Eu brinco, ele brinca, nós brincamos

Eu brinco, eles brincam.

Sozinho e juntos. Nós brincamos.

“Também quero brincar!”

“Vem, vem brincar com a gente!”

Brincar só, com os amigos, irmãos, pais, tios, professores, avós… Com bonecos, brinquedos, amigos imaginários, a própria sombra… Enfim… Tem brincadeira? Tem diversão!

No parque, no quintal, no playground, na praça, na praia… Em casa, no carro, na escola, no corredor, no chuveiro, não importa o lugar. Todo lugar é lugar para brincar.

Qualquer objeto pode ser transformado em brinquedo. Qualquer pessoa pode ser outra pessoa durante a brincadeira. O importante é brincar.

Queremos é brincar!

“Vamos brincar de…”  E tudo se torna mágico!

Brincar é sinônimo de criar, imaginar e inventar; aprender sobre o mundo e as pessoas. No brincar, a experiência se revela e fica no registro da criança.

Brincadeiras conduzidas ou não, todas são importantes para a construção do conhecimento. O brincar proporciona experiência cognitiva, emocional e social. Está associado ao encorajamento e à energia.

Momento de se relacionar, de criar vínculos, de se constituir a partir de aprendizados,  que desenvolvem e permitem o crescimento contínuo da criança.

Brincar para mim, para ti e para nós! Um direito de todos!

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Brinquedos e brincadeiras para bebês de 9 a 12 meses

O desenvolvimento motor deste trimestre é, sem sombra de dúvida, uma enorme conquista para os bebês e motivo de orgulho para quem está à sua volta. Num curto período de tempo os bebês adquirem competências que os permitem se deslocar para onde querem: engatinham (em alguns casos, “andam” sobre os joelhos ou rastejam com o bumbum), escalam, ficam em pé com apoio e andam, mesmo precisando ter suas duas mãos seguradas. Tais aquisições lhes confere maior autonomia e amplia sua sociabilidade. Todavia, em função da locomoção, e claro, da entrada na fase do mexe-em-tudo, a segurança do ambiente precisa ser revista.

Muitos especialistas recomendam a colocação de redes ou grades de proteção nas janelas, portas e outros vãos, cantoneiras nos cantos das mesas, traves de segurança em armários e vasos sanitários, “amarradores” nos fios elétricos (para impedir enforcamento), assim como a retirada de objetos de decoração e similares do alcance do bebê para evitar acidentes.

A prevenção de acidentes, indiscutivelmente, precisa fazer parte do cotidiano dos bebês, mas é importante que ela não inviabilize sua livre locomoção e exploração. É preciso garantir que dentro de casa, ambiente onde o bebê vive, possa ser por ele conhecido, inclusive para que ele aprenda e reconheça onde moram os perigos – isso facilitará sua análise dos perigos no mundo afora. Como os bebês são bastante diferentes em temperamento, é necessário avaliar o quanto toda essa parafernália serve para proteger ou impedir suas descobertas. Da mesma forma, a disponibilidade (de tempo e emocional) do adulto precisa ser considerada, mas sempre lembrando que nesta idade a criança precisa da supervisão do adulto, mesmo quando brinca bem sozinha. O segredo é encontrar a justa medida entre segurança e liberdade, que varia conforme as particularidades de cada caso.

Entrando na fase do mexe-em-tudo, inicia-se também a fase do não proferido pelo adulto. Como forma de proteger a criança dos perigos que a cerca, é bastante comum seu cuidador dizer “não mexa aí”, “aí não pode”, ao invés de acompanhá-la em suas explorações, explicando-lhe o que a impede de explorar aquilo que lhe desperta atenção. Estas pequenas intervenções, ao mesmo tempo em que ensinam a criança sobre as coisas da vida, autorizam-na ser a curiosa, o que é essencial para os processos de aprendizagem atuais e futuros.

Se de um lado sempre existem limitações àquilo que o bebê deseja experimentar, de outro é preciso garantir-lhe uma vasta oferta de possibilidades. O bebê precisa poder abrir uma porta de armário ou uma gaveta que tenham coisas que possam ser arremessadas para longe, [tentar] subir numa cadeira que não seja leve a ponto de tombar, ter acesso a objetos dispostos em seus cantos de circulação que sejam diferentes e interessantes, e por aí vai. O ambiente onde vive um bebê precisa permitir suas explorações e descobertas; precisa permiti-lo brincar. Para isso, não são necessários brinquedos sofisticados e caros. Aliás, alguns dos recomendados para esta faixa etária, como os andadores e as mesas de atividades, não são tão benéficos como muitos imaginam.

Os andadores têm venda proibida em alguns países e não são recomendados pela Sociedade Brasileira de Pediatria por apresentar riscos de traumatismos e atrasar o desenvolvimento psicomotor da criança. Já as mesas de atividades, embora cheia de cores, sons e formas, são pobres na oferta de texturas, movimentos e exploração livre pela criança. Quando a criança fica em pé sem apoio, qualquer móvel ou objeto baixo e firme cumpre com primazia a função das mesas de atividades; basta dispor sobre eles objetos com formas, tamanhos, texturas, sons, cor e materiais distintos (caixas, potes, tecidos, chocalhos, brinquedos de madeira) para garantir que o bebê se entretenha, investigue e aprenda. Enquanto o bebê só engatinha, esses objetos devem ser colocados no chão para que ele possa ter a possibilidade de exploração.

Quando os bebês experimentam a postura ereta por eles mesmos, muitos se recusam a ficar sentados; eles querem estar no chão seguindo em suas investigações. Para que o momento da alimentação não se transforme numa guerra, alguns cuidadores utilizam-se do recurso das telas para entreter os pequenos. Com esse gesto, impedimos que este momento seja prazeroso pela ingestão do alimento e vínculo estabelecido com quem o alimenta. Uma boa alternativa é disponibilizar um brinquedinho (relacionados ou não à alimentação – prato, copo, talheres) e/ou pedacinhos de alimentos para que a criança possa brincar e se alimentar sozinha (na presença do adulto!).

Entre os 9 e 12 meses não é apenas a capacidade de locomoção do bebê que amplifica sua sociabilidade. Os bebês começam a apontar para o que desejam, bater palma, esboçar o aceno do tchau, imitar expressões faciais, gestos e alguns sons que ouve, convocando seu cuidador a entrar na brincadeira. Aproveite essa gostosa e importante fase brincando com conversas, músicas e leituras. Nesses diálogos, inclua gestos e expressões faciais, variações rítmicas e sonoras (por exemplo, falar mais alto e bem baixinho), nomeações de partes do corpo e o nome do bebê e brincadeiras como seu mestre-mandou. Isso estreita o laço afetivo entre o bebê e seu cuidador, e favorece o desenvolvimento de sua percepção corporal e linguagem.

Durante as brincadeiras é comum o bebê desviar do foco proposto pelo adulto ou pelo brinquedo. O bebê costuma se interessar mais por explorar as partes de um brinquedo e observar seus efeitos do que pelo brinquedo todo ou aquilo que ele objetiva. É por isso que os brinquedos sofisticados nem sempre são os mais interessantes ao bebê, que pode se divertir muito mais com o fio amarrado em um carrinho do que com o carrinho em si, assim como desfrutar mais com a destruição de uma torre de caixas empilhadas do que com sua construção.

A repetição de uma mesma brincadeira, nessa etapa do desenvolvimento, é uma constante. Ela ajuda os bebês a aprimorar habilidades motoras e desenvolver aspectos cognitivos, como o aprendizado de relação entre uma ação e sua consequência (causa-efeito). Aqui, amar uma bola que rola de um canto a outro ainda não define nenhum jogador(a) de futebol!

Ingresse nessa aventura de exploração com seu bebê resgatando a criança que te habita! Brinque junto; o bebê precisa da presença humana para crescer saudável.

Retirada das fraldas: entre piratas e princesas

A retirada das fraldas é um grande desafio para muitas famílias e crianças. Em geral, esses desafios começam com perguntas simples, mas de respostas bastante complexas. Qual o melhor momento para iniciar o desfraldamento? Existe um método eficiente? Quanto tempo leva todo o processo? Uma vez retiradas as fraldas, existe chance de a criança voltar atrás? Vale a pena tirar a fralda do dia e da noite concomitantemente? As respostas dependem de cada criança!

Embora existam sinalizadores que indicam que a criança está fisicamente “pronta” para o início dessa aprendizagem (falamos sobre eles, e outras coisitas mais, aqui), seu sucesso está intrinsicamente ligado ao interesse e desejo da criança em ser grande, fazer xixi e cocô como as crianças maiores, o papai e/ou a mamãe. Isto significa que não basta o adulto julgar que é hora de iniciar o treino esfincteriano; é preciso respeitar o tempo da criança, dando-lhe condições de autonomia para o desenvolvimento dessa competência.

O Pirata Pedro e seu penicoA Princesa Polly e seu penico, livros da Editora Salamandra, são bem interessantes para serem lidos antes e durante o processo de retirada das fraldas. Sua grande sacada é que seus personagens são incluídos no processo de desfraldamento de tal forma que a essa aprendizagem transforma-se uma divertida aventura – com direito a escolha, brincadeira, espera, compreensão e comemoração; ou seja, tudo o que é necessário na aquisição de uma nova habilidade.

Ao ofertar o livro do Pirata Pedro para os meninos e da Princesa Polly para as meninas, oferecemos às crianças a possibilidade de identificação sexual, tão importante nessa fase em que as crianças estão percebendo as diferenças sexuais e aprendendo sobre elas.

O Pirata Pedro e a Princesa Polly e seu penico

A Princesa Polly e seu penico / Andrea Pinnington; ilustrações de Melanie Williamson. São Paulo: Salamandra, 2014.

O Pirata Pedro e seu penico / Andrea Pinnington; ilustrações de Melanie Williamson. São Paulo: Salamandra, 2014.

Faixa etária sugerida: a partir dos 18 meses.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre a retirada das fraldas. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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Da curiosidade sobre a sexualidade à aprendizagem

Uma leitora nos escreve nos comentários do texto Sexualidade infantil: algumas questões dos pais em relação às crianças: “Leio com frequência alguns artigos do blog, e acho realmente muito bons. Acho que é extremamente necessário abordar estes assuntos com tanta ignorância e falta de informação, por aí, hoje. Trabalho como auxiliar numa escola de educação infantil, em duas turmas de cinco e seis anos de idade. Às vezes saio da escola chateadíssima e muito preocupada com a forma como reprimem os questionamentos das crianças sobre sexualidade dentro da escola. Eu compreendo que muitos pais desinformados ou despreparados, tenham a sua maneira de falar sobre isso com as crianças, ou não. Entendo que cada família educa o filho dentro de casa de uma forma”.

A repressão aos comportamentos sexuais infantis e à própria curiosidade da criança em relação à sexualidade ainda é muito presente tanto na escola como em casa.  Isso se deve geralmente pela falta de informação sobre o desenvolvimento da sexualidade humana e suas manifestações na infância. Marcados pela educação que receberam, pelos valores, conceitos e tabus arraigados, adultos enfrentam dificuldades em lidar com questões que envolvem a sexualidade infantil. Muitos reprimem, negam, inventam historinhas ou “não respondem” por não conseguirem olhar de forma natural para algumas situações vividas pelas crianças.

E continua a leitora: O meu medo particular é de falar algo ou responder a alguma pergunta de uma criança de maneira contraditória à orientação que ela recebeu ou receberá em casa, causando ainda mais confusão na cabecinha dela. Também pelo fato de a postura das professoras das crianças serem de total repressão a perguntas e comentários relacionados à sexualidade, e mesmo inocentes menções a namoro –  e eu não posso contradizê-las. Já presenciei alguns casos em que crianças manifestaram muita curiosidade em relação à homossexualidade e foram cortadas pela professora com uma negação da possibilidade de meninas beijarem meninas, por exemplo. Outro dia uma mãe contou que a filha perguntou como os bebês nascem e ela, desprevenida e despreparada, disse que a “sementinha” vem de um xixi que o papai faz. Isso me doeu, porque mesmo antes de começar a ter contato próximo com crianças eu compreendo que elas devem ter as perguntas respondidas com clareza e sem rodeios, fantasias, eufemismos e conversa fiada que será desmentida daqui a alguns anos”.

As contradições e incoerências dos adultos (seja na escola ou em casa, entre o próprio casal/pais) acabam respingando e sendo vivenciadas pelas crianças. Lidar com os paradoxos da vida não é nada fácil, principalmente para uma criança que busca uma resposta para o que vê, escuta e presencia. O olhar afetuoso de um adulto frente às inquietações infantis são de extrema importância para a formação da criança, inclusive sexual (pois esta se inicia na infância). Sem esta atenção, os impactos frente à ambiguidade enfrentada surgem e podem causar insegurança, incertezas, quebra de confiabilidade dentre outros sentimentos que marcam a relação da criança consigo própria, com as pessoas que a cercam e o mundo.

Assim, partimos do pressuposto de que toda resposta dada às crianças deve ser verdadeira, sem preconceitos e baseada em dados científicos, sempre de acordo com o que cada faixa etária pode e é capaz de compreender.

Se a postura da escola é divergente da postura da família, é necessário um espaço para o diálogo: conversas, orientações, exemplos, reuniões, rodas de bate papo, entre outras intervenções, são necessárias para esclarecer fatos e alinhar as condutas de todas as partes envolvidas. É função da escola orientar a criança e sua família; para isso, ela deve ter um projeto de orientação sexual coerente, sedimentado e acordado pelas famílias, tendo todo seu corpo docente preparado para sua realização. O que vale na orientação para os pais, deve valer ao educador que lida diretamente com a criança!

E aqui é o ponto central e valioso colocado pela leitora: “Tenho uma preocupação muito grande caso elas façam perguntas diretamente a mim, porque essas e outras situações já deixaram muito claro que a minha opinião e, convenhamos, a forma adequada e orientar crianças, difere muito do método repressivo das professoras e, infelizmente, pelo que vejo, de muitos pais. Não sei o que fazer pelas crianças, sendo apenas a auxiliar. Quer dizer, existe algo que eu possa fazer? Eu acho que essa idade é maravilhosa, em que a criatividade, curiosidade, inteligência, interesses e tendências das crianças estão crescendo e explodindo, e que isso não deve, em hipótese alguma, ser reprimido. Acho que a escola é um ambiente tão perfeito pra que todas elas exponham seus interesses e debatam mesmo tão novinhas, até mesmo entre si, conheçam as opiniões dos outros, as vontades dos outros e acho que isso devia ser feito, sabe? Sem que as professoras deem uma palavra final sobre o tema levantado, mas pra que elas conheçam a si mesmas e conheçam sobre as coisas que lhes interessam. Infelizmente os pais estão muito fechados e ainda querem deixar seus filhos em redomas blindadas pra tudo o que vem de fora, de novo e que pode fugir dos padrões que eles mesmos adotaram pra criança…”

Sem dúvida a escola é um campo extremamente fértil para a criança aprender, conhecer, tirar dúvidas e fazer descobertas. Por isso, todas as perguntas e vivências, inclusive relativas à sexualidade, não devem ser ignoradas. É preciso entender de onde elas veem e o que realmente a criança quer saber/conhecer, para que em seguida se faça a orientação necessária.

A sexualidade é a energia de vida e está presente não apenas no corpo, mas em tudo que nos alimenta e movimenta em direção ao aprendizado cognitivo, afetivo e social. Por isso, quando respondemos as dúvidas das crianças sobre a sexualidade humana estreitamos o vínculo que temos com ela, estabelecemos uma relação de confiança, a autorizamos/incentivamos a continuar perguntando e, portanto, levantando hipóteses e construindo pensamentos. É esse interesse genuíno em querer saber e conhecer, seguido de respostas verdadeiras, que move a criança a outros aprendizados.

Assim, como bem disse nossa leitora, a curiosidade é a chave para o desenvolvimento infantil e a aprendizagem. Além das perguntas suscitadas pela curiosidade e relacionamento com o mundo, o conhecimento e aprendizado vêm através do lúdico, jogos e brincadeiras. Crianças criam, testam e vivenciam conceitos e valores através do brincar, da imaginação, do faz de conta. Com o corpo, elas aprendem sobre si e sobre o outro; aprendem o que é prazer/desprazer, para que possam, em seguida, se relacionar e interagir com as pessoas que a cercam. Crianças, ao explorarem o mundo, perguntam e buscam respostas, seja através da fala ou do brincar. Impedi-las de fazer isso é violar seu desenvolvimento natural e saudável.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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Birra dos 2 anos: uma oportunidade de aprendizagem para pais e filhos

Uma mãe nos pergunta: “Gostaria de saber como intervir nas birras  e auxiliar a criança quando ela está com 2 anos de idade”.

Do ponto de vista psíquico, um bebê nasce fundido à sua mãe, como se ele e o ambiente fossem uma coisa só. Durante seu desenvolvimento, sua principal tarefa consiste em diferenciar-se deste ambiente (primeiramente a mãe; depois a família e seu meio social) para alcançar autonomia e independência.

Aos 2 anos, a criança, em geral, já se reconhece como um ser não mais fusionado e totalmente dependente de seu meio. Ela diz “eu” (ao invés de o nenê ou o João, para se referir a ela) e “é meu” (para defender o que deseja ou é sua propriedade). Em meio a esse reconhecimento de si mesma e do outro, a criança vai se posicionando no mundo, integrando suas experiências e construindo sua própria identidade. Consequentemente, ela se expressa de forma mais ativa para satisfazer-se e afirmar para si e para o mundo o que é importante para ela.

Nesse esforço de diferenciação e validação de seus próprios desejos e pensamentos, nem sempre a criança consegue comunicar com clareza o que ela está vivenciando. Ela chora, grita, faz escândalo, se joga no chão, esperneia, agride, entre outros comportamentos, como forma de explicitar o que quer, sente, pensa e vivencia com ela mesma e nas relações com as pessoas à sua volta.

Como as crianças aos 2 anos não conseguem transformar claramente em palavras o que querem, sentem, pensam e vivenciam (esse é um processo bastante complexo, que implica em articulações que vão além de um vasto vocabulário), as birras se tornam comum diante da dificuldade verbal e de compreensão do que está sendo solicitado, sentido, desejado e pensado. Muitas vezes, temos a sensação de que as birras surgem “do nada”, sem motivo aparente ou por um motivo que para muitos olhos não têm razão de existir. Outras vezes, elas são vistas como um querer fora de hora ou uma chatice desnecessária. Isso, porque elas podem decorrer de pensamentos e/ou sentimentos não verbalizados pela criança e/ou compreendidos, ou mesmo ouvidos, pelos adultos.

Com as birras, as crianças comunicam seu desconforto. Portanto, elas também são uma maneira encontrada pela criança de solicitar atenção e cuidado, de demonstrar que uma necessidade física não está sendo atendida (como sono, fome e dor), de expressar sentimentos como estresse (excesso de estímulo), tédio, angústia, insegurança, medo, entre outros.

As birras infantis, além de serem uma forma de comunicação, são um “teste de poder” por parte das crianças. Na medida em que seu “eu” vai se manifestando e as experimentações se ampliam, é natural que a criança experimente até onde ela e quem está ao seu redor pode ir. Ao mesmo tempo, crianças tentam compreender os limites (os delas e os que lhe são impostos) e, ainda, questionar aquilo que não vem delas. Com isso, um “não” diante de seus desejos, ou um pedido ou regra vinda de fora podem se tornar bem desagradáveis a elas. Vamos lembrar que nesta idade as crianças demonstram seus desejos na espera de conquistá-los, mas precisam aprender a lidar com a frustração quando o que almejam não é alcançado. Sendo assim, as birras são também uma oportunidade de ensinar a criança sobre os limites que a vida impõe.

Algumas crianças são mais insistentes e resistentes, fazendo birras constantes; outras manifestam tais comportamentos de forma mais amena. Por que será? O que as crianças querem nos dizer quando esperneiam, não escutam (ou fingem não ouvir) e batem de frente com o adulto?

Estas questões nos fazem pensar sobre as relações entre crianças e adultos, principalmente seus cuidadores. Relações mais permissivas, mais agressivas ou rígidas; relações sem afeto, sem limites claros e definidos (ou ambíguos); relações de manipulação, marcadas pela indisponibilidade de cuidado e atenção, ou ordens/regras rígidas e em excesso, são alvo de desentendimentos e birras infantis (e aqui incluo os adultos, que podem se comportar de maneira birrenta também). Crianças que não são atendidas em suas necessidades físicas e emocionais são mais propensas às birras.

Então fica a pergunta final: Será que algumas birras não são um pedido de ajuda da criança? Apesar de ser um momento que comumente nos afastamos dos pequenos, as birras são um convite ou uma convocação da criança para que os adultos possam ajudá-la a reconhecer e entender o que ela vivencia e experimenta em seu mundo complexo e com tantas descobertas. Crianças nesta idade precisam ser contidas pelo adulto, pois não conseguem ainda se acalmar sozinhas, principalmente quando estão diante de uma tempestade de emoções que ainda não entendem.

Cabe ao adulto tentar nomear o que se passa com a criança para que ela possa aprender a reconhecer o que sente, validar o que pensa, entender o que pode, e assim encontrar outras maneiras de se expressar.

A birra pode ser um momento de compreender o que a criança solicita e de ensiná-la sobre o que é possível ou não dentro do seu desejo. Que tal parar, ouvir e conversar para que estas birras não se estendam?!

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