O que fazer quando a criança demora para falar?

Por Adriana Fontes Melo* e Ana Paula Dias Fernandes Pacheco**

O advento da fala de um bebê é tão esperado que não é de estranhar que muitas vezes a ansiedade dos pais diante das primeiras palavras faz com que peçam a seus filhos a repetição dessas para que amigos e familiares aproveitem deste momento especial. O bebê, por sua vez, entra no jogo, ora repetindo, ora se negando a reproduzir suas novas aquisições. Essa é uma cena clássica, atual, e se repete tantas vezes que só nos damos conta de um impasse quando as palavras adquiridas vão sumindo conforme a demanda de repetição. Contudo, se os pais se dão conta e cessam a demanda, a criança retoma o curso de aprendizado, sem que esse processo seja retardado.

Ainda nesse tempo das primeiras palavras, lembramos que o bilinguismo, aquisição de mais de uma língua, naturalmente se dará em um período mais extenso; crianças com irmãos mais velhos podem falar mais cedo do que um filho único, e gêmeos criam uma linguagem própria, o que pode resultar em um menor interesse, da parte desses pequenos, em desenvolver uma fala articulada para a comunicação com os adultos.

Nos casos acima descritos, percebemos que não há interrupção no processo de aquisição da linguagem e que as crianças dão conta de prosseguir com o aparecimento de novas palavras assim que se sentem confortáveis em retomar a palavra como meio de comunicação.

Aqui a pergunta se faz para casos em que a ausência da fala não é “autoexplicativa”, ou seja, os movimentos da família e da circulação social do bebê não se desdobram a favor dessa forma de comunicação, a saber, a fala. Nesses casos, geralmente recorre-se a Pediatras e Educadores, e em seguida os encaminhamentos mais específicos podem levar a criança a Fonoaudiólogos, Psicólogos ou Psicanalistas.  A posição a partir da qual falamos é a de Psicanalistas, que trabalham as questões da linguagem na prática clínica.

O ato do nascimento impele o choro, que é recebido com muita alegria porque esta manifestação representa vida.  Nos momentos seguintes, o choro irá representar tantas outras coisas que aqueles que cuidam do bebê serão convocados a descobrir o que esse som enuncia, excetuando-se apenas os bebês com problemas no aparelho fonador, já que mesmo em casos de deficiência auditiva ou de surdez, o som da voz está presente (na surdez somente o aparelho auditivo está comprometido). O fonador, responsável pela capacidade em emitir sons, estará preservada e a comunicação poderá ocorrer contando apenas com estes sons, com sons e com sinais, ou apenas com os sinais.

Nesse tempo é esperado que quem escuta o bebê possa dizer-lhe algo sobre o que supõe estar sendo comunicado por meio do choro, isto é, irá verbalizar suposições sobre: fralda suja, fome, calor, frio, sono. Exemplo: “Ah! Então quer dizer que você está me pedindo… está me contando…”. Esse diálogo dá ao choro lugar de apelo; ou seja, o choro não será mais uma mera reclamação, mas contará sobre o que o bebê sente. Não é incomum ouvirmos: “…xi, chorando desse jeito, já sei que é fome!”. Igualmente importante, é que o banho, a mamada, a troca de fralda e os outros cuidados cotidianos sejam acompanhados de uma conversa com o bebê – “eu sei que você ficou chateado por tirar a roupinha, mas agora a mamãe vai te colocar numa banheira com água quentinha” – e que ela dê um tempo para que ele responda com um sorriso ou mesmo com um olhar, e continue: “Você gostou? Percebo por esse sorriso que você gosta de tomar banho…”.

O ensaio e erro dessa fase, que permite saber sobre o choro e descobrir do que não se trata para supor uma assertiva, prepara a próxima etapa: o bebê pode apontar para o que quer. Esse caminho indica que muito antes de um bebê murmurar a primeira palavra, ele aprende as regras da linguagem e se utiliza desses códigos para se comunicar, até que as primeiras palavras surjam como resultado do que foi percebido e praticado.

O fato de que alguns bebês respondam mais rapidamente para aquilo a que foram mais estimulados, parece bem usual; que eles convoquem aquele que não está presente, parece bem natural; que eles só pronunciem o que querem se alguém não o fizer por ele, pode até parecer cruel, mas como subestimar seres tão atentos e dispostos a receber do outro os códigos da vida?

Essa pergunta tem a intenção de encorajar os pais e todos os que têm alguma forma de relação e cuidado com os bebês, a incentivar que esses pequenos peçam o que não têm à mão, ou mesmo o que querem além disso. Que desejem, demandem e que, no esforço para conseguir, sintam o prazer da conquista e possam continuar “dizendo sobre eles mesmos”.

A palavra falada é uma das possibilidades de comunicação. Entretanto, a fala não se restringe à articulação das palavras e, por ser um meio de comunicação muito expressivo, a ausência da produção de fala passou a ser um dos indicadores para uma melhor observação dos riscos no desenvolvimento infantil. As crianças têm características bem diferentes e o fato de serem mais quietas, ou agitadas, “é coisa de criança”. Porém, se percebemos um exagero e se esse nos levar a pensar em inibição ou hiperatividade, tanto um como outro podem representar dificuldades dessas crianças no meio social em que vivem (família, creche/escola, vizinhança).

A inibição é um recurso bastante usado nas fases iniciais do desenvolvimento de uma criança e pode ser lida como defesa contra a angústia de não conseguir se comunicar, por exemplo. A hiperatividade também pode ocorrer em decorrência da dificuldade na comunicação, já que implica em uma agitação motora, dificuldade na aceitação da lei e pode ainda se apresentar sob forma de condutas agressivas. Estes são exemplos que nos permitem pensar em sinais de alerta para que as etapas do desenvolvimento infantil sigam com mais possibilidades do que impasses.

As etapas do desenvolvimento infantil não são concluídas em idades exatas. Justamente por isso, a Pesquisa Multricêntrica de Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil (IRDIs) foi criada pelo Grupo Nacional de Pesquisa em parceria com o CNPq e a FAPESP para auxiliar profissionais da área de saúde na avaliação de riscos. Elegemos apenas os itens que se referem diretamente à linguagem: estima-se que com idade entre 0 a 4 meses, “quando a criança chora ou grita, a mãe sabe o que ela quer”; que entre 4 a 8 meses “a criança utiliza sinais diferentes para expressar suas diferentes necessidades” bem como, “reage (sorri, vocaliza) quando a mãe ou outra pessoa está se dirigindo a ela”; de 8 a 12 meses mãe/cuidadores “compartilham uma linguagem particular com a criança”; de 12 a 18 meses “a mãe começa a pedir à criança que nomeie o que deseja, não se contentando apenas com gestos”. A referida pesquisa se encerra nessa faixa etária, mas podemos seguir marcando o período seguinte, de 18 meses a 2 anos, como a fase em que as palavras começam a aparecer em uma velocidade surpreendente e algumas crianças já esboçam pequenas frases: “É meu!”, por exemplo. De 2 a 3 anos, ela usará frases com 3 palavras, e seguirá aumentando esse repertório para expressar de modo cada vez mais preciso o que quer, contando o que fez.

Contudo, devido à complexidade da linguagem que requer da criança bom desenvolvimento orgânico (seja motor, fonador ou auditivo) e psíquico (constituição subjetiva do sujeito), essas aquisições podem ultrapassar os 3 anos de idade, necessitando de um tempo maior de amadurecimento em alguma etapa do desenvolvimento.

A percepção de que algo não caminha bem no desenvolvimento da fala, seja por situações comparativas a outras crianças (irmãos mais velhos, filhos de amigos, entre outros) ou a partir de espaços como esse, que sugerem um modo de observar, é muito importante para que se dê um encaminhamento preciso. Por isso, pais e educadores devem ficar atentos e solicitar a avaliação de um especialista quando: de 0 a 6, se os bebês param de balbuciar; de 9 a 15 meses, se o bebê ainda não pronuncia palavras ou se, ao final dessa fase, não se consegue entender nem supor o que está sendo pronunciado e até mesmo o surgimento de eventos como a gagueira ou outros não sumirem rapidamente.

O relato de sinais como os acima descritos e a observação durante a consulta de um especialista responderão se é o caso de intervir ou se é precipitado tratar, e nova avaliação deverá se fazer mais adiante. Pediatras e Educadores são profissionais que estão em constante contato com bebês e crianças e por isso um olhar cuidadoso e atento por parte deles pode possibilitar o encaminhamento para especialistas que poderão avaliar, no caso de: alterações auditivas, fonoaudiológicas, visuais, neurológicas ou questões psíquicas.

Cuidar a tempo é a justa medida para que esse precioso momento de desenvolvimento não retarde outros tantos que estão por vir. Para a Psicanálise a intervenção é considerada a tempo quando é possível perceber sinais que indicam uma dificuldade, antes mesmo que entraves impeçam ou atrasem a entrada do bebê/criança na linguagem.

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*Adriana Fontes Melo é Psicóloga Clínica (CRP 06/57316-8), Mestre em Psicologia Escolar do Desenvolvimento Humano IP-USP, Especialista em Distúrbios Globais do Desenvolvimento IP-USP. Psicanalista na clínica com crianças, adolescentes e adultos. Fez parte da equipe clínica do Lugar de Vida, aonde os atendimentos se davam a crianças com distúrbios de linguagem, transtornos globais do desenvolvimento e clínica com bebês (Núcleo de Intervenção Precoce-NIP).

**Ana Paula Dias Fernandes Pacheco é Psicóloga Clínica (CRP 06/1068-09) e Psicanalista, atende em psicoterapia crianças e adultos e faz orientação a pais e casais. Fez Aprimoramento em Terapia Familiar (PUC-SP) e no Projeto Espaço Palavra (PUC-SP) – atendimento clínico ao autismo e à psicose, da primeira infância à idade adulta. Especialização em Psicoterapia de Crianças e Adolescentes no CPPL-PE (Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem), Pós-graduação em Psicoterapia Psicanalítica Orientada ao Trabalho na Rede Pública de Saúde Universidad de Barcelona. Em formação psicanalítica no Centro de Estudos Psicanalíticos e integra o Programa de Formação Prática em Educação Terapêutica do Lugar de Vida.

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Rotina com bebês: por que ela é tão importante?

Quando a rotina é rígida e inflexível demais, a vida corre o risco de ficar bem sem graça. As atividades viram meio robotizadas, perdendo o colorido dos encontros cotidianos. A criatividade cede lugar para o engessamento e muitos acabam se perguntando qual o sentido de viver de uma forma que parece tão pouco viva. Poder escapar do “fazer sempre do mesmo jeito, na mesma hora e no mesmo lugar” é essencial para a saúde humana.

Com os bebês, no entanto, é diferente. A rotina, que imprime o ritmo constante e previsível de determinadas ações, é essencial para a organização psíquica do bebê, que, aos poucos vai podendo compreender o que acontece com ele e com seu entorno. Isso inclui quando, onde e como as ações que o envolve são realizadas.

Embora seja necessário criar uma rotina desde o nascimento, sabemos que logo que o bebê nasce, mãe e filho estão se conhecendo, tanto no que diz respeito aos ritmos biológicos quanto às maneiras de se relacionar; é uma fase de muita experimentação. Na medida em que ambos vão revelando como são e jeitos de estarem juntos, passa a ser possível começar a estabelecer um ritmo regular nas ações cotidianas.

Antecipar o que vai acontecer e nomear o que está acontecendo com o bebê é de extrema importância para minimizar a angústia dele diante daquilo que ele ainda está por conhecer e compreender. Por isso os pequenos rituais são tão importantes neste comecinho da vida.

Conforme o bebê cresce, seus ritmos e preferências vão sendo conhecidos, o que torna possível ajustar alguns aspectos da rotina do bebê à rotina familiar. Essa transição é gradual e deve levar em consideração as constantes transformações do bebê.

Ao atender verdadeiramente às demandas do bebê estabelecemos com ele uma conexão física e psíquica primordial para o desenvolvimento de sua segurança e, consequentemente, autonomia.

Embora pareça um pouco precipitado pensar em autonomia num recém-nascido que depende em demasia de um adulto, é desde os primeiros dias de vida que damos condições ao bebê de um dia tornar-se um ser seguro e cada vez mais independente. Por isso sua rotina deve sempre levar em consideração suas necessidades físicas e emocionais, especialmente nos primeiros meses de vida, período em que o bebê está se ajustando à vida extrauterina. Na prática isso significa, por exemplo, que não dá para alimentar um bebê que está sem fome porque aquele é o horário da alimentação, ou mantê-lo acordado, mesmo com ele esboçando todos os sinais de sono, porque o pai ainda não retornou do trabalho para casa. A rotina do bebê só deve ser ajustada às condições do cuidador ou do ambiente quando estas interferirem diretamente na demanda do bebê, como é o caso de ser banhado no momento do dia em que a mãe tem alguém ao seu lado que lhe dá segurança para exercer esse cuidado, ir ao pediatra no horário em que ele costuma dormir ou ser alimentado, entre outros.

Construir a rotina do bebê a partir das pistas por ele oferecidas, e não por uma imposição do ambiente, não o transforma em alguém centralizador e mimado. Ao contrário, essa é uma condição essencial para o desenvolvimento integral dos seres humanos. O que leva uma criança ser centralizadora é sua insegurança e dificuldade em lidar com as frustrações.

Frustrar um bebê não é deixá-lo chorando. Desde o início da vida somos tomados pela marca de nossa incompletude. No caso dos bebês, essa marca pode ser traduzida pelos pequenos tempos de espera. Quando um bebê chora e dizemos “já vou te pegar”, sinalizamos nossa presença, nomeamos ao bebê nossa compreensão de que ele precisa de algo e isso é o que o permite suportar temporariamente aquilo que lhe falta (alimento, colo, carinho, mudança de posição, etc.). Na medida em que essas ações se repetem, o bebê vai construindo seu repertório interno de ser e estar no mundo, aprendendo, cada vez mais, que em muitos momentos não terá “tudo” como no momento em que vivia no útero materno.

A rotina com bebês não robotiza. Sua previsibilidade, com seus pequenos tempos de espera e outras pequenas falhas ambientais, é o que permite a constituição de um sujeito seguro e autônomo, na infância, adolescência e vida adulta. O que robotiza é cair no modo automático de cuidar do bebê. Para isso não acontecer, a receita é simples: conexão verdadeira, uma entrega de corpo e alma!

Filhos que não dormem sozinhos

“Tenho dois rapazes, um com 6 anos e outro com 12 meses. O mais novo, no meio da noite acorda e choraminga, julgo que com a manha de vir para junto de mim. Com o mais velho as noites sempre correram mais ou menos bem, era preciso adormecer com ele, mas depois dormia só, até há uns meses… não sei se por ciúmes, ou porquê, não quer ir para a cama sozinho, e pior, mal nos tentamos levantar, acorda e não nos deixa ir. Não fica nem meia hora só… eu e o pai já passamos a fase da conversa, da paciência, do desnorteio… Não sei como resolver…. deixá-lo só e a chorar? Dormir com ele? Não sei….”

Não temos respostas prontas, mas tentativas de entender a situação, que vai ficando cada vez mais difícil quando as estratégias que usamos não apresentam o resultado desejado. É importante lembrar que cada criança é uma e que sua dificuldade em dormir, assim como as dificuldades alimentares, as birras e outros comportamentos não muito desejáveis, em geral são uma maneira de a criança comunicar que algo não vai bem ou algumas coisas precisam acontecer de outra forma. O grande desafio é fazer a leitura do que está por trás destes comportamentos.

No que se refere ao sono, precisamos lembrar que, do ponto de vista emocional, a hora de dormir é um momento de separação.  As crianças vão para sua própria cama e lá ficam sozinhas. Aos 12 meses a criança ainda precisa bastante da presença física do cuidador para sentir-se segura. Por isso, quando ela acorda no meio da noite e choraminga , ela assim o faz na intenção de solicitar a presença de alguém.

Muitas vezes basta dizer para a criança que está tudo bem, que ela despertou, mas pode voltar a dormir porque você está por perto. Outras vezes, pode-se deixar um brinquedinho macio ou um paninho, falando que você está, por exemplo, dormindo em seu quarto (é importante dizer para a criança onde você está), mas vai deixar com ela o ursinho que ela tanto gosta para fazer-lhe companhia durante a noite (há pais que optam por deixar um objeto pessoal seu com a criança). Em algumas situações, é preciso pegar a criança no colo, acalmá-la para só depois colocá-la de volta no berço ou cama. Outro recurso que pode ser utilizado nesse momento de transição é o canto. Ao ouvir a voz do cuidador a criança se tranquiliza porque percebe que está acompanhada. É possível, inclusive, ir se distanciando do quarto, ainda cantando.

Assegurar à criança, através de palavras e atitudes, que ela não está sozinha, geralmente a acalma (mesmo que isso leve algum tempo) porque ela vai compreendendo o que está acontecendo. Mas estas palavras precisam ser ao mesmo tempo firmes e calorosas.

Esses recursos acima citados podem ser utilizados tanto para um bebê quanto para uma criança com 6 anos. Sua hipótese de que seu filho mais velho não quer ir para a cama sozinho por ciúme do irmão talvez seja verdadeira.  Você não nos fornece exatamente há quanto tempo isso vem ocorrendo, mas, pela idade do menor, posso inferir que tenha sido no momento em que este ficou mais engraçadinho, interagindo mais com outras pessoas e, consequentemente, despertando maior atenção aos olhos do mais velho (muitas vezes é nesse momento que o mais velho “revela” seu ciúme). Portanto, deixar a criança só e chorando até que ela pegue no sono não a acolhe. Ela continuará sentindo-se desamparada e  insegura (seu sentimento pode ser de que será abandonada, é preteria, ou simplesmente sente-se sozinha). Mesmo que ela adormeça “pelo cansaço” ela não estará sendo ajudada naquilo que precisa, o que não contribui para a construção de sua segurança interna.

Para que a separação na hora de dormir não seja tão sofrida para todos é importante garantir momentos em que os pais estejam juntos de seus filhos, inclusive tendo exclusividade com cada um deles. Crianças precisam da presença física do adulto para construir sua segurança afetiva. Quando, durante o dia, ela não pode usufruir desses momentos, ela acaba usando a noite – em geral momento de mais disponibilidade presencial dos pais – para tê-los consigo. Um dia bem vivido implica numa noite bem dormida.

Chupeta, mocinha ou vilã?

O uso da chupeta divide opinião entre pais e especialistas, não apenas no que se refere às questões mecânicas e funcionais, mas também em relação aos aspectos emocionais envolvidos.

Alguns alegam que seu uso é prejudicial, especialmente nos primeiros meses de vida, por atrapalhar o aleitamento materno tanto na pega do bico, quanto na produção de leite – tal pressuposto justifica o protocolo de muitas maternidades de não permitirem seu uso enquanto o recém-nascido está sob seus cuidados. Aos opositores da chupeta, podemos acrescentar aqueles que entendem que a necessidade de sucção é plenamente atendida com as mamadas (o que leva muitos a advogarem pela amamentação por livre demanda), ou, que se esta necessidade não for suprida com a amamentação, poderá ser obtida chupando o próprio punho ou dedo. Vale ressaltar que a sucção é um reflexo natural do recém-nascido, podendo ser observado já na vida intrauterina com os bebês que chupam dedo.

Em contrapartida, temos aqueles que defendem seu uso por: 1) temerem a instalação de um hábito que utiliza parte do corpo, mais difícil de ser erradicado posteriormente; 2) entenderem que o seio materno ou bico da mamadeira não deva ser fonte de prazer desvinculada da alimentação; e, 3) acreditarem que a chupeta assegura certa “tranquilidade” ao bebê e a quem cuida dele.

Seja qual for o ponto de vista que norteia o uso ou não da chupeta, é importante considerar que cada bebê é um ser único, com necessidades específicas e nem sempre congruentes com as necessidades ou possibilidades do adulto cuidador. Assim sendo, alguns bebês podem ter maior ou menor necessidade de seu uso, podendo, inclusive, recusá-la sem buscar um substituto.

Já nas primeiras mamadas, o bebê descobre que a sucção, além de fonte de alimento, é também fonte de prazer e, por consequência, de relaxamento e bem estar. Conforme vai explorando o mundo que o cerca, incluindo seu próprio corpo, percebe que pode obter sensação semelhante à obtida durante a amamentação; por isso ele leva à boca, o dedo, o punho, um pedaço de pano e, mais tarde, outros objetos e brinquedos, de forma mais ou menos intensa. Ele quer repetir as experiências prazerosas e confortantes (atenção, carinho, acolhimento, segurança) que ele teve com as mamadas. A chupeta, neste sentido, pode ser um recurso interessante.

No entanto, a equação do seu uso não traz um resultado exato, como revelam os dois significados que a palavra chupeta tem na língua inglesa: pacifier = pacificador, acalmador e dummy = mudo, calado. Sua função tranquilizadora não pode ser silenciadora.

Entender o que um bebê quer dizer não é tarefa fácil, especialmente nos primeiros meses de vida, quando mãe, pai, cuidadores e bebê estão se conhecendo. Por isso, ao mesmo tempo em que a chupeta pode minimizar a angústia presente na situação (seja ela do bebê ou do adulto), ela pode tamponar a tentativa de comunicação do bebê com o ambiente. Quem precisa de conforto quando bebê chora, dorme ou está sozinho?

Oferecer a chupeta para o bebê dormir antes mesmo que ele apresente qualquer dificuldade para adormecer é não acreditar em sua capacidade de adormecer sozinho (esbarramos aqui na ideia do bebê como um ser completamente dependente, sem nenhuma competência e autonomia); de certa forma, esta atitude também minimiza a culpa por “deixar” o bebê – no berço, no carrinho, nos espaços de brincadeira. No imaginário de muita gente, a chupeta serve de companhia permanente ao bebê. Não é por acaso que muitos pais optam pelo uso de um prendedor na roupa, nada recomendável do ponto de vista da higiene (pela contaminação por sua constante exposição), da segurança física (representa risco de enforcamento) e da saúde emocional, já que designa o bebê à condição de incapaz de ficar só – o que é muito diferente de abandonar ou negligenciar cuidados.

Dar a chupeta para o bebê que chora pode ser apenas paliativo, na medida em que oferece algum conforto, às vezes, pelo simples fato da presença de alguém lhe dando atenção, mesmo que através de um objeto. Então, cabe-nos a pergunta: Será que a chupeta não poderia ser substituída por uma palavra, um carinho, um colo?

Antes de apresentar a chupeta ao bebê é importante perceber quem é que precisa dela, evitando, assim, a instalação de um hábito desnecessário e suas consequências.  O ideal é assegurar um tempo de observação do bebê para ver se sua necessidade de sucção é suprida com a amamentação, se os gestos e palavras do cuidador dão conta de garantir-lhe conforto e segurança, e se chupar o punho ou o dedo é um comportamento corriqueiro.

A chupeta pode cumprir um importante papel para o bebê, desde que seu uso seja pensado e ponderado.

Manter o bebê com a chupeta na boca ou automatizar sua oferta, revela a crença – equivocada – de que bebês não se comunicam, suas manifestações têm sempre o mesmo sentido, não podem ser frustrados e são “manhosos”.  Também, denuncia o quanto é difícil suportar choros, birras, irritações e a sensação de não saber o que fazer em algumas situações.

O uso indiscriminado e prolongado da chupeta tem como consequência riscos que vão além das questões funcionais da boca e/ou da dificuldade posterior de eliminar um hábito; ele reforça e marca as relações do bebê com o mundo, em especial no que tange sua comunicação e autonomia.

Tal padrão de relações e comportamento pode se manter ao longo da vida, seja na forma de maior dependência do meio, seja na dificuldade em se expressar. Sem a presença da chupeta, é possível que a criança busque substitutos que tragam certa dose de tranquilidade, conforto e segurança, como chupar o dedo, roer as unhas, ingerir alimentos em excesso, e mesmo bebidas, cigarro, os quais, como a chupeta, continuará encobrindo angústias, ansiedades, medos e fantasias não compreendidas.

Permitir o uso da chupeta não significa que a criança estará sujeita a desenvolver outros hábitos orais. O que leva à manutenção destes hábitos não é a chupeta em si, mas seu uso sem discernimento, seu uso enquanto companhia e/ou silenciador de necessidades. Portanto, a chupeta, do ponto de vista emocional pode ser um valioso objeto, desde que se possa pensar e considerar que ela tem momento para ser usada e, mais tarde, retirada.

Mães “recém-nascidas”

(…) “Desde as minhas mais remotas lembranças sempre me imaginei mãe e sempre me imaginei mãe de um menino. Após algum período de dificuldades para engravidar (2 anos), finalmente conseguimos e eu continuei a alimentar todo aquele sonho.

Sempre tive muito forte em mim algumas convicções com relação à educação, uma coisa muito minha sabe? Parecia que eu já tinha nascido com aquilo. E agora quero colocar em prática com meu filho e encontro alguma resistência por parte do meu marido, dos meus parentes, da minha sogra, etc.”

Para você, a maternidade foi à realização de um sonho que veio sendo construído desde muito cedo. De fato, tornar-se mãe ou pai é uma construção que começa muito antes da gravidez e do nascimento do bebê. Das brincadeiras de boneca ao imaginar-se cuidando de um bebê de verdade, da própria história como filha às vivências de se ter os pais que se tem, se teve (ou não), a nova família vai sendo construída com suas semelhanças e diferenças.

“Só pra você entender melhor, pois acho que estou sendo muito vaga: eu não acho que um bebê tenha condições de entender certas coisas como nós adultos, queremos. Exemplo, se ele chora e eu estou almoçando eu quero logo ir buscá-lo no berço e meu marido diz: “você está comendo, ele tem que aprender a esperar”. Sendo que eu não consigo vê-lo chorando, me dói muito, e me dá uma sensação de que ele está sofrendo e se sentindo sozinho e abandonado, pois ele não entende (assim eu acho), que nós estamos almoçando e não podemos pegá-lo. O que ele sente é que acordou e está sozinho.”

Os primeiros meses de vida do bebê são de intensa aprendizagem, tanto para ele quanto para quem cuida dele. Existe uma linguagem não verbal que precisa ser decifrada e nomeada para o bebê. O choro é uma delas.

Como cada choro tem um significado, é importante reconhecer seu motivo: fome, frio, calor, dor, desamparo, necessidade de ser aconchegado. Se nesta tarefa de entendimento da linguagem do bebê a mãe fica ansiosa, o bebê percebe sua intranquilidade e não se acalma.

O que será que acontece que você não consegue ver seu filho chorando? O choro dos bebês é uma maneira de comunicação, não apenas porque estão sofrendo, sentindo-se sozinhos ou abandonados. Muitas vezes estes são sentimentos do adulto que está cuidando dele. Se seu filho chora para avisar que acordou, vá até o berço, diga que você viu que ele acordou. Dê-lhe alguma atenção antes de tirá-lo do berço. Pode ser que nas primeiras tentativas ele continue chorando. Acaricie-o e vá aumentando aos poucos o tempo dele de espera até ter seu colo. Ele vai se sentir confortado e aos poucos vai poder esperar por você por um tempo um pouquinho maior.

“Outra coisa que eu sou BEM CHATA é com negócio de colo. Já dei fora em um monte de gente e agora ninguém mais fala nada. Eu adoro ficar com meu pequeno no colo. Às vezes a gente dorme junto no sofá, ele no meu colo. E quando ele acorda e vê que está comigo, ele ri aquele sorriso lindo banguela. Aí fica todo mundo dizendo: ‘o menino vai ficar manhoso’, ‘o menino vai ficar pesado e você não vai aguentar carregar ele’, ‘o menino só vai querer ficar no colo’.

Sabe o que eu penso? Penso que quando ele começar a engatinhar não vai mais querer ficar no meu colo… E quando ele começar a andar? E quando ele crescer e virar um rapaz eu já não poderei aconchegá-lo tanto quanto eu gostaria, pois terei que dividi-lo com o mundo. E o mais importante, acho que o colo passa uma sensação de amor e proteção. Isso eu não li em lugar nenhum, é como se já tivesse dentro de mim. Acho que a criança se sente amada. Então por isso eu dou muito dengo mesmo, abraço, fico com ele no colo, dormimos juntos. Não deixo ninguém interferir nisso. E quando o pai diz: ‘esse menino tá é muito manhoso’, eu digo: ‘se ser amado e gostar de carinho é ser manhoso então ele é manhoso mesmo’.”

O colo é uma experiência de aconchego, carinho, proteção e segurança, para o bebê e para a mãe. Por isto é tão bom dormir com ele. Mas é importante lembrar que o bebê também precisa de momentos sozinho, tanto para ele poder explorar o que tem ao seu redor, quanto para ele poder ir conquistando sua independência (mesmo muito pequenininho é preciso não esquecer que uma das mais preciosas tarefas de uma mãe e do paié ajudar seu filho a tornar-se independente).

“Como eu disse, não deixo ninguém interferir nisso, porque é como se fosse um instinto muito forte que eu tenho que me manda fazer isso, eu não sei de onde vem, mas eu sei que já nasceu comigo.” (…)

Uma última observação: em todas as suas falas aparece seu marido de um lado e você e seu filho de outro. Talvez ele também esteja querendo um colo, atenção, você um pouco mais para ele. Isto é saudável para os três!

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