Segredos de família: vale à pena mantê-los?

Os motivos que levam uma família a manter um segredo, às vezes atravessando gerações, são sempre singulares. No entanto, todo segredo tem em comum a dificuldade de um ou alguns dos membros da família em lidar com o que há de mais íntimo naquilo que não pode ser revelado.

Isso significa que a dificuldade não está na adoção, na fertilização artificial, nas traições, nos abusos de diversas naturezas, nas mortes e abortos, nas opções sexuais ou qualquer outro segredo em si, mas sim nas fragilidades, frustrações e relações de impotência e poder que alimentam e mantêm o segredo vivo – muitas vezes, apagando pouco a pouco alguns ou “tocando fogo” em outros. Explico.

Um segredo de família tem sempre dois pesos, o de quem o sustenta e o de quem não pode conhecê-lo, e muitas medidas, que são as consequências diretas e indiretas daquilo que não pode ser dito.

O que não pode ser dito fica circulando feito um fantasma, “assombrando” um ou vários membros da família através de medos, hiperatividade, falta de concentração, dificuldade de aprendizagem, insônia, embotamento, entre outros. Muitas histórias são distorcidas ou omitidas, levando aqueles que mantêm o segredo na eterna vigilância ansiógena de cerrar a boca e o coração. A perda de confiança e insegurança se instauram. Os que são impedidos de ter o segredo revelado ficam sem conhecer pelo menos uma parte de sua história. Injusto, não?

Manter um segredo pode parecer uma grande injustiça, mas no mundo dos afetos, justiça é aquilo que regula as relações. Esse regulador sempre vai depender dos sentimentos e fantasias envolvidos em cada situação. Um segredo se instala e se perpetua não por uma questão de injustos que desejam guardar algo para si, mas pela complexidade de sentimentos contraditórios envolvidos desde sua origem, e pelas fantasias perturbadoras que o sustenta. O portador do segredo sofre, e por isso precisa de ajuda para lidar com a desilusão de uma situação que não se mostrou perfeita. Ele precisa de ajuda, muitas vezes antes daquele que manifesta algum sintoma (em geral a criança).

Uma adoção não se torna segredo quando os pais podem lidar com a desilusão da maternidade biológica. Uma fertilização não se torna segredo quando o luto pela impossibilidade da concepção natural pôde ser suportado. Abusos não se tornam segredos quando existe potência para ir contra eles. Mortes e abortos não se tornam segredos quando é possível compreender os limites da vida. Bastardia, traições e homossexualidade não se tornam segredos quando a existência de desejos e diferenças são aceitas.

Segredos têm uma brutal delicadeza – machucam pela sua força e seu silêncio; cutucam eterna e lentamente. Segredos mantêm regulada a ordem estabelecida na família (mesmo que a ordem tenha um tanto de desordem). Segredos, quando não são aqueles segredinhos temporários que se cochicha no ouvido, são nocivos porque sustentam a ilusão da perfeição. Não somos perfeitos; precisamos saber e aceitar isso – e transmitir essa ideia a nossos filhos.

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Tenho medo que meu filh@ seja gay

Temos recebido nos comentários dos posts que abordam a sexualidade infantil muitos relatos de cenas com criança beijando um amiguinho, ou esfregando, cheirando e/ou manipulando o genital ou ânus de outra criança de mesmo sexo e idade. Estas cenas causam espanto e dúvida a muitos pais, que se perguntam e nos questionam: “Tal situação pode dizer algo sobre a orientação sexual de meu filh@?”; “Meu filh@ pode ser/tornar-se gay?”.

Curiosas por natureza, e em contato com a diversidade, as crianças, por volta dos três anos, começam a querer saber a origem de tudo e os porquês, incluindo as questões de cunho sexual. Além da auto-exploração corporal, que se intensifica nesta fase da vida, é comum as crianças repetirem nas brincadeiras comportamentos adultos e experimentarem a troca de papeis. Como na brincadeira, a fantasia não encontra limites, a representação dos universos masculino e feminino aparece sem obstáculos: dois meninos ou duas meninas podem se beijar e se acariciar; querem ser a mulher/homem na relação, independentemente de seu sexo, e, muitas vezes, desejam se vestir e “ser” como o sexo oposto.

Desde que não estejam vulneráveis e expostas a fatores agressivos, como a coação, as brincadeiras e manifestações sexuais infantis têm caráter exploratório e não revelam a orientação sexual da criança. O que está em jogo para as crianças é a curiosidade e a busca pelo entendimento sobre as diferenças que as pessoas e o mundo lhes apresentam.

No entanto, sabemos que muitas crianças estão apresentando brincadeiras e comportamentos que fogem do aspecto puramente exploratório esperado em cada faixa etária. É preciso ficar atento à exposição precoce a conteúdos sexuais adultos e também à vulnerabilidade sexual infantil, que colocam as crianças diante de experiências que desrespeitam sua imaturidade biológica e psíquica.

Se a curiosidade e a exploração fazem parte do desenvolvimento saudável das crianças, por que alguns pais se incomodam quando se deparam com tais vivências de seus filhos e com a possibilidade de escolha sexual destes? Consideremos alguns aspectos relevantes.

Em uma sociedade que por muitos anos definiu os papeis de homem e mulher, masculino e feminino, de um modo muito rigoroso, a diversidade sexual, ainda é um tabu para muitos, o que leva adultos a negá-la e rejeitá-la.

A diversidade – e portanto as diferenças – aciona nossos pré-conceitos pessoais e sociais, acendendo nosso olhar pejorativo e discriminatório. Em busca de um dito padrão de “normalidade”, e quase sempre incomodados com os julgamentos e retaliações que eles próprios e seus filhos possam vir a sofrer, pais se angustiam com o fato de seus filhos poderem ser “diferentes” daquilo que imaginaram ou do que seu ambiente espera.

É comum pais, na ânsia de formar seus filhos de acordo com seus princípios e valores, esquecerem de colocar seus ideais e expectativas em uma posição que permitam seus filhos construírem sua própria identidade, descoladas das deles. Revela-se, assim, fortemente o desejo dos pais em relação à orientação sexual e aos papéis sociais que serão desempenhados pelos seus filhos no futuro. Diante da possibilidade de algo “dar errado” ou “sair fora daquilo que esperavam e desejavam”, instala-se no adulto o medo e culpa, além de frustração e, em alguns casos, rejeição e sentimento de fracasso. Neste sentido, é preciso que os desejos dos pais em relação aos desejos dos filhos sejam separados e entendidos individualmente para que a criança não seja sufocada em suas possibilidades e escolhas, seja ela qual for.

Pai, mãe e outros adultos de referência são modelos importantes para as crianças, positiva ou negativamente. Meninos se identificam com pai e gostam de outros homens desejando ser igual a eles, mas também se identificam com a mãe e as têm como referência.  Um paradigma existente em toda formação de identidade. A partir de um espelho – feminino e masculino – e das vivências tidas na infância, vão construindo a identidade sexual.

Frente às experiências vividas pelas crianças, muitos adultos têm dificuldade em olhar para a curiosidade e a manifestação sexual infantil sob o ponto de vista da criança. Atravessados pelos estereótipos sociais e carregados pela própria história e educação que receberam, muitos pais se enroscam no discurso e/ou em atitudes que confundem a si próprios e, por consequência, a criança.

Falta de informação, vergonha, culpa e outros sentimentos impedem muitos adultos de tratarem a sexualidade das crianças como algo natural. Na tentativa de querer “corrigir” comportamentos infantis (ao invés de compreendê-los) criam conceitos e regras que impedem a criança de experimentar e descobrir coisas e conceitos sobre a vida e tudo que ela lhe mostra de diferente. Ou ainda, criam rótulos com os quais a criança às vezes tem que carregar por toda vida, sem compreender qual o seu sentido.

Uma coisa sabemos e podemos compartilhar: a definição sexual de um indivíduo se dá pela interação entre fatores biológicos e ambientais bastante diversos e complexos. Por isso, podemos dar como certo que as brincadeiras – sozinhas – não definem a orientação de sexual de um indivíduo. Antes de induzir qualquer significado em determinados comportamentos infantis é preciso entender que através do livre brincar, crianças experimentam, aprendem e matam a curiosidade sobre vários aspectos existentes no mundo que a cerca.

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Qual o limite entre o corpo dos pais e o corpo dos filhos?

Tenho uma filha de 4 anos (quase 5) e sempre tomamos banho juntas. Ela faz algumas perguntas sobre os órgãos sexuais dela e os meus, principalmente comparando-os – pergunta se quando eu era criança tinha o “peitinho” igual ao dela e fala que minha “periquita” é feia com pelos, que eu deveria tirar; pergunta se quando for adulta será “igualzinha” a mim e respondo que ela será parecida, mas não igualzinha. Ela não gosta muito, pois diz que quer ser “igual”, mas explico que ninguém é igual a ninguém de forma tranquila e ela compreende. Ela gosta muito de vir e envolver meus seios com as duas mãos, encostando o rosto e beijando; fala que são “tão fofinhos”, mas vejo como carinho. Ela foi amamentada até os 2 anos completos e quando está aflita sem conseguir dormir, vem para minha cama e coloca a mãozinha nos meus seios por baixo da roupa e daí consegue dormir, como se se sentisse segura.

Nos beijamos de “selinho”, tanto ela comigo quanto com o pai, mas ensinamos que só pode conosco. Algumas vezes vejo que beija as amiguinhas na boca e todas curtem (selinho). Procuro chamar atenção suavemente, dizendo que não se beija as pessoas na boca, só o papai e a mamãe. Ocorre que diversas vezes ela vem me beijar de selinho e tenta beijar virando a boca (como os beijos das princesas nos filmes infantis). Levo na esportiva e faço alguma palhaçada com o beijo dela, brincando que vou morder, ou que tem gosto de chocolate ou de chulé, etc., mas ela me agarra e tenta beijar de qualquer jeito, daí eu digo: filhinha… sério, não faz isso não, não é bonito, só pode selinho.

Pergunta 1: Essa questão dos seios é normal? Não me incomoda, mas me preocupo com o limite disso, até quando é normal deixar.

Pergunta 2: A questão do beijo é normal? (ela só faz isso comigo, não faz com o pai ou amiguinhos). Como devo agir com ela?

Pergunta 3: Até uns 2 anos de idade eu não me incomodava que ela tomasse banho com o pai (ambos nus), até que um dia percebi que a altura dela dava bem na altura do pênis do meu marido, e aí passei a não ficar confortável com isso. Teve um dia que ela falou: “Nossa papai, deixa ver seu rabo” (se referindo ao pênis), ele disse: “Não é rabo, é o piupiu do papai”. Bem, ele não se incomoda e as raras vezes que vai dar banho nela continua ficando nu. Já pedi que parasse diversas vezes, até a pediatra disse que não é legal por conta da curiosidade da idade, mas ele não se importa, diz que se ela toma banho comigo pode tomar com ele também.

Atualmente estamos nos divorciando e me preocupo com os dias que ela passará com o pai, ele nunca fez nada que me fizesse pensar qualquer coisa, mas eu acho estranho o fato dele insistir em tomar banho com ela nu desnecessariamente, mesmo sabendo que me incomoda muito (já brigamos muito por isso). Minha preocupação não é ela ficar nua na frente dele, ela é só um anjinho, mas ele na frente dela, fico muito incomodada, pois nunca vi um homem nu na minha infância. É normal essa insistência dele em ficar nu na frente dela? Devo me preocupar ou deixar pra lá?

Uma menina entre os 45 anos está vivendo o ápice de sua identificação com a mãe, o que a faz querer ter um corpo com formas e volumes. Contudo, essa admiração da filha pela mãe geralmente vem acompanhada, em nível inconsciente, de uma inveja danada da menina por não ter um corpo “igual” ao da mulher que tanto ama. Isso pode resultar em pequenos “ataques”, como achar a genitália adulta feia.

Na situação descrita pela leitora, o “ataque” parece também ter sido a maneira encontrada pela criança para dizer que sua pergunta não foi respondida em sua essência (mesmo ela tendo sido bem respondida pela mãe). Muito provavelmente ela sabe que as pessoas não são iguais, mas quer se assegurar de que um dia será “igualzinha” à mulher adulta. Ser igual, para esta menina, tem sentido diferente do atribuído por sua mãe – sutilezas presentes nas entrelinhas das questões que as crianças nos apresentam!

Ao mesmo tempo em que o corpo materno é admirado e invejado pela filha, ele representa segurança para ela. Neste caso específico, o seio carrega fortemente esta marca. Porém, na medida em que a criança deixa de ser amamentada, é importante que ela desenvolva e encontre outras formas de sentir-se segura, seja porque na ausência materna não poderá contar com o corpo da mãe, seja porque começa a ficar um tanto confuso para os pares desta relação a serviço do que e de quem estão os seios maternos. Cabe a seus adultos de referência ajudá-la a desenvolver e encontrar substitutos a esses seios.

Confusão semelhante parece ocorrer com o “selinho”. Embora algumas famílias optem por permiti-lo entre as pessoas mais próximas e íntimas, vivemos em uma cultura que encara o beijo na boca como um gesto de enamorados. Com isso, o discurso que vem de casa esbarra em reguladores sociais, colocando a criança diante de duplas mensagens, como beijos na boca dos pais serem permitidos, mas a expressão desse carinho – beijo – ser proibida com outras pessoas por quem se sente carinho ou ser “feio”, quando é apresentado de outra forma que não o “selinho”.

Quando falamos em beijo ou em banho não há como não fazer referência à sexualidade, ao prazer e à intimidade. Em se tratando de uma criança com 4-5 anos, impossível não nos referir também à curiosidade, o motor de conexão com o mundo e da aprendizagem. Ela é boa, saudável e necessária, e existirá independente das autorizações ou proibições familiares e sociais. A grande questão é como a criança lida com a ambiguidade dessas autorizações e proibições.

Na situação aqui relatada, não se pode ignorar o fato de os pais estarem se separando. Nas separações não são apenas os corpos que passam a ocupar espaços físicos diferentes, mas é colocada uma lente de aumento em toda experiência relacionada às diferenças de conduta entre o casal parental. Por isso, o melhor a fazer é, primeiramente, a mãe poder reconhecer quais conteúdos pertencem a ela e não à filha (como nunca ter visto um homem nu na infância) e, num segundo momento, poder pensar e acordar com o pai quais serão as condutas que terão com a filha no que se refere às questões ligadas ao corpo.

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Curiosidade infantil X valores familiares: como fica esta equação?

“Dia desses surpreenderam meu filho (6 anos) com o primo (4 anos) assistindo um vídeo na internet. Ele mesmo escreveu na pesquisa: ‘mulé beijando mulé’. Quando foi surpreendido pelos avós, ficou com medo e começou a chorar. Dizia que tinha sido o primo, o que eu não acredito muito. Sou cristã, e dificilmente assisto algum programa. Minha religião é contra o homossexualismo, porém cada um tem sua vida – não sou homofóbica. Quero educar meu filho nos princípios que fui educada. Quero conversar com ele mas  não quero assustá-lo, nem deixá-lo amedrontado, muito pelo contrário. Quero dar a ele a liberdade de se expressar e confiar em mim. Como falar para que meu filho não se sinta culpado pelo que fez?”

A família sempre deve ajudar a criança em suas questões para que ela possa construir sua própria identidade e valores, através de conversa afetiva e acolhedora.  O diálogo sempre deve existir,  mesmo nos momentos onde há uma desordem ou transgressão dos princípios familiares. Se a criança não tiver em casa espaço para este diálogo ela vai procurá-lo em outros lugares.

Independente de quais são os princípios da família, é fundamental explicar para a criança por que duas mulheres ou dois homens se beijam (ou homem e mulher), antes mesmo de expor seu posicionamento em relação ao homossexualismo. Assim, já saciamos grande parte da curiosidade da criança e vamos dando condições para que ela vá construindo sua própria base de julgamento.

Experimentar, ter curiosidade, questionar faz parte do processo de amadurecimento e desenvolvimento infantil. Romper com alguns paradigmas nos quais a família está pautada não significa ir contra eles ou não aceitá-los. Crianças, muitas vezes, infringem regras, conceitos e valores para explorar, testar, conhecer aquilo que ainda precisa ser desvendado e, muitas vezes, compreender o que os adultos dizem e mostram (ou até mesmo omitem) a elas. Sabe aquele “proibido” ou aquilo que é “errado” e “não pode”, que geralmente instiga a curiosidade das pessoas? Pois é, crianças em meio às descobertas e aprendizados precisam de adultos que as orientem e insiram limites, sem julgá-las, reprimi-las ou condená-las – o que nem sempre é fácil para o adulto, especialmente se sua educação foi regada de julgamento, repressão e condenação.

A partir das indagações e experiências, a criança vai construindo seus próprios pensamentos, absorvendo valores e aprendendo a lidar com seus sentimentos. Assim, é capaz de entender o que é “certo” ou “errado” e moldar seu comportamento sem culpa – causador de grande angústia para a criança, uma vez que traz a sensação de que cometeu deslizes.  A culpa faz com que muitas crianças (e adultos também) acreditem que “são” erradas e não apenas que tiveram uma atitude inadequada ou indesejada. Não raro, acabam colocando em cheque o amor que os adultos sentem por ela, sensação bem desconfortável e nada construtiva para ambos.

Se os valores familiares são firmes e coerentes, a criança pode andar entre tantos outros e até mesmo transgredi-los minimamente para que depois volte a sua base inicial, reafirmando valores que lhe foram passados.

Impedir ou recriminar vontades, curiosidades e pensamentos diferentes do que são aceitos dentro de casa é fechar as portas para o diálogo e o aprendizado; é permitir a mentira ou a omissão; é abandonar a criança num mar de incertezas e indefinições. E, o mais prejudicial nisso tudo é a falta de direcionamento que fica a criança, quando é recriminada e/ou julgada sem uma explicação que a oriente.

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Do que as crianças precisam?

Do que as crianças precisam

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