Uma questão delicada: quando a aproximação corporal mãe-filho é excedida

Tenho uma noiva que tem um casal de gêmeos de 11 anos. A menina é mais reservada, não dá abertura para a privacidade dela. Não se mostra nua na frente da mãe, do irmão ou de outras pessoas. E também não aprecia assuntos íntimos. Ela tem seu próprio quarto, recentemente se tornou uma mocinha e mostra-se ser bem racional. Algo peculiar é o fato de ela não expor seu lado afetivo ou sentimental, como por exemplo, nunca diz “te amo” para a mãe ou irmão, mesmo que estes lhe digam. E, nem se sente bem com abraços ou beijos.

O menino já é mais solto, fica em casa de cuequinha e se mostra ser mais emotivo… Constantemente diz: “mãe, te amo!”, repetidas vezes. Às vezes deixa o seu quarto para dormir no quarto da irmã, num colchão jogado ao chão.

Minha preocupação é em relação à intimidade que a mãe tem com ele. Ela toma banho com ele e às vezes ele dorme na cama de casal com a mãe. E a mãe dele, disse desconfiar que ele se masturba durante o banho e, algumas vezes, durante umas brincadeiras que ela tem com ele na cama – por exemplo, através de brincadeiras de briguinhas de imobilizar um ao outro. Ela já percebeu que ele fica excitado. 

 A mãe deles, disse já ter advertido aos dois para não terem a curiosidades de transarem, dizendo isso ser errado por serem irmãos e que a menina poderia engravidar.  

 Não sei se a forma como ela está conduzindo essa relação/educação com os filhos é correta. Fico pensando e preocupado: É possível que o menino ao se masturbar, se visualize tendo relações com a mãe ou a irmã? Isso pode influenciar seu comportamento quando adulto?

Vejo que a mãe tem certo receito de contradizer/contrariar o que os filhos falam ou exigem. Gostaria de seu parecer, uma vez que pretendemos nos casar e assim, conviverei com todos numa mesma casa e participarei do desenvolvimento/acompanhamento/educação dessas crianças

Embora o foco do Ninguém cresce sozinho seja a primeira infância e as questões que permeiam ser mãe/ser pai de filhos nessa faixa etária, optamos por tornar pública a resposta a este leitor, uma vez que a situação por ele apresentada revela consequências de lugares pouco discriminados no que se refere à vivência da sexualidade dentro de uma família.

Aos 11 anos, uma menina pode querer manter seu corpo em um universo privado e não ter necessidade de demonstrar afeto através de palavras. Como seu corpo está em transformação é esperado que ela se esquive de um contato mais corporal com os pais e irmão (tal contato direciona-se às novas relações afetivas – ficar, namoro – mesmo que elas ainda não estejam acontecendo). Por isso, essas questões, isoladamente, não são um problema, e só merecem atenção especial se a adolescente demonstrar grande retraimento (por exemplo, recusando qualquer forma de aproximação de seus pais, inclusive para diálogo) ou sinais de sofrimento com tais mudanças.

No caso desses irmãos, apesar do movimento da menina de preservar sua intimidade (ou proteger-se dessa “exposição” sexual vivida pelo irmão e mãe), parece que ela não faz objeção ao irmão dormir em seu quarto. Vale à pena perguntar-lhe o que ela pensa sobre essa situação, aproveitando a conversa para marcar entre os membros familiares os espaços privados de cada um. Se o lugar que cada um ocupa na família está bem claro, irmãos não transam (no máximo, em nível de fantasia, mas jamais concretamente).

A maneira como o leitor descreve a relação mãe-filho revela o quanto esta mãe não interdita o filho – ela toma banho com ele, permite que ele durma com ela e ainda se masturbe nas brincadeiras íntimas que ocorrem entre os dois. Se os hormônios do menino estão à flor da pele, a mãe precisa liberar o filho para viver a sexualidade dele independente da dela. Filho (ou filha) excitado na presença dos pais precisa de interdição, de limite entre os corpos; ou seja, cada um no seu canto!

Como na fantasia vale tudo, é possível sim que o menino, ao se masturbar, se visualize tendo relações sexuais com a mãe ou a irmã. No entanto, mais do que se preocupar com seu comportamento futuro, é importante pensar que o comportamento atual já revela um excesso de estímulos sexuais entre a mãe e o menino. Não creio que a mãe deixe de colocar uma barreira entre seu corpo e o corpo do filho apenas para não contrariá-lo. Parece-me que este menino ocupa um lugar importante na vida afetiva da mãe, como um companheiro. Entender que lugar é este é uma via para que mãe e filho possam desfazer esse “enrosco”, a filha possa estar mais próxima da mãe (será que há espaço para ela?) e o noivo não tenha que disputar sua noiva/esposa com o filho dela.

Algumas questões que envolvem o banho do filho com os pais

“Meu filho tem quase 4 anos, mas não vive comigo, vive apenas com a mãe.

Mas, eu sempre tomei banho com ele, desde uns 6 meses de idade, quando ainda morávamos juntos. A mãe dele também toma banho com ele.

Eu achava que o problema maior estaria nele tomar banho com ela, já que é mulher. Não quando era bebê, pois não entendia nada, mas principalmente quando ganha mais idade e passa a se lembrar das coisas e ter curiosidades.”

A atitude de tomar banho com os filhos é muito comum entre os pais até o momento em que as crianças começam a questionar sobre as características sexuais e as diferenças entre adultos e crianças – mais ou menos por volta dos 23 anos. No entanto, vale ressaltar que desde muito pequeninas elas observam tudo. Mesmo sem expressar em palavras o que veem e sentem, as crianças registram suas vivências e sentimentos que serão ingredientes na construção de sua vida afetiva.

“Há um ano eu pedi a ela que não tomasse mais banho com ele. Eu também comecei, mais recentemente, a dar banho nele separado, usando roupas, pois ele começou a olhar o meu pênis e querer colocar a mão e comparar. Disse a ele que ele tinha o dele, pra ele mexer… E pra não mexer no meu…”

A criança é um ser sensorial. Por isto ela “olha com as mãos” quando se depara com algo novo, diferente. Em se tratando da nudez, a abordagem deste pai foi ótima – a criança tem seu próprio corpo para conhecer, manipular; o genital do outro é do outro e, portanto, não deve ser tocado. Uma intervenção simples e objetiva que ensina a criança a respeitar e proteger seu próprio corpo e, por consequência, respeitar o corpo de outras pessoas.

Mesmo que o pai tenha se sentido incomodado com a situação, ele focou na questão da intimidade, fundamental de ser ensinada desde bem cedo para as crianças.

“Ocorre que ele tem me relatado, ultimamente, espontaneamente, algumas situações que acontecem no dia a dia dele, onde ele toma banho com a mãe e com o namorado dela (todos juntos). Achei estranho, principalmente, pelo fato dele dar ênfase na nudez de todos juntos no banheiro.”

É sempre importante identificar os sentimentos que nos atravessam em cada situação de nossas vidas. Em se tratando de nudez, ex-mulher e padrasto do filho, não há razão para ser diferente. O que é “estranho”, o namorado da mãe do filho também tomar banho com o menino ou o destaque que a criança dá à nudez?

Já houve por parte do pai um pedido à mãe do filho para que ela não tomasse banho com o menino, o que não foi por ela acatado. O que ela pensa sobre o assunto? Por que não mudou a prática do banho a dois ou três? Como ela lida com as questões que o filho apresenta sobre a sexualidade (elas certamente aparecem dentro e fora do banho)? Muito provavelmente a mãe vivencia a nudez diante do filho diferente do modo como o pai a vivencia, o que é mais do que esperado, já que são pessoas distintas.

No entanto, em se tratando de uma criança que tem pai e mãe que dividem os cuidados para com ela, é fundamental que ambos encontrem um ponto comum sobre suas atitudes perante o banho do filho.

Quando as regras do pai diferem das regras da mãe (sejam eles casados ou não) a criança percebe as diferenças de atitude e permissões e passa a questioná-las. Embora as diferenças sejam saudáveis e necessárias, nas regras que visam o desenvolvimento da criança, as divergências devem inexistir ou ser mínimas. Para uma criança com 4 anos, a regra do banho e das demais atividades exercidas no banheiro deve priorizar sua autonomia e individualidade, e não a facilidade ou o prazer do adulto (supõe-se que a prática do banho não individualizado dá-se por pelo menos um desses motivos). Por isto, é fundamental que pai e mãe conversem e em entrem num consenso decidindo o que é melhor para a criança do ponto de vista do favorecimento da aquisição e uso de novas competências pela criança, como lavar-se, secar-se, limpar-se.

“E relatou que aconteceu mais de uma vez. Acho que o fato de ver os ‘namorados’ nus pode ter despertado alguma dúvida na cabeça dele, pois tem perguntado se “pode”. Eu não sei o que responder…”

Existem “dúvidas” que não conseguimos sanar porque elas aparecem quase sempre silenciosamente e logo são esquecidas (este é um mecanismo psíquico chamado recalque, inevitável e presente em todos os seres humanos). Outras, no entanto, são passíveis de entendimento e resposta.

O que a criança está querendo saber ao perguntar “se pode”? É a criança tomar banho com a mãe e o namorado dela? É a mãe tomar banho com o namorado? É…? É…? Fica difícil responder uma pergunta que não sabemos exatamente qual é.

Uma estratégia que funciona muito bem quando as perguntas ou colocações feitas pelas crianças não estão muito claras é devolver-lhe a pergunta ou fala. Ao fazer isto, damos-lhe a oportunidade de refazer sua questão e de dialogar, não correndo o risco de responder o que ela não perguntou ou de formular uma pergunta ou resposta com base em nossas impressões e suposições.

“Outra coisa que parece ter suscitado exclamações, é o fato de ficar com a mãe nua no banheiro. Ele tem colocado esse fato pra mim, já em umas duas ocasiões, o que me parece não estar sendo associado de maneira tão natural por ele, já que vem relatar o fato da nudez espontaneamente… Ele não me relata que a mãe deu banana para ele comer, por exemplo…”

A criança fala sobre o que ela vive, pensa, observa. Precisamos, aqui, diferenciar um simples relato de um questionamento diante de posturas diferentes em relação à nudez e até mesmo de uma inquietação sobre alguma situação vivida (o que não parece o caso por este relato).

Vale lembrar que aos 4 anos a criança está no ápice das descobertas da sexualidade. Falar sobre nudez, querer saber como os bebês entram e saem da barriga, apontar para as diferenças de gênero são alguns assuntos presentes nas suas conversas com crianças e adultos. Daí a “ênfase na nudez de todos juntos no banheiro” ou falar sobre ter ficado com a mãe nua no banheiro. A criança quer entender os mistérios e verdades da sexualidade. Nosso grande desafio é decifrar o que ela quer dizer ou saber quando seus relatos e questões não vêm de forma explícita.

“Acredito não ter havido nada demais no banho, mas o que me preocupa é a reação dele de uma não-naturalidade pelo nu coletivo. Digo não-naturalidade, pelo fato de vir me relatar espontaneamente. (…)”

É muito difícil dizer de antemão qual será a reação da criança frente ao nu coletivo no futuro. Atualmente, ao que parece, a criança encara o nu com naturalidade e espontaneidade, uma vez que ela fala sobre o assunto. Sem sombra de dúvida, ela fala porque tem alguém que a escuta e que ela confia.

A melhor maneira de manter e fortalecer este laço de confiança é a coesão nas atitudes de cada um dos cuidadores da criança. Por isto, digo mais uma vez o quanto é importante os pais conversarem e encontrarem pontos comuns que favoreçam a criança na aquisição de habilidades para cuidar do próprio corpo.

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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O uso da roupa de banho pelo adulto no banho com a criança

Em A nudez dos pais diante dos filhos, uma mãe nos escreve: “minha filha tem 4 anos e quero saber se tem problemas ou o que o pai deve falar quando toma banho com ela porque ele usa sunga. E ela sempre pergunta porque ele está usando; ela já viu que ele tem um p… O que fazemos!!! Não gostaria que tanto ela quanto ele tivesse vergonha um do outro. Queria que fosse uma coisa normal para ela…”

Pelo breve relato da mãe, podemos pensar que este pai usa sunga pelo desconforto que sente em estar nu na frente da filha, ao menos no banho. Diferentemente de outras situações de nudez, como na troca de roupa, o momento do banho é o que costuma causar maior constrangimento, visto que a exposição do corpo ao outro é total e por um tempo e proximidade física maiores.

Para quem já sentiu e sente vergonha em qualquer que seja a circunstância, não é difícil compreender a atitude deste pai. Diante do que constrange, a vontade é sumir, “cavar um buraco e entrar nele”, ou fazer com que o agente do desconforto suma. Por isto, a sunga aparece como uma solução fácil e imediata, aparentemente eficaz.

Para a criança, contudo, a história é outra. Aos 4 anos ela dificilmente experimentou sentimentos de incômodo e vergonha por  estar com o corpo despido diante de outra pessoa (em geral esta vivência tem início entre os 6 anos e a entrada na puberdade). Ela também aprendeu que roupa de banho é para ser usada no banho de mar, rio, piscina, cachoeira, e que banho de chuveiro e banheira pedem corpo nu. Por estas razões, ela não vê sentido no uso que o pai faz da sunga durante o banho.

Ao perguntar-lhe por que ele toma banho de sunga, a filha, mais do que buscar uma explicação para este gesto um tanto estranho, coloca em pauta a ambiguidade do mostrar-esconder, do permitido-proibido, bem como a transgressão paterna “eu ensino, mas não sigo” (a regra cultural do uso da roupa de banho – sunga, biquíni e maiô).

Embora a sunga esconda o genital, ela não consegue encobrir os sentimentos despertados pela nudez, nem a curiosidade infantil sobre as diferenças de gênero e diferenças entre o corpo adulto e o da criança. De “tapa sexo”, mais cedo ou mais tarde, a sunga se transforma num recurso contraditório e ineficiente, criando novos incômodos e inquietações para todos os envolvidos na situação.

Se o pai não se sente à vontade em estar nu diante da filha, isto precisa ser respeitado. Uma criança que não vê o pai nu, não gosta menos dele ou tem mais dúvidas sobre a sexualidade humana. O que nos faz gostar mais ou menos de alguém é a espontaneidade, a confiança e o respeito, que só são vividos integralmente quando sabemos até onde podemos ir. Estes são os mesmos ingredientes que permitem o diálogo franco com a criança, mesmo que franqueza seja dizer que não sabe ou não se sente bem em conversar sobre determinado assunto (neste caso, é necessário encontrar alternativas para que as questões dos pequenos não fiquem sem resposta).

Então, como desinstalar a prática do banho com sunga?

Obviamente, não é ficando sem sunga. Aos 4 anos a criança já tem condições de começar a se banhar sozinha ou com pouca ajuda. Portanto, a transição deve focar no seu crescimento e autonomia. O pai pode continuar responsável pelo banho da filha enquanto for necessário, orientando-a e ajudando-a do lado de fora do chuveiro ou banheira, vestido como em qualquer outra situação de cuidado para com a filha.

É muito importante que esta orientação não se restrinja apenas aos cuidados de higiene, mas abranja também as questões ligadas à curiosidade e manifestações sexuais, incluindo os conceitos de privacidade e intimidade. Com regras e limites claros, eliminamos as mensagens contraditórias, como tentar disfarçar o indisfarçável, instalando o respeito ao outro e, por consequência, a confiança mútua.

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A nudez dos pais diante dos filhos

Alguns pais/mães encaram a questão da sua nudez diante da criança com muita naturalidade: se despem total ou parcialmente diante dos filhos, tomam banho com a prole ou andam sem roupa pela casa. Outros optam por preservar sua intimidade, não se colocando pelados na frente dos filhos, nunca ou salvo algumas exceções. A grande maioria, contudo, tem um percurso bastante parecido: enquanto a criança é bem pequena, estar vestido ou não na frente dela não faz a menor diferença. Porém, conforme ela cresce e começa a se interessar pelo corpo do adulto, lançando perguntas, olhares e mãos curiosas, o que era cotidiano, pode começar a causar certo incômodo e dúvidas nos pais. Na nossa cultura, onde o nu é da ordem do privado, é bom que cause.

Desde muito pequena, o corpo da criança é fonte de descoberta e prazer. Chupar o dedo, brincar com partes dele, dar risada na troca da fralda, são alguns exemplos clássicos de que a manipulação do corpo é prazerosa. É uma fase em que a criança está centrada nela mesma. Por volta dos dois anos, ela se dá conta, de fato, da existência do outro, passando a ter maior interesse por ele e interagindo mais com as pessoas a sua volta. Entre os três e quatro anos a criança começa a perceber as diferenças sexuais, interessando-se ainda mais pelo seu próprio corpo, pelo corpo de outra criança e pelo corpo do adulto. Guiada pela curiosidade, ela pergunta se homem usa brinco, se mulher pode ter barba; constata que há homens que têm cabelo grande e mulheres cabelo bem curtinho, e computa, em alto e bom tom, quantos “pipis” e “periquitas” têm no elevador, referindo-se ao número de homens/meninos e mulheres/meninas naquele minúsculo espaço. Não existe malícia ou vergonha. A sexualidade é um assunto como qualquer outro.

Diante dos pais nus, ela aponta para o que balança e toca (ou tenta tocar) no que não tem, pelo simples interesse em conhecer as diferenças. Neste momento, em geral, os pais se perguntam: Posso ficar nu diante dos meus filhos? Até que idade o pai pode ficar pelado na frente da filha e mãe na frente do filho? Tem algum problema a família toda tomar banho junto?

Antes de responder a estas e outras perguntas que seguem nesta direção, é importante que os pais percebam, individualmente, enquanto homem e enquanto mulher, como se sentem nus diante dos filhos. Como são indivíduos diferentes, nem sempre vão sentir a mesma coisa, o que não é nenhum problema para a criança.

Problema para a criança, e toda a família, surge quando o que se sente é diferente do que se vivencia diante da nudez. Existe uma inibição por parte dos pais em expor seu corpo e ainda assim, por qualquer razão (mesmo que seja a praticidade), a nudez acontece? Existe um prazer explícito ou velado, mesmo que não seja genital (o prazer sexual adulto), ao ficar nu diante dos filhos (prazer em ser bacana, em curtir um banho conjunto, em trocar a roupa do filho que já tem autonomia para se despir e vestir sozinho, etc.)?

Ainda que para os pais sua própria nudez se isente de qualquer inibição ou prazer, para a criança, estar diante do corpo adulto descoberto provoca sensações e sentimentos que ela não é capaz de nomear, como excitação ou identificação com o corpo do adulto. Isto lhe é bastante confuso. Por esta razão, a exposição gratuita ao nu adulto (incluindo publicidade, novelas, filmes e afins) deve ser evitada dos 3-4 anos até a adolescência, fase em que se adquire um corpo “igual” ao do pai ou da mãe.

No entanto, embora devam ser evitadas, há situações em que não há como se esquivar da nudez adulta diante da criança, como no vestiário de um clube. Estas são situações esporádicas e não rotineiras. No dia a dia deve-se priorizar espaços privativos para a intimidade de cada membro da família. O banho, evento mais comum da exposição do corpo, deve ser da criança ou do adulto. Quando a criança ainda precisa de cuidados para se banhar, se enxugar, despir-se ou se vestir, os pais devem exercê-los vestidos, mostrando que aquele é um momento da criança. Pais que usam sunga ou mães que colocam biquíni/maiô para dar banho dos filhos (e, pior ainda, para tomar banho com os filhos) transmitem uma mensagem ambígua, do mostrar sem poder mostrar, do natural-artificial. Filhos aprendem que aquelas partes do corpo são carregadas de contradição e pudor.

Não expor a criança à nudez adulta não a impedirá de continuar com suas investigações sobre as diferenças sexuais. Para isto existem seus pares, crianças da mesma idade, um pouco mais novas e um pouco mais velhas; existem livros, histórias e observações da vida real. Existe, principalmente, o momento certo de conviver com o corpo nu do adulto, que é a partir da adolescência, quando os corpos se equiparam.

Na exposição de corpos, muitas crianças incomodam-se diante da nudez, trilhando seu próprio caminho em busca de privacidade. Por si só, evitam estar diante do adulto nu, não aceitam ajuda na troca de roupas ou na hora do banho, trocam-se de costas, fecham portas em situações em que estão despidas. Os pais precisam acatar este desejo de privacidade, reforçando, inclusive sua importância. Mais do que a vergonha, o que está em jogo é a intimidade, a privacidade e o cuidado e respeito ao corpo. Da mesma maneira, os momentos de intimidade dos pais precisam ser demarcados e sinalizados para que tanto a criança quanto os pais saibam quais situações são coletivas e quais são individuais.

Quando os espaços privativos para intimidade são instalados e respeitados, a criança aprende que tem coisas que são só suas e outras que podem ser compartilhadas; aprende a reconhecer o que quer ou não, o que lhe causa prazer ou não, quem pode mexer no seu corpo ou não, para quem pode mostrar o corpo ou não. Sabendo dos seus limites, a criança aprende a respeitar o próprio corpo e, consequentemente, o corpo do outro, evitando a confusão de sentimentos, a erotização precoce e situações de vulnerabilidade.

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