Abuso sexual: uma guerra de potências e impotências

Quando li Infância de retalhos, no blog Padecendo no Paraíso, encantei-me com a franqueza com que a mulher que o escreveu relata sua história pessoal de abuso sexual sofrido e silenciado por tantos anos – quase a metade de sua infância! Em cada linha, seu rico testemunho apresenta os meandros de uma trama comum e recorrente em diversas famílias, inclusive nas tradicionais, “perfeitinhas” e abastadas, mas que é mantida em segredo, às vezes, por anos a fio.

Como naquele texto, refiro-me aqui aos repetidos abusos sexuais intrafamiliar. Neles, o segredo é mantido porque é muito difícil para uma criança entender algo que é da ordem da angústia, do medo, da incompreensão, do desconforto e, ao mesmo tempo, do prazer – ainda mais quando esses sentimentos envolvem uma pessoa que assume diferentes papéis, como tio querido e abusador. Não importa se criança ou adulto, a manipulação genital, por mais que seja agressiva ou aversiva, é também prazerosa. Além disso, pelo menos num primeiro momento, a fantasia de ser escolhido e, por consequência, ter um lugar preferencial na vida de alguém, contribui para dificultar a denúncia logo que os abusos se iniciam: “Será que vale à pena interromper estes carinhos, brincadeiras ou atenção?”. A dúvida paralisa.

No meio desse paradoxo, algumas crianças tentam contar o que vivenciam, muito mais porque não conseguem compreender o que acontece com elas e seus sentimentos (especialmente as crianças menores), do que por uma questão moral (que surge conforme as crianças crescem e os sentimentos de culpa e vergonha ganham forma). Nebuloso como muitos sonhos, o abuso sexual parece sem sentido, ruim e bom, da ordem do consciente e do inconsciente. Não é por acaso que um bom tanto de crianças tenta relatar aos adultos o abuso sofrido como se tivessem tido um pesadelo.

Denunciar explicitamente um abuso implica em ter que vencer o temor da repreensão. Como muitas crianças têm a fantasia de terem provocado a situação de abuso, preferem o sofrimento do silêncio ao sofrimento de uma suposta retaliação (isso se agrava nas famílias com histórico de pouco diálogo e/ou muita violência).

A trama do abuso sexual não se rompe apenas quando a barreira da denúncia é vencida. Em muitos casos, por mais que a criança consiga denunciar, ela nem sempre encontra “ouvidos de ouvir” (expressão tão bem sacada pela autora citada). A necessidade de manter a estabilidade familiar, pelas mais variadas razões, impede a escuta por parte de muitos adultos. Além do mais, a dinâmica do abuso sexual é marcada por impotências que se camuflam de potências. Quais são as fragilidades do abusador – que no senso comum podem ser chamadas de covardia – que o leva a se lançar nesse jogo em que ele é o todo poderoso, viril e dominador da situação? Quais são as fraquezas ou as ameaças dos “ouvidos que não ouvem”, que, mesmo desconfiando sem desconfiar, ficam numa zona de conforto mantendo a aparência de que tudo vai bem? Qual ser humano não se sente valorizado ao ser escolhido ou receber um olhar especial, ainda mais quando se é tão vulnerável como uma criança?

A questão do abuso sexual é complexa e costuma atravessar gerações. Quantas mães, só conseguem revelar sua história de abuso depois que suas filhas relatam o próprio! Ou, pais (homens e mulheres) abusados que tentam, em seu sofrimento silencioso, preservar os filhos através de atitudes superprotetoras. Diante dessas atitudes, ao invés de ajudá-los a se proteger, cometem outra forma de violência: o “cabresto relacional”, que mantém os filhos sob o controle parental, impedindo-os de fazer suas próprias escolhas.

Se na dinâmica do abuso o que está em questão são potências e impotências, para romper a impotência – transgeracional ou não – que mantêm os ouvidos sem ouvir, os olhos fechados ­e a boca cerrada, é preciso alguém realmente potente. No caso das meninas, muitas vezes essa potência se revela através de um corpo capaz de reproduzir. Nos abusos intrafamiliares, é bastante comum eles cessarem quando a menina entra na adolescência e a gravidez torna-se possível. Nenhum abusador quer correr o risco de uma gravidez, não por ela em si, mas pela revelação de um ato que o despotencializaria. Assim, ele parte para outra “vítima”.

Muitas meninas, contudo, só conseguem fazer a denúncia e/ou serem escutadas neste momento de ruptura. Sem o abusador em cena, as posições de potência e impotência são mais facilmente invertidas, permitindo com que as adolescentes consigam dar um basta – a rebeldia adolescente, nesses momentos, revela uma saúde e potência incríveis.

Quanto aos meninos, vale uma nota, triste. Muitos adolescentes saem desse jogo não pela via da denúncia, mas pela mudança de posição, especialmente quando o abusador era alguém do sexo masculino. Como o modelo de homem potente é o abusador, o adolescente passa a abusar, geralmente crianças próximas a ele, recriando o mesmo ciclo.

A adolescente de Infância de retalhos encontrou potência nela mesma. Ainda criança, tentou proteger sua irmã do grande monstro. Resiliente, saiu do lugar de mera vítima, levantou a cabeça e deu um novo significado e destino à sua história pessoal e familiar. Recomeçou. Construiu uma família e hoje, certamente, escreve uma história sem silêncios e segredos. Uma história em que a potência está nas palavras e não no poder de um corpo mais forte ou de valores intocáveis. Uma história que tem lugar para o zelo, a proteção e não o “cabresto relacional”.

Proteger a criança contra o abuso sexual é ensiná-la sobre os limites entre seu próprio corpo e o corpo de um adulto; é ensiná-la o que cada um pode ou não fazer com esses corpos. Proteger é livrar o filho de qualquer submissão. Mas para isso, é preciso que primeiro nos livremos de certas amarras que mantém uma ordem aparente, como a de família perfeita. Para proteger a criança contra o abuso sexual é preciso, sem dúvida alguma, ter “ouvidos de ouvir” e força para enfrentar, primeiramente, os monstros que nos habitam.

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Atirei o pau no gato. Pode ou não pode?

Atirei o pau no gato tô tô 
Mas o gato tô tô
Não morreu reu reu
Dona Chica cá cá
Admirou-se se
Do berro, do berro que o gato deu
Miau!

Esta cantiga popular de roda faz parte do repertório musical de crianças de todas as idades e de diferentes partes do Brasil desde o início do século XX. Por ter rimas fáceis de serem memorizadas, é cantada – ou ao menos balbuciada – por crianças que se encantam por sua sonoridade e ritmo independente da letra da canção.

No entanto, embora referência no universo infantil, esta música ganhou sua versão politicamente correta, numa “campanha” de combate à violência contra os animais, negando seu conteúdo de agressão contra o gato.

Não atire o pau no gato tô tô
Porque isso so so
Não se faz faz faz
O gatinho nho
É nosso amigo go
Não devemos maltratar os animais
Miau!

Diante dessas duas versões, faço o seguinte questionamento: Será que é possível, e recomendável, ocultar ou distanciar as crianças de qualquer meio hostil e ofensivo? Não seria a omissão ou a negação uma forma de agressão?

As histórias de violência, crueldade e agressão são muitas, seja em casa, na escola ou na rua, perto ou mais distante de todos nós. São vistas cotidianamente entre os adultos, entre as crianças, dos adultos para com elas, e até mesmo com os animais.  O tema, e suas vertentes, estão presentes nas brincadeiras, cantigas, contos de fada, desenhos infantis, telejornais e novelas (vistas por muitas crianças), com o “bem” e o “mal” caminhando lado a lado. A intencionalidade destas brincadeiras, músicas, contos e outros recursos está em mostrar às crianças os dois lados da vida, sem deixá-las com uma visão cindida dos fatos.

Saber e entender que o “mau” também existe, permite às crianças se posicionarem diante dele. Além disso, falar sobre comportamentos hostis e agressivos auxiliam-nas a elaborar sentimentos e pensamentos desta natureza, impedindo-as, muitas vezes, de agir impulsivamente, sem medir as consequências de seus atos.

Falar sobre a agressividade – comportamento inerente ao ser humano – certamente não nos torna mais agressivo; apenas mostra a realidade e ensina a pensar e lidar com ela. É por isto que ainda permanecem atuais a cantiga do Cravo que brigou com a Rosa (brigas de casal), do Samba Lelê (doença e palmadas), os desenhos como Tom e Jerry (os rivais gato e rato) e Piu Piu (pássaro perseguido pelo gato Frajoa), bem como as brincadeiras de morto-vivo e polícia e ladrão. As agressões físicas, verbais e emocionais continuam presentes no nosso dia a dia; hoje, como outra denominação: bullying.

A meu ver, a cantiga do gato tô tô, não vem para expor a criança à agressividade, ou permiti-la ser agressiva; esta música apenas não destitui a natureza dos impulsos agressivos. A parte à questão da defesa dos animais (que pode e deve continuar existindo), a canção “Atirei o pau no gato” (assim como outras cantigas que abordam temas que fazem parte da natureza humana e permitem as crianças gerenciar os conflitos do dia a dia) pode ser um meio para pais e educadores ajudarem as crianças a nomear, explicar e integrar sentimentos de caráter agressivo e violento. Neste sentido, é instrumento que auxilia a conversa junto às crianças sobre o que fazer quando ficamos bravos e temos vontade de bater, chutar, socar, etc, bem como orienta sobre conceitos, valores, limites e consequências de nossas ações. Podemos bater nos animais ou nas pessoas? Se fizermos isso, o que pode acontecer? Quando alguém for cruel com os animais, o que devemos fazer? Como nos sentimos quando alguém nos agride?

Assim, crianças aprendem a (re)conhecer e a lidar com o “bem” e o “mal”, o “certo” e o “errado”, o “permitido” e o “proibido” dentre outras questões inerentes à vida.

Atirei o pau no gato” em sua nova versão pode ser apresentada à criança, desde que não se exclua a versão original, omitindo a realidade e os impulsos agressivos existentes em todos nós.

Protegendo a criança do abuso sexual

Recentemente assisti estes dois vídeos, que trazem um diálogo sem rodeios com a criança quando o assunto é abuso (sexual, no primeiro, e de toda forma, no segundo), tanto na prevenção quanto na denúncia.

 

O primeiro vídeo, preventivo, me foi apresentado pela mãe de uma criança de 5 anos, que questionava o quão criacionista, excessiva e direta era a mensagem para uma criança nesta faixa etária. De fato, ele fica meio sem sentido para as famílas que não educam seus filhos a partir da ideia de que o mundo foi criado por Deus. Porém, traz conteúdos importantes, que jamais devem ser deixados de lado quando falamos com crianças sobre abuso sexual.

O segundo vídeo integra uma campanha da Fundación ANAR (Ayuda a Niños y Adolescentes en Riesgo), uma organização sem fins lucrativos sediada na Espanha que se dedica à promoção e defesa dos direitos das crianças e adolescentes em situação de risco e desamparo em seu país sede, México, Peru e Colômbia. O anúncio tem o brilhantismo de conseguir atinguir, ao mesmo tempo, agressor e agredido com mensagens valiosas e distintas, uma vez que abusador e vítima quase sempre estão muito perto.

Estatísticas pelo mundo afora revelam que o abuso sexual (e outras formas de violência) acontece em todas as classes sociais e, na grande maioria dos casos, dentro da própria casa, por pessoas conhecidas e da confiança da criança, e não por pedófilos ou psicopatas. Por isto, o limite entre o que é abuso e o que é carinho às vezes se confunde, dificultando a consciência da criança do ato abusivo. Pfeiffer e Salvagni[1] nos mostram isto com primazia:

O agressor usa da relação de confiança que tem com a criança ou adolescente e de poder como responsável para se aproximar cada vez mais, praticando atos que a vítima considera inicialmente como de demonstrações afetivas e de interesse. Essa aproximação é recebida, a princípio, com satisfação pela criança, que se sente privilegiada pela atenção do responsável. Este lhe passa a ideia de proteção e que seus atos seriam normais em um relacionamento de pais e filhas, ou filhos, ou mesmo entre a posição de parentesco ou de relacionamento que tem com a vítima.

As abordagens, que se tornam cada vez mais frequentes e abusivas, levam a um sentimento de insegurança e dúvida, que pode permanecer por muito tempo, na dependência da maturidade da vítima, de sua estrutura de valores e conhecimentos, além da possibilidade ou não que teria de diálogo e apoio com o outro responsável, habitualmente favorecedor, consciente ou não, da violência.

Quando o agressor percebe que a criança começa a entender como abuso ou, ao menos, como anormal seus atos, tenta inverter os papéis, impondo a ela a culpa de ter aceitado seus carinhos. Usa da imaturidade e insegurança de sua vítima, colocando em dúvida a importância que tem para sua família, diminuindo ainda mais seu amor próprio, ao demonstrar que qualquer queixa da parte dela não teria valor ou crédito. Passa, então, à exigência do silêncio, através de todos os tipos de ameaças à vítima e às pessoas de quem ela mais gosta ou depende. O abuso é progressivo; quanto mais medo, aversão ou resistência pela vítima, maior o prazer do agressor, maior a violência.

É por isto que a situação de abuso sexual só finda mediante denúncia contra o agressor e medidas de proteção à vítima.

Embora a ocorrência de violência sexual seja mais frequente nas famílias em que um de seus integrantes (adulto ou adolescente) tenha sofrido abuso sexual na infância, não podemos fechar os olhos acreditando que “isto tudo está longe da própria realidade”. Mesmo que esteja, é importante lembrar que  na porta ao lado a realidade pode ser outra, por mais que pareça a mesma – as aparências enganam!

Não é incomum o relato de crianças que presenciam na casa de amigos, vizinhos e parentes, situações que envolvem apresentação de material pornográfico ou brincadeiras com contato físico íntimo com adolescente ou adulto, atitudes consideradas violência sexual tanto quanto o voyeurismo, o exibicionismo e ato sexual (com ou sem penetração). Por isto, a única forma de proteger as crianças do abuso sexual é construindo conjuntamente a ideia de intimidade, privacidade e respeito.

Esta tarefa deve começar bem cedo, já com os bebês, aos quais devemos anunciar e pedir licença no momento de limpeza de seus genitais e bumbum, como forma ir ensinando que tais contatos têm por finalidade a higienização (pelo menos até a entrada na adolescência). Por volta dos 23 anos, quando a criança começa a perceber as diferenças sexuais e querer tocar no corpo do outro, é fundamental reafirmar que seu corpo é só seu, bem como o do outro é somente do outro, nomeando quais situações ele pode ser tocado por outra pessoa – higiene e exame médico (na presença de um adulto responsável). Nesta idade, é possível anunciar que quando ela for maior e conseguir se limpar ou banhar sozinha, já não será mais necessário que tais e tais pessoas (nome de quem exerce esta tarefa) a ajudem. Assim, a criança vai entendendo que num momento de sua vida somente ela estará autorizada a tocá-la intimamente.

A conversa sobre as partes íntimas (é importante que elas sejam nomeadas com o mesmo vocabulário usado pela criança) deve acontecer nos momentos em que o corpo está em questão para que não se transforme num discurso de permissões e proibições, que coloca medo, assusta e inibe o contato saudável e necessário com as pessoas de seu convívio familiar e social.

Da mesma maneira que falamos sobre quais partes do corpo não podem ser tocadas por outras pessoas (e não apenas estranhos!), é importante ressaltar que se alguém tocá-la ou tentar tocá-la é preciso que a criança saia de perto, grite, peça ajuda e conte para um adulto, de preferência os pais/responsáveis, mesmo que ela tenha medo, dúvida ou tenha sido solicitada a manter-se em silêncio. Vale lembrar nesta e em outras oportunidades que existem sim “pessoas más” – que roubam criança, matam, gostam de brincar com as partes íntimas das crianças ou pedir para que a criança brinque com as dela. Se esta informação vem na forma de conversa, diálogo, ela funciona como alerta e não alarme.

Aqui, faço um parêntese em relação ao primeiro vídeo, ou a qualquer outro material que seja apresentado sem nenhuma conversa anterior. A criança não verá sentido no que está sendo apresentado ou se sentirá acuada, receosa em estar com as pessoas. O medo paralisa, impede viver, não ajuda a pensar e tomar atitudes necessárias.

É bastante comum a criança perguntar se pode brincar com o corpo do amigo. Por mais que exista exploração entre as crianças (e entre as da mesma idade esta investigação é esperada), é importante frisar que não brincamos com genital, ânus, nádega, mama e boca de outras pessoas, assim como não podemos permitir que elas brinquem com estas partes de nosso corpo. O limite eu-outro precisa estar bem claro para que a criança possa se defender das situações mais comuns de abuso: as que vão acontecendo “como quem não quer nada” e se intensificam em número de ocorrências e grau de contato íntimo.

Proteger a criança contra o abuso sexual é dar-lhe condições de reconhecer e dizer até onde o outro pode estar em contato com seu corpo. Há crianças que não gostam de receber beijos, abraços, apertinhos. Isto precisa ser respeitado. Há crianças que têm autonomia suficiente para cuidar do seu próprio corpo. Isto precisa ser respeitado. Há crianças que dormem muito bem sozinhas. Isto precisa ser respeitado. Há crianças que adoram se esparramar no sofá sem ninguém “grudando” nela. Estas e muitas outras situações semelhantes precisam ser respeitadas.

Quando o respeito pelo corpo da criança acontece dentro da própria casa, a criança terá mais condições de colocar uma barreira entre seu corpo e o corpo do outro. A prevenção do abuso começa em casa, com atitudes simples, que, sem sombra de dúvida, terão muito mais efeito do que qualquer material que a ensine como se proteger.


[1] Pfeiffer, L. e Salvagni, E.P. – “Visão atual do abuso sexual na infância e adolescência”. In Jornal de Pediatria, vol. 81, n° 5 (Sup), 2005, p. S199.

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Castigo pode não ser um tapinha, mas dói e não constrói

Desde que a “Lei da Palmada” (lei 7.672/2010) foi aprovada em 2011, ficou proibido o uso de castigo corporal ou de tratamento cruel ou degradante à criança ou adolescente como meios de educar ou cuidar. No entanto, gostaria de apontar o quanto o castigo não corporal, embora tenha intenção reparadora, é também uma repreensão violenta, na medida em que aprisiona os envolvidos num modelo imperativo, isento de reflexão, diálogo e aprendizado.

Observando qualquer cena doméstica que desencadeia o castigo, podemos perceber o quanto ele é uma reação escancarada dos pais frente à frustração, impotência, humilhação ou outras vivências experimentadas em decorrência da “desobediência” dos filhos. Diante da privação de terem “bons filhos”, os pais respondem com a mesma moeda, fazendo com que meninos e meninas sintam, assim como eles, que estão perdendo aquilo que prezam, desejam ou gostam muito. Daí a conotação punitiva-corretiva do castigo: privar para corrigir.

Quando pais e filhos agem da mesma maneira, o autoritarismo vem vestido de autoridade, confundindo imposição unilateral com ordem e respeito. Silenciados com seus sentimentos, ideias, questões e, em muitos casos, vivenciando uma culpa que não lhes pertence, temos assistido a crianças e adolescentes sendo colocados de castigo sem compreenderem seu real motivo, ou em dúvida se seu “erro” merecia uma intervenção tão drástica. Com a mesma frequência, vemos pais desfazerem sua própria fala por não sustentarem sua imposição ou por perceberem que fizeram “muito barulho por pouco”.

A resposta dos pais frente a uma atitude/comportamento do filho depende diretamente da sua capacidade de tolerá-la naquele momento (tolerar no sentido de aguentar, num tempo em que se avalia o que acontece antes de agir, e não no sentido de permissividade). Não raro, os mesmos pais, diante de situação idêntica ou semelhante, reagiriam de outra maneira, o que acaba confundindo a criança/adolescente com a ambiguidade da mensagem transmitida. São os famosos “uma hora pode, outra não” e “por tão pouco, um castigo, por muito, não se faz nada!”.

O resultado da atitude impensada desses pais tem sido respostas semelhantes por parte de seus filhos: disputa e comportamentos autoritários isentos de consequências. Sem considerar que as atitudes têm efeitos – positivos ou não – pais e filhos entram num círculo vicioso, que, ilusoriamente, tenta ser rompido com a aplicação de castigos cada vez mais severos (quando não, a palmada ou outras formas de agressão física).

Se de um lado a violência silenciosa da imposição ensina a criança e o adolescente a também se imporem de forma violenta e autoritária, dentro e fora de casa, de outro, ela abole a oportunidade de uma reparação efetiva. Ao invés de “aprender com o erro”, aprende-se, quando muito, a tolerar ficar sem, ou, o que é pior, busca-se incessantemente substitutos para aquilo que lhe foi tirado –  não me refiro aqui às coisas materiais, mas à atenção, carinho, respeito, afeto, individualidade e tantos outros atributos de ordem emocional.

Cortar o mal pela raiz não é castigar, mas é criar oportunidades para o diálogo, a reflexão e o aprendizado de que as atitudes e comportamentos trazem consequências para si e para o outro. Ao se sentirem minimamente violentados, a criança e o adolescente são autorizados e reforçados, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, a agir da mesma maneira. Por isto, a palavra sempre é a melhor forma de correção. Se um castigo funcionou pela via da privação, não foi pela ação em si, mas pelo que o permeou. Provavelmente, aquela conversa que veio depois, ou aquela, mais aquela e aquela outra…

Bullying: intolerância às diferenças

Recentemente ouvi de uma mãe que a escola onde seu filho, 10 anos, estuda chamou-a porque o menino vinha praticando bullying contra um colega. Na sua fala existia um gozo pela valentia, coragem e liderança do filho. Os detalhes da natureza da violência são desnecessários nesta reflexão.

O que me chama a atenção é que esta mãe, antenadíssima em tudo o que diz respeito à alimentação saudável, consumo consciente, sustentabilidade, educação de qualidade e coletividade, se deleitou ao contar a façanha do filho. “Segura” e decidida, é proprietária de argumentos que convencem o mundo de que está certa (como de fato muitas vezes parece estar) e quem está do lado oposto ao dela, errado.

Divergências existem, são esperadas, saudáveis e construtivas; isto não é motivo de surpresa. O que salta aos olhos, no entanto, é que até esta situação ocorrer, a mãe em questão não havia percebido que no seu radicalismo entre o correto e o incorreto, o necessário e o supérfluo, o útil e o inútil, seu filho estava aprendendo que a vida é feita extremos. Entre, aqui, não significa meio termo, mas a dicotomia presente no discurso e atitudes materna: artificial X natural, comprado X reciclado, público X privado, bom X ruim, entre outros.

A criança aprende pelas referências que tem. Transferir a ela esta cisão da realidade é o mesmo que dizer que o mundo é feito de rígidos opostos: o bonito e o feio, o forte e o fraco, o inteligente e o burro, o saudável e o doente, o magro e o gordo, o rico e o pobre, o esperto e o tolo, o gostosão e o espinhudo. Se não há trânsito entre os extremos, não importa quais sejam eles, as diferenças não se conversam; ao contrário, se atraem e se chocam.

Quando “zoiúdo”, “baleia”, “marica”, “narigudo” ou qualquer outro adjetivo que se transforma em sujeito “bate e volta”, “entra por um ouvido e sai pelo outro”, estamos diante de alguém que desenvolveu um escudo protetor contra ataques, um recurso interno de proteção que o defende das peripécias da vida. Aceitar-se como diferente do outro (não como estigma, mas como ser único) é ter segurança e autoconfiança necessárias para a construção desta barreira. A falta dela (a visão de mundo polarizada) é ao mesmo tempo um imã e um alvo certeiro para quem quer atacar, já que atrai exatamente porque o outro não encontra meios de defesa. Um par perfeito para quem carrega em si a rigidez de enxergar o mundo apenas sob sua própria ótica.

Do ponto de vista psíquico, criatividade e rigidez são antônimos. Enquanto a primeira caracteriza aqueles que reconhecem a pluralidade e conseguem “brincar” com as diversidades, a segunda “acha feio o que não é espelho”, estando presente naqueles que não conseguem olhar para além do próprio umbigo, mesmo que seu discurso e tentativas sejam contrários.

O bullying – de bully, do inglês, mandão, tirânico – caracteriza-se por atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, por um ou mais indivíduos contra também um ou mais indivíduo. Apesar de o termo estar em uso há poucos anos, as situações de violência pela intolerância às diferenças individuais e grupais sempre existiram. Vide as guerras.

Aparentemente, agressor e agredido são antagônicos – o mal e o coitado. Ora, em ambos os lados reside uma postura engessada decorrente da dificuldade no trato com as diferenças, uma sob a forma de ataque e a outra de paralisia. É por isto que tanto quem pratica quanto quem sofre o bullying são vítimas; vítimas de uma cultura que na prática tem sustentado e valorizado a massificação, a falta de singularidade. No entanto, “esquece-se” que mesmo que se tenham os mesmos pais, vistam a mesma roupa, tenham o mesmo carro, estudem na mesma escola, as pessoas são diferentes e as diferenças não podem ser tidas como defeito, inferioridade, nem como vantagem ou maior valia.

Um cego tem uma percepção tátil e auditiva que aqueles que têm o privilégio da visão raramente conseguem ter. Uma criança com Síndrome de Down em geral desenvolve uma afetuosidade que muitos não conseguem desenvolver. São inferiores? O cara cheio da grana, que pode comprar tudo, nem sempre é o mais feliz ou bem sucedido em todas as áreas da vida. O que vence em todas as corridas, pode ser um derrotado, por exemplo, nas relações amorosas. São superiores? Não, são todos diferentes uns dos outros, cada qual com suas características e potencialidades.

Enquanto vivermos avessos à pluralidade das coisas, valores, princípios, emoções, ideias, jeito de ser, prevalecendo os pré-conceitos e o que eu quero e penso, não existirá o outro enquanto sujeito desejante e pensante. Ou seja, não haverá saída para as situações conhecidas atualmente como bullying.

O “narigudo” carrega uma herança biológica, mas também cultural. O “gordinho” pode assim ser porque mergulha nos prazeres gastronômicos. O menino mais sensível tem uma habilidade que pode ser um grande diferencial em relação aos “machões de carteirinha”. Por que não se aventurar a conhecer este “outro” lado de cada um? O mundo precisa de todos. Por isto, desde muito cedo devemos educar a criança para as diferenças e, consequentemente, para o respeito a si e ao outro. Já é mais do que hora de encorajarmos as crianças (e a nós mesmos) a conviver com as diferenças e a julgar somente a partir da experiência, e não de conceitos imaginados e pré-estabelecidos.

As crianças aprendem a partir do que observam. Quem só anda de carro porque transporte público é para “os outros”, se coloca numa posição de superioridade. Quem não pode brincar com um amigo que é mal educado, perde a chance de descobrir as demais qualidades daquela criança. Quem escuta sempre que é a criança mais linda do mundo, não conseguirá achar outra tão ou mais bonita do que ela.

Em qualquer desses gestos ou palavras, mesmo que despercebidos ou não intencionais, as crianças vão aprendendo que as diferenças não encontram espaço de expressão. Seu único caminho acaba sendo negá-las, pelo ataque ou pelo silêncio. É a sementinha para o bullying acontecer, seja como agressor ou agredido.

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