Temos que falar sobre isso

Neste texto escrevi um pouquinho sobre o quanto os blogs maternos – e outras redes sociais – têm cumprido com um importante papel no apoio e, consequentemente, na construção da identidade de muitas mães.

As vivências da maternidade, incluindo a gestação e o parto, são intensas e muitas vezes bastante solitárias. Viver cada uma destas experiências em silêncio geralmente é muito perturbador. Falar sobre elas é um caminho para elaborar o que foi vivido, e assim, encontrar novos significados para a experiência. Por isso, mães contam e recontam inúmeras vezes sobre sua gravidez, parto, pós-parto, amamentação, relação com a família, com o bebê, com o trabalho e sobre tudo que muda com a maternidade.

Temos que falar sobre isso é uma dessas redes de apoio virtual. Idealizada por Thais Cimino, o Temos que falar sobre isso é uma plataforma de relatos anônimos de mães que tiveram depressão pós-parto, transtornos ligados à saúde mental na maternidade, transtornos no período perinatal (desde a concepção até o primeiro ano do bebê), dificuldades durante a gravidez, problemas com amamentação, perda gestacional, partos traumáticos e violência obstétrica. A plataforma também reúne uma série de textos sobre estes temas, incluindo os publicados pelo Ninguém cresce sozinho.

Clique aqui para conhecer esta rede! Ou junte-se a ela pelo Facebook.

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Blogs maternos: um apoio real às mães

Desde 2009 acompanho blogs maternos. No início, eles não tinham o perfil mercadológico que muitos têm hoje. Não sei se porque a ferramenta era pouco utilizada ou conhecida, mas mães, e alguns pais, relatavam suas experiências e trocavam informações numa espécie de pracinha virtual. Quando havia venda de produto, este era produzido por quem escrevia.

Atualmente, vemos em muitos blogs um bombardeio publicitário dos mais diferentes produtos e serviços, inclusive de grandes empresas. Como toda relação existe pelo menos dois lados, entre blogueiros e anunciantes não poderia ser diferente.

Por alguns relatos, é possível dizer que existe um número de mulheres que abdicou do trabalho formal e da carreira que tinham antes de terem filhos para cuidar da própria cria. De casa, com os filhos e pensando neles, blogar sobre ser mãe e infância, talvez seja um bom jeito de estar ligadas a eles e ao mundo, de encontrar sentido para a nova experiência e ainda ganhar algum dinheiro. Equação bastante positiva para muitas famílias.

Do lado das empresas, estas sabem que nos Estados Unidos um em cada três blogueiros é mãe e 52% dos blogueiros são pais de filhos com menos de 18 anos. Ou seja, as empresas sabem onde encontrar os consumidores dos produtos destinados a gestantes, bebês, crianças e mulheres. A mesma pesquisa revela que as mães conectadas às mídias sociais (72,5% delas estão no Facebook, e 35% no Blogger e WordPress, de acordo com outra pesquisa também realizada pela Nielsen) não se envergonham em compartilhar seus conselhos e opiniões sobre produtos com os outros.

As estatísticas estão aí para mostrar que os publicitários acertaram em cheio: mulher, quando vira mãe, transforma-se numa vendedora que nem ela mesma sabia ser. Mãe vende o que ela acredita e o que funciona para ela, para o filho e para a nova família. Mãe vende o oposto do que a decepciona ou desilude o filho. Mãe vende sonhos e realidade porque não existe vida sem eles.

Qual mãe não tem uma receita infalível para criança que não come, não dorme, faz birra, tem dor de barriga? Qual mãe não faz uma lista do que deu certo e errado na maternidade e passa para as amigas que logo enfrentarão experiência semelhante? Qual mãe não abre mão de um objeto, um ritual ou uma palavra quando o assunto é um impasse com o filho? Ora, o que ela viveu é a verdade, a sua verdade. Ela se apropria deste saber como ninguém e por isso se vê autorizada a compartilhá-lo de maneira tão genuína e, por vezes, imperativa. Ela precisa dele para ocupar seu lugar de mãe capaz de cuidar da sua prole.

O saber de uma mãe cai feito luva em outra. Noutra, parece tormenta. O saber e a verdade das mães, falam de suas histórias pessoais, familiares, da relação com o filho, com o pai do filho, com sua família extensa e com o mundo. É por isso que nos blog maternos há opiniões tão contraditórias, mesmo que bem fundamentadas, sobre um mesmo tema. Os blogs maternos são lugares para estes encontros e desencontros. É lugar de acolhimento e puxão de orelha. Coisas de mãe… Coisas de iguais e de diferentes, tudo ao mesmo tempo.

Há quem desconfie um pouco desses blogs, achando que o que tem neles é algo próximo do exibicionismo da vida íntima. Sem dúvida, eles habitam no tênue limite entre a vida privada e a pública, assim como é a experiência de se fazer mãe a cada dia.

Mesmo que haja alguma forma de exibição, penso que ela tem um sentido singular para cada mãe que por aí escreve. Talvez ela acredite que sua experiência possa ser semelhante a de outras mulheres. Talvez ela precise ser vista por alguém para ser cuidada ou mesmo para sair da solidão. Talvez ela precise mostrar seu bebê ao mundo porque não consegue fazê-lo em seu meio. As razões podem ser inúmeras e todas têm importância única para cada mãe. O que a motiva escrever num blog (e ler tantos outros) pode ter razões que a própria razão desconhece.

As mudanças que a mulher vive com a maternidade são enormes e profundas, especialmente na gestação e no primeiro ano de vida do bebê. Para cuidar ela precisa ser  apoiada e sentir-se potencializada, o que nem sempre é possível em sua rede relacionamentos do mundo real.

Com os grupos familiares cada vez menores e espalhados em territórios diferentes, sem mãe, tia, avó, primas, vizinhas, mulheres de referência que anteriormente estavam por perto acolhendo, escutando e compartilhando a própria experiência com a maternidade, a mulher de hoje encontra nas redes virtuais a rede de apoio que tanto precisa. Suas angústias, dúvidas, temores e incertezas se deparam com palavras que a empoderam em tão nobre função. Isso faz com que os blogs maternos, mais do que detentores de saberes e verdades, cumpram com a função de rede de apoio real e de inserção de mulheres em grupos sociais que somente a maternidade as permite pertencer, ajudando-as, assim, a construir sua identidade materna. Quem é a mulher-mãe de hoje, os blogs estão aí para dizer!

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