Existem diversas formas de dizer “não” para as crianças

Sim é sim; não é não. Em qualquer resposta dada as crianças, o importante é que os limites, assim como as possibilidades, sejam apresentados, assimilados e acomodados por elas. Adultos, precisam assegurar seu posicionamento para que as crianças possam nortear suas atitudes.

Sabemos da importância dos limites a serem oferecidos às crianças na infância. Como diz o pediatra Mário Cordeiro: “Pais permissivos geram crianças que não conhecem os limites e que cultivam o egocentrismo, o narcisismo e a omnipotência (…) Se uma criança se habitua a crescer sem limites não vai saber lidar com a frustração, vai fazer birras, vai sofrer e… “faz sofrer muita gente”.

Inserir limites não é apenas dizer “não” às crianças; é também ofertar possibilidades para que elas possam experimentar e fazer escolhas cada vez mais livres, de forma consciente e responsável. Um ato de aprendizado conjunto entre pais e filhos.

Como ainda estão em formação, crianças testam e questionam as mais diversas situações como forma de validar as regras/limites impostos, assim como o respeito a si e ao outro. Quando o que lhe é colocado revela certa contradição vinda por parte do adulto, as indagações aumentam ainda mais. Dizer “não” quando se quer dizer “sim” ou vice-versa faz com que as crianças sintam-se confusas, inseguras, com dúvidas sobre que caminho seguir e, até mesmo, agressivas, birrentas, podendo transgredir regras e limites inseridos.

Em todo diálogo está embutido sentimentos, valores e lógicas que devem estar alinhados para que as mensagens que estão por detrás do discurso não atrapalhem a comunicação junto à criança. A clareza na informação é essencial para que ela possa compreender e lidar com cada situação que vivencia.

Ao invés de dizer “não faça” ou “não pode” é válido os adultos substituírem essas expressões por outras que dão explicações e justifiquem as restrições e cerceamento. Por exemplo: “Você pode chutar a bola no chão, mas arremessar a bola só pode lá fora.” ; “Você pode chupar sorvete hoje, mas somente após o almoço.”.

 Se a criança quer algo ou se ela está fazendo coisas que são inadequadas ou proibitivas, podemos dizer um “não” com um “sim”, quando oferecemos a ela novas possibilidades. Desta forma, o efeito da comunicação gera empatia; a mensagem e o diálogo são promovidos; o entendimento é maior e menos restritivo, sempre demarcando os contornos necessários.

Quando o “não” for explícito, objetivo e claro ele será bem ouvido. Ao perceber outras oportunidades e possibilidades, assim como, entender os argumentos bem embasados e tiver confiança na relação com o adulto os “nãos” serão incorporados pela criança sem tantos entraves.  Isso só é possível quando o adulto é coerente (inclusive em situações semelhantes na sua própria vida) e cumpre com o que é dito e acordado com a criança.

Toda comunicação é um ato relacional. Através dela transmitimos intenções, sentimentos, necessidades, pensamentos, conceitos próprios e valores, conscientes e também inconscientes.  Ao estabelecermos um diálogo, muitas mensagens são transmitidas e a partir delas a relação vai se construindo, de forma positiva ou negativa para ambas as partes.  No caso das crianças, o que lhes é dito pode transformar e interferir no seu desenvolvimento. Um pai ou uma mãe que diz ao filho: “Você é ruim em matemática, olha sua nota! Não vai mais brincar à tarde! Vai estudar!” ou “Você é desorganizado, seu quarto está sempre uma bagunça”, estão enviando à criança uma mensagem negativa, cheia de rótulos e julgamentos. Ou, quando dizem: “Nós não vamos ao passeio porque não comeu tudo”, estão transmitindo conceitos que podem fazer uma criança se sentir ruim, culpada, e não amada.  Nos exemplos citados acima, o diálogo poderia ser: “É preciso estudar e dedicar-se mais à matemática”; “Precisa aprender a cuidar melhor do seu quarto e das suas coisas”; “Vamos comer bem para que possamos sair para o passeio; ele só acontecerá após a refeição de todos”.

Difícil é filtrar os discursos, principalmente quando estamos envolvidos e carregados de emoção. Os conflitos podem vir facilmente e pais, diante deles, podem acabar cedendo com mais facilidade aos pedidos e imposições das crianças. Os “nãos” vêm cada vez mais fortes e potencializados como forma de defesa para fazer valer o que queremos. Saí surgem as guerras infindáveis entre pais e filhos.  Perde-se o diálogo e se ganha monólogos.

Sem nos darmos conta, uma simples comunicação pode se tornar violenta, reverberando em ambos os lados sentimentos dos mais variados tipos e gerando sensações desconfortáveis que de algum modo interferirão na relação como um todo. Crianças sentem-se punidas sem saber por que e, por outro lado, pais podem ser rígidos demais, ao gritar e se impor de forma dura, sem a situação exigir, quando se sentem confrontados, ameaçados e impotentes.

As mensagens enviadas, principalmente as embutidas “desnecessariamente”, são muitas e cuidar da repercussão delas junto à criança se faz necessário.  Para isso, é fundamental podermos observar, identificar e nomear os sentimentos que são transformados em “nãos” ou em restrições descabidas. Devemos ensinar as crianças a expor e explicitar suas necessidades, desejos e emoções, fazendo perguntas sobre elas antes de encerrarmos um diálogo com “nãos” sem sentido.  E ainda, traduzir junto com a criança seus pedidos. O ganho disso: empatia, confiança e troca afetiva entre pais e filhos!

Anúncios

Birra dos 2 anos: uma oportunidade de aprendizagem para pais e filhos

Uma mãe nos pergunta: “Gostaria de saber como intervir nas birras  e auxiliar a criança quando ela está com 2 anos de idade”.

Do ponto de vista psíquico, um bebê nasce fundido à sua mãe, como se ele e o ambiente fossem uma coisa só. Durante seu desenvolvimento, sua principal tarefa consiste em diferenciar-se deste ambiente (primeiramente a mãe; depois a família e seu meio social) para alcançar autonomia e independência.

Aos 2 anos, a criança, em geral, já se reconhece como um ser não mais fusionado e totalmente dependente de seu meio. Ela diz “eu” (ao invés de o nenê ou o João, para se referir a ela) e “é meu” (para defender o que deseja ou é sua propriedade). Em meio a esse reconhecimento de si mesma e do outro, a criança vai se posicionando no mundo, integrando suas experiências e construindo sua própria identidade. Consequentemente, ela se expressa de forma mais ativa para satisfazer-se e afirmar para si e para o mundo o que é importante para ela.

Nesse esforço de diferenciação e validação de seus próprios desejos e pensamentos, nem sempre a criança consegue comunicar com clareza o que ela está vivenciando. Ela chora, grita, faz escândalo, se joga no chão, esperneia, agride, entre outros comportamentos, como forma de explicitar o que quer, sente, pensa e vivencia com ela mesma e nas relações com as pessoas à sua volta.

Como as crianças aos 2 anos não conseguem transformar claramente em palavras o que querem, sentem, pensam e vivenciam (esse é um processo bastante complexo, que implica em articulações que vão além de um vasto vocabulário), as birras se tornam comum diante da dificuldade verbal e de compreensão do que está sendo solicitado, sentido, desejado e pensado. Muitas vezes, temos a sensação de que as birras surgem “do nada”, sem motivo aparente ou por um motivo que para muitos olhos não têm razão de existir. Outras vezes, elas são vistas como um querer fora de hora ou uma chatice desnecessária. Isso, porque elas podem decorrer de pensamentos e/ou sentimentos não verbalizados pela criança e/ou compreendidos, ou mesmo ouvidos, pelos adultos.

Com as birras, as crianças comunicam seu desconforto. Portanto, elas também são uma maneira encontrada pela criança de solicitar atenção e cuidado, de demonstrar que uma necessidade física não está sendo atendida (como sono, fome e dor), de expressar sentimentos como estresse (excesso de estímulo), tédio, angústia, insegurança, medo, entre outros.

As birras infantis, além de serem uma forma de comunicação, são um “teste de poder” por parte das crianças. Na medida em que seu “eu” vai se manifestando e as experimentações se ampliam, é natural que a criança experimente até onde ela e quem está ao seu redor pode ir. Ao mesmo tempo, crianças tentam compreender os limites (os delas e os que lhe são impostos) e, ainda, questionar aquilo que não vem delas. Com isso, um “não” diante de seus desejos, ou um pedido ou regra vinda de fora podem se tornar bem desagradáveis a elas. Vamos lembrar que nesta idade as crianças demonstram seus desejos na espera de conquistá-los, mas precisam aprender a lidar com a frustração quando o que almejam não é alcançado. Sendo assim, as birras são também uma oportunidade de ensinar a criança sobre os limites que a vida impõe.

Algumas crianças são mais insistentes e resistentes, fazendo birras constantes; outras manifestam tais comportamentos de forma mais amena. Por que será? O que as crianças querem nos dizer quando esperneiam, não escutam (ou fingem não ouvir) e batem de frente com o adulto?

Estas questões nos fazem pensar sobre as relações entre crianças e adultos, principalmente seus cuidadores. Relações mais permissivas, mais agressivas ou rígidas; relações sem afeto, sem limites claros e definidos (ou ambíguos); relações de manipulação, marcadas pela indisponibilidade de cuidado e atenção, ou ordens/regras rígidas e em excesso, são alvo de desentendimentos e birras infantis (e aqui incluo os adultos, que podem se comportar de maneira birrenta também). Crianças que não são atendidas em suas necessidades físicas e emocionais são mais propensas às birras.

Então fica a pergunta final: Será que algumas birras não são um pedido de ajuda da criança? Apesar de ser um momento que comumente nos afastamos dos pequenos, as birras são um convite ou uma convocação da criança para que os adultos possam ajudá-la a reconhecer e entender o que ela vivencia e experimenta em seu mundo complexo e com tantas descobertas. Crianças nesta idade precisam ser contidas pelo adulto, pois não conseguem ainda se acalmar sozinhas, principalmente quando estão diante de uma tempestade de emoções que ainda não entendem.

Cabe ao adulto tentar nomear o que se passa com a criança para que ela possa aprender a reconhecer o que sente, validar o que pensa, entender o que pode, e assim encontrar outras maneiras de se expressar.

A birra pode ser um momento de compreender o que a criança solicita e de ensiná-la sobre o que é possível ou não dentro do seu desejo. Que tal parar, ouvir e conversar para que estas birras não se estendam?!

Algumas questões que envolvem o banho do filho com os pais

“Meu filho tem quase 4 anos, mas não vive comigo, vive apenas com a mãe.

Mas, eu sempre tomei banho com ele, desde uns 6 meses de idade, quando ainda morávamos juntos. A mãe dele também toma banho com ele.

Eu achava que o problema maior estaria nele tomar banho com ela, já que é mulher. Não quando era bebê, pois não entendia nada, mas principalmente quando ganha mais idade e passa a se lembrar das coisas e ter curiosidades.”

A atitude de tomar banho com os filhos é muito comum entre os pais até o momento em que as crianças começam a questionar sobre as características sexuais e as diferenças entre adultos e crianças – mais ou menos por volta dos 23 anos. No entanto, vale ressaltar que desde muito pequeninas elas observam tudo. Mesmo sem expressar em palavras o que veem e sentem, as crianças registram suas vivências e sentimentos que serão ingredientes na construção de sua vida afetiva.

“Há um ano eu pedi a ela que não tomasse mais banho com ele. Eu também comecei, mais recentemente, a dar banho nele separado, usando roupas, pois ele começou a olhar o meu pênis e querer colocar a mão e comparar. Disse a ele que ele tinha o dele, pra ele mexer… E pra não mexer no meu…”

A criança é um ser sensorial. Por isto ela “olha com as mãos” quando se depara com algo novo, diferente. Em se tratando da nudez, a abordagem deste pai foi ótima – a criança tem seu próprio corpo para conhecer, manipular; o genital do outro é do outro e, portanto, não deve ser tocado. Uma intervenção simples e objetiva que ensina a criança a respeitar e proteger seu próprio corpo e, por consequência, respeitar o corpo de outras pessoas.

Mesmo que o pai tenha se sentido incomodado com a situação, ele focou na questão da intimidade, fundamental de ser ensinada desde bem cedo para as crianças.

“Ocorre que ele tem me relatado, ultimamente, espontaneamente, algumas situações que acontecem no dia a dia dele, onde ele toma banho com a mãe e com o namorado dela (todos juntos). Achei estranho, principalmente, pelo fato dele dar ênfase na nudez de todos juntos no banheiro.”

É sempre importante identificar os sentimentos que nos atravessam em cada situação de nossas vidas. Em se tratando de nudez, ex-mulher e padrasto do filho, não há razão para ser diferente. O que é “estranho”, o namorado da mãe do filho também tomar banho com o menino ou o destaque que a criança dá à nudez?

Já houve por parte do pai um pedido à mãe do filho para que ela não tomasse banho com o menino, o que não foi por ela acatado. O que ela pensa sobre o assunto? Por que não mudou a prática do banho a dois ou três? Como ela lida com as questões que o filho apresenta sobre a sexualidade (elas certamente aparecem dentro e fora do banho)? Muito provavelmente a mãe vivencia a nudez diante do filho diferente do modo como o pai a vivencia, o que é mais do que esperado, já que são pessoas distintas.

No entanto, em se tratando de uma criança que tem pai e mãe que dividem os cuidados para com ela, é fundamental que ambos encontrem um ponto comum sobre suas atitudes perante o banho do filho.

Quando as regras do pai diferem das regras da mãe (sejam eles casados ou não) a criança percebe as diferenças de atitude e permissões e passa a questioná-las. Embora as diferenças sejam saudáveis e necessárias, nas regras que visam o desenvolvimento da criança, as divergências devem inexistir ou ser mínimas. Para uma criança com 4 anos, a regra do banho e das demais atividades exercidas no banheiro deve priorizar sua autonomia e individualidade, e não a facilidade ou o prazer do adulto (supõe-se que a prática do banho não individualizado dá-se por pelo menos um desses motivos). Por isto, é fundamental que pai e mãe conversem e em entrem num consenso decidindo o que é melhor para a criança do ponto de vista do favorecimento da aquisição e uso de novas competências pela criança, como lavar-se, secar-se, limpar-se.

“E relatou que aconteceu mais de uma vez. Acho que o fato de ver os ‘namorados’ nus pode ter despertado alguma dúvida na cabeça dele, pois tem perguntado se “pode”. Eu não sei o que responder…”

Existem “dúvidas” que não conseguimos sanar porque elas aparecem quase sempre silenciosamente e logo são esquecidas (este é um mecanismo psíquico chamado recalque, inevitável e presente em todos os seres humanos). Outras, no entanto, são passíveis de entendimento e resposta.

O que a criança está querendo saber ao perguntar “se pode”? É a criança tomar banho com a mãe e o namorado dela? É a mãe tomar banho com o namorado? É…? É…? Fica difícil responder uma pergunta que não sabemos exatamente qual é.

Uma estratégia que funciona muito bem quando as perguntas ou colocações feitas pelas crianças não estão muito claras é devolver-lhe a pergunta ou fala. Ao fazer isto, damos-lhe a oportunidade de refazer sua questão e de dialogar, não correndo o risco de responder o que ela não perguntou ou de formular uma pergunta ou resposta com base em nossas impressões e suposições.

“Outra coisa que parece ter suscitado exclamações, é o fato de ficar com a mãe nua no banheiro. Ele tem colocado esse fato pra mim, já em umas duas ocasiões, o que me parece não estar sendo associado de maneira tão natural por ele, já que vem relatar o fato da nudez espontaneamente… Ele não me relata que a mãe deu banana para ele comer, por exemplo…”

A criança fala sobre o que ela vive, pensa, observa. Precisamos, aqui, diferenciar um simples relato de um questionamento diante de posturas diferentes em relação à nudez e até mesmo de uma inquietação sobre alguma situação vivida (o que não parece o caso por este relato).

Vale lembrar que aos 4 anos a criança está no ápice das descobertas da sexualidade. Falar sobre nudez, querer saber como os bebês entram e saem da barriga, apontar para as diferenças de gênero são alguns assuntos presentes nas suas conversas com crianças e adultos. Daí a “ênfase na nudez de todos juntos no banheiro” ou falar sobre ter ficado com a mãe nua no banheiro. A criança quer entender os mistérios e verdades da sexualidade. Nosso grande desafio é decifrar o que ela quer dizer ou saber quando seus relatos e questões não vêm de forma explícita.

“Acredito não ter havido nada demais no banho, mas o que me preocupa é a reação dele de uma não-naturalidade pelo nu coletivo. Digo não-naturalidade, pelo fato de vir me relatar espontaneamente. (…)”

É muito difícil dizer de antemão qual será a reação da criança frente ao nu coletivo no futuro. Atualmente, ao que parece, a criança encara o nu com naturalidade e espontaneidade, uma vez que ela fala sobre o assunto. Sem sombra de dúvida, ela fala porque tem alguém que a escuta e que ela confia.

A melhor maneira de manter e fortalecer este laço de confiança é a coesão nas atitudes de cada um dos cuidadores da criança. Por isto, digo mais uma vez o quanto é importante os pais conversarem e encontrarem pontos comuns que favoreçam a criança na aquisição de habilidades para cuidar do próprio corpo.

__________________________________________________________________________________________

O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre sexualidade infantil. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

__________________________________________________________________________________________

Alguns cuidados importantes no primeiro processo de adaptação da criança na escola

O processo de adaptação na escola é um período de múltiplas integrações: criança-família, criança-escola, família-escola, não se restringindo apenas às crianças que ingressam na vida escolar. As mudanças de escola, de ciclo, de turma, de professores e até mesmo do período de férias para o período de aulas também implicam numa adaptação ou, ao menos, numa readaptação à rotina, espaço e pessoas.

Por mais que haja mudanças para as crianças e famílias que já frequentam o ambiente escolar, a grande transformação ocorre quando a criança vai pela primeira vez para a escola. Pais e filhos saem do conhecido meio familiar para um ambiente com caras e coisas às vezes bastante desconhecidas. De um lado, ganham novas possibilidades de relacionamento e aprendizagem; de outro, se deparam com certa dose de ansiedade, insegurança, incertezas e medos decorrentes da situação inédita.

Algumas crianças lidam muito bem com o que lhes é apresentado, nos primeiros dias ou em todos eles. Outras observam ao seu redor antes de experimentar o que lhes é oferecido, sozinhas ou com o apoio de alguém. Há aquelas que choram, gritam, esperneiam, emudecem, emburram, no meio de todos ou longe do buchicho. Existem crianças que adoecem, tamanho o estresse emocional. Tem as que grudam na mãe ou no pai e parecem que nunca, mas nunca mais, vão se desgrudar.

Do lado dos pais, as vivências também variam muito. Há os que se culpam em deixar o filho na escola para trabalhar; os que sentem alívio porque terão mais tempo para si mesmo ou para outras tarefas; os que experimentam um vazio enorme sem o filho do lado; os que mesmo sabendo que a escola tem uma equipe preparadíssima para cuidar de seu pequeno, morre de medo de não darem conta dele; os que dizem: “larga do meu pé!”; os que choram mais do que criança na hora da despedida, e muitos mais.

Cada pessoa é única e lida de modo muito particular com as mudanças, separações e novidades, de acordo com sua personalidade, maturidade emocional e momento de vida. Por isto, para garantir que a transição do ambiente familiar para o escolar transcorra da melhor maneira possível, é necessário:

1)      Estabelecer uma relação de confiança entre a escola e a família – mesmo que esta relação se estreite ao longo da convivência entre ambas, é fundamental que os pais sintam-se seguros com a escolha da escola, que deve ir de encontro ao que eles esperam do ponto de vista pedagógico, ético e financeiro. Pais inseguros com sua escolha transmitem insegurança para o filho.

2)      Participar a criança sobre seu ingresso na escola. Quando possível, levá-la para conhecer o ambiente escolar antes do início das aulas e deixá-la se envolver com a aquisição dos materiais e uniforme, se houver. Explicar o que vai acontecer é fundamental para que a criança não seja pega de surpresa. No entanto, é importante tomar cuidado com os exageros e expectativas de como se imagina que a adaptação transcorrerá com a criança. Nem sempre ela acontece da forma imaginada.

3)       Cumprir com os combinados e pedidos feitos pela a escola (muitas escolas fazem reuniões de pais antes do início das aulas para explicarem sobre o período de adaptação) – horários, o que a criança pode ou não levar consigo, participação, local e tempo de permanência dos pais. Ao cumprir com os combinados, a criança sente-se segura e começa a entender o funcionamento do ambiente, podendo, com isto, sentir-se pertencendo ao novo meio.

4)      Pai ou mãe acompanhar a criança no processo de adaptação. Salvo situações muito particulares, que devem ser discutidas e acertadas com a escola, a adaptação na escola é tarefa dos pais (de um deles ou ambos, de acordo com o que foi acertado com a escola). Por mais que os pais tenham seus compromissos e a criança seja cuidada por terceiros, o processo de adaptação é um momento em que os responsáveis pelos filhos devem fazer a passagem do ambiente familiar para o escolar.

5)      Reservar na agenda um tempo mais longo do que o estipulado pela escola para o período de adaptação. Nunca sabemos como a criança reagirá. Mesmo iniciando o período de adaptação com desprendimento, a criança pode ter, ao longo do processo, comportamentos mais retraídos, precisando da presença de um dos pais por mais tempo. Isto em geral acontece depois que ela percebe que a escola não é mais um lugar de passeio, mas um lugar onde passará parte do dia longe das pessoas/lugares que está acostumada a conviver.

6)      Evitar mudanças concomitantes com a fase de adaptação na escola: retirada de chupeta, fralda, mamadeira, paninho, troca de babá, residência, pequenas cirurgias, dietas, bem como manter rotina da criança em casa, evitando sobrecarregá-la com outras atividades. A escola, por si só, já é intensa o bastante.

7)      Só faltar às aulas se a criança estiver doente ou por motivos de força maior. Qualquer ruptura pode atrapalhar o processo de adaptação.

8)      Evitar fotos e filmagens, que tiram todos do seu foco – crianças porque são convidadas a olhar para os pais, e pais, que não se desligam das crianças. A adaptação não é momento de festa, mas sim um momento de aprender como será a nova rotina.

9)      Não tecer comparações entre um filho e outro, entre um colega e outro. Cada criança é uma e por isto reage de maneira diferente diante de uma mesma situação.

10)   Se a criança tem irmão mais velho na escola, não lhe dar a responsabilidade de cuidar do mais novo. É importante que cada um tenha seu espaço assegurado, sem um peso que não lhe cabe.  Por isto é importante orientar o irmão mais velho a pedir ajuda para um adulto, caso o mais novo venha lhe solicitar.

11)   Diante de qualquer pedido da criança, fazer a ponte entre ela e o professor ou responsável. Desta forma a criança se vê autorizada pelos pais a fazer o mesmo na sua ausência.

12)   Nunca sair da escola sem se despedir da criança. Diga-lhe para onde vai (sala de pais, trabalho, casa) e em que momento vão se reencontrar (na saída da escola, em casa).

13)   Ao deixar a criança na escola, despedir-se dela, dizendo quando irão se reencontrar (na saída da escola, em casa – neste caso reafirme quem irá busca-la). Se é uma criança de colo, ela deve ser entregue ao professor ou responsável, sem esperar que ele faça o movimento de “tirá-la” do colo em que ela está. Com isto evita-se que a criança sinta que está sendo “tirada” do pai/mãe. Se a criança já anda, ela deve chegar na escola andando e não no colo.

14)   Durante o período de adaptação, se possível, evitar rodízio de carona ou transporte escolar. A saída da escola é um importante momento para observar como a criança está e conversar com o professor. Se isto não for possível, deixar claro para a criança como será feito o transporte e apresentá-la ao responsável pelo transporte antes do início das aulas.

15)   Conversar com a criança como foi o dia na escola, deixando-a falar livremente. Caso não queira falar, não insistir, mas observar se há alguma mudança significativa de comportamento em casa.

O tempo que cada criança leva para se adaptar à escola e à nova rotina varia muito de criança para criança. Por isto, nesta fase cheia de surpresas, além do que foi exposto acima, é muito importante que os pais possam reconhecer seus próprios sentimentos diante da situação que está sendo vivida. Assim, terão muito mais condições de reconhecer e dar suporte aos sentimentos, demandas e dificuldades do filho. Uma adaptação bem feita evita readaptações e é uma porta aberta para o bom desempenho escolar. Boas aulas!

__________________________________________________________________________________________

O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre adaptação na escola. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

__________________________________________________________________________________________

O brinquedo ideal

O brinquedo ideal é aquele que permite a brincadeira: a imaginação, a descoberta, a exploração, a imitação, o planejamento, a solução de conflitos, o aprendizado sobre si mesmo e sobre o mundo, a interação com os outros e o ficar só. São os brinquedos que se transformam conforme a brincadeira, no decorrer dela e ao longo do crescimento da criança. Não são engessados, restringindo as possibilidades de brincar.

Quem já observou uma criança brincando com uma boneca que fala frases prontas pôde observar seu encantamento inicial pelo que parecia mágico, a fala. Mas pôde também observar seu rápido desencantamento. A boneca só fala o que ela, boneca, “quer falar”. Ela é dura, não aconchega no colo, não pode ser lavada por causa das pilhas. Se a boneca representa o bebê, os cuidados maternos, a relação de quem brinca com o mundo adulto e infantil, o quê esperar de uma boneca que não permite um diálogo criativo e espontâneo, não permite ser carregada como se deseja, nem introduzir a tão gostosa água de tantas brincadeiras. É compreensível que a magia se dissipe ligeiramente pelos ares.

O que acontece com o tradicional “brinquedo de menina” também ocorre com os trenzinhos que giram numa pista pronta sem participação nenhuma da criança (só montar e observar é muito pouco para chamarmos isto de participação), com os carrinhos que andam pela casa cantando e tantos outros similares que permitem pequena interação.

Brinquedos tão desejados (pelos pais, avós, tios, amigos, criança), implorados e logo deixados de lado. Pense nos brinquedos de sua infância. Pense nos brinquedos de seus filhos. Quais são os inseparáveis, os mais legais de brincar? Quais foram rapidamente esquecidos, deixados no fundo do baú, sem lembrança ou saudade? Certamente os brinquedos que inibiam o brincar, a liberdade de se expressar.

Numa sociedade em que ter vale mais do que ser e dar mais do que estar, não é apenas o bombardeiro da publicidade e as lojas abarrotadas de opções que contribuem com o frenético pedido de “quero este”, “compra aquele”, mas também a impetuosa atitude dos pais de consumar o pedido, muitas vezes imediatamente, abortando  aprendizados tão importantes como o questionamento e a capacidade de espera.

Quando falamos em brinquedo, estamos nos referindo, antes de mais nada, a objetos de desejo, de filhos e de pais. Quantos pais compram um brinquedo, muitas vezes sem o filho ter nascido ou ainda sem idade para usá-lo, só porque o achou bacanérrimo. Aqui temos duas questões importantes que merecem atenção: o desejo dos pais sobrepondo-se sobre ao do filho e o modelo de consumo dos pais, que será o modelo de consumo dos filhos, pelo menos até a adolescência, quando pode haver algum confronto com o modelo parental. Se os pais não param para pensar desde o começo, lá na frente vão se deparar com os desenfreados e insistentes pedidos de “compra, vai”, “eu quero”. E sem saída, acabarão comprando, e o que é pior, educando para um consumo não consciente.

O filho pede, insiste, persiste, “fica doente” se não ganha o tal do brinquedo. Então ele ganha, brinca um pouco e o tão desejado brinquedo cai no esquecimento. Triste fim. Do dinheiro suado, do sonho acordado, da infância que passa.

Sempre é tempo de parar, pensar, rever. Com a aproximação do Dia das Crianças, “dia oficial de ganhar brinquedo” (pelo menos entre a maioria das famílias brasileiras, e é no brinquedo que foco neste texto e não nas alternativas de comemoração da data), experimente escutar o pedido deste ano, não apenas como um pedido, mas como um pedido carregado de significado, ou um pedido que precisa ganhar significado. A criança pede um determinado brinquedo porque os amigos têm e ele não? A criança quer um brinquedo (ou vários) porque foi devorada pelos comerciais da TV? Ela pede um brinquedo porque o achou legal? Quais os benefícios que o brinquedo pode trazer para a criança? O que está por trás do pedido?

Por trás de um pedido sempre há um significado que precisa estar claro para os pais e para a criança. Brinquedo não deve ser ingresso para as rodas de amigos (se assim é, está-se valorizando o ter em sobreposição ao ser, e com isto todos perdem no curto e longo prazo). Brinquedo deve propiciar trocas afetivas e não entrar no lugar do afeto. Brinquedo deve ser escolhido pelo que ele realmente é, e não pelo que ele parece ser. Brinquedo tem que ter qualidade, segurança e longevidade, tanto em termos de durabilidade, quanto em vida útil nas mãos de uma mesma criança.

Brinquedo que se brinca nem sempre é encontrado nas lojas. O primeiro brinquedo de toda criança é o próprio corpo. Evolui para objetos simples, como potinhos encontrados em qualquer cozinha. Uma pedrinha na areia da praça, uma folha do jardim, exercem um fascínio que muitas mesas de atividades cheias de sons e balangandãs não conseguem propiciar por muito tempo. A simplicidade dos brinquedos dos estágios iniciais da vida não pode se perder ao longo do crescimento. Criança precisa do seu corpo para brincar e de brinquedos que não tolham sua criatividade e expressão, como os brinquedos que têm função pré-definida.  Aqui não me refiro aos jogos, que são estruturados, com objetivo definido e de extrema importância no que tange a compreensão e a aquisição de regras, o estímulo do raciocínio lógico e, em muitos deles, a coordenação motora. Brinquedo com função pré-definida são os estereotipados e os que limitam a maneira de brincar.

Brinquedo ideal não é um ideal. É apenas um recurso importante no desenvolvimento da criança e, por esta razão, merece atenção que, infelizmente, nem sempre é dada. Brinquedo ideal pode ser uma árvore, uma piscina, uma bola, uma bicicleta, um bolo na batedeira, uma fita crepe, uma boneca gostosa, um pedaço de pano, um carrinho qualquer, uma bacia com água. O brinquedo ideal está no poder de inventar e transformar. O brinquedo ideal se cria e recria a cada brincadeira, em todos os dias da criança (que, diga-se de passagem, nunca morre em nenhum de nós!). Brinquedo é assunto muito sério. Se ele não tem plasticidade, a criança não aprende a ter jogo de cintura, vital para qualquer ser humano em todas as fases de sua vida. Pense nisto antes de ser fisgado pelas armadilhas do consumo!

%d blogueiros gostam disto: