Vem pra Roda!

Há três anos nascia o Ninguém cresce sozinho. Desde lá, nosso objetivo tem sido compartilhar informações e trazer reflexões sobre questões enfrentadas no infindável, complexo e dinâmico processo de tornar-se mãe/pai e educar uma criança, da gestação aos 6 anos de idade.

Nesses anos, nossos textos pulverizaram-se em diversos canais, assim como espalhamos, ao lado deles, outros muitos, de distintas autorias, em nossas redes sociais – Facebook, Twitter, Google+ e Pinterest. Fizemos gostosas parcerias e trocas sempre muito interessantes (é só ler os comentários que ficam no final de cada texto!).

O espaço virtual, grande e plural, ficou pequeno para questões mais íntimas e singulares.

Para acolher essas questões, estamos iniciando, neste terceiro aniversário, as Rodas de Conversas Ninguém cresce sozinho.

logo RCNCS quadrado

Cada Roda, com 1, 2 ou 3 encontros grupais e um tema específico, é destinada a mães, pais e educadores. Em nossa Agenda você encontra a programação desses encontros e de outros encontros.

Todos leitores e seguidores estão convidados a entrar na Roda!

 Venham!

{Quem preferir um espaço mais privado ainda, também oferecemos. Confere aqui.}

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Boas Festas!

fim de ano

Para um presente de Natal não ser descartável

A troca de presentes no Natal faz parte de nossa cultura. Mesmo que tenha se originado para repetir o gesto dos Reis Magos que presentearam o menino Jesus por seu nascimento, não é preciso lembrar que a data vem bombardeada por apelos para o consumo. Todos nós sabemos disso, e cada vez mais.

Se há alguns anos dezembro era mês de Natal, atualmente observamos suas vésperas bastante estendida: inicia-se na sequência do Dia das Crianças ou, no mais tardar, novembro. Crianças observadoras, por exemplo, expressam essa mudança temporal quando perguntam, quase um mês antes de encerrarem as aulas, se logo entrarão em férias. Afinal, em nosso país, Natal se dá no meio das férias escolares entre anos letivos.

Com essa observação simples e corriqueira, podemos ter uma ideia do trabalho que é, na cabeça de uma criança, desconstruir e reconstruir a compreensão temporal. Agora, imagine como ela fica quando é tomada por dizeres e imagens que se apresentam em quantidade e velocidade muito maiores do que o habitual, ofertando o brinquedo mais divertido do mundo – e, de um tempo para cá, o melhor lugar para passar férias em família; sim, qual criança que assiste TV que nunca pediu para ir a um ou outro parque de diversões ou resort?

Se a magia do Natal carregava o tempo da espera e do sonhar pelo desejo genuíno de ganhar aquele presente, a enxurrada da publicidade trouxe o desafio de, diante do pedido de uma criança por um presente de Natal, termos que tentar decifrar se o que é pedido é uma escolha ou uma imposição. Não é incomum a criança ir mudando de ideia sobre o que ela quer de presente de Natal a cada apelo comercial. Sua dúvida é, na verdade, uma falsa dúvida; é um fenômeno fruto da invasão de informações que ela não tem maturidade emocional para encontrar em si onde cada apelo ressoa. Ela quer tudo e, depois que ganha o presente, acaba revelando que não quer aquilo. Quantas pessoas gastam o que têm e não têm para poder comprar o tal do brinquedo que é deixado de lado dias depois, como mais um item descartável entre tantos outros.

Um presente duradouro é um presente que vai ao encontro do desejo genuíno da criança. Em geral esse desejo está relacionado ao momento mais íntimo que ela vive consigo mesma. Um menino de quatro anos, por exemplo, que tinha muito medo de nadar, uma vez que passeava numa loja de brinquedos viu uma piscininha com bonecos e disse aos pais que queria ganhá-la no Natal. Os pais estranharam (o brinquedo ficava na “seção de meninas”), mas a insistência foi tanta que eles decidiram presentear o filho com a tal piscina. Com a piscina e os bonecos que a acompanhavam, o garotinho provavelmente foi elaborando aquilo que o impedia entrar na piscina de verdade. Alguns meses depois, começou a nadar como um peixinho.

Outro exemplo: uma menina, com dois anos de idade, pediu ao Papai Noel um paninho e uma vassourinha. Os pais não se conformavam em uma data especial a filha querer um presente tão barato e singelo. Ora, aos dois anos, a criança adora ajudar! O valor do presente que estava em questão, para a criança, não era financeiro, mas emocional. Isso é o que deve conter num presente. O desejo deve ser o desejo da criança e não o desejo do mercado ou de quem presenteia. Se, contudo, o que a criança deseja – feito o trabalho nada fácil de discriminar a legitimidade do pedido da imposição externa – não cabe no bolso ou não é possível por qualquer razão, basta dizer à criança sobre os limites reais daquele presente não ser possível. A vida é feita de limitações; se os limites não existem, os sonhos e a possibilidade de esperar que eles se realizem, também não. Portanto, também não há espírito natalino.

Dia das Crianças: um dia para celebrar a infância

Dia das Crianças, para muitos adultos, sempre foi sinônimo de presentear; para as crianças, de ganhar brinquedos. Essa ideia, contudo, começa a ser transformada por aqueles que buscam alternativas para celebrar e dar um novo significado a datas que são culturalmente atreladas ao consumismo; entre elas, o Dia das Crianças.

No entanto, sabemos que esse é um processo que anda na contramão de arraigados valores sociais, onde o brincar está predominantemente associado à presença de brinquedos. Isso, sem dúvida, dificulta adultos e crianças imaginarem um Dia das Crianças em que não se dá/ganha brinquedos.

Para os adultos que optam por não dar brinquedo no Dia das Crianças, não basta dizer de uma hora para outra que na data a criança não vai ganhar presente porque já tem muitos, a data é meramente comercial, o dinheiro está curto, entre outros. Qualquer que seja o motivo é preciso construir com a criança a ideia de que o Dia das Crianças é um dia para celebrar a infância e não para ter que dar/ganhar brinquedos.

Essa construção deve ser contínua, e precisa partir dos ambientes que a criança frequenta, como a família, a escola e seu círculo social mais amplo. Para isso, é preciso primeiro que o adulto acredite na ideia de que é possível celebrar sem comprar; depois, que a criança entenda e veja sentido no que está sendo proposto. Fica totalmente ambíguo, por exemplo, no Dia das Crianças a criança não ganhar presente e no Dia das Mães, dos Pais ou dos Professores estes cobrarem, mesmo que indiretamente, por seu presente.

Em optando por desvincular a comemoração do Dia das Crianças a uma data comercial, cada família e instituição na qual as crianças estão inseridas deve encontrar seu jeito de transformar essa data num dia gostoso e especial. As possibilidades de celebração são muitas e devem ser estudadas e posteriormente escolhidas pelos envolvidos – pais e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos, padrinhos e afilhados, professores e alunos.

Crianças gostam de ser criança, de estar com quem tem grande afeto e de brincar livremente. Por isso, uma boa maneira de comemorar o ser criança nesta data são passeios que oferecem interações e trocas com pessoas que para as crianças são especiais.

Brincar ao ar livre, em parques, praças, clubes, onde tenha espaço para correr, pular, escalar, deitar e rolar é sempre uma ótima opção, ainda mais quando se inclui um piquenique. Crianças gostam de atividades lúdicas e recreativas oferecidas nos centros de convivência; gostam de criar os próprios brinquedos com recicláveis, assim como, de atividades em que possam entrar em contato com a natureza: areia, água, grama, praia. Zoológicos, aquários e museus são espaços também interessantes para serem incluídos no roteiro comemorativo. Vale ainda dar à criança a oportunidade de ir a um lugar que ela goste ou tenha vontade de conhecer.

Mesmo sendo bom inovar, nem sempre o passeio precisa ser fora do habitual e em locais diferenciados. Em casa é possível transformar o dia com leitura, desenhos, pinturas e reinvenção de atividades cotidianas – um café da manhã na cama, uma sessão pipoca com o filme predileto ou inédito, um acampamento na sala, são alguns exemplos.

Para aqueles que curtem e/ou valorizam a celebração com um brinquedo novo, existe sempre a possibilidade de construir algum com a criança ou participar de uma feira de troca de brinquedos. Além de sempre poder brincar e trocar experiências com outras crianças, as crianças têm a oportunidade de escolhas vinculadas ao seu próprio desejo e de exercitar a negociação de objetos de acordo com seus próprios anseios e valores.

Então, fica aqui um convite: por que não comemorar o Dia das Crianças celebrando a infância com o que as crianças mais precisam: presença e livre brincar?!

Para além da diversão dos álbuns de figurinhas

Dia desses deparei-me com este texto enquanto eu juntava minhas próprias ideias sobre álbuns de figurinhas. Nele, encontrei inquietações muito próximas às minhas.

Colecionar um álbum de figurinhas pode ser muito divertido; pode aproximar pessoas, ser uma forma interessante de aprender/ensinar e se relacionar. Para as crianças em processo de alfabetização, por exemplo, os álbuns de figurinhas podem se transformar em aprendizado ou treino matemático, na medida em que possibilitam reconhecer e escrever os números, contar, agrupar e calcular.

Ao descolar e colar o adesivo, ajustar cada figurinha dentro da área demarcada, bater bafo, enrolar elástico no monte, a criança exercita sua motricidade fina. Ao se apropriar do álbum, ela se responsabiliza e cuida do que é seu. Através das trocas, a criança adquire um bem fora da relação de consumo e media situações de conflito em busca de soluções.

Em se tratando do álbum da Copa do Mundo, a criança pode, ainda, conhecer um pouco de História e sentir-se pertencendo à História.

Embora os álbuns de figurinhas tenham um caráter lúdico e até mesmo educativo, não dá para esquecermos que ele faz parte de um grande jogo publicitário; por isso mesmo, não dá para sermos ingênuos e crer na “bondade” da editora do álbum da Copa que distribui gratuitamente seu produto até em escola de educação infantil (veja o relato no texto acima linkado).

Ora, o negócio da empresa não é vender álbum, mas sim figurinha. O negócio da empresa é vender a possibilidade da completude – o sonho de todos os mortais, seres incompletos por natureza, que o tempo todo está em busca de preencher suas lacunas.

Se de um lado a busca pela completude é o que nos move para a vida, de outro, é também o que nos leva a muitas atitudes impensadas e desenfreadas, que buscam a satisfação imediata independente das consequências que um ato possa ter.

Quando nos deparamos com um álbum de figurinhas em branco, entramos, mesmo que em nível inconsciente, em contato com nossas faltas. Assim, sem perceber, ao colecionar um álbum, revelamos nossa relação com o mundo. Em se tratando de um colecionador-criança, este revela tanto sua relação com seu entorno quanto a de seus pais para com ele. Daí encontrarmos tantas maneiras diferentes de se colecionar um álbum.

Há quem sinta a necessidade urgente em completar o álbum, pois o vazio dos campos não adesivados é insuportável – o mesmo insuportável gerado pelo tempo de espera e pela frustração em não ter o que se deseja no momento em que se deseja. Há quem não se contente com apenas um álbum; diante do preenchimento de um primeiro, o sujeito busca completar o segundo, o terceiro, e assim por diante, porque “ter” concretamente é o que o faz sentir-se existindo, potente, capaz. Mas há também – ainda bem! – quem consegue colocar algum limite frente à paixão de colecionar, controlando o impulso da satisfação um pouco a serviço da razão. Há quem foque as trocas, um valor tão importante e ao mesmo tempo tão esquecido quando as relações de consumo entram em cena. Há quem aproveita a experiência para aprender/ensinar; para estar mais junto, conhecer, descobrir.

O álbum de figurinhas pode ser um rico instrumento de relação e aprendizagem quando não é destinado às crianças como mais um produto a ser consumido. Para isso, não basta que os pais apenas comprem/deem dinheiro para a aquisição de figurinhas ou as troque pelos filhos. É preciso estar perto, observar como a criança suporta a espera, se coloca nas relações de trocas e sente-se no meio de outros colecionadores. É preciso, acima de tudo, descolar essa vivência de uma experiência puramente de consumo, o que certamente implicará em alguns nãos, mas principalmente na capacidade de cada um em lidar com seus vazios e com a condição de incompletude inerente ao ser humano.

* Este texto foi originariamente publicado no MILC (Movimento Infância Livre de Consumismo), em 20/05/2014.

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