Medos que acometem as crianças

“Sou mãe do Joaquim, que completou 4 anos em julho desse ano. Ele é uma criança de personalidade tranquila e, por outro lado, de muita opinião. Ele sempre demonstrou alguns medos: de barulho, como fogos, liquidificador, furadeira; de brinquedos que tiram sua estabilidade, como o balanço; e também medo do mar.

Eu venho trabalhando com ele todas essas inseguranças; ele já melhorou em algumas e em outras ele ainda apresenta bastante resistência. O que tem me preocupado, é que recentemente ele está com dificuldade em dormir no quarto dele. A rotina dele começa por volta das 7:30; ele vai para a casa da vó, depois para escola a tarde e quando o pego na escola às 18:30, normalmente ele dormia no carro a caminho de casa e só acordava no dia seguinte. Hoje isso já não acontece mais. Quando chego em casa coloco-o na cama dele, vamos dormir e na madrugada ele acorda e vai dormir com a gente. 

Ele começou falando que estava com medo do escuro (comprei uma luzinha para deixar acesa), depois disse que o medo era dos bonecos que ficavam na prateleira (em conjunto escolhemos um lugar e guardamos os bonecos); agora disse que o triciclo que ficava no quarto dele estava virando monstro (fizemos então uma doação para outra criança, porque também ele já não brincava mais) e, por fim, agora está dizendo que tem monstro no quarto. Já não sei mais o que fazer. Aliado a todas essas tentativas comprei algumas literaturas para tentar deixá-lo mais tranquilo. Como vocês acham que devo proceder ou o que estou fazendo errado?”

Os medos surgem de situações diversas, sejam elas reais ou não, revelando desconfortos físicos e/ou emocionais. São como alarmes que disparam diante de vivências temerosas e ajudam a criança na defesa e proteção de sua integridade. Somente quando excessivos podem inibir ou paralisar a criança, uma vez que desencadeia ansiedade intensa.

Bebês e crianças são sensíveis a estímulos fortes (ruídos, flashes e movimentos repentinos, perda do apoio físico e outros) e são impactados por eventos que lhe causam estranheza, sensação de desproteção ou ameaça. A maioria dos medos está associada à instabilidade e à falta de segurança sentida pela criança, principalmente em situações desconhecidas, o que é totalmente esperado quando o mundo está sendo por ela investigado e descoberto.

Diante da percepção de certa fragilidade e vulnerabilidade, crianças manifestam medos: uma das maneiras de comunicar ao adulto que algo não vai bem e solicitar ajuda. A preocupação de que a situação ameaçadora volte a acontecer faz com que a criança se proteja antecipadamente, anunciando e evitando, através do comportamento temeroso, aquilo que lhe apavora.

Em um mundo a ser explorado, o receio do desconhecido e o medo da separação, abandono e/ou ausência das figuras que lhe trazem segurança, confiança e proteção assustam muitas crianças. O temor aparece quando sentem ou preveem o distanciamento dos pais ou cuidadores – medo de se perder do adulto em aglomerações, do escuro e de ficarem sozinhas; receio diante da aproximação de pessoas estranhas, de ir à escola e os pais esquecerem-na, é comum. Aos poucos, conforme a estabilidade retorna, o medo e o desconforto tendem a desaparecer.

A partir dos 3 anos de idade, a imaginação infantil entra em ação. Os medos extravasam o mundo real. Surgem os monstros, bruxas, fantasmas, criados pela própria fantasia e estimulados pelas histórias, desenhos e brinquedos infantis. O medo de ser atacada e aniquilada por estes seres assustadores, e muitas vezes agressivos, avassala o sono de muita criança e pais, tornando o medo do escuro muito maior. Isto acontece porque crianças representam e associam o medo através de figuras e objetos que são “feios”, assustam, devoram e matam. São os bichos-papões que vêm para ameaçar a nossa existência.

Lidar com estes medos que vêm da fantasia deixam muitos pais sem saber o que fazer. No entanto, não existe uma única maneira de proceder diante do medo. Entender os motivos que estão por trás dele é fundamental. É hora dos pais não terem medo de enfrentar o medo! Não fuja ou ignore os medos, nem zombe da criança pelos medos que ela tem.

Adultos devem incentivar a criança a conversar  sobre e com os medos.  Vale propor que a ela desenhe, cante e brinque com eles e tudo que os representa. Existem músicas e livros infantis  que falam do tema e ajudam as crianças a se aproximarem de seus medos e encará-los.

Para aquelas que têm medo do escuro ou dos monstros que ficam em seu quarto, é importante que ela  possa permanecer neste ambiente. Pais podem dormir com a criança até que ela se sinta mais confiante em ficar só com os seus pensamentos e fantasias. Mas, se o medo vem de situações concretas, como o medo de mar ou piscina, propicie momentos em que a criança possa brincar com água, mas, sem forçá-la. Aos poucos, em seu tempo, a criança vai aprendendo a se defender contra as ameaças e angústias e a confiar mais em si diante de situações que a assusta.

O importante é que adultos contenham a criança física e afetivamente, e auxiliem-na sempre que necessitar; um processo contínuo que se constrói através da segurança que lhe oferecemos. Um dia, o medo passa.

Do que seu filho tem medo?

Existem coisas que chamamos de medo, mas é outra coisa.

Existem medos que chamamos de outra coisa, mas é medo.

Existem medos, medinhos e medões.

Às vezes o medo é do desconhecido.

Outras vezes, é o conhecido que causa medo.

Medo é um amontodado de sentimentos inominados. Por isso, cada medo vem acompanhado de angústia que faz gente grande e pequena chorar, gritar, tremer, paralisar, perder o sono, querer colo, um abraço ou apenas a segurança de que nada de mal acontecerá.

Na infância, muitos medos são representados por figuras que devoram, engolem, colocam fim à possibilidade de existir. Por isso os monstros, o lobo mau, os dragões, fantasmas e bichos papões são tão assustadores e aterrorizadores. Eles representam angústias relacionadas à separação e perdas.

O melhor jeito de vencer o medo é brincar com ele, falar sobre ele. Não de uma maneira corretiva ou punitiva, como se o medo fosse uma grande besteira. Para quem sente medo, ele não apenas é real como tem proporções gigantescas!

medo do bicho papão

Para falar dos medos cotidianos, gosto do que a mãe de uma menina com 4 para 5 anos fez com sua filha que acordava todas as noites dizendo que tinha um lobo mau em seu quarto. Na primeira, segunda e terceira vez a mãe respondeu que não havia lobo mau algum e que a menina podia voltar a dormir. A pequena bem que tentava, mas logo voltava até o quarto da mãe para dizer que o lobo continuava amedrontando-a.

Então, a mãe decidiu perguntar onde o lobo estava. A menina apontou para a parede colada a sua cama, e a mãe, no meio da madrugada, deu uma bronca enorme no tal do lobo, dizendo para que ele fosse embora e deixasse sua filha dormir. A menina se tranquilizou e voltou a dormir. Cada vez que o lobo “aparecia” a mãe repetia a mesma fala. Aos poucos, o lobo foi visitando-a cada vez menos, até que ele “desapareceu” da vida da menina.

Este é um exemplo de intervenção bastante simples, que costuma funcionar com as crianças pequenas porque valida seu temor ao mesmo tempo em que acolhe sua angústia.

Em Leiturinhas, encontramos algumas ideias que inspiram diálogos como o dessa mãe com a filha e o lobo. Vale muito a pena conferir!

Bicho papão não é um bicho de sete cabeças se brincarmos com ele!

bicho papinho

Aqui você encontra dicas de livros infantis que falam sobre medos.

Filhos que não dormem sozinhos

“Tenho dois rapazes, um com 6 anos e outro com 12 meses. O mais novo, no meio da noite acorda e choraminga, julgo que com a manha de vir para junto de mim. Com o mais velho as noites sempre correram mais ou menos bem, era preciso adormecer com ele, mas depois dormia só, até há uns meses… não sei se por ciúmes, ou porquê, não quer ir para a cama sozinho, e pior, mal nos tentamos levantar, acorda e não nos deixa ir. Não fica nem meia hora só… eu e o pai já passamos a fase da conversa, da paciência, do desnorteio… Não sei como resolver…. deixá-lo só e a chorar? Dormir com ele? Não sei….”

Não temos respostas prontas, mas tentativas de entender a situação, que vai ficando cada vez mais difícil quando as estratégias que usamos não apresentam o resultado desejado. É importante lembrar que cada criança é uma e que sua dificuldade em dormir, assim como as dificuldades alimentares, as birras e outros comportamentos não muito desejáveis, em geral são uma maneira de a criança comunicar que algo não vai bem ou algumas coisas precisam acontecer de outra forma. O grande desafio é fazer a leitura do que está por trás destes comportamentos.

No que se refere ao sono, precisamos lembrar que, do ponto de vista emocional, a hora de dormir é um momento de separação.  As crianças vão para sua própria cama e lá ficam sozinhas. Aos 12 meses a criança ainda precisa bastante da presença física do cuidador para sentir-se segura. Por isso, quando ela acorda no meio da noite e choraminga , ela assim o faz na intenção de solicitar a presença de alguém.

Muitas vezes basta dizer para a criança que está tudo bem, que ela despertou, mas pode voltar a dormir porque você está por perto. Outras vezes, pode-se deixar um brinquedinho macio ou um paninho, falando que você está, por exemplo, dormindo em seu quarto (é importante dizer para a criança onde você está), mas vai deixar com ela o ursinho que ela tanto gosta para fazer-lhe companhia durante a noite (há pais que optam por deixar um objeto pessoal seu com a criança). Em algumas situações, é preciso pegar a criança no colo, acalmá-la para só depois colocá-la de volta no berço ou cama. Outro recurso que pode ser utilizado nesse momento de transição é o canto. Ao ouvir a voz do cuidador a criança se tranquiliza porque percebe que está acompanhada. É possível, inclusive, ir se distanciando do quarto, ainda cantando.

Assegurar à criança, através de palavras e atitudes, que ela não está sozinha, geralmente a acalma (mesmo que isso leve algum tempo) porque ela vai compreendendo o que está acontecendo. Mas estas palavras precisam ser ao mesmo tempo firmes e calorosas.

Esses recursos acima citados podem ser utilizados tanto para um bebê quanto para uma criança com 6 anos. Sua hipótese de que seu filho mais velho não quer ir para a cama sozinho por ciúme do irmão talvez seja verdadeira.  Você não nos fornece exatamente há quanto tempo isso vem ocorrendo, mas, pela idade do menor, posso inferir que tenha sido no momento em que este ficou mais engraçadinho, interagindo mais com outras pessoas e, consequentemente, despertando maior atenção aos olhos do mais velho (muitas vezes é nesse momento que o mais velho “revela” seu ciúme). Portanto, deixar a criança só e chorando até que ela pegue no sono não a acolhe. Ela continuará sentindo-se desamparada e  insegura (seu sentimento pode ser de que será abandonada, é preteria, ou simplesmente sente-se sozinha). Mesmo que ela adormeça “pelo cansaço” ela não estará sendo ajudada naquilo que precisa, o que não contribui para a construção de sua segurança interna.

Para que a separação na hora de dormir não seja tão sofrida para todos é importante garantir momentos em que os pais estejam juntos de seus filhos, inclusive tendo exclusividade com cada um deles. Crianças precisam da presença física do adulto para construir sua segurança afetiva. Quando, durante o dia, ela não pode usufruir desses momentos, ela acaba usando a noite – em geral momento de mais disponibilidade presencial dos pais – para tê-los consigo. Um dia bem vivido implica numa noite bem dormida.

O que faz a criança precisar de alguém ao seu lado para adormecer?

Em outro texto escrevi sobre os principais motivos que levam a criança a dormir na cama parental, enfatizando que existe diferença entre procurar os pais no meio da noite e se instalar na cama deles. Como discorro lá, a permanência da criança na cama dos pais é por conveniência destes e não por necessidade da criança. Então qual é a necessidade dela? O que a leva a acordar no meio do sono e procurar os pais?

O despertar noturno decorre tanto das alterações corporais, como frio, calor, sede, fome ou dor, quanto das questões de natureza psíquica, como estresse ou pesadelo. Diante destas situações, muitas crianças buscam os pais porque sozinhas ainda não são capazes de lidar com – e até mesmo verbalizar sobre – estes incômodos.

Na tentativa de acolher o pequeno desperto, cada família vai experimentando meios de tranquilizá-lo: pega-o no colo em silêncio para que ele não desperte ainda mais, amamenta-o porque o leite “acalma” (a partir do 6° mês de vida, a alimentação noturna, com raras exceções, já não é necessária), fica junto – dormindo, assistindo TV ou mesmo brincando em plena madrugada – porque a criança “quer companhia”, entre tantos outros.

A criança que tem o sono interrompido e não consegue retomá-lo sem ajuda, assim como aquelas que precisam de alguém ao seu lado para adormecer no sono diurno ou noturno (ou necessitam de rituais que a façam “apagar”, como dormir no carro/carrinho dando volta de quarteirão), precisa do outro para sentir-se segura e protegida. Como dormir é um momento de extrema solidão – psiquicamente ficamos sós, nós com nós mesmos – ficar só pode ser deveras perturbador. É por isto que acolher fisicamente a criança costuma “funcionar”. No entanto, apenas acolhê-la corporalmente (dando colo ou a mão, dormindo junto, ficando no quarto, entre outros) nem sempre é o suficiente para fornecer os recursos necessários para a criança conseguir adormecer e/ou dormir sozinha.

Dormir implica na transição entre estar acompanhado-estar desacompanhado. Portanto, para que o adormecer e o despertar sejam vividos com tranquilidade (garantindo inclusive a saúde emocional de toda a família) é preciso ajudar a criança na transição do estado de vigília para o sono, de estar acompanhada para estar só.

Se, por alguma razão, há falha neste processo (lembrando que falhas acontecem, com maior ou menor frequência e intensidade, além do que cada bebê reage a elas de maneira diferente), o bebê pode sentir-se menos seguro, tendo por isto maior necessidade da presença concreta da mãe.

Em muitos momentos a presença física de alguém se faz necessária nesta passagem. Os bebezinhos, por exemplo, por estarem um tanto “fundidos” com a mãe, precisam da presença física dela (ou substituto) para ter a sensação de continuar existindo. É por isto que a dedicação e a prontidão das mães, traduzindo e atendendo às demandas do bebê, nos primeiros meses de vida é tão importante para que ele possa cada vez mais ir se sentindo seguro e, consequentemente,  suportando o prolongamento do tempo sem a presença materna.

Assim como alguns bebês e crianças nunca adormeceram sozinhos, há bebês e crianças que adormeciam com facilidade e tinham o sono ininterrupto, mas, de uma hora para outra passam a acordar no meio da noite ou recusam dormir sem alguém do seu lado. Em geral estas situações, temporárias ou não, surgem sempre que o bebê ou a criança vivencia a angústia de separação. Todos passam por isto e em diversas fases da vida!

Embora alguns autores chamem estas vivências de crises, denominando-as por crise do primeiro trimestre, crise dos 8 meses, e assim por diante, prefiro não classificá-las, já que as vivências de separação, com maior ou menor intensidade, são experimentadas a vida toda. Mesmo os pesadelos infantis, responsáveis por grande parte dos despertares noturnos, em sua maioria falam de algum temor de separação (ser engolido, sequestrado, perder os pais – por morte ou outra razão, se perder ou morrer, etc.).

Como acontece com os bebezinhos, nestes momentos de “crise” é preciso resgatar a devoção ao bebê ou criança. Mesmo que em alguns momentos seja preciso o contato físico, ele jamais deve substituir palavras de conforto que ajudem a criança a entender seu temor – “Sei que você não queria se separar da mamãe, mas enquanto você dorme, vou fazer tais e tais coisas. Assim você descansa e quando acordar vamos brincar juntos.” Este exemplo, que poderia ser qualquer outro, reconhece o sofrimento da criança, e pontua que a mãe continuará existindo e voltará a cuidar do filho quando ele acordar.

Esta tarefa de estar disponível e nomeando a situação nem sempre é rápida, simples e fácil. Em geral ela se dá no meio da noite, repetidas vezes, prejudicando o sono de toda a família. Exatamente por isto, condutas como levar a criança para a cama dos pais acabam sendo a “melhor” alternativa em muitos lares.  O grande problema é que se criam hábitos difíceis de serem eliminados posteriormente, mesmo que a criança já se sinta mais segura para dormir sozinha. Um exemplo clássico são crianças com 6-8 anos, ou até maiores, que só dormem na cama dos pais ou com a presença de um deles no quarto. Outro risco é reforçar a relação “grudadinha” entre mãe e criança (digo mãe, porque é menos frequente o “grudinho” acontecer com o pai).

Para não ficar colado no corpo, além das palavras, pode ser bem rico encontrar com cada bebê e criança algo que substitua a presença física da mãe – uma luzinha, um bichinho de pelúcia, um paninho, que podem ser fornecidos nos momentos de transição presença-ausência. No entanto, eles só terão validade enquanto substituto materno se, na presença da mãe, ele encontrar a segurança que precisa – ou, a liberdade para também estar só.

Separar pode ser muito doloroso, tanto para os filhos, como para os pais. Mas para crescer é preciso passar por isto!

Chupeta, mocinha ou vilã?

O uso da chupeta divide opinião entre pais e especialistas, não apenas no que se refere às questões mecânicas e funcionais, mas também em relação aos aspectos emocionais envolvidos.

Alguns alegam que seu uso é prejudicial, especialmente nos primeiros meses de vida, por atrapalhar o aleitamento materno tanto na pega do bico, quanto na produção de leite – tal pressuposto justifica o protocolo de muitas maternidades de não permitirem seu uso enquanto o recém-nascido está sob seus cuidados. Aos opositores da chupeta, podemos acrescentar aqueles que entendem que a necessidade de sucção é plenamente atendida com as mamadas (o que leva muitos a advogarem pela amamentação por livre demanda), ou, que se esta necessidade não for suprida com a amamentação, poderá ser obtida chupando o próprio punho ou dedo. Vale ressaltar que a sucção é um reflexo natural do recém-nascido, podendo ser observado já na vida intrauterina com os bebês que chupam dedo.

Em contrapartida, temos aqueles que defendem seu uso por: 1) temerem a instalação de um hábito que utiliza parte do corpo, mais difícil de ser erradicado posteriormente; 2) entenderem que o seio materno ou bico da mamadeira não deva ser fonte de prazer desvinculada da alimentação; e, 3) acreditarem que a chupeta assegura certa “tranquilidade” ao bebê e a quem cuida dele.

Seja qual for o ponto de vista que norteia o uso ou não da chupeta, é importante considerar que cada bebê é um ser único, com necessidades específicas e nem sempre congruentes com as necessidades ou possibilidades do adulto cuidador. Assim sendo, alguns bebês podem ter maior ou menor necessidade de seu uso, podendo, inclusive, recusá-la sem buscar um substituto.

Já nas primeiras mamadas, o bebê descobre que a sucção, além de fonte de alimento, é também fonte de prazer e, por consequência, de relaxamento e bem estar. Conforme vai explorando o mundo que o cerca, incluindo seu próprio corpo, percebe que pode obter sensação semelhante à obtida durante a amamentação; por isso ele leva à boca, o dedo, o punho, um pedaço de pano e, mais tarde, outros objetos e brinquedos, de forma mais ou menos intensa. Ele quer repetir as experiências prazerosas e confortantes (atenção, carinho, acolhimento, segurança) que ele teve com as mamadas. A chupeta, neste sentido, pode ser um recurso interessante.

No entanto, a equação do seu uso não traz um resultado exato, como revelam os dois significados que a palavra chupeta tem na língua inglesa: pacifier = pacificador, acalmador e dummy = mudo, calado. Sua função tranquilizadora não pode ser silenciadora.

Entender o que um bebê quer dizer não é tarefa fácil, especialmente nos primeiros meses de vida, quando mãe, pai, cuidadores e bebê estão se conhecendo. Por isso, ao mesmo tempo em que a chupeta pode minimizar a angústia presente na situação (seja ela do bebê ou do adulto), ela pode tamponar a tentativa de comunicação do bebê com o ambiente. Quem precisa de conforto quando bebê chora, dorme ou está sozinho?

Oferecer a chupeta para o bebê dormir antes mesmo que ele apresente qualquer dificuldade para adormecer é não acreditar em sua capacidade de adormecer sozinho (esbarramos aqui na ideia do bebê como um ser completamente dependente, sem nenhuma competência e autonomia); de certa forma, esta atitude também minimiza a culpa por “deixar” o bebê – no berço, no carrinho, nos espaços de brincadeira. No imaginário de muita gente, a chupeta serve de companhia permanente ao bebê. Não é por acaso que muitos pais optam pelo uso de um prendedor na roupa, nada recomendável do ponto de vista da higiene (pela contaminação por sua constante exposição), da segurança física (representa risco de enforcamento) e da saúde emocional, já que designa o bebê à condição de incapaz de ficar só – o que é muito diferente de abandonar ou negligenciar cuidados.

Dar a chupeta para o bebê que chora pode ser apenas paliativo, na medida em que oferece algum conforto, às vezes, pelo simples fato da presença de alguém lhe dando atenção, mesmo que através de um objeto. Então, cabe-nos a pergunta: Será que a chupeta não poderia ser substituída por uma palavra, um carinho, um colo?

Antes de apresentar a chupeta ao bebê é importante perceber quem é que precisa dela, evitando, assim, a instalação de um hábito desnecessário e suas consequências.  O ideal é assegurar um tempo de observação do bebê para ver se sua necessidade de sucção é suprida com a amamentação, se os gestos e palavras do cuidador dão conta de garantir-lhe conforto e segurança, e se chupar o punho ou o dedo é um comportamento corriqueiro.

A chupeta pode cumprir um importante papel para o bebê, desde que seu uso seja pensado e ponderado.

Manter o bebê com a chupeta na boca ou automatizar sua oferta, revela a crença – equivocada – de que bebês não se comunicam, suas manifestações têm sempre o mesmo sentido, não podem ser frustrados e são “manhosos”.  Também, denuncia o quanto é difícil suportar choros, birras, irritações e a sensação de não saber o que fazer em algumas situações.

O uso indiscriminado e prolongado da chupeta tem como consequência riscos que vão além das questões funcionais da boca e/ou da dificuldade posterior de eliminar um hábito; ele reforça e marca as relações do bebê com o mundo, em especial no que tange sua comunicação e autonomia.

Tal padrão de relações e comportamento pode se manter ao longo da vida, seja na forma de maior dependência do meio, seja na dificuldade em se expressar. Sem a presença da chupeta, é possível que a criança busque substitutos que tragam certa dose de tranquilidade, conforto e segurança, como chupar o dedo, roer as unhas, ingerir alimentos em excesso, e mesmo bebidas, cigarro, os quais, como a chupeta, continuará encobrindo angústias, ansiedades, medos e fantasias não compreendidas.

Permitir o uso da chupeta não significa que a criança estará sujeita a desenvolver outros hábitos orais. O que leva à manutenção destes hábitos não é a chupeta em si, mas seu uso sem discernimento, seu uso enquanto companhia e/ou silenciador de necessidades. Portanto, a chupeta, do ponto de vista emocional pode ser um valioso objeto, desde que se possa pensar e considerar que ela tem momento para ser usada e, mais tarde, retirada.

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