Cuidar e zelar pela criança não é privá-la da vida e de seus ensinamentos

Nos dias de hoje, com tanta violência, maldade e insegurança a que estamos expostos, muitos pais e adultos tendem a superproteger as crianças, esquecendo-se que ensiná-las a caminhar pela vida é a melhor forma de ampará-las.

Embora possamos evitar que as crianças vivenciem muitos percalços e agressões, nem sempre estes são controláveis dentro e fora de casa. Como diz Itamar Assumpção, na música Mal Menor, “basta estar vivo pra correr perigo”!

Além dos “perigos” incontroláveis da vida, há outros fatores que contribuem ainda mais para a superproteção dos pais perante a criança. É o caso dos relacionamentos marcados pela dificuldade que alguns pais apresentam em deixar seus filhos crescerem. Uma superproteção que, por mais que seja atribuída ao social, está diretamente relacionada a conteúdos pessoais de cada pai e cada mãe. Um exemplo clássico é colocar na violência urbana uma barreira que impede a criança em circular em determinados grupos ou locais, quando, na realidade, o que existe é um temor pessoal em relação ao mundo exterior. O texto O quanto o medo das crianças é o medo dos pais deixa claro o quanto os pais buscam proteger seus filhos daquilo que eles mesmos têm receio, por exemplo, do bullying, dos abusos domésticos, das separações e perdas em geral, dos desastres naturais e outros tipos de violência, sejam elas físicas ou emocionais.

Pais ansiosos, que tentam dar conta da educação dos filhos, sem errar, buscam sempre seu melhor e desejam poupá-los daquilo que consideram “perigoso”.  São pais que cuidam muito bem de seus filhos, mas que podem impedir o desenvolvimento natural das crianças e, inclusive, de suas capacidades em potência. Pais donos de uma única verdade, que sabem o que é melhor para seus filhos, lutam incessantemente para chegar ao seu próprio objetivo e realizarem seus sonhos, impedindo os filhos de ganharem independência, se tornarem autoconfiantes e perseverantes em busca de sua própria identidade.

O vínculo de dependência – marcado pelo medo e necessidade de controle e/ou poder – que alguns pais têm com os filhos, muitas vezes, justificam um zelo que, quando invade o espaço do indivíduo em desenvolvimento, torna-se prejudicial para ambos.

Mas, quais os impactos que isso pode ter para a criança?

Podem se tornar inseguras, com baixa autoestima, intolerantes a erros e ainda, severos e rudes demais com a vida e pessoas. Sentimentos de fracasso e frustração tornam-se frequentes e, por isso, podem se tornar pessoas de pouca iniciativa diante das dificuldades, acomodadas e irresponsáveis, com medo de enfrentar a vida e seus obstáculos, apresentando inúmeros mecanismos de fuga da realidade. Além disso, podem não lidar bem com os limites e, muitas vezes, por não terem sua própria identidade, e consequentemente valores próprios, tornam-se influenciáveis, deixando de lado suas necessidades, vontades e conquistas.

Estes são alguns comportamentos que se manifestam quando não há o reconhecimento da identidade (mesmo que em formação) e das necessidades da criança, algo que é  essencial para que ela possa se sentir segura de si mesma diante da vida.

Crianças precisam se assegurar que há alguém a quem estão vinculadas e às quais podem confiar;  que seus pais confiam nela e em suas capacidades, principalmente de superação, e; que estes mesmos adultos incentivam sua autonomia, respeitam e aceitam seus erros, diferenças e divergências que podem existir ao longo do caminho.

Assim se caracteriza a interdependência que propicia à criança e aos pais experimentar, testar, errar e, por consequência, permitir à criança se tornar um sujeito autônomo.

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Chupeta, mocinha ou vilã?

O uso da chupeta divide opinião entre pais e especialistas, não apenas no que se refere às questões mecânicas e funcionais, mas também em relação aos aspectos emocionais envolvidos.

Alguns alegam que seu uso é prejudicial, especialmente nos primeiros meses de vida, por atrapalhar o aleitamento materno tanto na pega do bico, quanto na produção de leite – tal pressuposto justifica o protocolo de muitas maternidades de não permitirem seu uso enquanto o recém-nascido está sob seus cuidados. Aos opositores da chupeta, podemos acrescentar aqueles que entendem que a necessidade de sucção é plenamente atendida com as mamadas (o que leva muitos a advogarem pela amamentação por livre demanda), ou, que se esta necessidade não for suprida com a amamentação, poderá ser obtida chupando o próprio punho ou dedo. Vale ressaltar que a sucção é um reflexo natural do recém-nascido, podendo ser observado já na vida intrauterina com os bebês que chupam dedo.

Em contrapartida, temos aqueles que defendem seu uso por: 1) temerem a instalação de um hábito que utiliza parte do corpo, mais difícil de ser erradicado posteriormente; 2) entenderem que o seio materno ou bico da mamadeira não deva ser fonte de prazer desvinculada da alimentação; e, 3) acreditarem que a chupeta assegura certa “tranquilidade” ao bebê e a quem cuida dele.

Seja qual for o ponto de vista que norteia o uso ou não da chupeta, é importante considerar que cada bebê é um ser único, com necessidades específicas e nem sempre congruentes com as necessidades ou possibilidades do adulto cuidador. Assim sendo, alguns bebês podem ter maior ou menor necessidade de seu uso, podendo, inclusive, recusá-la sem buscar um substituto.

Já nas primeiras mamadas, o bebê descobre que a sucção, além de fonte de alimento, é também fonte de prazer e, por consequência, de relaxamento e bem estar. Conforme vai explorando o mundo que o cerca, incluindo seu próprio corpo, percebe que pode obter sensação semelhante à obtida durante a amamentação; por isso ele leva à boca, o dedo, o punho, um pedaço de pano e, mais tarde, outros objetos e brinquedos, de forma mais ou menos intensa. Ele quer repetir as experiências prazerosas e confortantes (atenção, carinho, acolhimento, segurança) que ele teve com as mamadas. A chupeta, neste sentido, pode ser um recurso interessante.

No entanto, a equação do seu uso não traz um resultado exato, como revelam os dois significados que a palavra chupeta tem na língua inglesa: pacifier = pacificador, acalmador e dummy = mudo, calado. Sua função tranquilizadora não pode ser silenciadora.

Entender o que um bebê quer dizer não é tarefa fácil, especialmente nos primeiros meses de vida, quando mãe, pai, cuidadores e bebê estão se conhecendo. Por isso, ao mesmo tempo em que a chupeta pode minimizar a angústia presente na situação (seja ela do bebê ou do adulto), ela pode tamponar a tentativa de comunicação do bebê com o ambiente. Quem precisa de conforto quando bebê chora, dorme ou está sozinho?

Oferecer a chupeta para o bebê dormir antes mesmo que ele apresente qualquer dificuldade para adormecer é não acreditar em sua capacidade de adormecer sozinho (esbarramos aqui na ideia do bebê como um ser completamente dependente, sem nenhuma competência e autonomia); de certa forma, esta atitude também minimiza a culpa por “deixar” o bebê – no berço, no carrinho, nos espaços de brincadeira. No imaginário de muita gente, a chupeta serve de companhia permanente ao bebê. Não é por acaso que muitos pais optam pelo uso de um prendedor na roupa, nada recomendável do ponto de vista da higiene (pela contaminação por sua constante exposição), da segurança física (representa risco de enforcamento) e da saúde emocional, já que designa o bebê à condição de incapaz de ficar só – o que é muito diferente de abandonar ou negligenciar cuidados.

Dar a chupeta para o bebê que chora pode ser apenas paliativo, na medida em que oferece algum conforto, às vezes, pelo simples fato da presença de alguém lhe dando atenção, mesmo que através de um objeto. Então, cabe-nos a pergunta: Será que a chupeta não poderia ser substituída por uma palavra, um carinho, um colo?

Antes de apresentar a chupeta ao bebê é importante perceber quem é que precisa dela, evitando, assim, a instalação de um hábito desnecessário e suas consequências.  O ideal é assegurar um tempo de observação do bebê para ver se sua necessidade de sucção é suprida com a amamentação, se os gestos e palavras do cuidador dão conta de garantir-lhe conforto e segurança, e se chupar o punho ou o dedo é um comportamento corriqueiro.

A chupeta pode cumprir um importante papel para o bebê, desde que seu uso seja pensado e ponderado.

Manter o bebê com a chupeta na boca ou automatizar sua oferta, revela a crença – equivocada – de que bebês não se comunicam, suas manifestações têm sempre o mesmo sentido, não podem ser frustrados e são “manhosos”.  Também, denuncia o quanto é difícil suportar choros, birras, irritações e a sensação de não saber o que fazer em algumas situações.

O uso indiscriminado e prolongado da chupeta tem como consequência riscos que vão além das questões funcionais da boca e/ou da dificuldade posterior de eliminar um hábito; ele reforça e marca as relações do bebê com o mundo, em especial no que tange sua comunicação e autonomia.

Tal padrão de relações e comportamento pode se manter ao longo da vida, seja na forma de maior dependência do meio, seja na dificuldade em se expressar. Sem a presença da chupeta, é possível que a criança busque substitutos que tragam certa dose de tranquilidade, conforto e segurança, como chupar o dedo, roer as unhas, ingerir alimentos em excesso, e mesmo bebidas, cigarro, os quais, como a chupeta, continuará encobrindo angústias, ansiedades, medos e fantasias não compreendidas.

Permitir o uso da chupeta não significa que a criança estará sujeita a desenvolver outros hábitos orais. O que leva à manutenção destes hábitos não é a chupeta em si, mas seu uso sem discernimento, seu uso enquanto companhia e/ou silenciador de necessidades. Portanto, a chupeta, do ponto de vista emocional pode ser um valioso objeto, desde que se possa pensar e considerar que ela tem momento para ser usada e, mais tarde, retirada.

A partir de que idade deve-se começar a colocar limite nas crianças?

Muito se fala sobre colocar limite para as crianças, mas o que é isto? Qual o significado prático desta palavra tão pequena que tem poder e valor tão grandes?

Limite é aquilo que demarca, separa e finda territórios, sejam eles físicos ou psíquicos. Embora ambos sejam vitais para todos os seres humanos, a delimitação física é quase sempre percebida e posta em prática com mais clareza do que a delimitação psíquica. Isto porque os limites no campo físico são mais objetivos e evidentes do que aqueles que vão sendo desenhados em nível psíquico.

Não é difícil reconhecer o motivo do limite quando dizemos “não ponha o dedo na tomada, dá choque” ou “não atravesse a rua sem dar a mão para um adulto, um carro pode não te ver”. O limite está claro e preza, acima de tudo, a integridade física da criança. Portanto, é uma forma de cuidado, proteção e alerta diante dos perigos e riscos existentes. Quando justificados, vão ensinando às crianças sobre o funcionamento das coisas em geral, além de autorizar a exploração do ambiente com riscos nulos ou minimizados. Assim, sabendo o que pode ou não, os incessantes “nãos” perdem força ou sentido, dando à criança a possibilidade de escolhas e, portanto, de se tornar cada dia mais independente.

Ao contrário da ideia de impedimento, os limites físicos demarcam ordem, rotina, disciplina e, inclusive, possibilidades, o que ajuda a criança a se organizar física e emocionalmente. Por isto, desde bebês é importante começar a instalar horários regulares para dormir, tomar banho, alimentar, brincar, ir para a escola, assistir TV, fazer a lição de casa, entre tantas outras atividades.

O limite físico vai muito além de um organizador espaço-temporal, uma vez que ele é a base para a constituição do mundo psíquico, direcionando o comportamento e as emoções manifestadas pelas crianças.  Através das delimitações físicas as crianças vão aprendendo a se conhecer e a se relacionar. A partir das trocas com o ambiente e das experiências vividas nele, elas vão explorando, questionando, experimentando e percebendo que há algo além de si mesma, assinalando, assim, as fronteiras entre si e o outro (mundo e pessoas).

De forma prática, isso é demonstrado quando o adulto delimita o espaço egocêntrico infantil, ou seja, a fase onde a criança está centrada em si mesma, tendo o outro como sua extensão, pronto a responder às suas demandas. Os limites demonstram à criança a realidade – marcada por leis, regras e valores – e a existência de subjetividades, definida por necessidades, vontades e identidades diferenciadas. Isto é percebido pela criança quando, por exemplo: ela solicita colo e o adulto não a pega; ir para a cama dos pais e estes a levam novamente para seu quarto; quando os adultos não compram ou dão à criança tudo que ela quer e solicita, mesmo que ela faça birra ou chore, delimitando estes e outros comportamentos manifestados pela criança. A grande questão envolvida aqui, não está na negativa, mas em atitudes do adulto, que demarcam para a criança o território a ser explorado, seja ele físico ou emocional, de maneira firme e afetuosa; atitudes que representam uma permissão ou autorização dada a ela diante das possibilidades existentes em uma determinada circunstância.

Estes continentes físicos, emocionais e sociais começam a serem traçados desde muito cedo na vida de um ser humano e se entrelaçam constantemente, sendo estabelecidos mesmo que ele não tenha total percepção do que está sendo circunscrito. As crianças passam a respeitar os limites impostos porque entendem sua importância, quando o ambiente lhe proporciona suporte para que ela possa compreender aquilo que está sendo demarcado.  Porém, muitas vezes, as crianças obedecem aos limites por temor à autoridade ou pelo medo da “não aceitação” do adulto. Mas, invariavelmente, ultrapassam e questionam o limite imposto, testando a si (suas capacidades e autonomia) e ao outro. Frente a um limite, as crianças podem se tornar agressivas, autoritárias e/ou birrentas, negando, contestando ou recusando as delimitações, as regras e os riscos existentes. Deve-se entender que a atitude contestadora da criança indica que ela está experimentando se posicionar de forma singular no mundo; porém, demarcá-las é fundamental para que ela não perca a noção da realidade que a cerca.  Diante disso, o adulto, de maneira firme, acolhe a criança, repetindo a atitude modeladora que autoriza ou não determinada ação ou comportamento, até que elas assimilem e passem a respeitá-la.

Estabelecer a forma de intervenção junto à criança é tarefa relacional (entre o adulto e a criança) e varia de acordo com a situação, a capacidade de entendimento da criança e a maneira como o adulto demonstra a presença de um limite.  Rigidez por um lado ou permissividade por outro, onde está o equilíbrio entre o “sim” e o “não”, entre as possibilidades e os limites, quando adultos delimitam o território físico e psíquico da criança?

Adultos que inserem limites com rigidez, de forma negativista ou impositiva, repreendendo e até mesmo sendo punitivos, podem inibir o processo exploratório da criança e baixar sua estima e valor próprio. Por outro lado, adultos permissivos demais, frente à demanda da criança, a deixa mal acostumada e cheia de vontades nada pertinentes, abrindo precedentes e perdendo credibilidade.  Muitas vezes, crianças parecem indisciplinadas, mas o que estão demonstrando é esta falta de continência física e emocional tão necessária para que se organize e se oriente diante das possibilidades oferecidas a ela.

Neste sentido, mais que falar “sim” e “não”, ou “pode” e “não pode”, a atitude coerente e consciente do adulto é relevante para que a criança possa entender e aprender a respeitar os limites estabelecidos, tão essenciais ao seu crescimento e formação de sua identidade.

Quando o crescimento dos filhos esbarra em dificuldades dos pais

Mamãe, qual é / Larga do meu pé (…)            

Quem não conhece a música de Paulo Tati e Zé Tati, Larga do meu pé, do CD Carnaval, não associa este começo da música a uma marchinha de carnaval para crianças, mas a um filho de que está dizendo: Sai chulé, quem gruda é cola! Desgrudar significa poder crescer.

Embora a imagem de crescimento dos filhos esteja muito ligada às girafas-réguas pregadas na parede, ou às calças compridas, que de uma hora para outra viram calças pula-brejo, sabemos que, do ponto de vista físico, os centímetros adquiridos a cada período só tem significado real quando atrelados ao peso da criança, que por sua vez depende de uma série de fatores, como o genético, o nutricional e o fisiológico. Do ponto de vista da saúde emocional, crescimento até pode ser mensurado com números, mas eles revelam menos do que a matemática das habilidades que a criança adquire e é capaz de aplicar na vida.

Crescer significa ter autonomia para fazer, pensar, discernir, decidir, escolher. Crescer, só é possível quando se pode acreditar em um ser, em si próprio ou em alguém: crer+ser. De um lado pais que confiam na sua tarefa, de outro, filhos confiantes em poder seguir adiante.

Bom seria se esta regrinha fosse objetiva e simples assim, com cada um seguindo seu rumo. Infelizmente, nem sempre a vida caminha neste sentido.

Para muitos pais é difícil perceber, e até mesmo aceitar, o crescimento do filho, pelas mais diversas e singulares razões, normalmente relacionadas a seus próprios temores e necessidades. Ao invés de liberar o filho para a vida, muitos pais, em intensidades diferentes, o mantém debaixo da sua asa, como se fosse um pintinho ameaçado por um grande predador. Via de regra, quem se sente ameaçado não é a criança, mas os pais, que vivenciam o crescimento dos filhos como perda. Perda do quê, é a pergunta que não pode ficar sem resposta, mesmo sendo difícil respondê-la.

A criança sempre está sinalizando que está pronta para seguir, mas os pais podem ser um obstáculo. O filho pede para dormir sem a fralda noturna (e tem maturidade para isto), mas porque o pai curte o momento de colocar a fralda em seu “bebezinho”, a família opta pelo não desfraldamento. Os pais trocam a roupa dos filhos que já são capazes de realizar a tarefa, só para ganhar alguns minutos (que podem ser muitos) na rotina diária. O filho anuncia que vai limpar o bumbum sozinho, mas a mãe o impede a fim de evitar que ele se meleque, meleque o banheiro e deixe restos de cocô no bumbum. Pais que dão comida na boca do filho mesmo quando ele já consegue usar garfo e faca. Histórias como estas precisam de outro final.

Quem não quer que o filho cresça, que continue brincando de boneca, de plástico, pano ou outro material. Filho não é brinquedo. Se colocar fralda é uma curtição, está na hora de novas descobertas e invenções. Se a criança despende tempo grande para se vestir, dê a ela mais tempo, nem que isto implique em colocar o despertador mais cedo. Cocô faz meleca sim, mas se a criança não aprende pequena, vai precisar de alguém para limpá-la até quando? Comida na boca para crescer forte e saudável? Tem conceito errado no meio do caminho!

Não há fralda que se tire que não venha acompanhada de escapes. Não há roupa que se coloque sozinho que não venha um dia (ou muitos) do lado contrário ou torta. Não há criança (e às vezes adulto) que não apresente mancha de cocô na cueca ou calcinha, nem que morra de fome se não comer alguma refeição. Isto é fato.

Nestes exemplos, e em muitos outros, a criança mostra que é capaz de dar um passo pra frente, mas é segurada pelos pais, pelo seu desejo, necessidade, medos, pré-conceitos e outros entraves. Como consequência, a criança acaba tendo dois caminhos: o do “grude”, da cabeça baixa que responde ao que os pais permitem mesmo indo na direção contrária ao que a criança é capaz, e; da “rebeldia”, o famoso chega pra lá, que é a via mais saudável, mas nem sempre possível, especialmente em se tratando de crianças pequenas.

Quando a criança sinaliza que tem recursos para seguir adiante, pais precisam dar sinal verde. Se para os pais é difícil reconhecer as capacidades da criança e as suas dificuldades, converse com alguém que possa ajudá-los nesta tarefa (um bom canal são os orientadores da creche ou da escola que conhecem bem a criança). Afinal, não dá para crescer sem aprender. Não dá para aprender se não der para falhar. Não dá para falhar se alguém faz por alguém.

A “descoberta” de que os pais podem um dia não existir

Reúno aqui dois depoimentos de mães que ilustram com muita clareza o temor de morte dos pais, vivido pelas crianças entre os 6-7 anos:

1. (…) “Tenho dois meninos, um com 5 anos e outro com 6 e meio. Eles estavam assistindo tranquilamente ao começo do filme do Nemo, quando o mais velho começou a chorar desesperadamente. Ele veio até onde eu estava com lágrimas escorrendo pelo rosto. Fiquei assustada e perguntei o que era; parecia que algo horrível tinha lhe acontecido. Soluçando, ele disse que não gostava daquele filme porque a mãe do Nemo morre e que ele pensa que eu e o pai podemos morrer. Enquanto ele chorava disse também que às vezes tem pesadelo com a gente [pais] morrendo e ele ficando abandonado (…).

Fiquei pensando se isto é normal nesta idade porque quando eu era pequena eu lembro que eu ficava imaginando quem iria cuidar de mim se os meus pais sofressem algum acidente. Acho que carreguei este medo por bastante tempo, nem sei quanto.

Essa história de ter pesadelo eu não sabia que ele tinha, mas eu vinha desconfiando que isto acontecia porque tem noites que ele acorda e vem todo sonolento procurando por mim ou pelo pai na casa. Sempre pergunto se está tudo bem e ele diz que sim. Ele nunca tinha falado que tinha pesadelos, mas eu achava estranho isto de acordar meio dormindo só pra procurar a gente. Depois que ele nos encontra, volta a dormir numa boa. Ele sempre dormiu bem, a noite inteira, mas de umas semanas pra cá começou a acordar assim.

Também lembrei que outro dia ele saiu correndo, gritando desesperado porque achou que um guardador de carro que corria na mesma direção dele ia pegá-lo. Eu nunca tinha visto uma criança tão desesperada gritando ‘mamãeeeeeeee!’ Será que isto tudo é uma coisa só?” (…)

2. (…) “Minha filha, 7 anos, chora de tempos em tempos dizendo que não quer crescer porque quer ficar na nossa casa para sempre, ficar no quarto dela, com as coisas dela; não quer que nada mude. Acho que isso é um sinal de que ela gosta da vida que ela tem, associado ao monte de mudanças que tivemos nos últimos tempos [mudança de cidade, casa e escola]. Não sei se faço mal, mas eu asseguro-a que, não importa o tamanho que ela tenha ou onde ela esteja, a gente [pais] vai amá-la do jeito que ela for, do tamanho que ela tiver, criança ou adulta, aqui ou na China! Eu cuido muito para não dizer que vamos estar ‘do lado dela fisicamente’ porque ela está na fase que tem sonhos onde eu morro. Fase de medo que as pessoas morram. Eu digo para ela que também tinha muito esse medo e que minha mãe não morreu. Aí ela citou ‘é, mas a mamãe do papai morreu, minha vovó’.”(…)

Todos nós já tivemos a experiência de sonhar com alguma coisa que vivemos durante o dia. Os sonhos, assim como os pesadelos, nos permitem reviver conteúdos diurnos, mas também são uma grande oportunidade de conhecer o que se passa em nosso inconsciente.

Com o início da troca da dentição de leite pela permanente, a criança percebe que, assim como “perde” seus dentes, também pode “perder” seus pais. Esta percepção se dá em nível inconsciente e se revela através dos pesadelos de morte dos pais. Junto dos pesadelos, podemos observar outras situações em que este temor se expressa, como no desejo de não querer crescer, na possibilidade de um sequestro imaginário ou mesmo em situações que se sente abandonada pelos pais (ser esquecida na escola, ser deixada para trás em um passeio).

A vivência simbólica da perda, permitida pelo pesadelo ou por situações que se apresentam no cotidiano da criança, coloca-a diante da falta e da necessidade de ter que se virar sozinha. Se de um lado “perder” é um passaporte para o crescimento, de outro, aparece a angústia frente ao desconhecido, que só é amenizada mediante a segurança de que crescer não é sinônimo apenas de perdas.

Que bom que estas crianças dos exemplos acima puderam falar sobre este temor necessário para seu desenvolvimento emocional, não importa se relatando pesadelos, através de um filme ou de um grito desesperado para que a mãe não desaparecesse. Melhor ainda que estas mães conseguiram dar suporte à angústia dos filhos, escutando o que eles tinham para dizer, validando com suas próprias experiências que toda criança nesta idade teme a morte dos pais.

Ao poder falar sem ser julgada, a criança é acolhida em sua angústia, o temor vai ganhando forma através das palavras e o vínculo de confiança pais-filho é fortificado. Desta maneira, constrói-se a tão necessária segurança que todos nós precisamos para enfrentar a vida sem a presença dos pais. É como se na conversa sobre o temor de morte dos pais, estes estivessem dizendo: “em você estão nascendo novos dentes, fortes, bonitos, capazes de mastigar o que vier pela frente”.  Se os pais ajudam a criança a se sentir confiante e segura, certamente ela terá mais recursos para se virar na ausência, mesmo que em vida, dos pais. A morte, como da mamãe do papai da menina do segundo exemplo, é inevitável; não dá para dizer “Não vou morrer”.

“Sonhar” com a morte dos pais permite a criança reconhecer seu temor ligado ao seu próprio crescimento, independência e diferenciação em relação aos pais e ao mundo. Perceber que é possível “perder” os pais é se perceber como alguém diferente deles, o que é um belo indício que a criança está crescendo bem. Por isto, os terrores noturnos não devem ser motivo para assustar ninguém. Eles são sinal de boa saúde mental.

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