Abuso sexual: uma guerra de potências e impotências

Quando li Infância de retalhos, no blog Padecendo no Paraíso, encantei-me com a franqueza com que a mulher que o escreveu relata sua história pessoal de abuso sexual sofrido e silenciado por tantos anos – quase a metade de sua infância! Em cada linha, seu rico testemunho apresenta os meandros de uma trama comum e recorrente em diversas famílias, inclusive nas tradicionais, “perfeitinhas” e abastadas, mas que é mantida em segredo, às vezes, por anos a fio.

Como naquele texto, refiro-me aqui aos repetidos abusos sexuais intrafamiliar. Neles, o segredo é mantido porque é muito difícil para uma criança entender algo que é da ordem da angústia, do medo, da incompreensão, do desconforto e, ao mesmo tempo, do prazer – ainda mais quando esses sentimentos envolvem uma pessoa que assume diferentes papéis, como tio querido e abusador. Não importa se criança ou adulto, a manipulação genital, por mais que seja agressiva ou aversiva, é também prazerosa. Além disso, pelo menos num primeiro momento, a fantasia de ser escolhido e, por consequência, ter um lugar preferencial na vida de alguém, contribui para dificultar a denúncia logo que os abusos se iniciam: “Será que vale à pena interromper estes carinhos, brincadeiras ou atenção?”. A dúvida paralisa.

No meio desse paradoxo, algumas crianças tentam contar o que vivenciam, muito mais porque não conseguem compreender o que acontece com elas e seus sentimentos (especialmente as crianças menores), do que por uma questão moral (que surge conforme as crianças crescem e os sentimentos de culpa e vergonha ganham forma). Nebuloso como muitos sonhos, o abuso sexual parece sem sentido, ruim e bom, da ordem do consciente e do inconsciente. Não é por acaso que um bom tanto de crianças tenta relatar aos adultos o abuso sofrido como se tivessem tido um pesadelo.

Denunciar explicitamente um abuso implica em ter que vencer o temor da repreensão. Como muitas crianças têm a fantasia de terem provocado a situação de abuso, preferem o sofrimento do silêncio ao sofrimento de uma suposta retaliação (isso se agrava nas famílias com histórico de pouco diálogo e/ou muita violência).

A trama do abuso sexual não se rompe apenas quando a barreira da denúncia é vencida. Em muitos casos, por mais que a criança consiga denunciar, ela nem sempre encontra “ouvidos de ouvir” (expressão tão bem sacada pela autora citada). A necessidade de manter a estabilidade familiar, pelas mais variadas razões, impede a escuta por parte de muitos adultos. Além do mais, a dinâmica do abuso sexual é marcada por impotências que se camuflam de potências. Quais são as fragilidades do abusador – que no senso comum podem ser chamadas de covardia – que o leva a se lançar nesse jogo em que ele é o todo poderoso, viril e dominador da situação? Quais são as fraquezas ou as ameaças dos “ouvidos que não ouvem”, que, mesmo desconfiando sem desconfiar, ficam numa zona de conforto mantendo a aparência de que tudo vai bem? Qual ser humano não se sente valorizado ao ser escolhido ou receber um olhar especial, ainda mais quando se é tão vulnerável como uma criança?

A questão do abuso sexual é complexa e costuma atravessar gerações. Quantas mães, só conseguem revelar sua história de abuso depois que suas filhas relatam o próprio! Ou, pais (homens e mulheres) abusados que tentam, em seu sofrimento silencioso, preservar os filhos através de atitudes superprotetoras. Diante dessas atitudes, ao invés de ajudá-los a se proteger, cometem outra forma de violência: o “cabresto relacional”, que mantém os filhos sob o controle parental, impedindo-os de fazer suas próprias escolhas.

Se na dinâmica do abuso o que está em questão são potências e impotências, para romper a impotência – transgeracional ou não – que mantêm os ouvidos sem ouvir, os olhos fechados ­e a boca cerrada, é preciso alguém realmente potente. No caso das meninas, muitas vezes essa potência se revela através de um corpo capaz de reproduzir. Nos abusos intrafamiliares, é bastante comum eles cessarem quando a menina entra na adolescência e a gravidez torna-se possível. Nenhum abusador quer correr o risco de uma gravidez, não por ela em si, mas pela revelação de um ato que o despotencializaria. Assim, ele parte para outra “vítima”.

Muitas meninas, contudo, só conseguem fazer a denúncia e/ou serem escutadas neste momento de ruptura. Sem o abusador em cena, as posições de potência e impotência são mais facilmente invertidas, permitindo com que as adolescentes consigam dar um basta – a rebeldia adolescente, nesses momentos, revela uma saúde e potência incríveis.

Quanto aos meninos, vale uma nota, triste. Muitos adolescentes saem desse jogo não pela via da denúncia, mas pela mudança de posição, especialmente quando o abusador era alguém do sexo masculino. Como o modelo de homem potente é o abusador, o adolescente passa a abusar, geralmente crianças próximas a ele, recriando o mesmo ciclo.

A adolescente de Infância de retalhos encontrou potência nela mesma. Ainda criança, tentou proteger sua irmã do grande monstro. Resiliente, saiu do lugar de mera vítima, levantou a cabeça e deu um novo significado e destino à sua história pessoal e familiar. Recomeçou. Construiu uma família e hoje, certamente, escreve uma história sem silêncios e segredos. Uma história em que a potência está nas palavras e não no poder de um corpo mais forte ou de valores intocáveis. Uma história que tem lugar para o zelo, a proteção e não o “cabresto relacional”.

Proteger a criança contra o abuso sexual é ensiná-la sobre os limites entre seu próprio corpo e o corpo de um adulto; é ensiná-la o que cada um pode ou não fazer com esses corpos. Proteger é livrar o filho de qualquer submissão. Mas para isso, é preciso que primeiro nos livremos de certas amarras que mantém uma ordem aparente, como a de família perfeita. Para proteger a criança contra o abuso sexual é preciso, sem dúvida alguma, ter “ouvidos de ouvir” e força para enfrentar, primeiramente, os monstros que nos habitam.

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Quando a criança precisa de psicoterapia?

Como psicoterapeuta, percebo que é cada vez maior o número de pais que solicitam atendimento psicológico a seus filhos, inclusive para os muito pequenos (entre 23 anos de idade). Tais solicitações, invariavelmente, me fazem questionar e avaliar a real necessidade e demanda daquele que me procura. Será que estas crianças realmente precisam de psicoterapia? O que leva esses pais a me procurarem?

Observo que a busca pela psicoterapia infantil, originada por conta própria, por encaminhamento de outros profissionais ou pessoas próximas, quase sempre é um pedido de ajuda para a criança. Solicitações iniciais e diretas para orientação de pais ou família são raras, uma vez que prevalece a ideia de que quando a criança apresenta um sintoma ou sofre é ela quem deve ser cuidada. Aqui, enfaticamente, digo: nem sempre! As manifestações apresentadas pelas crianças podem apenas estar encobrindo outras que precisam ser reveladas.

Muito dos sintomas manifestos pela criança relaciona-se a questões de ordem social e/ou familiar. Situações de desavenças, segredos, atritos, discussões, competições, rejeições, entre outras, vividas direta ou indiretamente em seu ambiente, acarretam na criança sentimentos e comportamentos julgados como inadequados. Nestes casos, a criança  está como porta-voz de um sintoma mais amplo, e não como aquela que origina a situação. Somente uma avaliação minuciosa da história individual e familiar da criança permite avaliar a origem do sintoma e, assim, saber a quem deve recair o olhar terapêutico.

Minha experiência mostra que há ocasiões em que a orientação e o suporte oferecido aos pais (quando necessário à escola e a outros adultos responsáveis pela educação da criança), fazem com que não haja necessidade da criança se apresentar a mim como terapeuta infantil. Juntos, conseguimos oferecer a ela apoio suficiente para que entenda, elabore e supere suas dificuldades.

Então, fica a pergunta: quando a psicoterapia infantil é realmente necessária?

Toda criança tem preocupações e desconfortos que se mostram através de irritabilidade, tristeza, choro, brigas, birras, agressão, isolamento, dentre outros. Um tanto disso faz parte da natureza humana e se resolve com a intervenção de uma pessoa próxima capaz de nomear e ajudar a criança a entender e a lidar com o que ela vivencia.

Quando é difícil para o adulto fazer esta ponte, a orientação de pais pode ser uma alternativa. No entanto, quando o sofrimento da criança é demasiadamente grande, apenas a intervenção de seus cuidadores pode não ser suficiente para ela compreender o que está vivenciando. Isso é bastante comum nos casos em que as crianças estão fortemente impactadas por fatores diretamente ligados a ela, como separações, perdas, mudanças, doenças, etc. Nessas situações, a psicoterapia infantil é recomendada para que o terapeuta, junto com a criança, possa ir construindo o sentido de tal sofrimento.

Além disso, crianças vão à terapia quando apresentam dificuldades recorrentes relacionadas a seu desenvolvimento global (principalmente afetivo-cognitivo) que podem interferir na formação de sua personalidade e em sua dinâmica intra e interpessoal. Por exemplo, crianças muito introspectivas e inseguras, que têm dificuldade em sair do lado dos pais, ou crianças que apresentam medos difusos e intensos, que atrapalham seu crescimento,  a formação da autoestima e prejudica seus relacionamentos sociais – ficam distantes, não brincam e não exploram os ambientes e pessoas.

O terapeuta é um profissional capacitado a ajudar a criança e os pais/responsáveis a (re)conhecer suas dificuldades, conflitos, sentimentos, direcionando-os a contento. Assim, desfaço aqui a ideia de que terapia “conserta” o que não está dando certo com passes de mágica. O trabalho, para que tenha sucesso, é feito em parceria.  Aliás, a horizontalidade com a família é fundamental para a construção de um diagnóstico e prognóstico em conjunto.

Filho mal criado ou mau criado?

O que está em jogo na pergunta título deste texto não é a gramática, mas o sentido do substantivo (mal) e do adjetivo (mau) na vida da criança. Não é difícil ouvir ou falar que fulaninho é indelicado, maroto e grosseiro a tal ponto que nem Madame Poças Leitão[1] seria capaz de dar-lhe um jeito.

Será que mostrar a língua, não cumprimentar quem entra no elevador, xingar a troco de nada, sentar-se de qualquer modo, levantar-se após a refeição sem pedir licença e tantos outros comportamentos nada polidos é falta de educação?

Penso que sim, mas não exclusivamente no sentido da falta de etiqueta. Françoise Dolto, psicanalista francesa (1908-1988), ajuda-me nesta afirmação: “Educar é despertar a inteligência, as forças criativas de uma criança, dando-lhe, ao mesmo tempo, seus próprios limites para que ela se sinta livre para pensar, sentir e julgar de modo diferente que o nosso, amando-nos ao mesmo tempo”[2].

Uma criança bem educada é uma criança criativa, livre. Isto não significa poder fazer o que quer, na hora em que quer. Ao contrário, como bem sabemos, a liberdade de um começa onde termina a do outro.

Ser livre é ter consciência de seus próprios limites, respeitando os limites do outro. No entanto, para que os limites do outro sejam considerados, é necessário não ser o outro; é preciso estar discriminado nas relações que se estabelece. Traduzindo: é preciso que cada um saiba o seu lugar e até onde pode ir.

Tenho observado na clínica que crianças tidas como filhos malcriados são crianças coladas ao desejo de seus pais, sem liberdade de serem elas mesmas. São filhos-criados, serviçais dos desejos parentais. Respondem ao seu “senhor”, sem que haja brecha para responder a outros “senhores”: o mundo, o outro, a diferença e a si mesmo. Neste sentido, são bons criados, mas mal criados.

Malcriado é um mau criado; é aquele que internamente luta para conquistar sua alforria, mas não sabe como. Ora ignora quem está a sua volta, ora o ataca. Não existe convivência pacífica (polida) porque o outro é vivido como uma ameaça.

O malcriado é prisioneiro do desejo de outrem. Ele vive a pseudoliberdade de fazer o que quer, na hora que quer, cuspindo na cara do amigo, dando de ombros para qualquer situação. Por trás desta aparente condição livre existe um sofrimento enorme de não poder ser ele mesmo. Mal criar um filho é não permiti-lo pensar, sentir, agir e julgar de modo diferente do nosso. Para termos filhos bem criados, precisamos de maus criados!


[1] Madame Poças Leitão (1884-1974) foi, entre as décadas de 20 e 60, a mais famosa professora de boas maneiras para a aristocracia paulistana.

[2] In: As etapas decisivas da infância. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. VIII.

Diferenças entre irmãos

Quem é quem entre os Irmãos Metralha?

irmãos metralha

Nesta imagem, difícil responder. Os irmãos, criados em 1951 por Carl Barks, ilustrador dos estúdios Disney, são identificados por um número escrito em suas camisetas, sempre variando entre 1, 6 e 7 (176-671, 176-761, 176-176, etc.). Se os números das camisetas não aparecem, não temos como saber qual é qual.

Entre os gêmeos idênticos esta história por vezes se repete. Se não há um corte de cabelo, uma roupa ou algo que marque a diferença entre eles, a dúvida sobre a identidade de cada um paira no ar.

A questão das diferenças entre irmãos, contudo, não é exclusividade dos Metralha ou gêmeos idênticos. Muitos irmãos, especialmente quando a diferença de idade é pequena e/ou têm o mesmo sexo, são tratados como “iguais”.

A equidade a que me refiro não se restringe aos traços físicos. Ela está presente nos nomes (em sua composição ou pronúncia – não muito diferente do que acontece com os números  1, 6 e 7 que, num bater de olhos, parecem a “mesma coisa”), na expectativa que se tem em relação a cada um deles e nas possibilidades que lhe são ofertadas. 

Quando pequenos é até bonitinho ver irmãos bem parecidos, juntos e companheiros. Mas será que tais semelhanças e companheirismo são autênticos ou é expressão da impossibilidade de cada um ser quem é?

O tratamento dos filhos como “iguais” é comumente sustentado pelo senso de justiça dos pais – dar e fazer para um o que se dá e se faz para o outro, associado às fantasias do que as diferenças podem significar – ruptura, divergências, conflitos e disputas (fantasias estas que fazem parte do humano!). Sem intrigas e controversas, vive-se a ilusão da plenitude, do relacionamento “perfeito” entre irmãos; um verdadeiro lar doce lar.

Um filho vai à casa do amigo; o outro vai junto. Um filho escolhe fazer futebol; o outro entra “no embalo” por pressão, falta de opção, necessidade de ambos se ocuparem no mesmo horário, facilidade logística, entre outros. Um filho teve ótimo desempenho em aulas de artes; o outro é levado para a aula mesmo sem demonstrar interesse.  Um filho cresceu e “perdeu” todos os sapatos; na compra de sapatos novos, o que não precisava também ganha algum. Um filho responde (em oposição) para o pai, é preterido e outro “entra”, naquela situação, em seu lugar.

Os exemplos são muitos. Deixemo-los de lado, assim como a praticidade que atravessa estas situações (nada desprezível, ainda mais na correria dos dias de hoje), o senso de justiça e a fantasia da plenitude para pensar o quanto é empobrecedor e sofrido viver como “extensão” ou sombra de um irmão.

Viver como “extensão” ou sombra de um irmão não coloca em questão a imitação, referência ou modelo que um irmão pode ser para outro, nem situações esporádicas onde um se destaca mais ou fica momentaneamente um pouco menos em evidência, mas nos coloca frente a dinâmicas fraternas em que a vida de um irmão parece espelho da vida do outro.

Irmãos podem ter semelhanças, ser companheiros, com mais ou menos brigas, sem que isto traga prejuízo a nenhum deles. No entanto, quando estas dinâmicas se instalam é bastante comum – mais cedo ou mais tarde – ao menos um dos irmãos dar pistas de que “ser igual” não é legal. Na tentativa de reivindicar seu lugar, ele começa a ser “do contra”, apresentar baixo desempenho escolar e/ou condutas antissociais, não querer estar em algum grupo social, entre outros. O que aos olhos de quem assiste tais mudanças de comportamento pode parecer fracasso, retrocesso, falta de educação, etc., para a criança pode ser sua forma de dizer: preciso ser eu mesma!

Por isto, independente das semelhanças, das conveniências e do desejo de justiça e “harmonia” fraterna, é preciso criar espaço para que as diferenças possam se manifestar. Irmãos podem fazer muitas coisas juntos, mas precisam que algumas sejam feitas individualmente. Irmãos podem gostar das mesmas coisas, mas é preciso estar atento às sutilezas das preferências de cada um. Irmãos podem ter necessidades iguais ou em comum, mas têm necessidades específicas. Irmãos precisam ser tratados com a justiça da diferença, o que só é possível se aceitarmos que a plenitude não passa de uma ilusão, real apenas em alguns momentos.

Algumas considerações sobre os filhos em meio à separação dos pais

Toda experiência de separação traz para as crianças, em maior ou menor grau, sentimentos que se intensificam quando os pais se separam:  ameaças, inseguranças, medos, angústias, ansiedade, culpa, entre outros. Isto porque diante da separação, brusca ou não, as crianças a vivenciam como uma desconexão física (espaço-temporal) e psíquica. Como consequência, podem adoecer, apresentar alterações no comportamento (por exemplo: dificuldades no sono, na alimentação, isolamento social, depressão, agressividade, para citar os mais comuns) e dificuldades escolares e de relacionamento. Muitas vezes, pela própria imaturidade e complexidade da situação, as crianças revelam dificuldade de compreensão e discernimento em relação a tudo que envolve a separação, principalmente pela desinformação, mensagens duplas ou omissão de fatos.

Ao mesmo tempo em que as crianças encontram-se diante de adversidades decorrentes do rompimento,  os adultos, mesmo em meio aos seus próprios conflitos, divergências e desgastes, têm uma carga extra para administrar: os filhos. Estes necessitam de suporte e amparo; precisam ser preparados, cuidados e acompanhados antes, durante e após a separação, para que possam viver este momento de maneira mais confortável.

Logo, algumas medidas devem ser tomadas. O casal, frente à decisão de se separar, precisa conversar primeiramente entre si, longe do(s) filho(s), e alinhar um discurso coerente e franco a ser apresentado a eles. Devem pensar juntos e tomar decisões comuns em relação à prole.  Caso não consigam, é interessante que haja um mediador que os ajudem estabelecer tais ações e, se preciso for, os auxiliem na comunicação.  O ideal (o que nem sempre é possível) é que o casal esteja presente nas conversas iniciais e, de forma antecipada, fale sobre as mudanças a serem enfrentadas, enfatizando que todas elas foram decididas dentro do que é melhor para todos da família.

Aliás, muitas conversas deverão acontecer entre pais e filhos, oferecendo a eles a possibilidade de expressar o que estão sentindo para poderem elaborar as perdas presentes – algo que exige um tempo de maturação. Ou seja,  a criança deve ser ouvida em suas dúvidas (este é um direito dela), que precisam ser prontamente esclarecidas. Vale ainda, acolhê-la em suas manifestações de tristeza, raiva e descontentamento, para que sinta que não está sozinha neste processo doloroso.  Muitas crianças – por defesa emocional – esquecem ou fingem não se lembrar da conversa tida anteriormente. Logo, pontuá-las, de vez em quando, sobre as decisões comunicadas anteriormente é válido. É importante, ainda, a criança ter, além das conversas, outros canais pelo qual expresse seus sentimentos – pinturas, desenhos e brincadeiras.

Devemos observar aqui que, algumas vezes, crianças podem ter necessidade de falar, chorar, questionar e manifestar suas ideias e sentimentos, a sós com um dos pais. Nestas situações, alguns cuidados devem ser tomados: não fazer da criança seu aliado e nem mesmo dividir com ela sentimentos e questões da vida do casal. É importante que ambos os pais sejam preservados (em seu afeto,  imagem e papel) para a criança, principalmente em relação ao amor que eles sentem por ela. O que se deve assegurar à criança é que seus pais não estarão mais juntos, mas ela não será separada deles afetivamente ou até fisicamente, dependendo da nova configuração familiar.

Crianças, diante das rupturas vividas, precisam de muita segurança. Por isso, sempre que possível, deve-se evitar outras mudanças concomitantes em sua vida, procurando manter seus objetos e círculos pessoais o mais intacto possível, assim como, garantir, ao máximo, sua rotina  e a manutenção dos espaços habituais, como por exemplo, casa dos parentes (avós, tios, etc.).

Estas medidas citadas acima garantem aos filhos a possibilidade de sua continuidade (de ser pertencente a uma família) e integridade física e emocional.  A responsabilidade enquanto pais e os vínculos afetivos construídos com a criança não devem ser rompidos. Filhos existem seja onde e com quem estiverem e continuam sendo filhos mesmo com a inserção de novos membros e laços familiares (madrasta/padrasto/meio-irmão).  As casas podem ser separadas, a rotina diferente, os encontros marcados ou a guarda compartilhada, mas, sempre constituindo família, cada qual a sua maneira.

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