Eu brinco, ele brinca, nós brincamos

Eu brinco, eles brincam.

Sozinho e juntos. Nós brincamos.

“Também quero brincar!”

“Vem, vem brincar com a gente!”

Brincar só, com os amigos, irmãos, pais, tios, professores, avós… Com bonecos, brinquedos, amigos imaginários, a própria sombra… Enfim… Tem brincadeira? Tem diversão!

No parque, no quintal, no playground, na praça, na praia… Em casa, no carro, na escola, no corredor, no chuveiro, não importa o lugar. Todo lugar é lugar para brincar.

Qualquer objeto pode ser transformado em brinquedo. Qualquer pessoa pode ser outra pessoa durante a brincadeira. O importante é brincar.

Queremos é brincar!

“Vamos brincar de…”  E tudo se torna mágico!

Brincar é sinônimo de criar, imaginar e inventar; aprender sobre o mundo e as pessoas. No brincar, a experiência se revela e fica no registro da criança.

Brincadeiras conduzidas ou não, todas são importantes para a construção do conhecimento. O brincar proporciona experiência cognitiva, emocional e social. Está associado ao encorajamento e à energia.

Momento de se relacionar, de criar vínculos, de se constituir a partir de aprendizados,  que desenvolvem e permitem o crescimento contínuo da criança.

Brincar para mim, para ti e para nós! Um direito de todos!

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Ajudando as crianças a falar e lidar com seus medos

Quem, quando criança, nunca teve medo de fantasma, de escuro, de morrer, de perder alguém querido, de ser abandonado? Quem não sentiu medo de médico, de dentista, de injeção ou de fazer coisas ainda não conhecidas? E medo de palhaço, de animais e outros tantos de uma lista infindável?

Se você não se lembra, certamente alguém do seu convívio na infância deve recordar de algum medo que você teve quando pequeno. Os medos fazem parte do mundo infantil, podendo tornar-se insignificantes e sem sentido com o passar do tempo, ou persistir ao longo da vida adulta. Os medos falam de conflitos e da dificuldade em lidar com questões reais ou imaginárias que nos ameaçam física e emocionalmente, e é isso que os faz ganhar tamanha dimensão.

Desde muito cedo as crianças são desafiadas frente aos medos. No entanto, por não terem maturidade para lidar com eles, elas precisam da ajuda dos adultos para sentirem-se seguras e confiantes para encararem e superarem aquilo que temem.

Quando o medo que a criança sente não nos faz sentido, é comum dizermos que tal medo é “bobo” (como o medo de bichão papão) ou desnecessário (quando o medo é de um cãozinho). Se não embarcamos nas fantasias da criança para ajudá-la a reconhecer o que a assusta, podemos cair num discurso vago e ainda corremos o risco de reagir com ira ou desdém, ignorando que por trás do medo há angústia e sofrimento.

Então, como sair dessa situação de impasse?

O uso de histórias sobre medos são um recurso sempre interessante para ajudar driblá-los. Algumas histórias são abordadas de forma direta e outras de uma forma mais sutil, deixando sua mensagem nas entrelinhas. Ambas são ricas, e não temos como saber de antemão qual pode ser mais atrativa para a criança.

Entre tantas histórias, há uma série escrita por Ruth Rocha e Dora Lorch que pode ajudar a criança a falar, encarar e até mesmo superar seu temor. São livros que abordam medos que representam conteúdos íntimos de uma criança como o abandono (Ninguém gosta de mim?); medos criados em relação a procedimentos nunca experimentados, como ir ao dentista ou já vivenciados com certa ansiedade, como o retorno ao médico (Será que vai doer?); medos que temos e não sabemos –  de fantasmas e bichos que não existem, mas que estão dentro de nós e podemos combatê-los (Fantasma Existe?); e, medos que representam perigos reais da vida e são importantes para nossa proteção, como por exemplo, cair na piscina e se afogar por não saber nadar, atravessar a rua e ser atropelado (Tenho medo mas dou um jeito).

Através das histórias, as crianças percebem que não são as únicas a sentir determinado medo. Elas podem brincar com ele, rir dele, contar e criar outras histórias que o coloque num lugar diferente daquilo que ela vive, e ainda incrementar a “conversa” com outras formas de expressão, como o desenho, a pintura e o teatro.

Logo, precisamos ouvir as crianças em suas “argumentações” – muitas vezes ilógicas – e permitir-lhes que expressem física e verbalmente o que estão vivenciando. Os medos falam de sentimentos que as crianças estão experimentando e devemos conversar a respeito para que possam desmistificar conceitos e fantasias, pontuar, nomear e entender seu significado. Assim, ajudamos as crianças a elaborarem estes medos, que irão paulatinamente – cada qual em seu ritmo – diminuindo sua intensidade e até mesmo desaparecendo.

Expressar os medos é de extrema importância; dizer sobre seus sentimentos é fator de proteção física, emocional e social para que as crianças possam se desenvolver e criar relações seguras que servirão como base para estar no mundo de forma ativa e autoconfiante.

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Medos que acometem as crianças

“Sou mãe do Joaquim, que completou 4 anos em julho desse ano. Ele é uma criança de personalidade tranquila e, por outro lado, de muita opinião. Ele sempre demonstrou alguns medos: de barulho, como fogos, liquidificador, furadeira; de brinquedos que tiram sua estabilidade, como o balanço; e também medo do mar.

Eu venho trabalhando com ele todas essas inseguranças; ele já melhorou em algumas e em outras ele ainda apresenta bastante resistência. O que tem me preocupado, é que recentemente ele está com dificuldade em dormir no quarto dele. A rotina dele começa por volta das 7:30; ele vai para a casa da vó, depois para escola a tarde e quando o pego na escola às 18:30, normalmente ele dormia no carro a caminho de casa e só acordava no dia seguinte. Hoje isso já não acontece mais. Quando chego em casa coloco-o na cama dele, vamos dormir e na madrugada ele acorda e vai dormir com a gente. 

Ele começou falando que estava com medo do escuro (comprei uma luzinha para deixar acesa), depois disse que o medo era dos bonecos que ficavam na prateleira (em conjunto escolhemos um lugar e guardamos os bonecos); agora disse que o triciclo que ficava no quarto dele estava virando monstro (fizemos então uma doação para outra criança, porque também ele já não brincava mais) e, por fim, agora está dizendo que tem monstro no quarto. Já não sei mais o que fazer. Aliado a todas essas tentativas comprei algumas literaturas para tentar deixá-lo mais tranquilo. Como vocês acham que devo proceder ou o que estou fazendo errado?”

Os medos surgem de situações diversas, sejam elas reais ou não, revelando desconfortos físicos e/ou emocionais. São como alarmes que disparam diante de vivências temerosas e ajudam a criança na defesa e proteção de sua integridade. Somente quando excessivos podem inibir ou paralisar a criança, uma vez que desencadeia ansiedade intensa.

Bebês e crianças são sensíveis a estímulos fortes (ruídos, flashes e movimentos repentinos, perda do apoio físico e outros) e são impactados por eventos que lhe causam estranheza, sensação de desproteção ou ameaça. A maioria dos medos está associada à instabilidade e à falta de segurança sentida pela criança, principalmente em situações desconhecidas, o que é totalmente esperado quando o mundo está sendo por ela investigado e descoberto.

Diante da percepção de certa fragilidade e vulnerabilidade, crianças manifestam medos: uma das maneiras de comunicar ao adulto que algo não vai bem e solicitar ajuda. A preocupação de que a situação ameaçadora volte a acontecer faz com que a criança se proteja antecipadamente, anunciando e evitando, através do comportamento temeroso, aquilo que lhe apavora.

Em um mundo a ser explorado, o receio do desconhecido e o medo da separação, abandono e/ou ausência das figuras que lhe trazem segurança, confiança e proteção assustam muitas crianças. O temor aparece quando sentem ou preveem o distanciamento dos pais ou cuidadores – medo de se perder do adulto em aglomerações, do escuro e de ficarem sozinhas; receio diante da aproximação de pessoas estranhas, de ir à escola e os pais esquecerem-na, é comum. Aos poucos, conforme a estabilidade retorna, o medo e o desconforto tendem a desaparecer.

A partir dos 3 anos de idade, a imaginação infantil entra em ação. Os medos extravasam o mundo real. Surgem os monstros, bruxas, fantasmas, criados pela própria fantasia e estimulados pelas histórias, desenhos e brinquedos infantis. O medo de ser atacada e aniquilada por estes seres assustadores, e muitas vezes agressivos, avassala o sono de muita criança e pais, tornando o medo do escuro muito maior. Isto acontece porque crianças representam e associam o medo através de figuras e objetos que são “feios”, assustam, devoram e matam. São os bichos-papões que vêm para ameaçar a nossa existência.

Lidar com estes medos que vêm da fantasia deixam muitos pais sem saber o que fazer. No entanto, não existe uma única maneira de proceder diante do medo. Entender os motivos que estão por trás dele é fundamental. É hora dos pais não terem medo de enfrentar o medo! Não fuja ou ignore os medos, nem zombe da criança pelos medos que ela tem.

Adultos devem incentivar a criança a conversar  sobre e com os medos.  Vale propor que a ela desenhe, cante e brinque com eles e tudo que os representa. Existem músicas e livros infantis  que falam do tema e ajudam as crianças a se aproximarem de seus medos e encará-los.

Para aquelas que têm medo do escuro ou dos monstros que ficam em seu quarto, é importante que ela  possa permanecer neste ambiente. Pais podem dormir com a criança até que ela se sinta mais confiante em ficar só com os seus pensamentos e fantasias. Mas, se o medo vem de situações concretas, como o medo de mar ou piscina, propicie momentos em que a criança possa brincar com água, mas, sem forçá-la. Aos poucos, em seu tempo, a criança vai aprendendo a se defender contra as ameaças e angústias e a confiar mais em si diante de situações que a assusta.

O importante é que adultos contenham a criança física e afetivamente, e auxiliem-na sempre que necessitar; um processo contínuo que se constrói através da segurança que lhe oferecemos. Um dia, o medo passa.

Do que as crianças gostam

Do que as crianças gostam

Quando o amigo imaginário aparece na vida de uma criança

Por Verônica Esteves de Carvalho e Claudia Y. Vargas Riveros*

Uma leitora nos pergunta: Gostaria de saber a respeito da normalidade ou não de uma criança de 6-7 anos de idade ter amigo imaginário. Qual é a idade em que isso acontece e que é considerada normal? E quando é necessário manter a atenção e pensar em uma investigação?”.

Em que contexto a criança pode criar e/ou ter um amigo imaginário? Esta é a primeira questão que pais ou adultos que convivem com a criança precisam observar e analisar antes de julgarem situações onde se faz presente alguém que imaginariamente compartilha eventos de todos os tipos durante um determinado período da vida da criança.

Diante deste amigo, é preciso olhar e entender o ambiente – familiar, escolar e social – que esse imaginário aparece e o “uso” que a criança faz dele. Esse amigo é visto e tido como extensão da criança? É alguém que oferece suporte, segurança ou proteção emocional a ela?  Ela o torna presente com qual finalidade?

Comumente, entre os 3 e 56 anos de idade, as crianças, através da imaginação, dão forma ao que sentem, percebem, experimentam e, também, ao que não entendem  afetiva e cognitivamente. É nesta fase que elas curtem e vibram com os contos de fadas e super-heróis, desempenham papeis, criam personagens, colocam-se na história, com direito a todas as emoções que surgem neste ato criativo. A fantasia e a imaginação se fazem parte de seu cotidiano, permitindo-as vivenciar situações e se fortalecer emocionalmente.

Nesse cenário pode surgir o amigo imaginário como forma da criança conversar, desabafar, brincar, brigar, dividir suas frustrações, dificuldades, tristezas, desejos, aspirações e conquistas. “Alguém” que interage com a criança e pode acalentá-la diante de seus sentimentos, relacionamentos e questões que ela vivencia. Um “amigo” que acompanha a criança, frente às mudanças sentidas por ela como algo temeroso e/ou ameaçador (como por exemplo, um irmãozinho que nasce; separação dos pais; casa ou escola nova; perda ou doença de uma pessoa próxima e afetivamente querida), situações estas, onde a criança apresenta dificuldade para compreender ou assimilar o que está acontecendo consigo e no ambiente que a cerca.

Da mesma maneira que usam a chupeta, o ursinho ou outro objeto (elegível pela criança), o amigo imaginário vem para oferecer segurança à criança. Por isso, em muitos momentos não está relacionado a algum problema emocional ou de comportamento.  Mas, pode sinalizar uma lacuna ou um espaço em aberto, que espera ser preenchido por uma realidade acolhedora e segura e/ou uma tentativa da criança integrar suas experiências e de tornar acessível ao seu mundo à realidade que não consegue entender e absorver.

Não menos, um amigo que a criança “usa” para defender-se, proteger-se e, até mesmo, desculpar-se de algo que ainda não dá conta de suportar porque lhe faltam recursos emocionais e cognitivos para processar determinadas vivências. Alguém em quem a criança projeta comportamentos, emoções e atitudes que ela própria não consegue incorporar ou compreender. Quem nunca viu uma criança colocando a responsabilidade de algo que fez e não foi legal em outra criança, seja ela imaginária, sem nome ou real? Com ajuda de um amigo imaginário, crianças podem elaborar experiências vivenciadas na realidade.

É válido ressaltar que, nenhum companheiro imaginário pode afastar a criança de suas atividades rotineiras, nem substituir a convivência com crianças reais. Desde que a fantasia não se sobreponha à realidade, todo amigo invisível é amigo acalentador e saudável para a construção psíquica e cognitiva infantil. Se o amigo imaginário cria distância da realidade, a ponto da criança negá-la ou isolar-se, é necessário avaliar sua presença na vida dela.

* Claudia Y. Vargas Riveros é psicóloga (CRP-06/42484-3). Atende crianças, adolescentes e adultos dentro da abordagem junguiana em seu consultório na cidade de São Paulo.

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