Escola e TV: uma dupla perigosa

Quando li no Estadão Raciocínio em frangalhos, de Lúcia Guimarães, recordei-me da minha experiência em procurar a primeira escola de meu filho. Visitei inúmeras, entre seus nove meses e um ano e meio de idade. Em quase todas havia em comum a presença de TVs nas diversas salas – de aula, de refeição, de descanso.  Eu não conseguia (e ainda não consigo) entender o sentido delas na educação infantil. Em quê elas contribuem para o desenvolvimento da criança?

A criança que vai para a creche ou a escola, em qualquer idade, vai, acima de tudo, para se relacionar com pessoas de fora de seu círculo familiar. Se ela é levada com o intuito de ser “cuidada” é porque alguma das pontas, família ou equipamento de educação infantil, desconsidera que o cuidado pelo cuidado é uma ação robotizada, pobre na tecedura de vínculos, essenciais para o desenvolvimento cerebral dos primeiros anos de vida e, consequentemente, para o desenvolvimento global do ser humano.

Criança precisa de gente para virar gente. Precisa de outras crianças de idade próximas a ela e de adultos que se interessem e se dediquem a ela. É através da interação com pessoas e da livre exploração do ambiente que a criança cria e amplia seus repertórios sensoriais, motores, verbais, cognitivos e sociais. É isso que a possibilita encontrar caminhos mais saudáveis para lidar com as adversidades que a vida irá lhe apresentar.

No exemplo de Lúcia Guimarães, e outros semelhantes que testemunhamos diariamente, a TV e as demais telas têm sido confundidas como dispositivos educativos porque vendem a ideia de que seus programas ensinam, estimulam e permitem a interação.

Por mais que a criança aprenda com o que ela vê e ouve através da tela, ela aprende por imitação passiva e não por investigação ativa. Sua interação acontece dentro de um modelo pré-estabelecido e não pela liberdade de criação. Da mesma forma, a criança se aquieta pela forma estruturada como as cores, sons e movimentos se apresentam nas telas e não pelo uso de seus próprios mecanismos internos de tranquilização ou de recursos que são oferecidos por seus adultos de referência.

Crianças diante das telas não compartilham experiências, nem estabelecem trocas afetivas. Como resultado, essas crianças dificilmente conseguem ser consoladas em suas aflições. Tornam-se irritadiças, agressivas, com baixo grau de tolerância, precisando sempre de um agente externo para se tranquilizar. Comumente, esses agentes acabam sendo objetos não humanos, como o próprio prolongamento do tempo diante das telas e a ingestão de alimentos ou mesmo de remédios.

Se não temos a dimensão do que as telas causam na vida de uma criança pequena, sem querer, distanciamo-la das relações humanas e caímos, junto com ela, na armadilha do consumo de coisas desnecessárias. A criança vai sendo entupida de entorpecedores. Mais tarde, o discurso que impera é que ela só faz determinada coisa com a TV ligada, é viciada na tela, mandona, não se interessa por novidades que lhe são apresentadas, entre outros.

Com as famílias cada vez menores e a vizinhança cada vez mais fechada atrás de suas portas, as creches e escolas acabam sendo lugares extremamente necessários para as crianças experimentarem diferentes formas de se relacionar. Ao colocarem TVs em suas salas, com o objetivo de entreter, compartilhar e ensinar, ela faz exatamente o contrário do que é seu propósito: educar. Mais tarde, não adianta dizer que o aluno é hiperativo, não colabora e não aprende. Criança só desenvolve recursos internos para se tranquilizar, estar junto e aprender quando está verdadeiramente conectada consigo mesma e com adultos que lhe transmitem segurança. Do contrário, ela vai optar pelas telas e outros objetos não humanos para dar conta de suportar a solidão e o vazio de uma vida emocional empobrecida.

* Este texto foi originariamente publicado no blog do  Movimento Infância Livre de Consumismo, em 30/09/2014.

Anúncios

Da curiosidade sobre a sexualidade à aprendizagem

Uma leitora nos escreve nos comentários do texto Sexualidade infantil: algumas questões dos pais em relação às crianças: “Leio com frequência alguns artigos do blog, e acho realmente muito bons. Acho que é extremamente necessário abordar estes assuntos com tanta ignorância e falta de informação, por aí, hoje. Trabalho como auxiliar numa escola de educação infantil, em duas turmas de cinco e seis anos de idade. Às vezes saio da escola chateadíssima e muito preocupada com a forma como reprimem os questionamentos das crianças sobre sexualidade dentro da escola. Eu compreendo que muitos pais desinformados ou despreparados, tenham a sua maneira de falar sobre isso com as crianças, ou não. Entendo que cada família educa o filho dentro de casa de uma forma”.

A repressão aos comportamentos sexuais infantis e à própria curiosidade da criança em relação à sexualidade ainda é muito presente tanto na escola como em casa.  Isso se deve geralmente pela falta de informação sobre o desenvolvimento da sexualidade humana e suas manifestações na infância. Marcados pela educação que receberam, pelos valores, conceitos e tabus arraigados, adultos enfrentam dificuldades em lidar com questões que envolvem a sexualidade infantil. Muitos reprimem, negam, inventam historinhas ou “não respondem” por não conseguirem olhar de forma natural para algumas situações vividas pelas crianças.

E continua a leitora: O meu medo particular é de falar algo ou responder a alguma pergunta de uma criança de maneira contraditória à orientação que ela recebeu ou receberá em casa, causando ainda mais confusão na cabecinha dela. Também pelo fato de a postura das professoras das crianças serem de total repressão a perguntas e comentários relacionados à sexualidade, e mesmo inocentes menções a namoro –  e eu não posso contradizê-las. Já presenciei alguns casos em que crianças manifestaram muita curiosidade em relação à homossexualidade e foram cortadas pela professora com uma negação da possibilidade de meninas beijarem meninas, por exemplo. Outro dia uma mãe contou que a filha perguntou como os bebês nascem e ela, desprevenida e despreparada, disse que a “sementinha” vem de um xixi que o papai faz. Isso me doeu, porque mesmo antes de começar a ter contato próximo com crianças eu compreendo que elas devem ter as perguntas respondidas com clareza e sem rodeios, fantasias, eufemismos e conversa fiada que será desmentida daqui a alguns anos”.

As contradições e incoerências dos adultos (seja na escola ou em casa, entre o próprio casal/pais) acabam respingando e sendo vivenciadas pelas crianças. Lidar com os paradoxos da vida não é nada fácil, principalmente para uma criança que busca uma resposta para o que vê, escuta e presencia. O olhar afetuoso de um adulto frente às inquietações infantis são de extrema importância para a formação da criança, inclusive sexual (pois esta se inicia na infância). Sem esta atenção, os impactos frente à ambiguidade enfrentada surgem e podem causar insegurança, incertezas, quebra de confiabilidade dentre outros sentimentos que marcam a relação da criança consigo própria, com as pessoas que a cercam e o mundo.

Assim, partimos do pressuposto de que toda resposta dada às crianças deve ser verdadeira, sem preconceitos e baseada em dados científicos, sempre de acordo com o que cada faixa etária pode e é capaz de compreender.

Se a postura da escola é divergente da postura da família, é necessário um espaço para o diálogo: conversas, orientações, exemplos, reuniões, rodas de bate papo, entre outras intervenções, são necessárias para esclarecer fatos e alinhar as condutas de todas as partes envolvidas. É função da escola orientar a criança e sua família; para isso, ela deve ter um projeto de orientação sexual coerente, sedimentado e acordado pelas famílias, tendo todo seu corpo docente preparado para sua realização. O que vale na orientação para os pais, deve valer ao educador que lida diretamente com a criança!

E aqui é o ponto central e valioso colocado pela leitora: “Tenho uma preocupação muito grande caso elas façam perguntas diretamente a mim, porque essas e outras situações já deixaram muito claro que a minha opinião e, convenhamos, a forma adequada e orientar crianças, difere muito do método repressivo das professoras e, infelizmente, pelo que vejo, de muitos pais. Não sei o que fazer pelas crianças, sendo apenas a auxiliar. Quer dizer, existe algo que eu possa fazer? Eu acho que essa idade é maravilhosa, em que a criatividade, curiosidade, inteligência, interesses e tendências das crianças estão crescendo e explodindo, e que isso não deve, em hipótese alguma, ser reprimido. Acho que a escola é um ambiente tão perfeito pra que todas elas exponham seus interesses e debatam mesmo tão novinhas, até mesmo entre si, conheçam as opiniões dos outros, as vontades dos outros e acho que isso devia ser feito, sabe? Sem que as professoras deem uma palavra final sobre o tema levantado, mas pra que elas conheçam a si mesmas e conheçam sobre as coisas que lhes interessam. Infelizmente os pais estão muito fechados e ainda querem deixar seus filhos em redomas blindadas pra tudo o que vem de fora, de novo e que pode fugir dos padrões que eles mesmos adotaram pra criança…”

Sem dúvida a escola é um campo extremamente fértil para a criança aprender, conhecer, tirar dúvidas e fazer descobertas. Por isso, todas as perguntas e vivências, inclusive relativas à sexualidade, não devem ser ignoradas. É preciso entender de onde elas veem e o que realmente a criança quer saber/conhecer, para que em seguida se faça a orientação necessária.

A sexualidade é a energia de vida e está presente não apenas no corpo, mas em tudo que nos alimenta e movimenta em direção ao aprendizado cognitivo, afetivo e social. Por isso, quando respondemos as dúvidas das crianças sobre a sexualidade humana estreitamos o vínculo que temos com ela, estabelecemos uma relação de confiança, a autorizamos/incentivamos a continuar perguntando e, portanto, levantando hipóteses e construindo pensamentos. É esse interesse genuíno em querer saber e conhecer, seguido de respostas verdadeiras, que move a criança a outros aprendizados.

Assim, como bem disse nossa leitora, a curiosidade é a chave para o desenvolvimento infantil e a aprendizagem. Além das perguntas suscitadas pela curiosidade e relacionamento com o mundo, o conhecimento e aprendizado vêm através do lúdico, jogos e brincadeiras. Crianças criam, testam e vivenciam conceitos e valores através do brincar, da imaginação, do faz de conta. Com o corpo, elas aprendem sobre si e sobre o outro; aprendem o que é prazer/desprazer, para que possam, em seguida, se relacionar e interagir com as pessoas que a cercam. Crianças, ao explorarem o mundo, perguntam e buscam respostas, seja através da fala ou do brincar. Impedi-las de fazer isso é violar seu desenvolvimento natural e saudável.

__________________________________________________________________________________________

O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

__________________________________________________________________________________________

Um dos perigos das escolas de atividades extracurriculares: ignorar a singularidade das crianças

Sempre que colocamos em pauta qual a melhor escola para nossos filhos, elencamos uma lista de exigências, necessidades e preferências, seja ela uma escola de educação formal ou uma que oferece curso extracurricular. No entanto, entre o discurso e a prática, muitas instituições ficam a desejar porque não conseguem um olhar singular para cada criança que lá está.

A escola tem normas e regras que visam garantir o bom funcionamento do coletivo. Isso é essencial inclusive para as crianças, que aprendem e exercitam a convivência social. Mas, o que é bom para a maioria, pode ser desagradável ou insuportável para a minoria ou mesmo uma só criança, no início de um curso ou no meio dele. Nessas situações, se a escola não é capaz de avaliar e encontrar alternativas para a criança que não se “enquadra” aos padrões escolares, corre-se o risco da criança ser tachada de estranha, mimada, difícil. Em situações extremas, não resta muita alternativa senão buscar uma nova escola.

Observo que situações como estas são bastante frequentes entre as escolas que ministram cursos extraescolares. Especializadas num saber técnico, focam nele e raramente incluem em seu cotidiano canais para conhecer a criança para além do momento da aula, como uma entrevista inicial com os pais para saber um pouquinho sobre cada aluno. Em algumas delas as mudanças (de professor, turma ou data de aula, por exemplo) não são comunicadas às crianças (e mesmo aos pais), como se isto fosse apenas uma questão administrativa e não de relacionamento e respeito ao pequeno aluno. O que está em jogo é a transmissão de um saber especializado.

Nesse modelo de escola não é levado em consideração que para aprender é preciso que a criança seja vista em seu todo e não apenas como aprendiz de uma habilidade. A criança não é um mero ser dentro de uma tabela de conquistas em seu desenvolvimento global. Ela, acima de tudo, carrega uma história, não estática, que não pode ser ignorada. Vejamos duas situações que deixam claro o que exponho aqui.

Uma mãe foi com seu filho de um ano e três meses numa aula de iniciação musical. Quando o filho se interessou pelo instrumento apresentado pela professora (algumas crianças – e adultos – precisam primeiro se familiarizar com o ambiente para depois “se soltar”), esta tirou o instrumento da mão da criança porque o tempo de explorar o instrumento já tinha terminado. Justificou sua atitude dizendo que música exige disciplina. Com um ano e três meses, não permitir que a criança esgote suas explorações diante de um novo objeto é tolher um pré-requisito fundamental da aprendizagem: a capacidade de investigação.

Histórias de filhos de mães gestantes ou com recém-nascido que não se “adaptam” em alguma atividade são inúmeras.  Para algumas escolas de natação, por exemplo, é inconcebível que uma mãe acompanhe ao lado da piscina a aula de um filho que já nada “sozinho”. A justificativa é que aquela mãe atrapalha a aula dos demais, mas ninguém diz para as outras crianças que aquela mãe está lá  porque está difícil para o fulaninho ficar longe dela. As exceções, às vezes, são vitais e se são compreendidas dificilmente se transformam num problema.

Já vi criança desistir de continuar um esporte porque mudou o professor sem que ninguém avisasse, como se a mudança não afetasse ninguém. Aprender implica na presença de afetos positivos entre o mestre e o aprendiz.

Criança sente, tem preferências, facilidades e dificuldades, pontuais ou mais amplas. Por isso, mesmo que em um momento ela esteja bem adaptada e curtindo a atividade, em outro, pode estar mais resistente em estar naquele ambiente, seja por algum acontecimento em sua vida pessoal, seja por mudanças no espaço de ensino. Quando ao professor (representado pelo estabelecimento) não é dada a oportunidade de conhecer a criança para além de mero aluno (pode-se dizer, de uma técnica), o grau de tolerância às diferenças fica muito reduzido. O que é vendido como lúdico pode se transformar em certa tortura.

Se, nas situações de aulas coletivas, os pais não conseguem perceber e falar sobre quem é seu filho, certamente entram no mesmo discurso institucional de que a criança é difícil, birrenta, manhosa. A atividade torna-se obrigação, sofrimento ou impossibilidade (quando não confundida com incapacidade da criança). Por outro lado, se os pais conseguem perceber e falar sobre o que acontece com seu filho, ou mesmo supor o que está acontecendo (nem sempre é possível afirmar) e a escola abre espaço para o diálogo e aceita a singularidade, a criança pode ser apoiada e amparada em sua dificuldade, podendo superá-la mais facilmente. Quando isso acontece, pode-se dizer que houve o tão esperado “encantamento do cliente”. A fidelização acontece porque não há traição com a verdade da criança.

As escolas de atividades extraescolares estão crescendo cada vez mais e oferecendo uma infinidade de cursos. Mas, de nada adianta espaços bacanas, professores bem formados e técnicas de ponta se não levarem em conta a história de seus clientes mirins. Para encantar e fidelizar crianças é preciso considerar suas particularidades, mesmo onde imperam regras, normas e padrões coletivos. Cada criança é única e isso não pode ser esquecido.

Mudar ou não o filho de escola?

Penso em mudar minha filha para uma escola mais bem conceituada e bem mais próxima de casa. Entretanto ela está muito resistente a essa ideia, pois gosta da atual escola e de seus coleguinhas. Ela está com 4 anos e 10 meses.

Antes de comentar a questão desta mãe, considero importante apontar as principais razões que levam à mudança de escola: outras mudanças (cidade, bairro, proximidade da residência ou local de trabalho dos pais), motivos financeiros e incompatibilidade entre o que a família espera e a escola oferece (projeto pedagógico, desempenho escolar e sociabilidade da criança). Quando o que está em jogo é o desinteresse da criança pela escola, notas baixas e dificuldade de aprendizagem e/ou de inserção no coletivo, a mudança de escola só se justifica depois de esgotadas todas as possibilidades junto à escola atual.

Muitas vezes, os pais e a criança imaginam que a mudança física é o melhor caminho para a solução dos entraves.  Porém, vale lembrar que o que é da criança ou da família será carregado com cada um deles, e não deixado para trás (exceto quando a escola não apresenta condições de lidar com os obstáculos emergidos).

Retomando a questão desta mãe, é inegável que estudar perto de casa facilita a vida de todos – sem contar a redução de tempo e custo com transporte – além de permitir, conforme a criança cresce, sua autonomia no ir e vir casa-escola-casa.

Quanto à ideia de “bem conceituada” é preciso destrinchá-la ao máximo. O que significa uma escola bem conceituada? Uma escola que está no topo do ranking do ENEM? Uma escola cujos alunos obtêm ótimos resultados no vestibular? Uma escola que tem fila de espera para ingresso de novos alunos? Uma escola que existe há muitos anos? Uma escola que dispõe de facilidades como atividades extracurriculares e períodos integral ou semi-integral? Uma escola que tem proposta pedagógica alinhada com os valores familiares?

Sabemos que não existe escola perfeita, mas sim escolas que atendem as necessidades dos pais e seus filhos em uma gama de aspectos – educacionais, sociais, financeiros, logísticos, só para citar os mais comuns. Embora seja essencial que a escola tenha um projeto pedagógico que vá de encontro com o que os pais acreditam ser melhor para seus filhos, bem como uma relação de confiança mútua da díade escola-família, isto não é suficiente para se optar por uma escola ou outra. A escola precisa também ir de encontro com as demandas da criança, o que nem sempre é possível saber de antemão quais são – daí a dificuldade da decisão e a necessidade de se apostar, calculadamente, nela.

A melhor maneira de saber se a escola pretendida atende às expectativas e demandas da família e criança é conhecendo-a bem, tirando dúvidas com a coordenação e pais de alunos (visitar a escola em horário de aula e entrada e saída de alunos oferece elementos importantes para reflexão, questionamento e até mesmo tomada de decisão).

Envolver a criança na decisão de mudá-la ou não de escola é sempre delicado, especialmente quando a criança está na Educação Infantil e no Primeiro Ciclo do Ensino Fundamental. Nesta faixa etária, como a criança não tem maturidade suficiente para decidir sobre uma situação que envolve fatores múltiplos e complexos, sua opção será embasada em critérios bastante simples, como querer/não querer, gostar/não gostar, o que é insuficiente para bater o martelo. Se os pais consideram a participação da criança importante neste processo, isto pode ser feito através de conversas que a ajude a falar de seus receios e ideias relativas à mudança.

Uma vez que os pais decidam pela mudança de escola (escrevo pais porque acredito que esta deva ser uma decisão tomada em comum acordo por eles), a criança precisa ser comunicada sobre os motivos da decisão, incluindo as perdas e ganhos nela envolvidos. Entre perdas e ganhos é importante assegurar o que se sabe sobre a nova escola, sem exageros ou invenções; por exemplo, dizer que na outra escola também haverá coleguinhas, mas não muito mais (não sabemos o tempo que a criança precisará para criar novos vínculos), que a outra escola é mais perto de casa, tem mais recursos e outros atributos que contribuíram para sua escolha.

Como não temos como prever qual será a reação da criança, é bom estar preparado para toda sorte de manifestação – ficar brava, calar-se, recusar ir à escola, entre outras, garantindo-lhe espaço para poder expressar e elaborar suas dúvidas, medos, angústias e inseguranças frente à desconhecida situação. Levar a criança para conhecer a nova escola pode ser uma estratégia interessante para diminuir suas fantasias sobre o novo ambiente, já sabendo que não são nulas as chances da criança apresentar resistências em relação a ele. O mais importante é garantir, em todo o processo, um espaço de conversa franca e acolhedora. Se a escola atual tem condições de ajudar neste processo de transição, melhor ainda. Escola e família, juntas, têm sua potência aumentada.

Mudanças sempre acontecem, fazem parte da vida. Quando amparadas, as crianças costumam se adaptar bem a elas, às vezes, surpreendentemente melhor do que os próprios adultos.

Alguns cuidados importantes no primeiro processo de adaptação da criança na escola

O processo de adaptação na escola é um período de múltiplas integrações: criança-família, criança-escola, família-escola, não se restringindo apenas às crianças que ingressam na vida escolar. As mudanças de escola, de ciclo, de turma, de professores e até mesmo do período de férias para o período de aulas também implicam numa adaptação ou, ao menos, numa readaptação à rotina, espaço e pessoas.

Por mais que haja mudanças para as crianças e famílias que já frequentam o ambiente escolar, a grande transformação ocorre quando a criança vai pela primeira vez para a escola. Pais e filhos saem do conhecido meio familiar para um ambiente com caras e coisas às vezes bastante desconhecidas. De um lado, ganham novas possibilidades de relacionamento e aprendizagem; de outro, se deparam com certa dose de ansiedade, insegurança, incertezas e medos decorrentes da situação inédita.

Algumas crianças lidam muito bem com o que lhes é apresentado, nos primeiros dias ou em todos eles. Outras observam ao seu redor antes de experimentar o que lhes é oferecido, sozinhas ou com o apoio de alguém. Há aquelas que choram, gritam, esperneiam, emudecem, emburram, no meio de todos ou longe do buchicho. Existem crianças que adoecem, tamanho o estresse emocional. Tem as que grudam na mãe ou no pai e parecem que nunca, mas nunca mais, vão se desgrudar.

Do lado dos pais, as vivências também variam muito. Há os que se culpam em deixar o filho na escola para trabalhar; os que sentem alívio porque terão mais tempo para si mesmo ou para outras tarefas; os que experimentam um vazio enorme sem o filho do lado; os que mesmo sabendo que a escola tem uma equipe preparadíssima para cuidar de seu pequeno, morre de medo de não darem conta dele; os que dizem: “larga do meu pé!”; os que choram mais do que criança na hora da despedida, e muitos mais.

Cada pessoa é única e lida de modo muito particular com as mudanças, separações e novidades, de acordo com sua personalidade, maturidade emocional e momento de vida. Por isto, para garantir que a transição do ambiente familiar para o escolar transcorra da melhor maneira possível, é necessário:

1)      Estabelecer uma relação de confiança entre a escola e a família – mesmo que esta relação se estreite ao longo da convivência entre ambas, é fundamental que os pais sintam-se seguros com a escolha da escola, que deve ir de encontro ao que eles esperam do ponto de vista pedagógico, ético e financeiro. Pais inseguros com sua escolha transmitem insegurança para o filho.

2)      Participar a criança sobre seu ingresso na escola. Quando possível, levá-la para conhecer o ambiente escolar antes do início das aulas e deixá-la se envolver com a aquisição dos materiais e uniforme, se houver. Explicar o que vai acontecer é fundamental para que a criança não seja pega de surpresa. No entanto, é importante tomar cuidado com os exageros e expectativas de como se imagina que a adaptação transcorrerá com a criança. Nem sempre ela acontece da forma imaginada.

3)       Cumprir com os combinados e pedidos feitos pela a escola (muitas escolas fazem reuniões de pais antes do início das aulas para explicarem sobre o período de adaptação) – horários, o que a criança pode ou não levar consigo, participação, local e tempo de permanência dos pais. Ao cumprir com os combinados, a criança sente-se segura e começa a entender o funcionamento do ambiente, podendo, com isto, sentir-se pertencendo ao novo meio.

4)      Pai ou mãe acompanhar a criança no processo de adaptação. Salvo situações muito particulares, que devem ser discutidas e acertadas com a escola, a adaptação na escola é tarefa dos pais (de um deles ou ambos, de acordo com o que foi acertado com a escola). Por mais que os pais tenham seus compromissos e a criança seja cuidada por terceiros, o processo de adaptação é um momento em que os responsáveis pelos filhos devem fazer a passagem do ambiente familiar para o escolar.

5)      Reservar na agenda um tempo mais longo do que o estipulado pela escola para o período de adaptação. Nunca sabemos como a criança reagirá. Mesmo iniciando o período de adaptação com desprendimento, a criança pode ter, ao longo do processo, comportamentos mais retraídos, precisando da presença de um dos pais por mais tempo. Isto em geral acontece depois que ela percebe que a escola não é mais um lugar de passeio, mas um lugar onde passará parte do dia longe das pessoas/lugares que está acostumada a conviver.

6)      Evitar mudanças concomitantes com a fase de adaptação na escola: retirada de chupeta, fralda, mamadeira, paninho, troca de babá, residência, pequenas cirurgias, dietas, bem como manter rotina da criança em casa, evitando sobrecarregá-la com outras atividades. A escola, por si só, já é intensa o bastante.

7)      Só faltar às aulas se a criança estiver doente ou por motivos de força maior. Qualquer ruptura pode atrapalhar o processo de adaptação.

8)      Evitar fotos e filmagens, que tiram todos do seu foco – crianças porque são convidadas a olhar para os pais, e pais, que não se desligam das crianças. A adaptação não é momento de festa, mas sim um momento de aprender como será a nova rotina.

9)      Não tecer comparações entre um filho e outro, entre um colega e outro. Cada criança é uma e por isto reage de maneira diferente diante de uma mesma situação.

10)   Se a criança tem irmão mais velho na escola, não lhe dar a responsabilidade de cuidar do mais novo. É importante que cada um tenha seu espaço assegurado, sem um peso que não lhe cabe.  Por isto é importante orientar o irmão mais velho a pedir ajuda para um adulto, caso o mais novo venha lhe solicitar.

11)   Diante de qualquer pedido da criança, fazer a ponte entre ela e o professor ou responsável. Desta forma a criança se vê autorizada pelos pais a fazer o mesmo na sua ausência.

12)   Nunca sair da escola sem se despedir da criança. Diga-lhe para onde vai (sala de pais, trabalho, casa) e em que momento vão se reencontrar (na saída da escola, em casa).

13)   Ao deixar a criança na escola, despedir-se dela, dizendo quando irão se reencontrar (na saída da escola, em casa – neste caso reafirme quem irá busca-la). Se é uma criança de colo, ela deve ser entregue ao professor ou responsável, sem esperar que ele faça o movimento de “tirá-la” do colo em que ela está. Com isto evita-se que a criança sinta que está sendo “tirada” do pai/mãe. Se a criança já anda, ela deve chegar na escola andando e não no colo.

14)   Durante o período de adaptação, se possível, evitar rodízio de carona ou transporte escolar. A saída da escola é um importante momento para observar como a criança está e conversar com o professor. Se isto não for possível, deixar claro para a criança como será feito o transporte e apresentá-la ao responsável pelo transporte antes do início das aulas.

15)   Conversar com a criança como foi o dia na escola, deixando-a falar livremente. Caso não queira falar, não insistir, mas observar se há alguma mudança significativa de comportamento em casa.

O tempo que cada criança leva para se adaptar à escola e à nova rotina varia muito de criança para criança. Por isto, nesta fase cheia de surpresas, além do que foi exposto acima, é muito importante que os pais possam reconhecer seus próprios sentimentos diante da situação que está sendo vivida. Assim, terão muito mais condições de reconhecer e dar suporte aos sentimentos, demandas e dificuldades do filho. Uma adaptação bem feita evita readaptações e é uma porta aberta para o bom desempenho escolar. Boas aulas!

__________________________________________________________________________________________

O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre adaptação na escola. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

__________________________________________________________________________________________

%d blogueiros gostam disto: