Ajudando as crianças a falar e lidar com seus medos

Quem, quando criança, nunca teve medo de fantasma, de escuro, de morrer, de perder alguém querido, de ser abandonado? Quem não sentiu medo de médico, de dentista, de injeção ou de fazer coisas ainda não conhecidas? E medo de palhaço, de animais e outros tantos de uma lista infindável?

Se você não se lembra, certamente alguém do seu convívio na infância deve recordar de algum medo que você teve quando pequeno. Os medos fazem parte do mundo infantil, podendo tornar-se insignificantes e sem sentido com o passar do tempo, ou persistir ao longo da vida adulta. Os medos falam de conflitos e da dificuldade em lidar com questões reais ou imaginárias que nos ameaçam física e emocionalmente, e é isso que os faz ganhar tamanha dimensão.

Desde muito cedo as crianças são desafiadas frente aos medos. No entanto, por não terem maturidade para lidar com eles, elas precisam da ajuda dos adultos para sentirem-se seguras e confiantes para encararem e superarem aquilo que temem.

Quando o medo que a criança sente não nos faz sentido, é comum dizermos que tal medo é “bobo” (como o medo de bichão papão) ou desnecessário (quando o medo é de um cãozinho). Se não embarcamos nas fantasias da criança para ajudá-la a reconhecer o que a assusta, podemos cair num discurso vago e ainda corremos o risco de reagir com ira ou desdém, ignorando que por trás do medo há angústia e sofrimento.

Então, como sair dessa situação de impasse?

O uso de histórias sobre medos são um recurso sempre interessante para ajudar driblá-los. Algumas histórias são abordadas de forma direta e outras de uma forma mais sutil, deixando sua mensagem nas entrelinhas. Ambas são ricas, e não temos como saber de antemão qual pode ser mais atrativa para a criança.

Entre tantas histórias, há uma série escrita por Ruth Rocha e Dora Lorch que pode ajudar a criança a falar, encarar e até mesmo superar seu temor. São livros que abordam medos que representam conteúdos íntimos de uma criança como o abandono (Ninguém gosta de mim?); medos criados em relação a procedimentos nunca experimentados, como ir ao dentista ou já vivenciados com certa ansiedade, como o retorno ao médico (Será que vai doer?); medos que temos e não sabemos –  de fantasmas e bichos que não existem, mas que estão dentro de nós e podemos combatê-los (Fantasma Existe?); e, medos que representam perigos reais da vida e são importantes para nossa proteção, como por exemplo, cair na piscina e se afogar por não saber nadar, atravessar a rua e ser atropelado (Tenho medo mas dou um jeito).

Através das histórias, as crianças percebem que não são as únicas a sentir determinado medo. Elas podem brincar com ele, rir dele, contar e criar outras histórias que o coloque num lugar diferente daquilo que ela vive, e ainda incrementar a “conversa” com outras formas de expressão, como o desenho, a pintura e o teatro.

Logo, precisamos ouvir as crianças em suas “argumentações” – muitas vezes ilógicas – e permitir-lhes que expressem física e verbalmente o que estão vivenciando. Os medos falam de sentimentos que as crianças estão experimentando e devemos conversar a respeito para que possam desmistificar conceitos e fantasias, pontuar, nomear e entender seu significado. Assim, ajudamos as crianças a elaborarem estes medos, que irão paulatinamente – cada qual em seu ritmo – diminuindo sua intensidade e até mesmo desaparecendo.

Expressar os medos é de extrema importância; dizer sobre seus sentimentos é fator de proteção física, emocional e social para que as crianças possam se desenvolver e criar relações seguras que servirão como base para estar no mundo de forma ativa e autoconfiante.

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Segredos de família: vale à pena mantê-los?

Os motivos que levam uma família a manter um segredo, às vezes atravessando gerações, são sempre singulares. No entanto, todo segredo tem em comum a dificuldade de um ou alguns dos membros da família em lidar com o que há de mais íntimo naquilo que não pode ser revelado.

Isso significa que a dificuldade não está na adoção, na fertilização artificial, nas traições, nos abusos de diversas naturezas, nas mortes e abortos, nas opções sexuais ou qualquer outro segredo em si, mas sim nas fragilidades, frustrações e relações de impotência e poder que alimentam e mantêm o segredo vivo – muitas vezes, apagando pouco a pouco alguns ou “tocando fogo” em outros. Explico.

Um segredo de família tem sempre dois pesos, o de quem o sustenta e o de quem não pode conhecê-lo, e muitas medidas, que são as consequências diretas e indiretas daquilo que não pode ser dito.

O que não pode ser dito fica circulando feito um fantasma, “assombrando” um ou vários membros da família através de medos, hiperatividade, falta de concentração, dificuldade de aprendizagem, insônia, embotamento, entre outros. Muitas histórias são distorcidas ou omitidas, levando aqueles que mantêm o segredo na eterna vigilância ansiógena de cerrar a boca e o coração. A perda de confiança e insegurança se instauram. Os que são impedidos de ter o segredo revelado ficam sem conhecer pelo menos uma parte de sua história. Injusto, não?

Manter um segredo pode parecer uma grande injustiça, mas no mundo dos afetos, justiça é aquilo que regula as relações. Esse regulador sempre vai depender dos sentimentos e fantasias envolvidos em cada situação. Um segredo se instala e se perpetua não por uma questão de injustos que desejam guardar algo para si, mas pela complexidade de sentimentos contraditórios envolvidos desde sua origem, e pelas fantasias perturbadoras que o sustenta. O portador do segredo sofre, e por isso precisa de ajuda para lidar com a desilusão de uma situação que não se mostrou perfeita. Ele precisa de ajuda, muitas vezes antes daquele que manifesta algum sintoma (em geral a criança).

Uma adoção não se torna segredo quando os pais podem lidar com a desilusão da maternidade biológica. Uma fertilização não se torna segredo quando o luto pela impossibilidade da concepção natural pôde ser suportado. Abusos não se tornam segredos quando existe potência para ir contra eles. Mortes e abortos não se tornam segredos quando é possível compreender os limites da vida. Bastardia, traições e homossexualidade não se tornam segredos quando a existência de desejos e diferenças são aceitas.

Segredos têm uma brutal delicadeza – machucam pela sua força e seu silêncio; cutucam eterna e lentamente. Segredos mantêm regulada a ordem estabelecida na família (mesmo que a ordem tenha um tanto de desordem). Segredos, quando não são aqueles segredinhos temporários que se cochicha no ouvido, são nocivos porque sustentam a ilusão da perfeição. Não somos perfeitos; precisamos saber e aceitar isso – e transmitir essa ideia a nossos filhos.

Existem diversas formas de dizer “não” para as crianças

Sim é sim; não é não. Em qualquer resposta dada as crianças, o importante é que os limites, assim como as possibilidades, sejam apresentados, assimilados e acomodados por elas. Adultos, precisam assegurar seu posicionamento para que as crianças possam nortear suas atitudes.

Sabemos da importância dos limites a serem oferecidos às crianças na infância. Como diz o pediatra Mário Cordeiro: “Pais permissivos geram crianças que não conhecem os limites e que cultivam o egocentrismo, o narcisismo e a omnipotência (…) Se uma criança se habitua a crescer sem limites não vai saber lidar com a frustração, vai fazer birras, vai sofrer e… “faz sofrer muita gente”.

Inserir limites não é apenas dizer “não” às crianças; é também ofertar possibilidades para que elas possam experimentar e fazer escolhas cada vez mais livres, de forma consciente e responsável. Um ato de aprendizado conjunto entre pais e filhos.

Como ainda estão em formação, crianças testam e questionam as mais diversas situações como forma de validar as regras/limites impostos, assim como o respeito a si e ao outro. Quando o que lhe é colocado revela certa contradição vinda por parte do adulto, as indagações aumentam ainda mais. Dizer “não” quando se quer dizer “sim” ou vice-versa faz com que as crianças sintam-se confusas, inseguras, com dúvidas sobre que caminho seguir e, até mesmo, agressivas, birrentas, podendo transgredir regras e limites inseridos.

Em todo diálogo está embutido sentimentos, valores e lógicas que devem estar alinhados para que as mensagens que estão por detrás do discurso não atrapalhem a comunicação junto à criança. A clareza na informação é essencial para que ela possa compreender e lidar com cada situação que vivencia.

Ao invés de dizer “não faça” ou “não pode” é válido os adultos substituírem essas expressões por outras que dão explicações e justifiquem as restrições e cerceamento. Por exemplo: “Você pode chutar a bola no chão, mas arremessar a bola só pode lá fora.” ; “Você pode chupar sorvete hoje, mas somente após o almoço.”.

 Se a criança quer algo ou se ela está fazendo coisas que são inadequadas ou proibitivas, podemos dizer um “não” com um “sim”, quando oferecemos a ela novas possibilidades. Desta forma, o efeito da comunicação gera empatia; a mensagem e o diálogo são promovidos; o entendimento é maior e menos restritivo, sempre demarcando os contornos necessários.

Quando o “não” for explícito, objetivo e claro ele será bem ouvido. Ao perceber outras oportunidades e possibilidades, assim como, entender os argumentos bem embasados e tiver confiança na relação com o adulto os “nãos” serão incorporados pela criança sem tantos entraves.  Isso só é possível quando o adulto é coerente (inclusive em situações semelhantes na sua própria vida) e cumpre com o que é dito e acordado com a criança.

Toda comunicação é um ato relacional. Através dela transmitimos intenções, sentimentos, necessidades, pensamentos, conceitos próprios e valores, conscientes e também inconscientes.  Ao estabelecermos um diálogo, muitas mensagens são transmitidas e a partir delas a relação vai se construindo, de forma positiva ou negativa para ambas as partes.  No caso das crianças, o que lhes é dito pode transformar e interferir no seu desenvolvimento. Um pai ou uma mãe que diz ao filho: “Você é ruim em matemática, olha sua nota! Não vai mais brincar à tarde! Vai estudar!” ou “Você é desorganizado, seu quarto está sempre uma bagunça”, estão enviando à criança uma mensagem negativa, cheia de rótulos e julgamentos. Ou, quando dizem: “Nós não vamos ao passeio porque não comeu tudo”, estão transmitindo conceitos que podem fazer uma criança se sentir ruim, culpada, e não amada.  Nos exemplos citados acima, o diálogo poderia ser: “É preciso estudar e dedicar-se mais à matemática”; “Precisa aprender a cuidar melhor do seu quarto e das suas coisas”; “Vamos comer bem para que possamos sair para o passeio; ele só acontecerá após a refeição de todos”.

Difícil é filtrar os discursos, principalmente quando estamos envolvidos e carregados de emoção. Os conflitos podem vir facilmente e pais, diante deles, podem acabar cedendo com mais facilidade aos pedidos e imposições das crianças. Os “nãos” vêm cada vez mais fortes e potencializados como forma de defesa para fazer valer o que queremos. Saí surgem as guerras infindáveis entre pais e filhos.  Perde-se o diálogo e se ganha monólogos.

Sem nos darmos conta, uma simples comunicação pode se tornar violenta, reverberando em ambos os lados sentimentos dos mais variados tipos e gerando sensações desconfortáveis que de algum modo interferirão na relação como um todo. Crianças sentem-se punidas sem saber por que e, por outro lado, pais podem ser rígidos demais, ao gritar e se impor de forma dura, sem a situação exigir, quando se sentem confrontados, ameaçados e impotentes.

As mensagens enviadas, principalmente as embutidas “desnecessariamente”, são muitas e cuidar da repercussão delas junto à criança se faz necessário.  Para isso, é fundamental podermos observar, identificar e nomear os sentimentos que são transformados em “nãos” ou em restrições descabidas. Devemos ensinar as crianças a expor e explicitar suas necessidades, desejos e emoções, fazendo perguntas sobre elas antes de encerrarmos um diálogo com “nãos” sem sentido.  E ainda, traduzir junto com a criança seus pedidos. O ganho disso: empatia, confiança e troca afetiva entre pais e filhos!

Segredos de crianças

– “Você promete que não vai contar para ninguém?”

– “Prometo por tudo que é mais sagrado.”

É com este diálogo inicial que o livro Segredos, de Ilan Brenman, narra a história de duas amigas, Joana e Manuela. Sem conseguir guardar o segredo da melhor amiga, Joana vai ao banheiro da escola e grita para dentro da privada: “A Manuela gosta do Rafael Ruivo!”. Aliviada, a menina dá descarga e volta à sala de aula. O que ela não esperava era que a privada contasse o segredo toda vez que a descarga era dada. Assim, cada vez que uma criança ia ao banheiro, o segredo era pronunciado.

Foi desta forma que a “paixão” de Manuela foi revelada para toda a escola. O falatório rolou solto e o tal segredo se espalhou. Manuela ficou envergonhada e triste. Mas, para sua surpresa, Rafael Ruivo ficou sabendo e, ao encontrá-la, teve coragem de dizer à menina que também gostava dela.

Um segredo tem sempre dois lados, o de quem conta e o de quem ouve.  Segredos falam de intimidade, cumplicidade e confiança entre pessoas. Ao mesmo tempo diz sobre algo privado, que ainda não podemos ou não queremos compartilhar com quem nos cerca. Muitas vezes, seu conteúdo é difícil de ser dito por nós mesmos, precisando ficar trancado a sete chaves. Seja por vergonha, conteúdo proibitivo, repressor e/ou marcado por dificuldades, medos ou outros motivos que não podem ser revelados e  assumidos, os segredos fazem parte da vida, inclusive das crianças.

Distorcido ou puramente legítimo, quando um segredo é quebrado, as pessoas envolvidas acabam expostas e a confiança entre elas pode ficar abalada. Lidar com esta situação provoca muito desconforto e constrangimento.

No entanto, quando um segredo é revelado, a criança ou adulto podem sair de um aprisionamento emocional, como aconteceu com Manuela e, há de se pensar, Rafael. Lidar com a verdade que há dentro de nós, tomar consciência, nomear e assumir para nós mesmos e para o outro aquilo que é genuinamente nosso revela amadurecimento e segurança emocional.

Então, para quê guardar segredos? Esta é uma pergunta que cada um responde para si, verifica e analisa a importância de um segredo, que sempre é  único e singular para as pessoas e nas relações.

O que sabemos é que desde crianças somos colocados diante de situações que nos testam a todo instante e nos põem a prova diante da amizade, da confiança, do respeito e da cumplicidade.

Segredos / Ilan Brenman; ilustrações de Anuska Allepuz. São Paulo: Editora Moderna, 2014.

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Curiosidade infantil X valores familiares: como fica esta equação?

“Dia desses surpreenderam meu filho (6 anos) com o primo (4 anos) assistindo um vídeo na internet. Ele mesmo escreveu na pesquisa: ‘mulé beijando mulé’. Quando foi surpreendido pelos avós, ficou com medo e começou a chorar. Dizia que tinha sido o primo, o que eu não acredito muito. Sou cristã, e dificilmente assisto algum programa. Minha religião é contra o homossexualismo, porém cada um tem sua vida – não sou homofóbica. Quero educar meu filho nos princípios que fui educada. Quero conversar com ele mas  não quero assustá-lo, nem deixá-lo amedrontado, muito pelo contrário. Quero dar a ele a liberdade de se expressar e confiar em mim. Como falar para que meu filho não se sinta culpado pelo que fez?”

A família sempre deve ajudar a criança em suas questões para que ela possa construir sua própria identidade e valores, através de conversa afetiva e acolhedora.  O diálogo sempre deve existir,  mesmo nos momentos onde há uma desordem ou transgressão dos princípios familiares. Se a criança não tiver em casa espaço para este diálogo ela vai procurá-lo em outros lugares.

Independente de quais são os princípios da família, é fundamental explicar para a criança por que duas mulheres ou dois homens se beijam (ou homem e mulher), antes mesmo de expor seu posicionamento em relação ao homossexualismo. Assim, já saciamos grande parte da curiosidade da criança e vamos dando condições para que ela vá construindo sua própria base de julgamento.

Experimentar, ter curiosidade, questionar faz parte do processo de amadurecimento e desenvolvimento infantil. Romper com alguns paradigmas nos quais a família está pautada não significa ir contra eles ou não aceitá-los. Crianças, muitas vezes, infringem regras, conceitos e valores para explorar, testar, conhecer aquilo que ainda precisa ser desvendado e, muitas vezes, compreender o que os adultos dizem e mostram (ou até mesmo omitem) a elas. Sabe aquele “proibido” ou aquilo que é “errado” e “não pode”, que geralmente instiga a curiosidade das pessoas? Pois é, crianças em meio às descobertas e aprendizados precisam de adultos que as orientem e insiram limites, sem julgá-las, reprimi-las ou condená-las – o que nem sempre é fácil para o adulto, especialmente se sua educação foi regada de julgamento, repressão e condenação.

A partir das indagações e experiências, a criança vai construindo seus próprios pensamentos, absorvendo valores e aprendendo a lidar com seus sentimentos. Assim, é capaz de entender o que é “certo” ou “errado” e moldar seu comportamento sem culpa – causador de grande angústia para a criança, uma vez que traz a sensação de que cometeu deslizes.  A culpa faz com que muitas crianças (e adultos também) acreditem que “são” erradas e não apenas que tiveram uma atitude inadequada ou indesejada. Não raro, acabam colocando em cheque o amor que os adultos sentem por ela, sensação bem desconfortável e nada construtiva para ambos.

Se os valores familiares são firmes e coerentes, a criança pode andar entre tantos outros e até mesmo transgredi-los minimamente para que depois volte a sua base inicial, reafirmando valores que lhe foram passados.

Impedir ou recriminar vontades, curiosidades e pensamentos diferentes do que são aceitos dentro de casa é fechar as portas para o diálogo e o aprendizado; é permitir a mentira ou a omissão; é abandonar a criança num mar de incertezas e indefinições. E, o mais prejudicial nisso tudo é a falta de direcionamento que fica a criança, quando é recriminada e/ou julgada sem uma explicação que a oriente.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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