A comunicação empática que transforma relações entre adultos e crianças

Rubem Alves, na crônica “Tênis e Frescobol”, apresenta dois tipos de relações. Uma delas diz respeito jogo de tênis ou ping pong, cujo objetivo é derrotar o adversário visando o poder e a competição, gerando desavenças, brigas e desacordos. O outro tipo de relação é aquela baseada no jogo de frescobol, em que há o olhar para o outro, a sintonia, o entendimento, a troca afetiva, a diversão e o prazer.  Diz Rubem Alves: “Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…”.

No vídeo “Empatia e Simpatia” (abaixo) fica claro o que Rubem Alves diz sobre o jogo de frescobol. Neste tipo de relação, a empatia permite a conexão a partir do entendimento de perspectivas, reconhecendo o ponto de vista do outro como verdade, sem julgar, identificando a emoção que vem e comunicando-a com respeito e afeto.

Mas, nem sempre vivemos em um mar de rosas onde nos conectamos empaticamente com as pessoas. Há diversos fatores (emocionais, físicos, sociais e ambientais) que interferem nesta conexão com o outro.  Disputas, conflitos e descontroles emocionais trazem entraves na comunicação e, consequentemente, na conexão entre as pessoas. Quando isto ocorre, não há diálogo, nem escuta. Um diálogo é uma troca entre duas ou mais pessoas, desenvolvida a partir de pontos de vista diferentes num clima de boa vontade e compreensão recíproca. Sem ele, a sintonia se perde e começamos a ver uma dança descompassada entre as pessoas. As mensagens ficam truncadas e muitas vezes nosso foco passa a ser a defesa ou o ataque.

Toda relação que não permite diálogo precisa ser modificada. A questão aqui não é se livrar dos conflitos, mas aproveitá-los como oportunidade de criar relacionamentos mais harmoniosos.

Na Comunicação Não Violenta (CNV), conceito criado por Marshall Rosenberg, encontramos uma forma de lidar com os conflitos. Sven Fröhlich-Archangeloem entrevista para o site Questão de Coaching, diz que: “A tendência na hora do conflito é querer mostrar que o outro tem a culpa, ou às vezes o contrário, achamos que nós temos a culpa. De qualquer forma o padrão é que alguém tem que ter culpa, alguém está errado. E por causa disso cada um usa toda sua energia para convencer o outro de que ele está errado. Na CNV queremos sair deste padrão destrutivo que cria somente um muro entre as pessoas. Na CNV vemos cada conflito como uma expressão de necessidades não atendidas, porque no final tudo que fazemos é para atender alguma necessidade. Às vezes é uma expressão muito trágica porque usamos comportamentos agressivos ou nosso poder para conseguir atender nossas necessidades. E o resultado na maioria das vezes não é muito satisfatório e sustentável, especialmente quando atendemos nossas necessidades à custa das necessidades do outro. Então a essência da CNV está na mudança de foco: de nossos erros e dos erros do outro, para as necessidades de todos, com o objetivo de estabelecer uma conexão que nos permite procurar um caminho que atende as suas e as minhas necessidades.”.

Se pensarmos na relação entre adultos (pais e outros responsáveis pela educação das crianças) e crianças, podemos refletir sobre: Qual a necessidade de uma criança que está por trás de um comportamento birrento, por exemplo? De uma fala agressiva? De um enfrentamento com um adulto ou outras crianças? Ser ouvida, querer atenção, receber compreensão, ou conquistar mais autonomia? Dizer que está com sono, cansada ou que não quer mais fazer o que está fazendo? Quais as necessidades da criança que não estão sendo atendidas? E por outro lado, qual a necessidade dos adultos diante de uma criança que faz birra, fala palavrão e não obedece? Seria a mesma? Ser ouvido, respeitado ou simplesmente uma necessidade de relaxamento?

Crianças em determinadas fases da vida solicitam muito aos adultos que dela cuidam; querem sempre a ajuda deles ou que façam por eles algo que já têm condições de realizar: tomar banho e comer sozinha, fazer a lição de casa, arrumar seus brinquedos e cama, por exemplo. Vemos, muitas vezes, nesses pedidos a necessidade de receber atenção, carinho e sentir-se amado. Por outro lado, os adultos querem que a criança comece a cuidar de si própria com mais autonomia, podendo assim, sentir-se mais seguros de que estão cuidando bem das crianças. Podem ainda, por exemplo, estar em busca de uma leitura, um trabalho pendente ou simplesmente de ter um pouco mais de tempo para si. É aqui que os conflitos podem se instalar caso não identifiquemos as necessidades de ambas as partes. A criança fica brava, triste quando solicitam que ela vá tomar banho e se trocar sozinha. E os adultos também ficam chateados e incomodados quando a criança não obedece ou faz “birra” nesses momentos. Quando identificada a necessidade de ambos os lados, o diálogo pode existir de maneira mais harmoniosa. Crianças pedem carinho dos pais e seus educadores (sem precisar da ajuda deles em seus afazeres) e estes, por sua vez, podem expressar a sua necessidade e dar em algum momento, atenção para a criança.

Como educador, é fundamental que os adultos ajudem as crianças a identificar e expressar suas necessidades de forma a alcança-las. No caso citado acima, vale dizer à criança que a vemos inquieta, gritando e agitada, ao invés de julgá-la como agressiva ou birrenta. Pergunte o que ela quer e o que ela está sentindo. Mostre a ela a estratégia que ela está usando (birra e agressividade) para conseguir o que quer. Pergunte se há outras formas de ter suas necessidades atingidas. É necessário usar uma linguagem simples para a compreensão da criança.

Para que este diálogo aconteça os adultos precisam olhar com novas perspectivas, principalmente em momentos de estresse, violência (verbal ou não) e conflito. Não procure culpados, não julgue, não queira encontrar quem tem razão. Não se sinta confrontado pela criança. Use a energia para impedir que uma barreira se crie entre você e ela.  Identifique os fatores que em você, adulto, podem impedir essa conexão com a criança (preocupação no trabalho, cansaço, frustração, brigas conjugais ou familiares, falta de tempo, etc.). Pais e educadores devem estar também conectados com suas próprias necessidades internas para que estas não interfiram diretamente na comunicação e na relação com as crianças. Uma das maiores fontes de conflito é esperar que os outros identifiquem e atendam nossas necessidades.

Se olharmos a criança como um ser único, com necessidades próprias e em constante transformação, ficará mais fácil não julgá-la em seus comportamentos. Use o diálogo para criar, conjuntamente, formas de lidar com cada situação. O comportamento da criança, e automaticamente dos adultos, sofrerá alterações positivas pelo simples fato de estabelecer com ela uma conexão, com olhar e escuta frente às necessidades dela.

Não que todas devam ser atendidas pelos pais. O caminho para atender às nossas necessidades é transformá-las em pedidos que o outro pode ou não atender. Mas aqui, estamos focando na necessidade e não nos comportamentos e estratégias usadas para buscá-las. Assim podemos ajudar a criança a construir seus passos para que atinja o que almeja.

Anúncios

Existem diversas formas de dizer “não” para as crianças

Sim é sim; não é não. Em qualquer resposta dada as crianças, o importante é que os limites, assim como as possibilidades, sejam apresentados, assimilados e acomodados por elas. Adultos, precisam assegurar seu posicionamento para que as crianças possam nortear suas atitudes.

Sabemos da importância dos limites a serem oferecidos às crianças na infância. Como diz o pediatra Mário Cordeiro: “Pais permissivos geram crianças que não conhecem os limites e que cultivam o egocentrismo, o narcisismo e a omnipotência (…) Se uma criança se habitua a crescer sem limites não vai saber lidar com a frustração, vai fazer birras, vai sofrer e… “faz sofrer muita gente”.

Inserir limites não é apenas dizer “não” às crianças; é também ofertar possibilidades para que elas possam experimentar e fazer escolhas cada vez mais livres, de forma consciente e responsável. Um ato de aprendizado conjunto entre pais e filhos.

Como ainda estão em formação, crianças testam e questionam as mais diversas situações como forma de validar as regras/limites impostos, assim como o respeito a si e ao outro. Quando o que lhe é colocado revela certa contradição vinda por parte do adulto, as indagações aumentam ainda mais. Dizer “não” quando se quer dizer “sim” ou vice-versa faz com que as crianças sintam-se confusas, inseguras, com dúvidas sobre que caminho seguir e, até mesmo, agressivas, birrentas, podendo transgredir regras e limites inseridos.

Em todo diálogo está embutido sentimentos, valores e lógicas que devem estar alinhados para que as mensagens que estão por detrás do discurso não atrapalhem a comunicação junto à criança. A clareza na informação é essencial para que ela possa compreender e lidar com cada situação que vivencia.

Ao invés de dizer “não faça” ou “não pode” é válido os adultos substituírem essas expressões por outras que dão explicações e justifiquem as restrições e cerceamento. Por exemplo: “Você pode chutar a bola no chão, mas arremessar a bola só pode lá fora.” ; “Você pode chupar sorvete hoje, mas somente após o almoço.”.

 Se a criança quer algo ou se ela está fazendo coisas que são inadequadas ou proibitivas, podemos dizer um “não” com um “sim”, quando oferecemos a ela novas possibilidades. Desta forma, o efeito da comunicação gera empatia; a mensagem e o diálogo são promovidos; o entendimento é maior e menos restritivo, sempre demarcando os contornos necessários.

Quando o “não” for explícito, objetivo e claro ele será bem ouvido. Ao perceber outras oportunidades e possibilidades, assim como, entender os argumentos bem embasados e tiver confiança na relação com o adulto os “nãos” serão incorporados pela criança sem tantos entraves.  Isso só é possível quando o adulto é coerente (inclusive em situações semelhantes na sua própria vida) e cumpre com o que é dito e acordado com a criança.

Toda comunicação é um ato relacional. Através dela transmitimos intenções, sentimentos, necessidades, pensamentos, conceitos próprios e valores, conscientes e também inconscientes.  Ao estabelecermos um diálogo, muitas mensagens são transmitidas e a partir delas a relação vai se construindo, de forma positiva ou negativa para ambas as partes.  No caso das crianças, o que lhes é dito pode transformar e interferir no seu desenvolvimento. Um pai ou uma mãe que diz ao filho: “Você é ruim em matemática, olha sua nota! Não vai mais brincar à tarde! Vai estudar!” ou “Você é desorganizado, seu quarto está sempre uma bagunça”, estão enviando à criança uma mensagem negativa, cheia de rótulos e julgamentos. Ou, quando dizem: “Nós não vamos ao passeio porque não comeu tudo”, estão transmitindo conceitos que podem fazer uma criança se sentir ruim, culpada, e não amada.  Nos exemplos citados acima, o diálogo poderia ser: “É preciso estudar e dedicar-se mais à matemática”; “Precisa aprender a cuidar melhor do seu quarto e das suas coisas”; “Vamos comer bem para que possamos sair para o passeio; ele só acontecerá após a refeição de todos”.

Difícil é filtrar os discursos, principalmente quando estamos envolvidos e carregados de emoção. Os conflitos podem vir facilmente e pais, diante deles, podem acabar cedendo com mais facilidade aos pedidos e imposições das crianças. Os “nãos” vêm cada vez mais fortes e potencializados como forma de defesa para fazer valer o que queremos. Saí surgem as guerras infindáveis entre pais e filhos.  Perde-se o diálogo e se ganha monólogos.

Sem nos darmos conta, uma simples comunicação pode se tornar violenta, reverberando em ambos os lados sentimentos dos mais variados tipos e gerando sensações desconfortáveis que de algum modo interferirão na relação como um todo. Crianças sentem-se punidas sem saber por que e, por outro lado, pais podem ser rígidos demais, ao gritar e se impor de forma dura, sem a situação exigir, quando se sentem confrontados, ameaçados e impotentes.

As mensagens enviadas, principalmente as embutidas “desnecessariamente”, são muitas e cuidar da repercussão delas junto à criança se faz necessário.  Para isso, é fundamental podermos observar, identificar e nomear os sentimentos que são transformados em “nãos” ou em restrições descabidas. Devemos ensinar as crianças a expor e explicitar suas necessidades, desejos e emoções, fazendo perguntas sobre elas antes de encerrarmos um diálogo com “nãos” sem sentido.  E ainda, traduzir junto com a criança seus pedidos. O ganho disso: empatia, confiança e troca afetiva entre pais e filhos!

Do que as crianças gostam

Do que as crianças gostam

Dificuldades na comunicação entre pais e filhos

Tenho uma filha de 4 anos e 9 meses. Desde que ela começou a se comunicar e perceber o mundo a sua volta, meu marido e eu temos tido grande dificuldade de conseguir sua atenção prontamente. Às vezes entendemos que é porque ela está com sua atenção em uma coisa e não ouve mesmo o que falamos;  outras vezes, temos a impressão de que ela não quer ouvir, quer fazer o que quer e pronto. Já tentamos de tudo. Não acreditamos no behaviorismo da Supernanny, mas tentamos dar “advertências”, contar até três, punir tirando a TV ou por no “time-out”, mesmo não acreditando que esse seja o caminho.

Bem recentemente comecei a trabalhar em uma escola de idiomas para crianças que trabalha muito com reforço positivo. Consegui, pela primeira vez, na aula passada, lidar com um aluno que vinha dando problemas com sua atitude. Reforçando suas qualidades, ele parou de ter atitude de bully e finalizou a aula feliz e calmo.

Seria essa a melhor alternativa para com minha filha? Não sei muito a respeito ainda, principalmente quando se trata de nossos filhos e lidamos com eles no dia a dia, 24 horas por dia. A rotina apressada, eventualmente, deixa-nos estressados, levando-nos algumas vezes a perder a paciência e dar-lhe broncas. Apesar de essas situações serem bem esporádicas, tenho receio do impacto dessas broncas nas crianças. Qual o melhor caminho a percorrer?

A questão desta mãe apresenta um aspecto muito importante da relação pais-filhos: a comunicação. Quando o bebê nasce, ele se comunica com o mundo através de gestos e choros. Em contrapartida, o mundo se comunica com ele através de atitudes e palavras.

Embora a comunicação não verbal perpasse todas as relações humanas, quando as crianças começam a falar, as palavras ganham tanta importância que essa forma de comunicação vai sendo pouco observada e esquecida. Como resultado, as mensagens podem se tornar ambíguas e obscuras, encobrindo dificuldades que por ventura possam existir.

Compreender o que o outro comunica não é tarefa fácil, especialmente quando se trata de crianças. A criança, nem sempre tem clareza do que quer, deseja e precisa. Daí a necessidade de os pais estarem ainda mais atentos e conectados à comunicação não verbal de seus filhos – ou de outras crianças, como no exemplo desta professora e seu aluno. A comunicação é uma via de mão dupla. Na medida em que se compreende a necessidade da criança e esta compreende a nossa, as partes envolvidas podem entrar em conexão. Nesse sentido, o que vale não é a técnica utilizada, como o reforço positivo, mas o olhar atento às necessidades de cada envolvido na “conversa”.

Numa conversa entre pais e filhos não basta querer/esperar que a criança nos escute; temos que ouvi-las também. Não basta querer/esperar que elas nos olhem e nos deem atenção; é preciso que compreendamos suas solicitações. Em muitos casos, a questão central não é a criança entender algo, mas sim ser entendida pelo outro.

Comunicar é nomear, é se posicionar e identificar a si e ao outro a quem nos referimos. Quando isso não acontece, a comunicação falha.

Na relação entre pais e filhos, um dos sinalizadores de que a comunicação está falhando é presença contínua de silêncios, broncas, castigos, punições, agressões e outras formas de violência. Parte desse cenário pode ser atribuída ao tempo apressado que pede respostas imediatas. Assim como dizemos que as crianças não sabem esperar, nessas situações exigimos que elas respondam prontamente à nossa fala, pedido e/ou ordem, esquecendo-nos que o tempo e a forma como as crianças se expressam pode ser menos acelerado do que nossa cultura tem requerido.

Quando percebemos que há desconexão na comunicação entre pais e filhos é preciso tentar captar sua origem. Partindo da situação apresentada por esta mãe, levanto algumas hipóteses do que pode estar gerando a atitude da menina em não “ouvir” os pais:

1) Concentração em uma atividade – sem dúvida a idade dos 56 anos é um momento no qual a criança tem sua curiosidade aguçada e, naturalmente, vai ampliando suas explorações ao mundo e descobertas. Com isso, sua atenção e escuta foca-se no que está fazendo e explorando, podendo desviar-se daquilo que não lhe chama a atenção, como a fala dos pais.

2) Dificuldade com a mudança de foco – algumas crianças precisam de um tempo maior para fazer a transição de uma atividade para outra, e da ajuda dos adultos para entender o sentido de cada coisa que lhe é apresentada. Precisam, ainda, ser comunicadas antecipadamente sobre o que vai acontecer com elas e com seu entorno, para que possam digerir com calma o que lhes é solicitado.

3)  Foco em seu mundo interno – voltada para si, a criança nem sempre percebe o que vem de fora, ficando brava e desobedecendo quando é interrompida. Por isso, os pais precisam permitir e respeitar o espaço e a necessidade da criança de voltar-se para si, chamando-lhe aos poucos sua atenção para a realidade externa e seus afazeres.

4) Exigências que ainda, ou naquele instante, é incapaz de responder conforme solicitado – as crianças selecionam sua escuta de acordo com o que é capaz de lidar, adequando-se gradualmente ao que lhe é socialmente exigido.

Em todo comportamento, fala ou ausência dela, faz-se necessário questionar o que a criança está querendo comunicar, assim como é essencial que os pais possam refletir o quanto seus comportamentos, falas ou ausência delas podem estar interferindo na relação e comunicação com seus filhos. Mesmo com a vida apressada e estressante, é possível que pais e filhos se escutem mutuamente? Há um olhar para a criança e percepção de como ela está, o que a interessa e o que ela está vivendo e sentindo? O diálogo é acessível e respeitoso? Existem muitas regras e exigências para com ela, tolhendo suas expressões e manifestações? Em que momentos a criança responde positivamente?

Buscar respostas a essas perguntas permite o esclarecimento dos pensamentos e sentimentos embutidos em cada ação, podendo criar um diálogo revelador que costuma aproximar pais e filhos e diminuir os embates entre eles.

Sentimentos ambivalentes vividos na gravidez

Durante a gestação, a mulher vivencia sensações e sentimentos dos mais variados tipos. Alguns, comuns e conhecidos, são geralmente compartilhados; outros, no entanto, por serem íntimos, estranhos e até mesmo assustadores, acabam sendo silenciados e/ou escondidos.

A gravidez é marcada pela ambivalência de sentimentos e pensamentos que vêm e vão, independente dela ter sido ou não planejada e/ou desejada: aceitação/rejeição, desejo/não desejo, segurança/insegurança, eu/outro, dependência/independência, potência/impotência, ganhos/perdas e por aí vai.

Invariavelmente, as mulheres são rodeadas por sentimentos que as deixam sensibilizadas e, algumas vezes, ensimesmadas, com uma ponta de preocupação misturada com alegria e/ou euforia e tormentas de medos, ansiedades e angústias. Há mulheres que não sentem nada disso, mas, em maior ou menor grau, vivenciam sensações físicas e emocionais intensas. Muitas gestantes sentem enjoos, aumento de peso e de apetite durante o primeiro trimestre e, estrias, dores nas costas, inchaço, cansaço, azia, sono ou dificuldade para dormir, no final da gestação. A avalanche de hormônios, presentes no processo gestacional, mexe não apenas com seu físico, mas também com seu estado de ânimo, deixando algumas mulheres incomodadas e, muitas vezes, irritadas.

Mas, não são somente os hormônios os responsáveis pela “desordem” emocional vivida pela mulher durante a gestação. Fatores psicológicos interferem no processo gestacional e na maneira como cada uma vai lidar com este momento de profundas transformações. Todas estas mudanças provocam sensações de estranhamento, seja pelo natural e belo, seja pelo sentimento de perda, que balança a autoimagem e a identidade da gestante como filha, mulher, irmã, amiga, esposa e profissional.

Sempre há tropeços, dúvidas e conflitos, mais ou menos intensos, dependendo dos fatores intervenientes e particulares de cada uma – a história de vida passada, presente e as preocupações com o futuro.

As inseguranças surgem e podem estar relacionadas a sentimentos pessoais como perdas e  fantasias de morte e abandono. As lembranças e o passado retornam com força. As gestantes revivem e resgatam os aspectos positivos e negativos de sua infância, avaliam o papel exercido (ou não) pela sua mãe e seu pai e, como filhas, buscam modelos de referência para se tornarem mães.

Muitos medos e angústias vividas na gestação são comuns e recorrentes, como por exemplo, aborto, dor ou morte no parto, problemas com a saúde da mãe e má formação do bebê, machucar o feto no ato sexual, entre outros. As futuras mamães se perguntam: Será que vou dar conta do recado e ser boa mãe, saber cuidar do(s) meu filho(s)? E o trabalho, minha carreira, como ficará? Meu corpo voltará a ser o mesmo? Minha sexualidade e libido continuarão existindo? Meu marido ou companheiro compreenderá e aceitará todas estas modificações e continuará sentindo tesão por mim?

Muitos destes sentimentos inquietantes podem se tornar incompatíveis neste momento tão “especial” de uma gestante, que, muitas vezes, se vê obrigada a demonstrar felicidade a todo o momento, mesmo diante dos desconfortos, do desconhecido e da ambivalência. Algumas emudecem, sentem vergonha e vivem “sozinhas” este momento de impasses, sentindo-se incompreendidas e vulneráveis, aumentando ainda mais seus conflitos. Outras explodem, mas não conseguem nomear o que estão vivendo. Na solidão destas experiências se questionam: Deveria estar sentindo tudo isso?  Verdades e mentiras são constantemente questionadas .

Se as gestantes têm um bom médico, um cônjuge ou uma família estruturada que as acompanham e acolhem, as angústias, dúvidas e inquietações amenizam-se momentaneamente. Mas, logo podem surgir as opiniões parciais, julgamentos, comparações, palpites, cobranças e expectativas sobre a grávida, que podem deixá-la ainda mais vulnerável. Os discursos muitas vezes não estão em sintonia. Entre as amigas, irmãs, tias, avós, mães, sogra e cunhadas, que já tiveram ou não a experiência da gestação, muitos dos sentimentos ambivalentes e fantasias vividos por elas podem ser ocultados ou até mesmo rechaçados, acreditando que esta é a melhor forma de proteger a gestante contra estas sensações e sentimentos dúbios e ambivalentes.

Mas, do que estão querendo preservar a gestante? Quanto mais consciência e informação ela tiver, mais fácil será para ela gerir seus sentimentos e sensações, adaptando-se a esse momento tão singular, sem negar as vivências tidas durante a gravidez, sejam elas gratificante ou desconfortáveis e desarmônicas. Sensações e emoções manifestas ou latentes não devem ser relegadas a segundo plano, pois podem gerar estresse e desgaste emocional, que influenciarão na gestação do bebê.

Quanto antes a futura mãe se deparar com a ambivalência, mais preparada ela estará para cuidar de si e do bebê, sendo capaz de reconhecer seus sentimentos sem se sentir ameaçada, tendo, assim, mais condições de enfrentar as adversidades. Vale ressaltar que estar em “êxtase” constante com a gravidez e só vivenciar sentimentos positivos em relação a ela, não garante uma boa gestação e maternagem. Aliás, muitos destes sentimentos gratificantes são reforçados para encobrir os medos e angústias vividos pela grávida.

Em nossa cultura, é comum reforçar a inexistência do desconforto emocional vivido na gravidez, com conceitos e valores pré-existentes e alguns tabus, inclusive religiosos, enfatizando os aspectos positivos que, independente de qualquer dor, é visto como uma benção. Se há algum aspecto negativo, certamente este não é atribuído a esta mulher, sendo colocado para fora dela. Porém, o que estas mães mais querem é alguém que as ouçam e as compreendam, sem julgamentos e preconceitos, sem cobranças e comparações. Afinal, cada gravidez é uma, o momento é único (mesmo que a mulher já tenha vivenciado outra gestação) e, em muitos aspectos, não pode ser julgada de forma genérica.  O apoio familiar e do companheiro, quando presentes, são essenciais diante das necessidades, não somente física, mas emocionais da gestante. Ao homem e à família – que também são impactados com a gravidez – quando participativos, cabe o acolhimento pela nova condição da mulher.

Em alguns casos, recorrer à ajuda psicológica se faz necessário para que esta grávida possa entender melhor o que está acontecendo e elaborar conteúdos emocionais vividos por ela: alguém que a escute e ajude a perceber, nomear e tomar consciência daquilo que está obscuro e impedindo de viver este momento tão singular e especial. Afinal, cada mulher é única em suas experiências na gestação e ao longo da maternidade.

%d blogueiros gostam disto: