Curiosidade infantil X valores familiares: como fica esta equação?

“Dia desses surpreenderam meu filho (6 anos) com o primo (4 anos) assistindo um vídeo na internet. Ele mesmo escreveu na pesquisa: ‘mulé beijando mulé’. Quando foi surpreendido pelos avós, ficou com medo e começou a chorar. Dizia que tinha sido o primo, o que eu não acredito muito. Sou cristã, e dificilmente assisto algum programa. Minha religião é contra o homossexualismo, porém cada um tem sua vida – não sou homofóbica. Quero educar meu filho nos princípios que fui educada. Quero conversar com ele mas  não quero assustá-lo, nem deixá-lo amedrontado, muito pelo contrário. Quero dar a ele a liberdade de se expressar e confiar em mim. Como falar para que meu filho não se sinta culpado pelo que fez?”

A família sempre deve ajudar a criança em suas questões para que ela possa construir sua própria identidade e valores, através de conversa afetiva e acolhedora.  O diálogo sempre deve existir,  mesmo nos momentos onde há uma desordem ou transgressão dos princípios familiares. Se a criança não tiver em casa espaço para este diálogo ela vai procurá-lo em outros lugares.

Independente de quais são os princípios da família, é fundamental explicar para a criança por que duas mulheres ou dois homens se beijam (ou homem e mulher), antes mesmo de expor seu posicionamento em relação ao homossexualismo. Assim, já saciamos grande parte da curiosidade da criança e vamos dando condições para que ela vá construindo sua própria base de julgamento.

Experimentar, ter curiosidade, questionar faz parte do processo de amadurecimento e desenvolvimento infantil. Romper com alguns paradigmas nos quais a família está pautada não significa ir contra eles ou não aceitá-los. Crianças, muitas vezes, infringem regras, conceitos e valores para explorar, testar, conhecer aquilo que ainda precisa ser desvendado e, muitas vezes, compreender o que os adultos dizem e mostram (ou até mesmo omitem) a elas. Sabe aquele “proibido” ou aquilo que é “errado” e “não pode”, que geralmente instiga a curiosidade das pessoas? Pois é, crianças em meio às descobertas e aprendizados precisam de adultos que as orientem e insiram limites, sem julgá-las, reprimi-las ou condená-las – o que nem sempre é fácil para o adulto, especialmente se sua educação foi regada de julgamento, repressão e condenação.

A partir das indagações e experiências, a criança vai construindo seus próprios pensamentos, absorvendo valores e aprendendo a lidar com seus sentimentos. Assim, é capaz de entender o que é “certo” ou “errado” e moldar seu comportamento sem culpa – causador de grande angústia para a criança, uma vez que traz a sensação de que cometeu deslizes.  A culpa faz com que muitas crianças (e adultos também) acreditem que “são” erradas e não apenas que tiveram uma atitude inadequada ou indesejada. Não raro, acabam colocando em cheque o amor que os adultos sentem por ela, sensação bem desconfortável e nada construtiva para ambos.

Se os valores familiares são firmes e coerentes, a criança pode andar entre tantos outros e até mesmo transgredi-los minimamente para que depois volte a sua base inicial, reafirmando valores que lhe foram passados.

Impedir ou recriminar vontades, curiosidades e pensamentos diferentes do que são aceitos dentro de casa é fechar as portas para o diálogo e o aprendizado; é permitir a mentira ou a omissão; é abandonar a criança num mar de incertezas e indefinições. E, o mais prejudicial nisso tudo é a falta de direcionamento que fica a criança, quando é recriminada e/ou julgada sem uma explicação que a oriente.

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Abuso sexual: uma guerra de potências e impotências

Quando li Infância de retalhos, no blog Padecendo no Paraíso, encantei-me com a franqueza com que a mulher que o escreveu relata sua história pessoal de abuso sexual sofrido e silenciado por tantos anos – quase a metade de sua infância! Em cada linha, seu rico testemunho apresenta os meandros de uma trama comum e recorrente em diversas famílias, inclusive nas tradicionais, “perfeitinhas” e abastadas, mas que é mantida em segredo, às vezes, por anos a fio.

Como naquele texto, refiro-me aqui aos repetidos abusos sexuais intrafamiliar. Neles, o segredo é mantido porque é muito difícil para uma criança entender algo que é da ordem da angústia, do medo, da incompreensão, do desconforto e, ao mesmo tempo, do prazer – ainda mais quando esses sentimentos envolvem uma pessoa que assume diferentes papéis, como tio querido e abusador. Não importa se criança ou adulto, a manipulação genital, por mais que seja agressiva ou aversiva, é também prazerosa. Além disso, pelo menos num primeiro momento, a fantasia de ser escolhido e, por consequência, ter um lugar preferencial na vida de alguém, contribui para dificultar a denúncia logo que os abusos se iniciam: “Será que vale à pena interromper estes carinhos, brincadeiras ou atenção?”. A dúvida paralisa.

No meio desse paradoxo, algumas crianças tentam contar o que vivenciam, muito mais porque não conseguem compreender o que acontece com elas e seus sentimentos (especialmente as crianças menores), do que por uma questão moral (que surge conforme as crianças crescem e os sentimentos de culpa e vergonha ganham forma). Nebuloso como muitos sonhos, o abuso sexual parece sem sentido, ruim e bom, da ordem do consciente e do inconsciente. Não é por acaso que um bom tanto de crianças tenta relatar aos adultos o abuso sofrido como se tivessem tido um pesadelo.

Denunciar explicitamente um abuso implica em ter que vencer o temor da repreensão. Como muitas crianças têm a fantasia de terem provocado a situação de abuso, preferem o sofrimento do silêncio ao sofrimento de uma suposta retaliação (isso se agrava nas famílias com histórico de pouco diálogo e/ou muita violência).

A trama do abuso sexual não se rompe apenas quando a barreira da denúncia é vencida. Em muitos casos, por mais que a criança consiga denunciar, ela nem sempre encontra “ouvidos de ouvir” (expressão tão bem sacada pela autora citada). A necessidade de manter a estabilidade familiar, pelas mais variadas razões, impede a escuta por parte de muitos adultos. Além do mais, a dinâmica do abuso sexual é marcada por impotências que se camuflam de potências. Quais são as fragilidades do abusador – que no senso comum podem ser chamadas de covardia – que o leva a se lançar nesse jogo em que ele é o todo poderoso, viril e dominador da situação? Quais são as fraquezas ou as ameaças dos “ouvidos que não ouvem”, que, mesmo desconfiando sem desconfiar, ficam numa zona de conforto mantendo a aparência de que tudo vai bem? Qual ser humano não se sente valorizado ao ser escolhido ou receber um olhar especial, ainda mais quando se é tão vulnerável como uma criança?

A questão do abuso sexual é complexa e costuma atravessar gerações. Quantas mães, só conseguem revelar sua história de abuso depois que suas filhas relatam o próprio! Ou, pais (homens e mulheres) abusados que tentam, em seu sofrimento silencioso, preservar os filhos através de atitudes superprotetoras. Diante dessas atitudes, ao invés de ajudá-los a se proteger, cometem outra forma de violência: o “cabresto relacional”, que mantém os filhos sob o controle parental, impedindo-os de fazer suas próprias escolhas.

Se na dinâmica do abuso o que está em questão são potências e impotências, para romper a impotência – transgeracional ou não – que mantêm os ouvidos sem ouvir, os olhos fechados ­e a boca cerrada, é preciso alguém realmente potente. No caso das meninas, muitas vezes essa potência se revela através de um corpo capaz de reproduzir. Nos abusos intrafamiliares, é bastante comum eles cessarem quando a menina entra na adolescência e a gravidez torna-se possível. Nenhum abusador quer correr o risco de uma gravidez, não por ela em si, mas pela revelação de um ato que o despotencializaria. Assim, ele parte para outra “vítima”.

Muitas meninas, contudo, só conseguem fazer a denúncia e/ou serem escutadas neste momento de ruptura. Sem o abusador em cena, as posições de potência e impotência são mais facilmente invertidas, permitindo com que as adolescentes consigam dar um basta – a rebeldia adolescente, nesses momentos, revela uma saúde e potência incríveis.

Quanto aos meninos, vale uma nota, triste. Muitos adolescentes saem desse jogo não pela via da denúncia, mas pela mudança de posição, especialmente quando o abusador era alguém do sexo masculino. Como o modelo de homem potente é o abusador, o adolescente passa a abusar, geralmente crianças próximas a ele, recriando o mesmo ciclo.

A adolescente de Infância de retalhos encontrou potência nela mesma. Ainda criança, tentou proteger sua irmã do grande monstro. Resiliente, saiu do lugar de mera vítima, levantou a cabeça e deu um novo significado e destino à sua história pessoal e familiar. Recomeçou. Construiu uma família e hoje, certamente, escreve uma história sem silêncios e segredos. Uma história em que a potência está nas palavras e não no poder de um corpo mais forte ou de valores intocáveis. Uma história que tem lugar para o zelo, a proteção e não o “cabresto relacional”.

Proteger a criança contra o abuso sexual é ensiná-la sobre os limites entre seu próprio corpo e o corpo de um adulto; é ensiná-la o que cada um pode ou não fazer com esses corpos. Proteger é livrar o filho de qualquer submissão. Mas para isso, é preciso que primeiro nos livremos de certas amarras que mantém uma ordem aparente, como a de família perfeita. Para proteger a criança contra o abuso sexual é preciso, sem dúvida alguma, ter “ouvidos de ouvir” e força para enfrentar, primeiramente, os monstros que nos habitam.

Por que as crianças brigam?

Estava indo tudo bem, crianças brincando juntas, até que uma delas começa a encrencar com a outra. A brincadeira transforma-se em gritos, xingamentos, empurrões, puxões de cabelo, tapas, mordidas e arranhões.

“Mamãe, o fulaninho me bateu!”, “Papai, a fulaninha pegou meu brinquedo e não quer devolver!”, “Pára, você é muito chato!”, “Sai daqui!”, “Te odeio!”.

O que está acontecendo? O que as crianças estão querendo dizer quando brigam? Em meio a um turbilhão de emoções incompreendidas pela criança, o que fazer? Deixar brigar? Interceder?

Aproximadamente até os 6 anos de idade, a criança ainda está aprendendo a controlar seus impulsos; é imatura psíquica e neurologicamente. É egocêntrica e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outro.  Possessiva e enciumada diz constantemente: “É meu! Me dá!” , “Não dou!”,” Não empresto!” Apesar de já ter um vasto vocabulário, sua capacidade de comunicação ainda é restrita, principalmente quando as emoções e pensamentos ambivalentes tomam conta de si.

Quando duas ou mais crianças de idades próximas estão juntas e não conseguem se entender, as brigas acontecem mesmo. Sem colocar em palavras aquilo que sentem e querem, as crianças, intensas em suas ações, podem acabar impondo, fisicamente, um limite rígido diante de situações em que se sentem ameaçadas, invadidas e contrariadas.  Ao se sentirem atacadas, mesmo que esta não seja a intenção do outro, contra-atacam. Sem falar nas variações de humor (reflexo de cansaço, sono e fome) que geram brigas “bobas” e momentâneas.

As crianças estão conhecendo suas emoções e reações, bem como aprendendo a se relacionar e a conviver socialmente. Com as discórdias, elas dizem o que não gostam, o que as incomoda e o que querem ou não. Testam limites a todo instante – os seus e dos outros – buscando entender até onde podem ir. Brigar é uma forma de colocar seu desejo, opinião, ponto de vista. Por isto, não dá para dizer que os brigões são sempre os vilões; muitas vezes, são os que têm mais claro o que querem.

A maioria das brigas entre crianças de idade semelhante ocorrem pela disputa de poder. Já que com os pais é mais difícil competir em função da autoridade que exercem, dão ordens e ditam regras ao irmão, primos ou colegas. Rivalizam como forma de autoafirmação: estão construindo sua subjetividade; querem saber o quanto sua palavra e vontade valem – algo que, em grande maioria, se estende até a adolescência e, para alguns, a vida toda.

As desavenças ocorrem, também, porque as crianças estão aprendendo a dividir: a atenção das pessoas queridas – pais, amigos, avós, professora –  os brinquedos, o espaço em comum. Quando se desentendem, cada qual a sua maneira, estão pedindo respeito e, gradativamente, vão aprendendo a respeitar o próximo e a resolver conflitos. São nestes momentos de desacordos, que as crianças aprendem (se alguém ensina) sobre as diferenças entre as pessoas.  Aprendem que o outro pensa, sente e tem desejos e vontades que, muitas vezes, não condizem com as suas.

Ensinar as crianças a resolverem as divergências de forma civilizada não é tarefa nada fácil. Adultos intervêm e repetem milhares de vezes:  “Não faça isso com seu irmão”, “Não precisa brigar, converse com sua amiguinha”, “Empresta seu brinquedo.”, “Vão brincar juntos.”, “Você não está usando, deixe seu primo brincar”, “O que você fez”, “Peça desculpas.”, “Agora é a vez do seu irmão, depois mamãe te pega no colo.” Para pais, um exercício de paciência; para crianças, um treino constante.

De alguma forma, para o aprendizado da criança, a intervenção, direta ou indireta (após o episódio ou quando não se presencia a cena), se faz necessária. Precisamos lembrar que as crianças (até aproximadamente 7-8 anos de idade), até pela sua imaturidade, falam com o corpo e, neste sentido, as brigas físicas, e mesmo as brincadeiras de mão, são uma forma de expressão e comunicação. Além disso, muitas vezes, utilizam o corpo para testar sua força/poder e, por não terem noção dela, não se dão conta de que o outro pode se machucar e sentir dor – algo que precisa ser ensinado desde que as primeiras brigas começam a acontecer.

Em algumas situações, onde a criança vive apanhando das outras, às vezes é preciso deixá-la brigar para ela aprender a se defender e a colocar limite para si e para o outro. Porém, em casos onde há agressões mais fortes, é importante separar as crianças fisicamente, deixando passar o estresse emocional para, quando mais calmo, sem tantas reações impulsivas e exacerbadas, conversar com as crianças juntas.

Ao falarmos em intervenção, devemos entender que intermediar não é tomar partido de uma das crianças ou brigar com quem brigou.  Intermediar uma briga é ouvir e tentar estabelecer um diálogo (olho no olho, falando baixo e com respeito) que imponha limites e rompa com as situações de rixas e disputas, até que a criança, quando mais velha possa fazer isso por si só, sem ter que partir para o ataque físico.

Diante das brigas entre crianças, o adulto deve manter-se imparcial o máximo possível (quando não se fere regras sociais, de convívio e de segurança física), principalmente onde as desavenças são causadas por questões subjetivas, sem que haja certo e errado, vítima ou culpado. A intervenção vem para mostrar às crianças que serão ouvidas em suas necessidades e razões, sem que necessitem se alterar. Nestes casos, o que vemos frequentemente, é que, passado o atrito, as crianças logo voltam a se entender e continuam brincando e se gostando, querendo estar juntas. Pois como dizem, amor e ódio caminham juntos, e relacionamentos apresentam conflitos e desacordos.

Pais não são juízes que defendem ou acusam as partes. Eles devem avaliar a situação de forma que ambos os lados possam assumir sua responsabilidade pelo ocorrido e, se necessário, fazer um pedido de desculpas (sem humilhações, mas permitindo a criança tomar consciência de suas atitudes).

Diante disso, vale ressaltar que, a infância é alicerce para a vida adulta; os aprendizados adquiridos nesta época moldam as pessoas e as ensinam a se relacionar socialmente, fazendo valer a si e ao outro, sem que precisem sair na pancadaria, gritar e desrespeitar o próximo. Isto, devemos aprender desde muito cedo.

Alguns cuidados importantes no primeiro processo de adaptação da criança na escola

O processo de adaptação na escola é um período de múltiplas integrações: criança-família, criança-escola, família-escola, não se restringindo apenas às crianças que ingressam na vida escolar. As mudanças de escola, de ciclo, de turma, de professores e até mesmo do período de férias para o período de aulas também implicam numa adaptação ou, ao menos, numa readaptação à rotina, espaço e pessoas.

Por mais que haja mudanças para as crianças e famílias que já frequentam o ambiente escolar, a grande transformação ocorre quando a criança vai pela primeira vez para a escola. Pais e filhos saem do conhecido meio familiar para um ambiente com caras e coisas às vezes bastante desconhecidas. De um lado, ganham novas possibilidades de relacionamento e aprendizagem; de outro, se deparam com certa dose de ansiedade, insegurança, incertezas e medos decorrentes da situação inédita.

Algumas crianças lidam muito bem com o que lhes é apresentado, nos primeiros dias ou em todos eles. Outras observam ao seu redor antes de experimentar o que lhes é oferecido, sozinhas ou com o apoio de alguém. Há aquelas que choram, gritam, esperneiam, emudecem, emburram, no meio de todos ou longe do buchicho. Existem crianças que adoecem, tamanho o estresse emocional. Tem as que grudam na mãe ou no pai e parecem que nunca, mas nunca mais, vão se desgrudar.

Do lado dos pais, as vivências também variam muito. Há os que se culpam em deixar o filho na escola para trabalhar; os que sentem alívio porque terão mais tempo para si mesmo ou para outras tarefas; os que experimentam um vazio enorme sem o filho do lado; os que mesmo sabendo que a escola tem uma equipe preparadíssima para cuidar de seu pequeno, morre de medo de não darem conta dele; os que dizem: “larga do meu pé!”; os que choram mais do que criança na hora da despedida, e muitos mais.

Cada pessoa é única e lida de modo muito particular com as mudanças, separações e novidades, de acordo com sua personalidade, maturidade emocional e momento de vida. Por isto, para garantir que a transição do ambiente familiar para o escolar transcorra da melhor maneira possível, é necessário:

1)      Estabelecer uma relação de confiança entre a escola e a família – mesmo que esta relação se estreite ao longo da convivência entre ambas, é fundamental que os pais sintam-se seguros com a escolha da escola, que deve ir de encontro ao que eles esperam do ponto de vista pedagógico, ético e financeiro. Pais inseguros com sua escolha transmitem insegurança para o filho.

2)      Participar a criança sobre seu ingresso na escola. Quando possível, levá-la para conhecer o ambiente escolar antes do início das aulas e deixá-la se envolver com a aquisição dos materiais e uniforme, se houver. Explicar o que vai acontecer é fundamental para que a criança não seja pega de surpresa. No entanto, é importante tomar cuidado com os exageros e expectativas de como se imagina que a adaptação transcorrerá com a criança. Nem sempre ela acontece da forma imaginada.

3)       Cumprir com os combinados e pedidos feitos pela a escola (muitas escolas fazem reuniões de pais antes do início das aulas para explicarem sobre o período de adaptação) – horários, o que a criança pode ou não levar consigo, participação, local e tempo de permanência dos pais. Ao cumprir com os combinados, a criança sente-se segura e começa a entender o funcionamento do ambiente, podendo, com isto, sentir-se pertencendo ao novo meio.

4)      Pai ou mãe acompanhar a criança no processo de adaptação. Salvo situações muito particulares, que devem ser discutidas e acertadas com a escola, a adaptação na escola é tarefa dos pais (de um deles ou ambos, de acordo com o que foi acertado com a escola). Por mais que os pais tenham seus compromissos e a criança seja cuidada por terceiros, o processo de adaptação é um momento em que os responsáveis pelos filhos devem fazer a passagem do ambiente familiar para o escolar.

5)      Reservar na agenda um tempo mais longo do que o estipulado pela escola para o período de adaptação. Nunca sabemos como a criança reagirá. Mesmo iniciando o período de adaptação com desprendimento, a criança pode ter, ao longo do processo, comportamentos mais retraídos, precisando da presença de um dos pais por mais tempo. Isto em geral acontece depois que ela percebe que a escola não é mais um lugar de passeio, mas um lugar onde passará parte do dia longe das pessoas/lugares que está acostumada a conviver.

6)      Evitar mudanças concomitantes com a fase de adaptação na escola: retirada de chupeta, fralda, mamadeira, paninho, troca de babá, residência, pequenas cirurgias, dietas, bem como manter rotina da criança em casa, evitando sobrecarregá-la com outras atividades. A escola, por si só, já é intensa o bastante.

7)      Só faltar às aulas se a criança estiver doente ou por motivos de força maior. Qualquer ruptura pode atrapalhar o processo de adaptação.

8)      Evitar fotos e filmagens, que tiram todos do seu foco – crianças porque são convidadas a olhar para os pais, e pais, que não se desligam das crianças. A adaptação não é momento de festa, mas sim um momento de aprender como será a nova rotina.

9)      Não tecer comparações entre um filho e outro, entre um colega e outro. Cada criança é uma e por isto reage de maneira diferente diante de uma mesma situação.

10)   Se a criança tem irmão mais velho na escola, não lhe dar a responsabilidade de cuidar do mais novo. É importante que cada um tenha seu espaço assegurado, sem um peso que não lhe cabe.  Por isto é importante orientar o irmão mais velho a pedir ajuda para um adulto, caso o mais novo venha lhe solicitar.

11)   Diante de qualquer pedido da criança, fazer a ponte entre ela e o professor ou responsável. Desta forma a criança se vê autorizada pelos pais a fazer o mesmo na sua ausência.

12)   Nunca sair da escola sem se despedir da criança. Diga-lhe para onde vai (sala de pais, trabalho, casa) e em que momento vão se reencontrar (na saída da escola, em casa).

13)   Ao deixar a criança na escola, despedir-se dela, dizendo quando irão se reencontrar (na saída da escola, em casa – neste caso reafirme quem irá busca-la). Se é uma criança de colo, ela deve ser entregue ao professor ou responsável, sem esperar que ele faça o movimento de “tirá-la” do colo em que ela está. Com isto evita-se que a criança sinta que está sendo “tirada” do pai/mãe. Se a criança já anda, ela deve chegar na escola andando e não no colo.

14)   Durante o período de adaptação, se possível, evitar rodízio de carona ou transporte escolar. A saída da escola é um importante momento para observar como a criança está e conversar com o professor. Se isto não for possível, deixar claro para a criança como será feito o transporte e apresentá-la ao responsável pelo transporte antes do início das aulas.

15)   Conversar com a criança como foi o dia na escola, deixando-a falar livremente. Caso não queira falar, não insistir, mas observar se há alguma mudança significativa de comportamento em casa.

O tempo que cada criança leva para se adaptar à escola e à nova rotina varia muito de criança para criança. Por isto, nesta fase cheia de surpresas, além do que foi exposto acima, é muito importante que os pais possam reconhecer seus próprios sentimentos diante da situação que está sendo vivida. Assim, terão muito mais condições de reconhecer e dar suporte aos sentimentos, demandas e dificuldades do filho. Uma adaptação bem feita evita readaptações e é uma porta aberta para o bom desempenho escolar. Boas aulas!

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“A mulher que matou os peixes”, livro de Clarice Lispector

Por Renata Grinfeld*

Entre variados assuntos,  no livro A mulher que matou os peixes, Clarice Lispector aborda o tema da morte e da tristeza de maneira simples e, ao mesmo tempo, significativa.

A construção literária é, em si, encantadora: Clarice é a própria narradora e, em um discurso direto, conversa com as crianças. Nos faz acreditar que ela está ali, presente durante a leitura.

Para começar, termina com qualquer tipo de mistério assumindo logo no início sua culpa na morte dos peixes. Para provar que seu crime não foi intencional, nos conta sua relação com vários animais. Uma das histórias, por exemplo, é a de dois cachorros que eram amigos mas, por ciúme do dono de um deles, acabam brigando. Esta briga leva os dois cachorros à morte. Depois de contar como tudo aconteceu, diz: “Vocês ficaram tristes com essa história? Vou fazer um pedido para vocês: todas as vezes que vocês se sentirem solitários, isto é, sozinhos, procurem uma pessoa para conversar. Escolham uma pessoa grande que seja muito boa para crianças e que entenda que às vezes um menino ou uma menina estão sofrendo…”

Neste trecho, Clarice sugere um acolhimento para esta tristeza e logo parte para outra história, desta vez, mais alegre. Talvez em seu momento mais claro na obra, insere em seu texto sua intenção didática que carrega uma concepção bastante particular sobre os ensinamentos e a infância, ou seja, ensina às crianças uma maneira de lidar com suas tristezas, legitimando esta possibilidade, ou esse espaço de elaboração, para depois mudar de assunto. Ensina, portanto, a lidar com a tristeza, porém sem se fixar nela, apenas autorizando a existência deste sentimento.

Esta presença da narradora, apesar de gerar certo estranhamento inicial, faz com que os leitores sintam-se presentes com suas próprias experiências de vida, como se pudessem contribuir para que esta obra “aconteça”. No caso, perdoar a autora pelo crime cometido faz parte da narrativa, uma vez que sua intenção é se fazer conhecer durante toda a obra para depois acreditar que é perdoada. As crianças passam a conhecê-la e, em sua maioria, a gostar dela. Esta estratégia fascina por sua originalidade, bem como por sua construção em um discurso direto com os leitores.

A mulher que matou os peixes / Clarice Lispector; ilustrações de Flor Opazo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1999.

Faixa etária sugerida: a partir dos 6 anos (leitura pelo adulto) e a partir dos 8 anos (leitura pela criança). Sugestão: não ler o livro inteiro de uma só vez, pode ser cansativo. Por isso sugiro dividir a leitura em partes, que podem ser a cada nova história iniciada pela autora, ou mesmo duas por dia.

 

* Educadora, com formação em Psicologia (USP) e Pedagogia (Instituto Singularidades), especialização no curso “Alfabetização: relações entre ensino e aprendizagem” (ISEVEC), onde realizou a monografia “Uma análise do livro A mulher que matou os peixes de Clarice Lispector”. Trabalhou como professora de 1° ano na Escola Vera Cruz. Atualmente faz mestrado em Psicologia Educacional na Universidade de Buenos Aires e trabalha com formação docente do Projeto Trilhas, no município de São Paulo.

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