Por que algumas crianças apresentam recusas alimentares? Como agir quando isto acontece?

Quando falamos em alimentação não podemos restringi-la apenas a seu aspecto físico-nutricional. O ato de alimentar diz respeito à satisfação/saciedade e também à comunhão. Está vinculado ao prazer, à energia de vida, que nutre física, emocional e socialmente. Através do alimento falamos sobre nós e sobre nosso relacionamento com o mundo.

Quando as recusas alimentares acontecem, devemos investigar:

  1. Causas orgânicas – problemas no aparelho digestivo e respiratório, incluindo as intolerâncias alimentares e todas questões ligadas à boca.
  2. Hábitos alimentares – a rotina, o local, os horários regulares e o que é consumido dentro ou fora de casa, revelam a maneira como nos alimentamos. As recusas e aceitações alimentares estão relacionadas aos costumes e às possibilidades que nos são dadas desde crianças. Por isso, o modelo familiar exerce tamanha influência nos hábitos alimentares.
  3. Alimento como compensador afetivo e acalentador emocional – muitas pessoas comem ou perdem o apetite porque estão ansiosas, tristes, frustradas; outras porque estão alegres e eufóricas, de forma consciente ou não. Em algumas situações, o alimento, incluindo as guloseimas, tampona um vazio emocional, servindo de “companhia” para crianças ou adultos.
  4. Rejeição, imposição ou negação – conflitos emocionais pessoais ou intrafamiliares podem interferir diretamente na alimentação, especialmente nas situações de mudanças, brigas, perdas e separações.
  5. Moeda de troca – o alimento pode servir como forma de oposição e chantagens para se obter algo em troca. O uso do alimento como troca pode vir do adulto ou da criança. Muitos pais dizem: Se você se comportar eu te dou um chiclete! E muitas crianças retrucam: Se eu comer tudo eu posso ir na piscina?
  6. Falta de limite – diante da dificuldade na alimentação, muitos adultos acabam cedendo e autorizando as restrições feitas pelas crianças. Da mesma forma, o alimento oferecido fora de hora atrapalha a disciplina alimentar, não favorecendo o apetite durante as refeições.

Isto nos mostra que, as escolhas feitas pela criança, na maioria das vezes, ocorrem com consentimento do adulto, seja porque o adulto comprou ou fez o alimento e disponibilizou a ela, seja porque não estimulou a possibilidade dela experimentar outros alimentos ou formas de se alimentar.

Então, o que fazer diante das recusas alimentares que não apresentam causas orgânicas?

  1. Buscar entender o “por que” e não se contentar com um simples “não gosto” ou “não quero”, dando à criança aquilo que ela quer, como forma de mantê-la alimentada. A ansiedade do adulto diante das recusas feitas pela criança interfere consideravelmente no processo alimentar. Pais aflitos e impacientes cedem rapidamente ou abrem muitas exceções.
  2. Estabelecer rotina e hábito alimentar regular e saudável, com horário e tempo demarcado – inclusive de duração das refeições – evitando assim, a grande oferta de alimentos fora de hora.
  3. Propiciar as refeições compartilhadas e em um ambiente afetivo, confortável e sem muitos ruídos, de forma que a criança não tire sua atenção do alimento. Esta conduta propicia à criança maior aceitação e novas experimentações, além de ter a oportunidade de provar os alimentos repetidamente, encorajando-a, também, a comer aquilo que ela não conhece.
  4. Não permitir que a criança faça muitas escolhas. As negociações existem dentro de uma gama de variedade que lhe é oferecida, respeitando o direito da criança ter preferências (por exemplo, ela pode escolher entre banana ou maçã, mas uma fruta deve ser ingerida) e aversões (há crianças que recusam um alimento por intolerância, mesmo não “diagnosticada”). Vale ainda, não forçar demais, ameaçar, punir ou obrigar a criança comer.
  5. Não oferecer recompensas e agrados, inclusive quando a criança apresenta resistência, pois estas atitudes reforçam a recusa alimentar, além de provocar estresse e desgaste em toda a família.
  6. Evitar quaisquer subterfúgios como os famosos “aviãozinhos”, ou só comer em frente à TV, uma vez que desprendem a atenção da criança dos alimentos e impõem rituais e condições desnecessárias para que ela se alimente.

Assim, entendemos que a alimentação envolve aprendizado e afeto. Como o ato de alimentar-se diz respeito à dinâmica de cada criança e desta com seu ambiente, as recusas alimentares podem envolver aspectos muito particulares. Mas, vale dizer que, alguns transtornos alimentares, principalmente aqueles que acarretam prejuízos ou doenças de ordem física e emocional, merecem uma atenção especial.  Nestes casos, é importante uma avaliação médica e psicológica para identificação das dificuldades apresentadas pela criança e/ou família.

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Alguns cuidados necessários para a instalação da rotina de dormir dos bebês

Este post foi originariamente publicado em 23/02/2013 no blog Big Mãe com o título Dicas para o bebê adquirir horários regulares para dormir.

A qualidade e quantidade do sono dos bebês são fundamentais e imprescindíveis para o seu desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social. Sua regularidade varia de acordo com a maturidade (principalmente fisiológica) e as necessidades individuais de cada um, que refletirão, inclusive, no tempo de sono que cada bebê precisa para se desenvolver de forma saudável.

O sono, e por consequência a necessidade de dormir, se manifesta através de bocejos, do esfregar os olhos, choro, irritabilidade, entre outros comportamentos, que precisam ser reconhecidos e nomeados ao bebê. Na medida em que tais comportamentos são também respeitados, imprime-se na vida do pequeno ser um ritmo essencial para a moldagem de sua rotina, a qual deve estar vinculada às suas demandas e não aos horários e atividades dos pais ou outros membros da família.

Alguns fatores são muito importantes para que a rotina do dormir seja instalada no bebê:

• Reconhecer que o bebê está com sono – o principal sinal de que o bebê está com sono é o bocejo. Por isto, o melhor momento para colocá-lo na cama é quando ele emana os primeiros bocejos. Ao contrário do que muitos pensam, a exaustão excita mais do que cansa, tornando mais difícil o adormecer. Demorando mais para dormir, corre-se o risco do sono ficar mais curto ou mais estendido, interferindo, assim, na sua disposição e rotina.

 • Permitir ao bebê distinguir o dia da noite, para que possa, aos poucos, esticar seu tempo de sono durante a noite e encurtar o sono do dia (futuramente, as sonecas). Este aprendizado se dá presenciando barulhos e movimentos rotineiros de seu ambiente de dia e a ausência deles à noite.

 • Evitar estímulos nos momentos em que a criança sinaliza estar com sono, bem como em suas interrupções, especialmente a noturna. É muito frequente, em momentos de irritabilidade pelo sono, ou mesmo quando ele é interrompido, a criança, na tentativa de acalmá-la, ser mais estimulada, com brincadeiras, banho, música, passeios (este é o momento em que normalmente se instala o hábito de “dar uma volta de quarteirão” para a criança dormir). Na hora do sono ou numa eventual interrupção, os estímulos precisam ser os mínimos possíveis (luz fraca, voz baixa, sem brincadeiras).

 • Criar um ambiente confortável e seguro para o sono. Bebê alimentado, limpo, com roupas e ambiente adequados tem muito mais chance de dormir melhor e por mais tempo.

• Os horários predeterminados demonstram à criança quando é hora de dormir. Ao ter uma previsão do que vai acontecer, a criança sente-se segura. Na hora do sono, esta previsibilidade torna-se primordial para o descanso e a manutenção da rotina. Por isto, a criação de algum ritual que anteceda o dormir ajuda o bebê a reconhecer que este tão importante momento está chegando. Entre eles, destaca-se o banho, uma musiquinha, a entrega de um paninho e/ou chupeta, elementos que facilitam a passagem do despertar para o adormecer.

 • Estes rituais, contudo, não podem ser confundidos com hábitos que criam a necessidade da presença de alguém no adormecimento do bebê – ficar de mãos dadas, ninar, fazer cafuné e tantos outros hábitos que começam como uma troca gostosa e se transformam num rito que impossibilita o bebê dormir sozinho, especialmente quando acorda no meio da noite.

Devemos lembrar que é mais trabalhoso retirar um mau hábito do que instalar comportamentos que visam, desde cedo, a autonomia do bebê e a liberdade e descanso dos pais (diante destes rituais os pais tornam-se escravos das necessidades dos filhos, além de sofrem com a privação de sono que, mais tarde terá consequência direta na capacidade de reconhecer as demandas vindas de seu bebê).

Assim, os limites impostos nos horários de dormir, e todas as outras rotinas estabelecidas junto aos bebês, favorecem tanto os bebês quanto os pais.

Alguns cuidados importantes no primeiro processo de adaptação da criança na escola

O processo de adaptação na escola é um período de múltiplas integrações: criança-família, criança-escola, família-escola, não se restringindo apenas às crianças que ingressam na vida escolar. As mudanças de escola, de ciclo, de turma, de professores e até mesmo do período de férias para o período de aulas também implicam numa adaptação ou, ao menos, numa readaptação à rotina, espaço e pessoas.

Por mais que haja mudanças para as crianças e famílias que já frequentam o ambiente escolar, a grande transformação ocorre quando a criança vai pela primeira vez para a escola. Pais e filhos saem do conhecido meio familiar para um ambiente com caras e coisas às vezes bastante desconhecidas. De um lado, ganham novas possibilidades de relacionamento e aprendizagem; de outro, se deparam com certa dose de ansiedade, insegurança, incertezas e medos decorrentes da situação inédita.

Algumas crianças lidam muito bem com o que lhes é apresentado, nos primeiros dias ou em todos eles. Outras observam ao seu redor antes de experimentar o que lhes é oferecido, sozinhas ou com o apoio de alguém. Há aquelas que choram, gritam, esperneiam, emudecem, emburram, no meio de todos ou longe do buchicho. Existem crianças que adoecem, tamanho o estresse emocional. Tem as que grudam na mãe ou no pai e parecem que nunca, mas nunca mais, vão se desgrudar.

Do lado dos pais, as vivências também variam muito. Há os que se culpam em deixar o filho na escola para trabalhar; os que sentem alívio porque terão mais tempo para si mesmo ou para outras tarefas; os que experimentam um vazio enorme sem o filho do lado; os que mesmo sabendo que a escola tem uma equipe preparadíssima para cuidar de seu pequeno, morre de medo de não darem conta dele; os que dizem: “larga do meu pé!”; os que choram mais do que criança na hora da despedida, e muitos mais.

Cada pessoa é única e lida de modo muito particular com as mudanças, separações e novidades, de acordo com sua personalidade, maturidade emocional e momento de vida. Por isto, para garantir que a transição do ambiente familiar para o escolar transcorra da melhor maneira possível, é necessário:

1)      Estabelecer uma relação de confiança entre a escola e a família – mesmo que esta relação se estreite ao longo da convivência entre ambas, é fundamental que os pais sintam-se seguros com a escolha da escola, que deve ir de encontro ao que eles esperam do ponto de vista pedagógico, ético e financeiro. Pais inseguros com sua escolha transmitem insegurança para o filho.

2)      Participar a criança sobre seu ingresso na escola. Quando possível, levá-la para conhecer o ambiente escolar antes do início das aulas e deixá-la se envolver com a aquisição dos materiais e uniforme, se houver. Explicar o que vai acontecer é fundamental para que a criança não seja pega de surpresa. No entanto, é importante tomar cuidado com os exageros e expectativas de como se imagina que a adaptação transcorrerá com a criança. Nem sempre ela acontece da forma imaginada.

3)       Cumprir com os combinados e pedidos feitos pela a escola (muitas escolas fazem reuniões de pais antes do início das aulas para explicarem sobre o período de adaptação) – horários, o que a criança pode ou não levar consigo, participação, local e tempo de permanência dos pais. Ao cumprir com os combinados, a criança sente-se segura e começa a entender o funcionamento do ambiente, podendo, com isto, sentir-se pertencendo ao novo meio.

4)      Pai ou mãe acompanhar a criança no processo de adaptação. Salvo situações muito particulares, que devem ser discutidas e acertadas com a escola, a adaptação na escola é tarefa dos pais (de um deles ou ambos, de acordo com o que foi acertado com a escola). Por mais que os pais tenham seus compromissos e a criança seja cuidada por terceiros, o processo de adaptação é um momento em que os responsáveis pelos filhos devem fazer a passagem do ambiente familiar para o escolar.

5)      Reservar na agenda um tempo mais longo do que o estipulado pela escola para o período de adaptação. Nunca sabemos como a criança reagirá. Mesmo iniciando o período de adaptação com desprendimento, a criança pode ter, ao longo do processo, comportamentos mais retraídos, precisando da presença de um dos pais por mais tempo. Isto em geral acontece depois que ela percebe que a escola não é mais um lugar de passeio, mas um lugar onde passará parte do dia longe das pessoas/lugares que está acostumada a conviver.

6)      Evitar mudanças concomitantes com a fase de adaptação na escola: retirada de chupeta, fralda, mamadeira, paninho, troca de babá, residência, pequenas cirurgias, dietas, bem como manter rotina da criança em casa, evitando sobrecarregá-la com outras atividades. A escola, por si só, já é intensa o bastante.

7)      Só faltar às aulas se a criança estiver doente ou por motivos de força maior. Qualquer ruptura pode atrapalhar o processo de adaptação.

8)      Evitar fotos e filmagens, que tiram todos do seu foco – crianças porque são convidadas a olhar para os pais, e pais, que não se desligam das crianças. A adaptação não é momento de festa, mas sim um momento de aprender como será a nova rotina.

9)      Não tecer comparações entre um filho e outro, entre um colega e outro. Cada criança é uma e por isto reage de maneira diferente diante de uma mesma situação.

10)   Se a criança tem irmão mais velho na escola, não lhe dar a responsabilidade de cuidar do mais novo. É importante que cada um tenha seu espaço assegurado, sem um peso que não lhe cabe.  Por isto é importante orientar o irmão mais velho a pedir ajuda para um adulto, caso o mais novo venha lhe solicitar.

11)   Diante de qualquer pedido da criança, fazer a ponte entre ela e o professor ou responsável. Desta forma a criança se vê autorizada pelos pais a fazer o mesmo na sua ausência.

12)   Nunca sair da escola sem se despedir da criança. Diga-lhe para onde vai (sala de pais, trabalho, casa) e em que momento vão se reencontrar (na saída da escola, em casa).

13)   Ao deixar a criança na escola, despedir-se dela, dizendo quando irão se reencontrar (na saída da escola, em casa – neste caso reafirme quem irá busca-la). Se é uma criança de colo, ela deve ser entregue ao professor ou responsável, sem esperar que ele faça o movimento de “tirá-la” do colo em que ela está. Com isto evita-se que a criança sinta que está sendo “tirada” do pai/mãe. Se a criança já anda, ela deve chegar na escola andando e não no colo.

14)   Durante o período de adaptação, se possível, evitar rodízio de carona ou transporte escolar. A saída da escola é um importante momento para observar como a criança está e conversar com o professor. Se isto não for possível, deixar claro para a criança como será feito o transporte e apresentá-la ao responsável pelo transporte antes do início das aulas.

15)   Conversar com a criança como foi o dia na escola, deixando-a falar livremente. Caso não queira falar, não insistir, mas observar se há alguma mudança significativa de comportamento em casa.

O tempo que cada criança leva para se adaptar à escola e à nova rotina varia muito de criança para criança. Por isto, nesta fase cheia de surpresas, além do que foi exposto acima, é muito importante que os pais possam reconhecer seus próprios sentimentos diante da situação que está sendo vivida. Assim, terão muito mais condições de reconhecer e dar suporte aos sentimentos, demandas e dificuldades do filho. Uma adaptação bem feita evita readaptações e é uma porta aberta para o bom desempenho escolar. Boas aulas!

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O Ninguém cresce sozinho oferece Rodas de Conversa sobre adaptação na escola. Para saber quando elas acontecem, consulte nossa Agenda.

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Crianças em férias: uma oportunidade para novas descobertas

Chegaram as férias,
Que bom que vai ser!
Eu vou passear,
Pular e correr!
Eu vou dormir tarde,
Vou brincar lá fora…
Ver televisão
Até fora de hora.
Vou ler o que eu quero,
De noite e de dia…
Brincar com o cachorro,

Ou fazer folia!
Com todos os amigos
Vou ficar de bem,
Só volto pra escola
No ano que vem!*

Férias é a possibilidade de se fazer o que não se faz no dia a dia; uma pausa necessária para o reabastecimento da energia física e mental.

Com a quebra de pelo menos uma parte da rotina (em geral a isenção da escola e das atividades extraescolares), até o que é habitual pode ganhar propósito e finalidades diferenciadas na vida da criança e da família. Sem compromisso acirrado com o tempo, as crianças têm a possibilidade de ficar “fora da frequência” vivenciada diariamente, podendo observar e perceber o mundo a sua volta de modo mais livre e tranquilo.  A pressa tende a ceder lugar à percepção dos detalhes e das sensações: uma oportunidade a ser experimentada como aprendizado para as crianças e pais.

Sem tantos compromissos, os tons dados a cada atividade ficam mais vivos, o sorriso mais leve, o corpo mais solto e o olhar mais vibrante. A diversão parece maior e melhor. Tudo fica mais aconchegante e gostoso, mesmo para as crianças que passam as férias em casa. Descoladas do habitual, a criança pode ir de encontro com novas possibilidades, potencializando sua espontaneidade e capacidades de explorar, descobrir (o mundo que a cerca e a si própria), criar e inventar.

Com ou sem a presença dos pais (que muitas vezes não conseguem conciliar suas próprias férias com as dos filhos), as férias das crianças não precisam de programas longos, caros ou sofisticados.  Eles podem ser simples, planejados, inusitados, conhecidos ou não. O importante é que as crianças possam se entreter com atividades que lhe promovam sensações confortáveis e prazerosas, e sem riscos à sua integridade. Muito bom é quando isto tudo vem acompanhado do uso de sua própria autonomia.

Nas férias a criança também precisa de outras crianças, bem como deve aproveitar para estar mais próxima daqueles com quem não tem a chance de conviver durante o período de aulas.  Estes momentos de interação são importantes e necessários para compartilhar e intensificar os vínculos afetivos e a socialização.

As férias possibilitam a criança e a família viverem na velocidade e tempo desenhados pela criança. Portanto, é hora, inclusive para os pais, de experimentarem um tempo menos contaminado do cotidiano, com mais disponibilidade para as pequenas coisinhas que vão acontecendo. Uma tremenda oportunidade para estar mais atento e, por que não, conhecer melhor a si mesmo e ao seu filho. Boas férias!

* Música Lá vem as férias, composta por Hélio Ziskind para o CD Na Casa da Ruth, um trabalho realizado pelo SESC SP sobre poemas da escritora Ruth Rocha. Voz de Fortuna e Coral Infantil do SESC Vila Mariana. Excelente material para a criançada se divertir cantando e dançando.

Quando o crescimento dos filhos esbarra em dificuldades dos pais

Mamãe, qual é / Larga do meu pé (…)            

Quem não conhece a música de Paulo Tati e Zé Tati, Larga do meu pé, do CD Carnaval, não associa este começo da música a uma marchinha de carnaval para crianças, mas a um filho de que está dizendo: Sai chulé, quem gruda é cola! Desgrudar significa poder crescer.

Embora a imagem de crescimento dos filhos esteja muito ligada às girafas-réguas pregadas na parede, ou às calças compridas, que de uma hora para outra viram calças pula-brejo, sabemos que, do ponto de vista físico, os centímetros adquiridos a cada período só tem significado real quando atrelados ao peso da criança, que por sua vez depende de uma série de fatores, como o genético, o nutricional e o fisiológico. Do ponto de vista da saúde emocional, crescimento até pode ser mensurado com números, mas eles revelam menos do que a matemática das habilidades que a criança adquire e é capaz de aplicar na vida.

Crescer significa ter autonomia para fazer, pensar, discernir, decidir, escolher. Crescer, só é possível quando se pode acreditar em um ser, em si próprio ou em alguém: crer+ser. De um lado pais que confiam na sua tarefa, de outro, filhos confiantes em poder seguir adiante.

Bom seria se esta regrinha fosse objetiva e simples assim, com cada um seguindo seu rumo. Infelizmente, nem sempre a vida caminha neste sentido.

Para muitos pais é difícil perceber, e até mesmo aceitar, o crescimento do filho, pelas mais diversas e singulares razões, normalmente relacionadas a seus próprios temores e necessidades. Ao invés de liberar o filho para a vida, muitos pais, em intensidades diferentes, o mantém debaixo da sua asa, como se fosse um pintinho ameaçado por um grande predador. Via de regra, quem se sente ameaçado não é a criança, mas os pais, que vivenciam o crescimento dos filhos como perda. Perda do quê, é a pergunta que não pode ficar sem resposta, mesmo sendo difícil respondê-la.

A criança sempre está sinalizando que está pronta para seguir, mas os pais podem ser um obstáculo. O filho pede para dormir sem a fralda noturna (e tem maturidade para isto), mas porque o pai curte o momento de colocar a fralda em seu “bebezinho”, a família opta pelo não desfraldamento. Os pais trocam a roupa dos filhos que já são capazes de realizar a tarefa, só para ganhar alguns minutos (que podem ser muitos) na rotina diária. O filho anuncia que vai limpar o bumbum sozinho, mas a mãe o impede a fim de evitar que ele se meleque, meleque o banheiro e deixe restos de cocô no bumbum. Pais que dão comida na boca do filho mesmo quando ele já consegue usar garfo e faca. Histórias como estas precisam de outro final.

Quem não quer que o filho cresça, que continue brincando de boneca, de plástico, pano ou outro material. Filho não é brinquedo. Se colocar fralda é uma curtição, está na hora de novas descobertas e invenções. Se a criança despende tempo grande para se vestir, dê a ela mais tempo, nem que isto implique em colocar o despertador mais cedo. Cocô faz meleca sim, mas se a criança não aprende pequena, vai precisar de alguém para limpá-la até quando? Comida na boca para crescer forte e saudável? Tem conceito errado no meio do caminho!

Não há fralda que se tire que não venha acompanhada de escapes. Não há roupa que se coloque sozinho que não venha um dia (ou muitos) do lado contrário ou torta. Não há criança (e às vezes adulto) que não apresente mancha de cocô na cueca ou calcinha, nem que morra de fome se não comer alguma refeição. Isto é fato.

Nestes exemplos, e em muitos outros, a criança mostra que é capaz de dar um passo pra frente, mas é segurada pelos pais, pelo seu desejo, necessidade, medos, pré-conceitos e outros entraves. Como consequência, a criança acaba tendo dois caminhos: o do “grude”, da cabeça baixa que responde ao que os pais permitem mesmo indo na direção contrária ao que a criança é capaz, e; da “rebeldia”, o famoso chega pra lá, que é a via mais saudável, mas nem sempre possível, especialmente em se tratando de crianças pequenas.

Quando a criança sinaliza que tem recursos para seguir adiante, pais precisam dar sinal verde. Se para os pais é difícil reconhecer as capacidades da criança e as suas dificuldades, converse com alguém que possa ajudá-los nesta tarefa (um bom canal são os orientadores da creche ou da escola que conhecem bem a criança). Afinal, não dá para crescer sem aprender. Não dá para aprender se não der para falhar. Não dá para falhar se alguém faz por alguém.

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