Segredos de crianças

– “Você promete que não vai contar para ninguém?”

– “Prometo por tudo que é mais sagrado.”

É com este diálogo inicial que o livro Segredos, de Ilan Brenman, narra a história de duas amigas, Joana e Manuela. Sem conseguir guardar o segredo da melhor amiga, Joana vai ao banheiro da escola e grita para dentro da privada: “A Manuela gosta do Rafael Ruivo!”. Aliviada, a menina dá descarga e volta à sala de aula. O que ela não esperava era que a privada contasse o segredo toda vez que a descarga era dada. Assim, cada vez que uma criança ia ao banheiro, o segredo era pronunciado.

Foi desta forma que a “paixão” de Manuela foi revelada para toda a escola. O falatório rolou solto e o tal segredo se espalhou. Manuela ficou envergonhada e triste. Mas, para sua surpresa, Rafael Ruivo ficou sabendo e, ao encontrá-la, teve coragem de dizer à menina que também gostava dela.

Um segredo tem sempre dois lados, o de quem conta e o de quem ouve.  Segredos falam de intimidade, cumplicidade e confiança entre pessoas. Ao mesmo tempo diz sobre algo privado, que ainda não podemos ou não queremos compartilhar com quem nos cerca. Muitas vezes, seu conteúdo é difícil de ser dito por nós mesmos, precisando ficar trancado a sete chaves. Seja por vergonha, conteúdo proibitivo, repressor e/ou marcado por dificuldades, medos ou outros motivos que não podem ser revelados e  assumidos, os segredos fazem parte da vida, inclusive das crianças.

Distorcido ou puramente legítimo, quando um segredo é quebrado, as pessoas envolvidas acabam expostas e a confiança entre elas pode ficar abalada. Lidar com esta situação provoca muito desconforto e constrangimento.

No entanto, quando um segredo é revelado, a criança ou adulto podem sair de um aprisionamento emocional, como aconteceu com Manuela e, há de se pensar, Rafael. Lidar com a verdade que há dentro de nós, tomar consciência, nomear e assumir para nós mesmos e para o outro aquilo que é genuinamente nosso revela amadurecimento e segurança emocional.

Então, para quê guardar segredos? Esta é uma pergunta que cada um responde para si, verifica e analisa a importância de um segredo, que sempre é  único e singular para as pessoas e nas relações.

O que sabemos é que desde crianças somos colocados diante de situações que nos testam a todo instante e nos põem a prova diante da amizade, da confiança, do respeito e da cumplicidade.

Segredos / Ilan Brenman; ilustrações de Anuska Allepuz. São Paulo: Editora Moderna, 2014.

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Abuso sexual: uma guerra de potências e impotências

Quando li Infância de retalhos, no blog Padecendo no Paraíso, encantei-me com a franqueza com que a mulher que o escreveu relata sua história pessoal de abuso sexual sofrido e silenciado por tantos anos – quase a metade de sua infância! Em cada linha, seu rico testemunho apresenta os meandros de uma trama comum e recorrente em diversas famílias, inclusive nas tradicionais, “perfeitinhas” e abastadas, mas que é mantida em segredo, às vezes, por anos a fio.

Como naquele texto, refiro-me aqui aos repetidos abusos sexuais intrafamiliar. Neles, o segredo é mantido porque é muito difícil para uma criança entender algo que é da ordem da angústia, do medo, da incompreensão, do desconforto e, ao mesmo tempo, do prazer – ainda mais quando esses sentimentos envolvem uma pessoa que assume diferentes papéis, como tio querido e abusador. Não importa se criança ou adulto, a manipulação genital, por mais que seja agressiva ou aversiva, é também prazerosa. Além disso, pelo menos num primeiro momento, a fantasia de ser escolhido e, por consequência, ter um lugar preferencial na vida de alguém, contribui para dificultar a denúncia logo que os abusos se iniciam: “Será que vale à pena interromper estes carinhos, brincadeiras ou atenção?”. A dúvida paralisa.

No meio desse paradoxo, algumas crianças tentam contar o que vivenciam, muito mais porque não conseguem compreender o que acontece com elas e seus sentimentos (especialmente as crianças menores), do que por uma questão moral (que surge conforme as crianças crescem e os sentimentos de culpa e vergonha ganham forma). Nebuloso como muitos sonhos, o abuso sexual parece sem sentido, ruim e bom, da ordem do consciente e do inconsciente. Não é por acaso que um bom tanto de crianças tenta relatar aos adultos o abuso sofrido como se tivessem tido um pesadelo.

Denunciar explicitamente um abuso implica em ter que vencer o temor da repreensão. Como muitas crianças têm a fantasia de terem provocado a situação de abuso, preferem o sofrimento do silêncio ao sofrimento de uma suposta retaliação (isso se agrava nas famílias com histórico de pouco diálogo e/ou muita violência).

A trama do abuso sexual não se rompe apenas quando a barreira da denúncia é vencida. Em muitos casos, por mais que a criança consiga denunciar, ela nem sempre encontra “ouvidos de ouvir” (expressão tão bem sacada pela autora citada). A necessidade de manter a estabilidade familiar, pelas mais variadas razões, impede a escuta por parte de muitos adultos. Além do mais, a dinâmica do abuso sexual é marcada por impotências que se camuflam de potências. Quais são as fragilidades do abusador – que no senso comum podem ser chamadas de covardia – que o leva a se lançar nesse jogo em que ele é o todo poderoso, viril e dominador da situação? Quais são as fraquezas ou as ameaças dos “ouvidos que não ouvem”, que, mesmo desconfiando sem desconfiar, ficam numa zona de conforto mantendo a aparência de que tudo vai bem? Qual ser humano não se sente valorizado ao ser escolhido ou receber um olhar especial, ainda mais quando se é tão vulnerável como uma criança?

A questão do abuso sexual é complexa e costuma atravessar gerações. Quantas mães, só conseguem revelar sua história de abuso depois que suas filhas relatam o próprio! Ou, pais (homens e mulheres) abusados que tentam, em seu sofrimento silencioso, preservar os filhos através de atitudes superprotetoras. Diante dessas atitudes, ao invés de ajudá-los a se proteger, cometem outra forma de violência: o “cabresto relacional”, que mantém os filhos sob o controle parental, impedindo-os de fazer suas próprias escolhas.

Se na dinâmica do abuso o que está em questão são potências e impotências, para romper a impotência – transgeracional ou não – que mantêm os ouvidos sem ouvir, os olhos fechados ­e a boca cerrada, é preciso alguém realmente potente. No caso das meninas, muitas vezes essa potência se revela através de um corpo capaz de reproduzir. Nos abusos intrafamiliares, é bastante comum eles cessarem quando a menina entra na adolescência e a gravidez torna-se possível. Nenhum abusador quer correr o risco de uma gravidez, não por ela em si, mas pela revelação de um ato que o despotencializaria. Assim, ele parte para outra “vítima”.

Muitas meninas, contudo, só conseguem fazer a denúncia e/ou serem escutadas neste momento de ruptura. Sem o abusador em cena, as posições de potência e impotência são mais facilmente invertidas, permitindo com que as adolescentes consigam dar um basta – a rebeldia adolescente, nesses momentos, revela uma saúde e potência incríveis.

Quanto aos meninos, vale uma nota, triste. Muitos adolescentes saem desse jogo não pela via da denúncia, mas pela mudança de posição, especialmente quando o abusador era alguém do sexo masculino. Como o modelo de homem potente é o abusador, o adolescente passa a abusar, geralmente crianças próximas a ele, recriando o mesmo ciclo.

A adolescente de Infância de retalhos encontrou potência nela mesma. Ainda criança, tentou proteger sua irmã do grande monstro. Resiliente, saiu do lugar de mera vítima, levantou a cabeça e deu um novo significado e destino à sua história pessoal e familiar. Recomeçou. Construiu uma família e hoje, certamente, escreve uma história sem silêncios e segredos. Uma história em que a potência está nas palavras e não no poder de um corpo mais forte ou de valores intocáveis. Uma história que tem lugar para o zelo, a proteção e não o “cabresto relacional”.

Proteger a criança contra o abuso sexual é ensiná-la sobre os limites entre seu próprio corpo e o corpo de um adulto; é ensiná-la o que cada um pode ou não fazer com esses corpos. Proteger é livrar o filho de qualquer submissão. Mas para isso, é preciso que primeiro nos livremos de certas amarras que mantém uma ordem aparente, como a de família perfeita. Para proteger a criança contra o abuso sexual é preciso, sem dúvida alguma, ter “ouvidos de ouvir” e força para enfrentar, primeiramente, os monstros que nos habitam.

“Como nasceu a alegria”, livro de Rubem Alves

“O que muda não é a diferença. São os olhos…”.

Encantadoramente e de forma poética, mas sem deixar a realidade de fora, Rubem Alves aborda a dor “do ser diferente” e o olhar do outro sobre estas diferenças.

Em meio a um jardim, cheio de flores vaidosas e perfeitas, nasce uma flor com uma de suas pétalas cortada por um espinho. Todos a olham com espanto, o que a faz perceber sua diferença, sentindo-se envergonhada e muito triste com tantos olhares questionadores. O que dói não é a diferença, mas sim, o olhar do outro. Cansada de tantas explicações sobre sua diferença – “eu nasci assim” – que a fazem sofrer, a flor chora. Nunca nenhuma outra flor vaidosa e infeliz havia chorado na terra.

Comovida com o choro triste daquela flor, toda terra (árvores, pássaros, anjos e nuvens) chora também, causando um reboliço por todos os lados. A transformação começa a acontecer: da lágrima à chuva, rios e peixes; da tristeza da flor à sua alegria por se sentir querida por todos. Sorridente, como nenhuma outra flor, seu perfume exala. Esta é a sua diferença: todas as outras flores igualmente infelizes e sem sorrir nunca haviam exalado perfume. De um cheiro contagiante, que atrai os bichos e as crianças, nasce, a partir da tristeza, o sorriso e a alegria.

Em meio à igualdade, a “diferença” revela a maneira singular e bela de cada um ser no mundo.

Com esta história, o autor nos fala sobre o medo do olhar dos outros – um sentimento universal. Uma lição de como superar o sofrimento e transformá-lo em alegria, posicionando-se no mundo cada qual com seu diferencial.

Este livro é ótima ferramenta para trabalhar a singularidade e a diversidade através de conversa sobre os sentimentos de tristeza, rejeição e preconceito. É também recomendado inclusive para pais que sentem a dor da diferença vivida pelos seus filhos.

Como nasceu a alegria / Rubem Alves; ilustrações de Roberto Caldas. São Paulo: Paulus, 1999.

Faixa etária sugerida: a partir dos 4 anos (leitura pelo adulto) e a partir dos 8 anos (leitura pela criança).

como nasceu a alegria

O uso da roupa de banho pelo adulto no banho com a criança

Em A nudez dos pais diante dos filhos, uma mãe nos escreve: “minha filha tem 4 anos e quero saber se tem problemas ou o que o pai deve falar quando toma banho com ela porque ele usa sunga. E ela sempre pergunta porque ele está usando; ela já viu que ele tem um p… O que fazemos!!! Não gostaria que tanto ela quanto ele tivesse vergonha um do outro. Queria que fosse uma coisa normal para ela…”

Pelo breve relato da mãe, podemos pensar que este pai usa sunga pelo desconforto que sente em estar nu na frente da filha, ao menos no banho. Diferentemente de outras situações de nudez, como na troca de roupa, o momento do banho é o que costuma causar maior constrangimento, visto que a exposição do corpo ao outro é total e por um tempo e proximidade física maiores.

Para quem já sentiu e sente vergonha em qualquer que seja a circunstância, não é difícil compreender a atitude deste pai. Diante do que constrange, a vontade é sumir, “cavar um buraco e entrar nele”, ou fazer com que o agente do desconforto suma. Por isto, a sunga aparece como uma solução fácil e imediata, aparentemente eficaz.

Para a criança, contudo, a história é outra. Aos 4 anos ela dificilmente experimentou sentimentos de incômodo e vergonha por  estar com o corpo despido diante de outra pessoa (em geral esta vivência tem início entre os 6 anos e a entrada na puberdade). Ela também aprendeu que roupa de banho é para ser usada no banho de mar, rio, piscina, cachoeira, e que banho de chuveiro e banheira pedem corpo nu. Por estas razões, ela não vê sentido no uso que o pai faz da sunga durante o banho.

Ao perguntar-lhe por que ele toma banho de sunga, a filha, mais do que buscar uma explicação para este gesto um tanto estranho, coloca em pauta a ambiguidade do mostrar-esconder, do permitido-proibido, bem como a transgressão paterna “eu ensino, mas não sigo” (a regra cultural do uso da roupa de banho – sunga, biquíni e maiô).

Embora a sunga esconda o genital, ela não consegue encobrir os sentimentos despertados pela nudez, nem a curiosidade infantil sobre as diferenças de gênero e diferenças entre o corpo adulto e o da criança. De “tapa sexo”, mais cedo ou mais tarde, a sunga se transforma num recurso contraditório e ineficiente, criando novos incômodos e inquietações para todos os envolvidos na situação.

Se o pai não se sente à vontade em estar nu diante da filha, isto precisa ser respeitado. Uma criança que não vê o pai nu, não gosta menos dele ou tem mais dúvidas sobre a sexualidade humana. O que nos faz gostar mais ou menos de alguém é a espontaneidade, a confiança e o respeito, que só são vividos integralmente quando sabemos até onde podemos ir. Estes são os mesmos ingredientes que permitem o diálogo franco com a criança, mesmo que franqueza seja dizer que não sabe ou não se sente bem em conversar sobre determinado assunto (neste caso, é necessário encontrar alternativas para que as questões dos pequenos não fiquem sem resposta).

Então, como desinstalar a prática do banho com sunga?

Obviamente, não é ficando sem sunga. Aos 4 anos a criança já tem condições de começar a se banhar sozinha ou com pouca ajuda. Portanto, a transição deve focar no seu crescimento e autonomia. O pai pode continuar responsável pelo banho da filha enquanto for necessário, orientando-a e ajudando-a do lado de fora do chuveiro ou banheira, vestido como em qualquer outra situação de cuidado para com a filha.

É muito importante que esta orientação não se restrinja apenas aos cuidados de higiene, mas abranja também as questões ligadas à curiosidade e manifestações sexuais, incluindo os conceitos de privacidade e intimidade. Com regras e limites claros, eliminamos as mensagens contraditórias, como tentar disfarçar o indisfarçável, instalando o respeito ao outro e, por consequência, a confiança mútua.

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A nudez dos pais diante dos filhos

Alguns pais/mães encaram a questão da sua nudez diante da criança com muita naturalidade: se despem total ou parcialmente diante dos filhos, tomam banho com a prole ou andam sem roupa pela casa. Outros optam por preservar sua intimidade, não se colocando pelados na frente dos filhos, nunca ou salvo algumas exceções. A grande maioria, contudo, tem um percurso bastante parecido: enquanto a criança é bem pequena, estar vestido ou não na frente dela não faz a menor diferença. Porém, conforme ela cresce e começa a se interessar pelo corpo do adulto, lançando perguntas, olhares e mãos curiosas, o que era cotidiano, pode começar a causar certo incômodo e dúvidas nos pais. Na nossa cultura, onde o nu é da ordem do privado, é bom que cause.

Desde muito pequena, o corpo da criança é fonte de descoberta e prazer. Chupar o dedo, brincar com partes dele, dar risada na troca da fralda, são alguns exemplos clássicos de que a manipulação do corpo é prazerosa. É uma fase em que a criança está centrada nela mesma. Por volta dos dois anos, ela se dá conta, de fato, da existência do outro, passando a ter maior interesse por ele e interagindo mais com as pessoas a sua volta. Entre os três e quatro anos a criança começa a perceber as diferenças sexuais, interessando-se ainda mais pelo seu próprio corpo, pelo corpo de outra criança e pelo corpo do adulto. Guiada pela curiosidade, ela pergunta se homem usa brinco, se mulher pode ter barba; constata que há homens que têm cabelo grande e mulheres cabelo bem curtinho, e computa, em alto e bom tom, quantos “pipis” e “periquitas” têm no elevador, referindo-se ao número de homens/meninos e mulheres/meninas naquele minúsculo espaço. Não existe malícia ou vergonha. A sexualidade é um assunto como qualquer outro.

Diante dos pais nus, ela aponta para o que balança e toca (ou tenta tocar) no que não tem, pelo simples interesse em conhecer as diferenças. Neste momento, em geral, os pais se perguntam: Posso ficar nu diante dos meus filhos? Até que idade o pai pode ficar pelado na frente da filha e mãe na frente do filho? Tem algum problema a família toda tomar banho junto?

Antes de responder a estas e outras perguntas que seguem nesta direção, é importante que os pais percebam, individualmente, enquanto homem e enquanto mulher, como se sentem nus diante dos filhos. Como são indivíduos diferentes, nem sempre vão sentir a mesma coisa, o que não é nenhum problema para a criança.

Problema para a criança, e toda a família, surge quando o que se sente é diferente do que se vivencia diante da nudez. Existe uma inibição por parte dos pais em expor seu corpo e ainda assim, por qualquer razão (mesmo que seja a praticidade), a nudez acontece? Existe um prazer explícito ou velado, mesmo que não seja genital (o prazer sexual adulto), ao ficar nu diante dos filhos (prazer em ser bacana, em curtir um banho conjunto, em trocar a roupa do filho que já tem autonomia para se despir e vestir sozinho, etc.)?

Ainda que para os pais sua própria nudez se isente de qualquer inibição ou prazer, para a criança, estar diante do corpo adulto descoberto provoca sensações e sentimentos que ela não é capaz de nomear, como excitação ou identificação com o corpo do adulto. Isto lhe é bastante confuso. Por esta razão, a exposição gratuita ao nu adulto (incluindo publicidade, novelas, filmes e afins) deve ser evitada dos 3-4 anos até a adolescência, fase em que se adquire um corpo “igual” ao do pai ou da mãe.

No entanto, embora devam ser evitadas, há situações em que não há como se esquivar da nudez adulta diante da criança, como no vestiário de um clube. Estas são situações esporádicas e não rotineiras. No dia a dia deve-se priorizar espaços privativos para a intimidade de cada membro da família. O banho, evento mais comum da exposição do corpo, deve ser da criança ou do adulto. Quando a criança ainda precisa de cuidados para se banhar, se enxugar, despir-se ou se vestir, os pais devem exercê-los vestidos, mostrando que aquele é um momento da criança. Pais que usam sunga ou mães que colocam biquíni/maiô para dar banho dos filhos (e, pior ainda, para tomar banho com os filhos) transmitem uma mensagem ambígua, do mostrar sem poder mostrar, do natural-artificial. Filhos aprendem que aquelas partes do corpo são carregadas de contradição e pudor.

Não expor a criança à nudez adulta não a impedirá de continuar com suas investigações sobre as diferenças sexuais. Para isto existem seus pares, crianças da mesma idade, um pouco mais novas e um pouco mais velhas; existem livros, histórias e observações da vida real. Existe, principalmente, o momento certo de conviver com o corpo nu do adulto, que é a partir da adolescência, quando os corpos se equiparam.

Na exposição de corpos, muitas crianças incomodam-se diante da nudez, trilhando seu próprio caminho em busca de privacidade. Por si só, evitam estar diante do adulto nu, não aceitam ajuda na troca de roupas ou na hora do banho, trocam-se de costas, fecham portas em situações em que estão despidas. Os pais precisam acatar este desejo de privacidade, reforçando, inclusive sua importância. Mais do que a vergonha, o que está em jogo é a intimidade, a privacidade e o cuidado e respeito ao corpo. Da mesma maneira, os momentos de intimidade dos pais precisam ser demarcados e sinalizados para que tanto a criança quanto os pais saibam quais situações são coletivas e quais são individuais.

Quando os espaços privativos para intimidade são instalados e respeitados, a criança aprende que tem coisas que são só suas e outras que podem ser compartilhadas; aprende a reconhecer o que quer ou não, o que lhe causa prazer ou não, quem pode mexer no seu corpo ou não, para quem pode mostrar o corpo ou não. Sabendo dos seus limites, a criança aprende a respeitar o próprio corpo e, consequentemente, o corpo do outro, evitando a confusão de sentimentos, a erotização precoce e situações de vulnerabilidade.

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