forma mais ou menos intensa. Ele quer repetir as experiências prazerosas e confortantes (atenção, carinho, acolhimento, segurança) que ele teve com as mamadas. A chupeta, neste sentido, pode ser um recurso interessante.

No entanto, a equação do seu uso não traz um resultado exato, como revelam os dois significados que a palavra chupeta tem na língua inglesa: pacifier = pacificador, acalmador e dummy = mudo, calado. Sua função tranquilizadora não pode ser silenciadora.

Entender o que um bebê quer dizer não é tarefa fácil, especialmente nos primeiros meses de vida, quando mãe, pai, cuidadores e bebê estão se conhecendo. Por isso, ao mesmo tempo em que a chupeta pode minimizar a angústia presente na situação (seja ela do bebê ou do adulto), ela pode tamponar a tentativa de comunicação do bebê com o ambiente. Quem precisa de conforto quando bebê chora, dorme ou está sozinho?

Oferecer a chupeta para o bebê dormir antes mesmo que ele apresente qualquer dificuldade para adormecer é não acreditar em sua capacidade de adormecer sozinho (esbarramos aqui na ideia do bebê como um ser completamente dependente, sem nenhuma competência e autonomia); de certa forma, esta atitude também minimiza a culpa por “deixar” o bebê – no berço, no carrinho, nos espaços de brincadeira. No imaginário de muita gente, a chupeta serve de companhia permanente ao bebê. Não é por acaso que muitos pais optam pelo uso de um prendedor na roupa, nada recomendável do ponto de vista da higiene (pela contaminação por sua constante exposição), da segurança física (representa risco de enforcamento) e da saúde emocional, já que designa o bebê à condição de incapaz de ficar só – o que é muito diferente de abandonar ou negligenciar cuidados.

Dar a chupeta para o bebê que chora pode ser apenas paliativo, na medida em que oferece algum conforto, às vezes, pelo simples fato da presença de alguém lhe dando atenção, mesmo que através de um objeto. Então, cabe-nos a pergunta: Será que a chupeta não poderia ser substituída por uma palavra, um carinho, um colo?

Antes de apresentar a chupeta ao bebê é importante perceber quem é que precisa dela, evitando, assim, a instalação de um hábito desnecessário e suas consequências.  O ideal é assegurar um tempo de observação do bebê para ver se sua necessidade de sucção é suprida com a amamentação, se os gestos e palavras do cuidador dão conta de garantir-lhe conforto e segurança, e se chupar o punho ou o dedo é um comportamento corriqueiro.

A chupeta pode cumprir um importante papel para o bebê, desde que seu uso seja pensado e ponderado.

Manter o bebê com a chupeta na boca ou automatizar sua oferta, revela a crença – equivocada – de que bebês não se comunicam, suas manifestações têm sempre o mesmo sentido, não podem ser frustrados e são “manhosos”.  Também, denuncia o quanto é difícil suportar choros, birras, irritações e a sensação de não saber o que fazer em algumas situações.

O uso indiscriminado e prolongado da chupeta tem como consequência riscos que vão além das questões funcionais da boca e/ou da dificuldade posterior de eliminar um hábito; ele reforça e marca as relações do bebê com o mundo, em especial no que tange sua comunicação e autonomia.

Tal padrão de relações e comportamento pode se manter ao longo da vida, seja na forma de maior dependência do meio, seja na dificuldade em se expressar. Sem a presença da chupeta, é possível que a criança busque substitutos que tragam certa dose de tranquilidade, conforto e segurança, como chupar o dedo, roer as unhas, ingerir alimentos em excesso, e mesmo bebidas, cigarro, os quais, como a chupeta, continuará encobrindo angústias, ansiedades, medos e fantasias não compreendidas.

Permitir o uso da chupeta não significa que a criança estará sujeita a desenvolver outros hábitos orais. O que leva à manutenção destes hábitos não é a chupeta em si, mas seu uso sem discernimento, seu uso enquanto companhia e/ou silenciador de necessidades. Portanto, a chupeta, do ponto de vista emocional pode ser um valioso objeto, desde que se possa pensar e considerar que ela tem momento para ser usada e, mais tarde, retirada.

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