Ajudando as crianças a falar e lidar com seus medos

Quem, quando criança, nunca teve medo de fantasma, de escuro, de morrer, de perder alguém querido, de ser abandonado? Quem não sentiu medo de médico, de dentista, de injeção ou de fazer coisas ainda não conhecidas? E medo de palhaço, de animais e outros tantos de uma lista infindável?

Se você não se lembra, certamente alguém do seu convívio na infância deve recordar de algum medo que você teve quando pequeno. Os medos fazem parte do mundo infantil, podendo tornar-se insignificantes e sem sentido com o passar do tempo, ou persistir ao longo da vida adulta. Os medos falam de conflitos e da dificuldade em lidar com questões reais ou imaginárias que nos ameaçam física e emocionalmente, e é isso que os faz ganhar tamanha dimensão.

Desde muito cedo as crianças são desafiadas frente aos medos. No entanto, por não terem maturidade para lidar com eles, elas precisam da ajuda dos adultos para sentirem-se seguras e confiantes para encararem e superarem aquilo que temem.

Quando o medo que a criança sente não nos faz sentido, é comum dizermos que tal medo é “bobo” (como o medo de bichão papão) ou desnecessário (quando o medo é de um cãozinho). Se não embarcamos nas fantasias da criança para ajudá-la a reconhecer o que a assusta, podemos cair num discurso vago e ainda corremos o risco de reagir com ira ou desdém, ignorando que por trás do medo há angústia e sofrimento.

Então, como sair dessa situação de impasse?

O uso de histórias sobre medos são um recurso sempre interessante para ajudar driblá-los. Algumas histórias são abordadas de forma direta e outras de uma forma mais sutil, deixando sua mensagem nas entrelinhas. Ambas são ricas, e não temos como saber de antemão qual pode ser mais atrativa para a criança.

Entre tantas histórias, há uma série escrita por Ruth Rocha e Dora Lorch que pode ajudar a criança a falar, encarar e até mesmo superar seu temor. São livros que abordam medos que representam conteúdos íntimos de uma criança como o abandono (Ninguém gosta de mim?); medos criados em relação a procedimentos nunca experimentados, como ir ao dentista ou já vivenciados com certa ansiedade, como o retorno ao médico (Será que vai doer?); medos que temos e não sabemos –  de fantasmas e bichos que não existem, mas que estão dentro de nós e podemos combatê-los (Fantasma Existe?); e, medos que representam perigos reais da vida e são importantes para nossa proteção, como por exemplo, cair na piscina e se afogar por não saber nadar, atravessar a rua e ser atropelado (Tenho medo mas dou um jeito).

Através das histórias, as crianças percebem que não são as únicas a sentir determinado medo. Elas podem brincar com ele, rir dele, contar e criar outras histórias que o coloque num lugar diferente daquilo que ela vive, e ainda incrementar a “conversa” com outras formas de expressão, como o desenho, a pintura e o teatro.

Logo, precisamos ouvir as crianças em suas “argumentações” – muitas vezes ilógicas – e permitir-lhes que expressem física e verbalmente o que estão vivenciando. Os medos falam de sentimentos que as crianças estão experimentando e devemos conversar a respeito para que possam desmistificar conceitos e fantasias, pontuar, nomear e entender seu significado. Assim, ajudamos as crianças a elaborarem estes medos, que irão paulatinamente – cada qual em seu ritmo – diminuindo sua intensidade e até mesmo desaparecendo.

Expressar os medos é de extrema importância; dizer sobre seus sentimentos é fator de proteção física, emocional e social para que as crianças possam se desenvolver e criar relações seguras que servirão como base para estar no mundo de forma ativa e autoconfiante.

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Medos que acometem as crianças

“Sou mãe do Joaquim, que completou 4 anos em julho desse ano. Ele é uma criança de personalidade tranquila e, por outro lado, de muita opinião. Ele sempre demonstrou alguns medos: de barulho, como fogos, liquidificador, furadeira; de brinquedos que tiram sua estabilidade, como o balanço; e também medo do mar.

Eu venho trabalhando com ele todas essas inseguranças; ele já melhorou em algumas e em outras ele ainda apresenta bastante resistência. O que tem me preocupado, é que recentemente ele está com dificuldade em dormir no quarto dele. A rotina dele começa por volta das 7:30; ele vai para a casa da vó, depois para escola a tarde e quando o pego na escola às 18:30, normalmente ele dormia no carro a caminho de casa e só acordava no dia seguinte. Hoje isso já não acontece mais. Quando chego em casa coloco-o na cama dele, vamos dormir e na madrugada ele acorda e vai dormir com a gente. 

Ele começou falando que estava com medo do escuro (comprei uma luzinha para deixar acesa), depois disse que o medo era dos bonecos que ficavam na prateleira (em conjunto escolhemos um lugar e guardamos os bonecos); agora disse que o triciclo que ficava no quarto dele estava virando monstro (fizemos então uma doação para outra criança, porque também ele já não brincava mais) e, por fim, agora está dizendo que tem monstro no quarto. Já não sei mais o que fazer. Aliado a todas essas tentativas comprei algumas literaturas para tentar deixá-lo mais tranquilo. Como vocês acham que devo proceder ou o que estou fazendo errado?”

Os medos surgem de situações diversas, sejam elas reais ou não, revelando desconfortos físicos e/ou emocionais. São como alarmes que disparam diante de vivências temerosas e ajudam a criança na defesa e proteção de sua integridade. Somente quando excessivos podem inibir ou paralisar a criança, uma vez que desencadeia ansiedade intensa.

Bebês e crianças são sensíveis a estímulos fortes (ruídos, flashes e movimentos repentinos, perda do apoio físico e outros) e são impactados por eventos que lhe causam estranheza, sensação de desproteção ou ameaça. A maioria dos medos está associada à instabilidade e à falta de segurança sentida pela criança, principalmente em situações desconhecidas, o que é totalmente esperado quando o mundo está sendo por ela investigado e descoberto.

Diante da percepção de certa fragilidade e vulnerabilidade, crianças manifestam medos: uma das maneiras de comunicar ao adulto que algo não vai bem e solicitar ajuda. A preocupação de que a situação ameaçadora volte a acontecer faz com que a criança se proteja antecipadamente, anunciando e evitando, através do comportamento temeroso, aquilo que lhe apavora.

Em um mundo a ser explorado, o receio do desconhecido e o medo da separação, abandono e/ou ausência das figuras que lhe trazem segurança, confiança e proteção assustam muitas crianças. O temor aparece quando sentem ou preveem o distanciamento dos pais ou cuidadores – medo de se perder do adulto em aglomerações, do escuro e de ficarem sozinhas; receio diante da aproximação de pessoas estranhas, de ir à escola e os pais esquecerem-na, é comum. Aos poucos, conforme a estabilidade retorna, o medo e o desconforto tendem a desaparecer.

A partir dos 3 anos de idade, a imaginação infantil entra em ação. Os medos extravasam o mundo real. Surgem os monstros, bruxas, fantasmas, criados pela própria fantasia e estimulados pelas histórias, desenhos e brinquedos infantis. O medo de ser atacada e aniquilada por estes seres assustadores, e muitas vezes agressivos, avassala o sono de muita criança e pais, tornando o medo do escuro muito maior. Isto acontece porque crianças representam e associam o medo através de figuras e objetos que são “feios”, assustam, devoram e matam. São os bichos-papões que vêm para ameaçar a nossa existência.

Lidar com estes medos que vêm da fantasia deixam muitos pais sem saber o que fazer. No entanto, não existe uma única maneira de proceder diante do medo. Entender os motivos que estão por trás dele é fundamental. É hora dos pais não terem medo de enfrentar o medo! Não fuja ou ignore os medos, nem zombe da criança pelos medos que ela tem.

Adultos devem incentivar a criança a conversar  sobre e com os medos.  Vale propor que a ela desenhe, cante e brinque com eles e tudo que os representa. Existem músicas e livros infantis  que falam do tema e ajudam as crianças a se aproximarem de seus medos e encará-los.

Para aquelas que têm medo do escuro ou dos monstros que ficam em seu quarto, é importante que ela  possa permanecer neste ambiente. Pais podem dormir com a criança até que ela se sinta mais confiante em ficar só com os seus pensamentos e fantasias. Mas, se o medo vem de situações concretas, como o medo de mar ou piscina, propicie momentos em que a criança possa brincar com água, mas, sem forçá-la. Aos poucos, em seu tempo, a criança vai aprendendo a se defender contra as ameaças e angústias e a confiar mais em si diante de situações que a assusta.

O importante é que adultos contenham a criança física e afetivamente, e auxiliem-na sempre que necessitar; um processo contínuo que se constrói através da segurança que lhe oferecemos. Um dia, o medo passa.

Do que seu filho tem medo?

Existem coisas que chamamos de medo, mas é outra coisa.

Existem medos que chamamos de outra coisa, mas é medo.

Existem medos, medinhos e medões.

Às vezes o medo é do desconhecido.

Outras vezes, é o conhecido que causa medo.

Medo é um amontodado de sentimentos inominados. Por isso, cada medo vem acompanhado de angústia que faz gente grande e pequena chorar, gritar, tremer, paralisar, perder o sono, querer colo, um abraço ou apenas a segurança de que nada de mal acontecerá.

Na infância, muitos medos são representados por figuras que devoram, engolem, colocam fim à possibilidade de existir. Por isso os monstros, o lobo mau, os dragões, fantasmas e bichos papões são tão assustadores e aterrorizadores. Eles representam angústias relacionadas à separação e perdas.

O melhor jeito de vencer o medo é brincar com ele, falar sobre ele. Não de uma maneira corretiva ou punitiva, como se o medo fosse uma grande besteira. Para quem sente medo, ele não apenas é real como tem proporções gigantescas!

medo do bicho papão

Para falar dos medos cotidianos, gosto do que a mãe de uma menina com 4 para 5 anos fez com sua filha que acordava todas as noites dizendo que tinha um lobo mau em seu quarto. Na primeira, segunda e terceira vez a mãe respondeu que não havia lobo mau algum e que a menina podia voltar a dormir. A pequena bem que tentava, mas logo voltava até o quarto da mãe para dizer que o lobo continuava amedrontando-a.

Então, a mãe decidiu perguntar onde o lobo estava. A menina apontou para a parede colada a sua cama, e a mãe, no meio da madrugada, deu uma bronca enorme no tal do lobo, dizendo para que ele fosse embora e deixasse sua filha dormir. A menina se tranquilizou e voltou a dormir. Cada vez que o lobo “aparecia” a mãe repetia a mesma fala. Aos poucos, o lobo foi visitando-a cada vez menos, até que ele “desapareceu” da vida da menina.

Este é um exemplo de intervenção bastante simples, que costuma funcionar com as crianças pequenas porque valida seu temor ao mesmo tempo em que acolhe sua angústia.

Em Leiturinhas, encontramos algumas ideias que inspiram diálogos como o dessa mãe com a filha e o lobo. Vale muito a pena conferir!

Bicho papão não é um bicho de sete cabeças se brincarmos com ele!

bicho papinho

Aqui você encontra dicas de livros infantis que falam sobre medos.

Abuso sexual: uma guerra de potências e impotências

Quando li Infância de retalhos, no blog Padecendo no Paraíso, encantei-me com a franqueza com que a mulher que o escreveu relata sua história pessoal de abuso sexual sofrido e silenciado por tantos anos – quase a metade de sua infância! Em cada linha, seu rico testemunho apresenta os meandros de uma trama comum e recorrente em diversas famílias, inclusive nas tradicionais, “perfeitinhas” e abastadas, mas que é mantida em segredo, às vezes, por anos a fio.

Como naquele texto, refiro-me aqui aos repetidos abusos sexuais intrafamiliar. Neles, o segredo é mantido porque é muito difícil para uma criança entender algo que é da ordem da angústia, do medo, da incompreensão, do desconforto e, ao mesmo tempo, do prazer – ainda mais quando esses sentimentos envolvem uma pessoa que assume diferentes papéis, como tio querido e abusador. Não importa se criança ou adulto, a manipulação genital, por mais que seja agressiva ou aversiva, é também prazerosa. Além disso, pelo menos num primeiro momento, a fantasia de ser escolhido e, por consequência, ter um lugar preferencial na vida de alguém, contribui para dificultar a denúncia logo que os abusos se iniciam: “Será que vale à pena interromper estes carinhos, brincadeiras ou atenção?”. A dúvida paralisa.

No meio desse paradoxo, algumas crianças tentam contar o que vivenciam, muito mais porque não conseguem compreender o que acontece com elas e seus sentimentos (especialmente as crianças menores), do que por uma questão moral (que surge conforme as crianças crescem e os sentimentos de culpa e vergonha ganham forma). Nebuloso como muitos sonhos, o abuso sexual parece sem sentido, ruim e bom, da ordem do consciente e do inconsciente. Não é por acaso que um bom tanto de crianças tenta relatar aos adultos o abuso sofrido como se tivessem tido um pesadelo.

Denunciar explicitamente um abuso implica em ter que vencer o temor da repreensão. Como muitas crianças têm a fantasia de terem provocado a situação de abuso, preferem o sofrimento do silêncio ao sofrimento de uma suposta retaliação (isso se agrava nas famílias com histórico de pouco diálogo e/ou muita violência).

A trama do abuso sexual não se rompe apenas quando a barreira da denúncia é vencida. Em muitos casos, por mais que a criança consiga denunciar, ela nem sempre encontra “ouvidos de ouvir” (expressão tão bem sacada pela autora citada). A necessidade de manter a estabilidade familiar, pelas mais variadas razões, impede a escuta por parte de muitos adultos. Além do mais, a dinâmica do abuso sexual é marcada por impotências que se camuflam de potências. Quais são as fragilidades do abusador – que no senso comum podem ser chamadas de covardia – que o leva a se lançar nesse jogo em que ele é o todo poderoso, viril e dominador da situação? Quais são as fraquezas ou as ameaças dos “ouvidos que não ouvem”, que, mesmo desconfiando sem desconfiar, ficam numa zona de conforto mantendo a aparência de que tudo vai bem? Qual ser humano não se sente valorizado ao ser escolhido ou receber um olhar especial, ainda mais quando se é tão vulnerável como uma criança?

A questão do abuso sexual é complexa e costuma atravessar gerações. Quantas mães, só conseguem revelar sua história de abuso depois que suas filhas relatam o próprio! Ou, pais (homens e mulheres) abusados que tentam, em seu sofrimento silencioso, preservar os filhos através de atitudes superprotetoras. Diante dessas atitudes, ao invés de ajudá-los a se proteger, cometem outra forma de violência: o “cabresto relacional”, que mantém os filhos sob o controle parental, impedindo-os de fazer suas próprias escolhas.

Se na dinâmica do abuso o que está em questão são potências e impotências, para romper a impotência – transgeracional ou não – que mantêm os ouvidos sem ouvir, os olhos fechados ­e a boca cerrada, é preciso alguém realmente potente. No caso das meninas, muitas vezes essa potência se revela através de um corpo capaz de reproduzir. Nos abusos intrafamiliares, é bastante comum eles cessarem quando a menina entra na adolescência e a gravidez torna-se possível. Nenhum abusador quer correr o risco de uma gravidez, não por ela em si, mas pela revelação de um ato que o despotencializaria. Assim, ele parte para outra “vítima”.

Muitas meninas, contudo, só conseguem fazer a denúncia e/ou serem escutadas neste momento de ruptura. Sem o abusador em cena, as posições de potência e impotência são mais facilmente invertidas, permitindo com que as adolescentes consigam dar um basta – a rebeldia adolescente, nesses momentos, revela uma saúde e potência incríveis.

Quanto aos meninos, vale uma nota, triste. Muitos adolescentes saem desse jogo não pela via da denúncia, mas pela mudança de posição, especialmente quando o abusador era alguém do sexo masculino. Como o modelo de homem potente é o abusador, o adolescente passa a abusar, geralmente crianças próximas a ele, recriando o mesmo ciclo.

A adolescente de Infância de retalhos encontrou potência nela mesma. Ainda criança, tentou proteger sua irmã do grande monstro. Resiliente, saiu do lugar de mera vítima, levantou a cabeça e deu um novo significado e destino à sua história pessoal e familiar. Recomeçou. Construiu uma família e hoje, certamente, escreve uma história sem silêncios e segredos. Uma história em que a potência está nas palavras e não no poder de um corpo mais forte ou de valores intocáveis. Uma história que tem lugar para o zelo, a proteção e não o “cabresto relacional”.

Proteger a criança contra o abuso sexual é ensiná-la sobre os limites entre seu próprio corpo e o corpo de um adulto; é ensiná-la o que cada um pode ou não fazer com esses corpos. Proteger é livrar o filho de qualquer submissão. Mas para isso, é preciso que primeiro nos livremos de certas amarras que mantém uma ordem aparente, como a de família perfeita. Para proteger a criança contra o abuso sexual é preciso, sem dúvida alguma, ter “ouvidos de ouvir” e força para enfrentar, primeiramente, os monstros que nos habitam.

Sexualidade infantil: algumas questões dos pais em relação às crianças

Observo com certa frequência pais que interpretam as atitudes e questionamentos da criança sobre sua própria sexualidade ou a sexualidade humana com base nas experiências sexuais de uma vida adulta. Como resultado, acabam rotulando negativamente o que é vivido e questionado pelas crianças, como se elas não tivessem direito à curiosidade ou sexualidade. Assim, silenciam, negam, reprimem e, até mesmo, inibem ou condenam situações em que a criança expressa sua curiosidade natural de explorar e conhecer a si e ao mundo que a cerca.

Esta tendência de tratar a sexualidade como “assunto impróprio para menores” revela certo desconforto que o tema desperta nos adultos – e não nas crianças. São inquietações que aparecem nas atitudes do adulto diante da criança e refletem as dificuldades e incômodos muitas vezes relacionados às suas próprias experiências tidas na infância e na educação que receberam. É fato que as crianças são mais livres de pudor, vergonha e culpa e, por isso, são mais questionadoras e desinibidas do que os adultos/pais. Lidar com esta inocência e curiosidade própria do infantil nem sempre é tarefa fácil. Movidas pelas descobertas que o mundo lhe proporciona, as crianças não hesitam em querer conhecer e explorar a si e a tudo que está a sua volta.

A simplicidade com que as crianças se colocam no mundo muitas vezes assusta os pais e os pegam de surpresa em situações que podem se tornar, para eles, embaraçosa.

Em uma sessão de psicoterapia, uma mãe, aflita, me narra: “Minha filha [5 anos] me questionou sobre como os médicos tiravam os bebês da barriga. Perguntou-me por que a grávida tinha que ir ao hospital e como o médico fazia para tirar o nenê de lá de dentro. Eu disse que era com um instrumento que só eles usavam para cortar a barriga. Então,  ela me perguntou se doía e eu afirmei que não, ficando aliviada por a conversa parar por ali, pois não saberia como dizer sobre a outra forma que os bebês nascem – parto normal – como foi o caso dela.”

Uma leitora do blog pergunta: “Será que vocês poderiam me indicar algum artigo que fale como podemos conversar com filho (no meu caso 9 anos) sobre como se faz um filho? Esse é um assunto muito difícil pra mim, rezava para que não chegasse esse momento. Além de outros medos, tenho receio de incitar a curiosidade dele pelo sexo se não souber falar de uma forma que o satisfaça. Aguardo resposta, pois disse a ele que iríamos conversar assim que eu pudesse, e que não demoraria”.

Essas duas situações nos faz pensar sobre a forma como pais devem abordar junto às crianças as perguntas feitas por elas. Muitas vezes a curiosidade colocam os pais em dúvida, principalmente em relação à abordagem para tal conversa. O desejo deles é que haja uma “fórmula mágica” que aquiete a curiosidade das crianças e o desconforto deles próprios.  Além das perguntas, algumas das manifestações exploratórias da sexualidade vivida pela criança costumam causar incômodo maior ainda. O questionamento vivido pelos adultos torna-se constante: “Será que é natural ou ‘normal’?”; “Deixo ou não ele fazer isso?”; “Como abordar junto à criança estas situação vividas por ela?”. E mais ainda: “Quais as consequências destas manifestações para a criança?”.

Algumas questões e preocupações emergem e os pais desejam acertar em sua conduta para que os filhos não fiquem expostos ou vulneráveis às situações de risco, sem falar na precocidade. Por isso, é comum os pais perguntarem sobre como lidar com as questões sexuais sem serem excessivos ou omissos nas informações transmitidas e condutas junto a crianças. O medo e a angústia oculta nesse pedido de orientação vêm frente ao receio de deixar a criança “traumatizada” – experiência ruim para ela –  e sem orientação adequada.

A narrativa de uma mãe demostra bem esta situação: “Tenho um filho de 5 anos, que brinca muito com as duas irmãs de 5 e 8 anos. Esta semana encontramos ele mostrando ‘o sexo’ à menina de 5 anos, e ela despindo-se também pra mostrar o seu. É normal? Eu disse que não se mostra a ninguém, nem se deixa tocar, somente o pai e a mãe é que podem ver, mais nenhum adulto. Tento levar as coisas com naturalidade, para não criar tabu, mas já fez novamente. O que posso fazer?” E aqui fica minha pergunta: por que a criança não deveria fazer novamente? A orientação está adequada: pais devem ensinar aos filhos sobre a importância da privacidade e do respeito ao próprio corpo e ao do outro.  Mas a curiosidade e descobertas continuam sendo vividas pela criança!

O que podemos dizer é que, a medida entre a omissão e o excesso é construída com o diálogo. Quando as crianças perguntam aos pais, é porque já criaram alguma fantasia sobre o assunto; com a pergunta, querem confirmar suas hipóteses ou simplesmente entender como as coisas acontecem. Falar sobre sexualidade é falar sobre vida desde sua origem até as experiências que ao longo dela presenciamos e vivemos. Quando omitimos ou não falamos com as crianças, estas ficam sujeitas à desinformação (que pode ser buscada em fontes não confiáveis) e as fantasias continuam sendo alimentadas por elas. Portanto, apesar do medo e de algumas angústias que determinados assuntos provocam, o mais valioso entre pais e filhos é o diálogo franco e simples. Quando a conversa é muito difícil, esta pode ser mediada com ajuda de um livro.

É certo que não há receita pronta para pais enfrentarem este momento onde a curiosidade pela sexualidade surge. Mas alguns cuidados são importantes e podem ajudar os pais a encarar de forma mais tranquila as situações que enfrentam ou enfrentarão:

 – Nós adultos compartilhamos uma sexualidade mais complexa do que a que é vivida pela criança, Portanto, sempre que uma criança nos faz uma pergunta sobre a sexualidade ou manifesta algum comportamento sexual, devemos procurar entender o que está por trás da pergunta ou do comportamento manifesto a partir do ponto de vista da criança (e não do adulto), escutando-a sem pré-conceitos ou julgamentos.

– Não proibir (exceto em situação de abuso, violência ou agressão física e emocional provocadas por determinadas situações a que a criança pode estar exposta) comportamentos ou questionamentos feitos pela criança. Quando inibimos a criança em suas manifestações, os pais perdem a oportunidade de ensinar a criança maneiras apropriadas de lidar com sua curiosidade e sexualidade. Ao encerrar a situação, impedimos a criança de explorar e se desenvolver. Quando pais impossibilitam a criança de vivenciar sua sexualidade, estes emitem respostas de negação a uma expressão que é inerente ao humano. Crianças podem se sentir tolhidas, culpadas ou inapropriadas, trazendo consequências para seu desenvolvimento presente e futuro.

– É importante acolher a experimentação da criança, conversando com ela sobre suas atitudes e descobertas, compreendendo e dando sentido ao que está sendo vivenciado. Quando damos às crianças este espaço, criamos um vínculo de confiança essencial na relação pais e filhos. Assim, elas podem questionar mais e mais e entender que podem confiar em seus pais para ajudá-las a se desenvolver. E vale lembrar: acolher não significa permitir e sim orientar.

– Construir as respostas junto com a criança, sem antecipar assuntos e explicações que ela ainda não é capaz de assimilar. Pais devem se posicionar com delicadeza e respeito diante da criança, respondendo as suas inquietações pontualmente, com linguagem adequada e no tempo solicitado pela criança.

Crianças querem entender os acontecimentos da vida. Estão e são curiosas, o que as faz perguntarem até obterem uma resposta que lhe faça sentido naquele momento. Assim, vão assimilando um mundo mais complexo e interagindo com ambiente e pessoas. Dentre todas as perguntas, as referentes à sexualidade não deixam de existir, já que esta faz parte da vida de todos nós desde a tenra idade.

Quando uma questão provoca incômodo nos pais e estes conseguem se perguntar que incômodo é esse, ganham pais e filhos. As inquietações das crianças inquietam aqueles que as educam. Que bom! Elas servem como guia de conduta e orientação na educação das crianças.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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